Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

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Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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Reflexões Biscates

Por Thayz Athayde, Biscate Convidada

Próximo ano serei uma mulher balzaquiana. Sim, farei 30 anos. E não estou reclamando, tô achando bom, curtindo e achando gostoso. E aí que eu fiquei observando minhas sobrinha e irmã, que estão na faixa dos 15 anos. As duas já conhecem o feminismo e isso faz com que elas tenham acesso a debates e reflexões que eu não tive nos meus 15 anos. Então, fiquei pensando como teria feito as coisas se tivesse conhecido a biscatagem e o feminismo antes, se eu teria feito as coisas de uma forma diferente.

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Não se engane: eu aproveitei muito quando era adolescente. Mas, eu não tinha coragem e o empoderamento suficiente para entender que ser biscate é… bom! E então, eu aproveitava a vida, me divertia, mas a noite eu sentia aquela culpa. Aquela culpa chata por não ser uma mulher santa. Não tinha força suficiente para dizer para todos os amigos e amigas que sim, sou biscate e não tô nem aí para o que você pensa.

Se tivesse me assumido como biscate, eu teria feito sexo muito mais gostoso. Teria feito o sexo que faço hoje, o sexo sem culpa. Teria ficado com mais meninos e meninas, que eu não tive coragem por achar que “o que será que vão pensar de mim?”. Não teria ficado ou feito sexo com algumas pessoas, justamente porque ser biscate é saber o que deseja. E seguir seu desejo também passa por dizer não. É também decidir quem pode te tocar e quem não pode.

Teria menos vergonha do meu corpo, me sentiria muito mais bonita. Me sentiria livre muito mais vezes e insegura menos vezes. Teria ficado nua mais vezes. Teria admirado meu corpo e me deixaria ser admirada. Saberia que para ser bonita e gostosa não é preciso estar dentro de um padrão de beleza.

Teria me desculpado menos por quem sou e teria aproveitado as relações de uma forma bonita, intensa e almodovoriana, como a vida deve ser. Teria entendido que uma relação para ser boa não precisa ser necessariamente longa ou monogâmica. E para ser ruim não precisa ser longa e nem monogâmica. Só precisa de duas pessoas. Três. Quatro. O número que sua imaginação quiser.

Entenderia que uma relação é feita muito mais na confiança em si mesma e no olhar bonito ou cruel que você tem sobre si. Ainda viveria todas as dores, choros e noites mal dormidas, afinal, essa é a parte almodovoriana da coisa e eu sou especialista nisso. O sentir passa por viver as sensações, mesmo que seja de tristeza. E por que não chorar? Por que não vivenciar?

Teria ficado com mais mulheres e esquecido toda aquela culpa. Não entendia como poderia sentir atração por homens e mulheres. Sentia-me esquisita por isso. Não é esquisito não. É bom, é gostoso e não há nada de errado nisso. Teria me assumido bissexual muito mais cedo. Teria entendido todos os meus desejos e pensamentos com mulheres como algo tão comum quanto meus pensamentos em relação aos homens.

Talvez o meu relacionamento hoje seja tão gostoso porque eu aprendi todas essas coisas. E quando vejo garotas cada vez mais cedo se assumindo feministas e biscate eu penso: uau! Ela não vai passar pelas mesmas coisas que passei. Então, isso aqui é um recado de uma mulher que aproveitou e se divertiu muito, mas que teria se divertido e aproveitado muito mais se tivesse deixado biscatear. Você não precisa ser santa. Não precisa ser puta. Você não precisa ser nada. Só permitir-se sentir. Não importa com quantos meninos e/ou meninas você fica. Não importa o olhar de rejeição que você recebe. Eu sei que é difícil entender tudo isso, mas se você precisar de apoio tem um monte de biscates aqui pra te dizer que tudo isso é ok, e que vai ficar tudo bem.

euA Thayz é bi: bissexual e biscate. É também feminista, almodovoriana e babadeira, ela quer mesmo é desmontar as ideias montadas

É o meu corpo. E eu o celebro.

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada

No começo do ano posei pra Evelyn Queiroz/Negahamburguer. Para quem não conhece o trabalho dela, vale uma navegada aqui. Nem foi algo planejado, foi bem no susto, pra falar a verdade. E um posar com plateia e a possibilidade de milhares de pessoas assistindo. Mas, já chego aí.

Antes disso, já tinha posado prum ensaio coletivo de nus, com fotos que acabaram expostas numa instalação no fim do ano passado, com o tema: “Beleza real”.

Nessa segunda vez foi assim: duas equipes de reportagem foram na Casa de Lua, ONG Feminista que estamos consolidando e onde a Nega tem estúdio. A primeira equipe filmou a Evelyn fazendo uma ilustração. A segunda se inspirou e quis fazer igual. Mas, a ideia era não repetir a modelo, que até já tinha ido embora. Aliás, quando falo “modelo” é força de expressão, ne, vocês sabem. Não havia uma modelo. Éramos mulheres comuns posando para uma artista.

A Evelyn ficou me convidando-provocando durante toda a tarde, mas eu estava meio tímida. Apesar de já ter vivido a experiência de posar antes, tinha sido pra fotos. Com TV pelo meio, nunca. Paniquei. Na hora H, no entanto, estava eu sentada no futon da sala quando a Nega chegou, me estendeu a mão e disse: “Vamos?!”

 Olhei pra aquela mulher jovem, tão talentosa, tão linda, tão sensível e amorosa, e fui.

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Ilustração de Negahamburguer

Subi a escada para o estúdio bem saltitante, tomada pela adrenalina. Nem é que eu tenha alguma questão com tirar a roupa. Até que minha relação com a nudez sempre foi tranquila e só melhora. Meu medinho era de me saber na TV. Meu problema era a câmera. Posar, mesmo com roupa, em foto ou vídeo, pode ser um acontecimento pra mim. Porque, a despeito de me olhar no espelho e, hoje em dia, me reconhecer com prazer e alegria, a visão que tenho sobre mim num registro de imagem pode ser bastante distorcida. Ou não corresponder ao que eu presumo ou imagino deveria ser.

Daí que vocês podem imaginar o quão gigantescas essas experiências representaram pra mim.

 De repente, me vi numa sala com a Evelyn, a jornalista, o iluminador e o câmera. Eu ri. E, ainda na adrenalina, fui me despindo pra aquele bando de gente desconhecida, confiando no profissionalismo de geral e no controle da única coisa que de fato me cabia: meu corpo. Admito que apelei prum malabarismo na hora de tirar o sutiã. Além disso, mantive a calcinha e a pose acabou sendo de bruços no puff. Até porque, não dava pra chocar a família brasileira.

Mas, é que entre o tirar a roupa e o posar tem o momento de andar seminua pelo recinto. Algumas vezes. E, principalmente, tinha a câmera, que iria registrar e, eventualmente, exibir parte daquilo na TV! Que situação. Ou não. Porque, no final, foi mesmo isso. Um contundente “ou não.” Tirei a roupa alegremente, careta (nem vinho rolou, vejam bem…), porque eu quis.

Estava eu, com meu corpo sem padrão – mas, com certeza, não no padrão assinalado como o “ideal”-, de mulher com mais de 40, que pariu dois filhos, nada atlética e com as pernas sem depilar! Era isso tudo. Minha história e eu. Juntas. Indissociáveis.

 E estava feliz. Tranquila? Não, necessariamente. Mas, feliz.

E não é que eu tenha tentado esquecer da câmera. Nem tinha como. Ela existia, enorme, invasiva, onipresente, lembrando-me do que viria. Mas, naquele momento, eu.estava.feliz! Na hora não me veio um pensamento racional ou elaborado “uau, como eu sou empoderada!” Foi mais um “que delícia esse negócio!” Era tenso e sexy, ao mesmo tempo. O “dane-se!” retumbou na minha cabeça. Bom, nem preciso dizer que a ilustra da Evelyn foi pura delicadeza, ne?

Conversei com a jornalista sobre padrões de beleza, tirar a roupa como ação libertária, posar… e também contei que passei a vida em dietas insanas até sentir que eu não merecia isso e começar um processo de amor e reencontro com a minha auto estima. Mas, reconhecia que a pressão é draconiana, que nos abate e que é difícil escapar muitas vezes.

E que ainda me sinto enredada, por momentos fugindo das câmeras, escondida atrás de alguém, como um espectro, sem sequer existir nos registros, mesmo estando lá. É um caminho. As vezes, a gente retrocede 3 casinhas das 5 que avançou. Mas, vai indo, ne? Participar dessas três experiências – a exposição, me deixar ilustrar e a matéria – e falar disso tão longamente como o faço agora também são parte da trilha.

Finalmente, claro que a reportagem na TV me deixou aflita e eu fiquei semanas esperando, com medo dos ângulos, dos closes. E quando foi ao ar, acabei nem badalando muito, mas por timidez e falsa modéstia que por um não gostar. Pra falar a verdade, pra quem eu mostrei até disse, na absoluta e livre sem-vergonhice: “Então. Eu, divando. Lide com isso!”

 Disse isso pra mim.

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada noFacebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Sobre Ontem a Noite

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Oi, amiga…pode falar? Sim, eu sei que você sempre me escuta, mas é tão cedo. Não, eu não dormi ainda. Deixa eu te contar. Ontem fui àquele bar, aquele que toca blues direto e tem decoração com cinema dos anos 30 e 40. Pois é, também adoro aquele lugar. Tava, tava cheio. Eu fiquei de papo com o pessoal da sinuca, todo mundo elogiando meu corte de cabelo, nunca pensei que ia ser essa revolução. Se soubesse tinha feito isso antes, né. Hein? Sim, ela estava lá e perguntou por você. Affe, não sei porque vocês não se arrumaram ainda, tá na cara que ela também está a fim. Tá, deixa pra lá. Enfim, eu ia te contar é que  nessa hora aí ele chegou. Sim, aquele. Você sabe que basta olhar pra ele pra minha calcinha ficar molhada. Lembra que te contei quando a gente se conheceu? Foi naquela festa da barraca de praia. Foi quase. Só lembro da gente dançado quase sem música, naquele fim de festa, nem era mais dança, né, a gente só se roçava, aquela mão enorme e quente passeando nas minhas costas, agarrando meu rabo, a outra segurando minha nuca pra eu não desviar os olhos dos olhos dele, eu sentia os mamilos tão duros que chegavam a doer…ai, tá vendo, já estou ficando com tesão. Aí, depois, aquele moço sem sal veio dizer: ah, cê acha que ele é homem? nem pau ele tem. Dá dó. Amigo, se você acha que sua masculinidade tá no funcionamento do seu pênis que pequeno que é você. Alguém devia contar pra ele que tem sexo sem penetração, né? Mas, enfim, eu tava falando era do meu gostoso. Ele ontem chegou naquele jeito festeiro e zuado. Mas um zuado tão delícia. Lembra aquele dia que a gente se cruzou na entrada do cinema? um monte de gente passando aí ele veio se chegando, se chegando, conversando abobrinha, tocando e, quando vi, eu estava encostada na parede, ele com a perna bem entre as minhas, esfregando pra cima e pra baixo, brincando com a ponta do meu cabelo e me contando sei lá o quê. Quando ele foi embora eu era incapaz de reproduzir uma única palavra do que ele disse, mas poderia descrever minuciosamente, em um tratado de 200 páginas, o que significa desejo. Ai, amiga, eu só queria esse homem em cima de mim. Por horas. Dias? Aquelas mãos, aqueles dedos, aquela língua…Affe, até desconcentrei. Assim eu não termino de contar nunca. Então, ele chegou e foi falando com o pessoal, eu não desviava os olhos. Até que ele me viu e acenou com a cabeça. Puto. E ainda deu aquele sorrisinho de canto de boca que eu acho uma glória. É claro que todo mundo adora o safado e, daqui a pouco, já estavam chamando pra nossa rodinha. Vontade de correr. Pra cima, claro. Ele veio, bezadeus, que saúde. Foi cumprimentando as pessoas, dando beijinho nas mulheres, aí sabe o que o sacana fez comigo? Não beijou, nada disso, pegou aquele queixo maldito dele e ficou esfregando no meu rosto…no rosto todo, mulher! O queixo dele na minha face, na minha boca, nos meus olhos…eu só faltei gemer alto. E a mão dele “sem querer” esbarrando nos meus peitos. Sei, sem querer. Eu, pelo menos, queria mesmo. Inclinado pra mim, tudo que ele queria me dizer tinha que ser ao pé do ouvido, desde perguntar se eu queria mais cerveja até dizer que tinha gostado do meu cabelo curto porque minha nuca à mostra era sensual como seu eu estivesse nua. Eu, puta. E excitada. Ele tirando meu prumo com a voz tão rouca. Daí ele disse que tinha muito copo na mesa e passou a beber do meu copo. Foi sexy, sabe? Que boca aquele homem tem. Ms, né, nem fode nem sai de cima: não trabalhamos. Pensei eu, com meus botões – que, pelo meu gosto, já estariam todos desabotoados – que daquela dança eu sou professora, né. E em uma vibe Vandré, resolvi que quem sabe faz a hora. Para de rir, mulher, eu por acaso fico rindo quando você tá contando das suas moças apaixonantes? Tá, fico, mas deixa eu contar do meu moço delicinha. Então, estava lá aquele clima, roça daqui, roça dali, a gente bebendo no mesmo copo, aí eu me viro e sussurro: tenho uma coisa pra você. E vou pro meio da pista de dança, né, meia luz, muita gente. Sinto o olho dele pregado em mim. Vou dançando e descendo a calcinha. Foi, no meio do salão. Rá, sou louca, cê jura? Ah, não dava pra notar muito não, eu estava com aquelas saias longas, bem soltas, só se alguém estivesse prestando atenção. E ele estava né. Cara, foi bom. Só de pensar no que eu estava fazendo senti meu corpo quente e pulsando, todo pedindo toque, pedindo língua, pedindo…Com a calcinha morna em uma mão cheguei perto dele (sim, minha perna tremia, mas nem sei se de nervoso ou de tesão) e com a mão livre peguei o copo de cerveja e bebi assim, deixando molhar o lábio. Né. Lambi, naquela vibe vulgar sem ser sexy e deixei a calcinha no colo dele – não sem antes dar aquela passada de mão nas coxas. Cheguei mais perto e disse: estou precisando de carona, você vai ficar mais tempo ou quer ir lá em casa me foder? E dei uma fungada no cangote, porque, né, nordestinamos a biscatagi. Menina, juro pra você que ele gemeu nessa hora. Hein? Ah, você acha que eu não dormi ainda por quê? Veio, veio. Agora estou aqui, ouvindo Chico e pensando que não vou te tempo de escrever o post do blog hoje, cê pode me cobrir? Brigadinha, viu? Beijo, beijo.

Pelo Telefone

Sozinha, cama revirada, noite por dormir. Camisola fina, nenhuma peça a mais. Corpo quente, o suor escorre entre os seios, o ventilador – monótono – apenas afaga a pele, insuficiente. Deita-se de costas, as pernas abertas, o vento fraco brincando com os pêlos mal depilados. Nas pequenas caixas de som a mesma música se repete, incansável.

Tédio. Tateia em busca do livro. Contos Eróticos. Vira de bruços, a bunda descoberta desejando olhos que não estão. Os olhos percorrem as linhas acentuando desejos. A língua brinca nos dentes, os seios intumescem roçando o lençol áspero da cama. Enquanto lê, respiração mais pesada, as coxas se apertam. Esfrega pele com pele, a fome crescendo. Ao seu redor, igual: ventilador fraco, mesma música, nada acontecendo. Vira de lado e puxa o travesseiro pro meio das pernas. Uma mão segura o livro, as palavras quase sem importância já, a outra – displicente – brinca com a ponta do mamilo e o corpo força o travesseiro. Sede. Levanta-se brusca, livro no chão, desliga ventilador, procura o copo que sempre deixa ao lado da cama. Vazio. Ao lado, o celular. Ri, safada, muda as configurações. Chamada não Identificada. Assim, Assim. Liga. Ninguém atende. Insiste. A voz, rouca, sonolenta. Ao alô ela reponde com um gemido. E outro. E outro. Ela sabe que ele não vai desligar. Ele nunca desliga. Coloca no viva voz, ela vai precisar das mãos. Baixa o volume, mas a canção continua, instigante.

Ele sabe, ele faz: narra o seu querer. Ela geme. Ele diz: agarre, toque, aperte, molhe, roce, esfregue. Verbos no imperativo, como o desejo. Ela segue. Ele: a voz mais alerta. Ela: o corpo mais obediente. Peito, queixo, bunda, ombro, orelha, barriga, coxa. Quebra-cabeça do tesão. Ela ri. De olhos bem fechados, ele diz ou ela mesma quem quer? Aproxima a boca do celular, geme mais forte, o suor agora lhe molha toda. Quedê a voz? Uma mão perdida em si mesma, a outra procura o telefone, mais perto, ela quer ouvir, ela quer saber, ela quer obedecer, ela quer… Porque ele não fala? Porque ele não diz? Porque ele não manda: enfie o dedo gostoso? Os olhos nublados mal enxergam o visor. Chamada finalizada. Ela não acredita. Tira a mão do meio das pernas. Cheira. Geme. Pega o telefone. Quer mais. Liga. Você não tem créditos para realizar essa chamada. E Bethania continua a cantar…

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Intervalo

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Essa noite. Essa noite eu vou. Essa noite vou aceitar convites, esquecer a hora, perder o rumo. Direi apenas sim e mais e quero. Essa noite eu vou sentar perto. Vou falar muito, gesticulando sempre e como se fosse pra ser, vou tocar teu braço. Uma vez. Outra. Até que seja isso: a fala vai no afago. Displicente, enquanto escuto com a cabeça inclinada e os olhos meio fechados, vou fazer da língua, brincante. Umedecer caminhos. Essa noite vou antecipar cumplicidades, inventar segredos, manter ditos inacabados. Vou encostar joelhos e esquecer o corpo no conforto de sentir outro corpo e deixar o quente de onde as peles se descobrem fazer fogueira. Essa noite vou usar superlativos, beber de outro copo, cruzar a linha, enfiar os pés pelas mãos.

Essa noite andarei bem perto, frequentarei esquinas e sombras, encostarei testa com testa e desfrutarei a mão na minha nuca, nos ombros, nas costas. Serei abraços. Essa noite ouvirei o rouco junto ao meu ouvido e me embalarei no som da ânsia, afastarei tecidos pra que minha pele seja percurso e facilitarei os atalhos. Essa noite encostarei no muro, levantarei a saia e, pra aproveitar melhor a brisa, vou entreabrir as coxas. Essa noite vou provar pele, morder lábios, beber saliva. Essa noite abrirei camisas, enrolarei meu mindinho em pelos ásperos e meu nariz deslizará em cócegas e minha língua o seguirá, curiosa. Essa noite vou assoprar olhos, mordiscar orelhas, lamber pescoços, murmurar desejos. Vou roçar o queixo em ombros e rir baixinho, vez ou outra, só pra confundir.

Essa noite vou ser em verbos: abrir, roçar, esfregar, molhar, morder, agarrar, mexer, mover, saborear. Descobrir. Essa noite serei em voz passiva: alisada, abraçada, sugada, tocada, beijada, perturbada, excitada.

Essa noite eu vou.

Fica a Dica

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Há alguns dias descobri que um amigo da família está com mal de Parkinson. Ele não deve ter 50 anos, tem filhos dos quais só se tem notícia de que são seu orgulho, vive um casamento aparentemente feliz de muito tempo. Uma pancada dessas levanta questões sobre a justiça da vida. Bom, minha conclusão, já de há muitos anos, é que não existe justiça ou injustiça nos acontecimentos que nos atropelam. Não dá para viver esperando que nossas ações nos trarão alguma recompensa neste ou em algum outro mundo. O máximo que dá para fazer é: viver, amigos e amigas. #ficadica

dica

Tenham orgasmos, sozinhos ou acompanhados, por uma ou mais pessoas, do mesmo sexo e/ou do oposto. Gozem por onde vocês quiserem. Mas estendam a gentileza de ter suas vidas sexuais fora do controle público aos outros. Não odeie nem ensine a odiar. O que você ganha com isso? Não odeie nem mesmo o Felipão, que convocou o Henrique no lugar do Miranda. Já que falamos de Copa: torça se quiser, grite se quiser, festeje se quiser. Mas não dirija ressentimento a quem quer se fazer ouvir e ter seus direitos assegurados mesmo nesta hora. Não me venha com o papinho de “odeio o pecado e amo o pecador”. Esse não cola. Não se importem com a opinião dos outros. #ficadica, again

dica

Dêem o braço a torcer, caramba. Apesar do que a expressão possa dar a entender, não dói. Deixa eu contar um segredinho: aquele chefe daquela empresa na qual você se mata de trabalhar está cagando e andando para você. Dêem um jeito de serem felizes. Se preocupem menos com regras gramaticais e mais com fazer do mundo um lugar do qual quem vier depois de nós não sinta vergonha. Estejam prontos para redescobrir o amor aos 30, 40, 50. Diabos, estejam prontos para redescobrir o amor aos 60, como minha mãe acaba de fazer. Não sejam tão duros com o funk. Mordam mais bochechas. Vejam mais filmes de artes marciais da Tailândia. E saibam que, quando a hora chegar, a única coisa que a gente vai querer por perto é um montão de gente querida pra dizer: “mas já vai? fica, vai ter bolo”.

PS: quando chegar a minha hora, eu quero que o meu caminho para o crematório seja feito desse jeito aí. Se virem 😉

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Toque e Retorquir…

Poucas vezes o calor foi tão infernal. O da alma, evidentemente. Nas cobertas, já desfeitas, já descobertas, já jogadas, os restos de suor. Do calor. Do inevitável calor. E como acordar sem antes rememorar? O relógio insiste em tocar, um galo moderno com som irritante. Mas os olhos cerrados fazem companhia para o corpo. Quente, aquecido, saudável. Úmido.

masturbacao-destacada-620-3Não há como distinguir o sonho da vontade. A vontade do calor. O calor, dos corpos. Ainda que sozinha, ela está ali, entre pensamentos que passam entre pernas, coxas e inevitáveis toques, maliciosos, quase todos. O calor no quarto vem da janela, entreaberta. O sol da manhã. O calor do quarto, na verdade, é o do corpo. E ela quase que sorri, ainda presa aos sonhos. Ao calor. À vontade.

Ela se deixa tocar. Já sabe e se reconhece acordada. Aquele calor no quarto. E na alma. No primeiro toque reconhece a vontade, a vontade dela. A cadência dos toques reconhece movimentos que ela já experimentara durante a noite quente. Um toque impreciso, mas preciso, direto e ela quer. Quer para saciar, para ter, para abraçar. O calor. E o relógio dizendo sete da manhã. A janela, o sol. O calor. Ela já sabe que não poderá fugir daquele calor. Da alma. Do corpo. Dela. Só dela. E ela se toca, toques que ela quer de outros dedos, de outro corpo, de outro olhar. Quente, aquecido. Saudável. Bela, se sente bem. E sorri.

As cobertas e agora, as roupas de dormir. No canto da cama. Testemunhas que pelo calor reconhecem a razão de estarem molhadas. E jogadas. O relógio desistiu de incomodar. Não importam mais horas, minutos ou segundos. Era ela e com ela, dela. A manhã quente no quarto tomava conta de tudo, quase tudo. O corpo. O calor. A vontade. O calor, sempre este calor. Da alma. E num instante ela fecha os olhos, sente o corpo, sente os pelos pularem de arrepio e sente tudo o que queria. O desejo. A vontade. Olhos cerrados, boca entreaberta. E como um beijo, um sonho, um toque. Como o sexo. Como os corpos que falam. Bela, se sente bem. E acorda.

A cama, as cobertas, as roupas de dormir. O resto do suor. O cheiro de corpos. O gosto de tudo. O relógio. Enquanto a água do chuveiro escorria, ela pensava no resto do dia. Sabia o que era aquele calor da manhã. Desperta, viva. Deliciosamente quente. Outro dia começara e ela já estava bela. E pronta. “Bom dia”.

Entre Braga e Nova York: Variações de um queer português

Por Mayra Resende*, Biscate Convidada

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A primeira vez que ouvi António Variações me veio careta e risada. Perguntei: isso é sério? Ele fez sucesso? E aí, como tudo o que me vem causando estranheza ultimamente, resolvi deixar a curiosidade conduzir uma descoberta incrível. Variações talvez pudesse ser definido como uma mistura de Amália, a fadista-diva (para ele, diva-fadista), com a performatividade autêntica de quem não se abate pelo olhar moralista, e uma boa pitada de espírito Faça Você Mesmo porque, se for pra esperar, morro sem mostrar pra esse país o que preciso expressar. A melhor definição, entretanto, é a de si mesmo: dizia que era qualquer coisa entre Braga, cidade de origem, e Nova York, metrópole cosmopolita de espírito variante, tal como o nome artístico que levava.

Um oceano inteiro de distância entre a aldeia que nasceu no norte de Portugal o a metrópole-selva-de-pedra estadunidense dá uma ideia das rupturas que teve ao longo dos seus 39 anos vividos. Cresceu em meio ao trabalho da terra, ouvindo o pai tocar cavaquinho e acordeon, atiçando os ouvidos de menino que se encantava pelas romarias e expressões folclóricas. Mudou para Lisboa aos doze anos, seguiu como militar para Angola e de lá soltou-se pelo outro velho mundo de Londres e Amsterdã, retornando para Lisboa  onde trabalhou como cabeleireiro no primeiro salão unissex de Portugal. Foi ali que escolheu o Variações incorporado como pseudônimo daquela persona cujo nome “sugere elasticidade, liberdade”. Se definia como uma pessoa que não se limitaria em um estilo nem para o que cantava, muito menos para o que seria (mais informações biográficas aqui)

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Nessa profusão de experiências, imagina só: Portugal, mais de 40 anos de Ditadura chega ao fim em meio a cravos e esperança, espectro conservador ainda pairando no ar. E aí surge um cabeleireiro, munido de tesoura e uma K7 caseira, apaixonado pelo fado e cantando amores queer. O tempo de dois discos, a primeira morte de um lusitano famoso em decorrência de complicações pelo HIV.

 “Canção do Engate”, lançada dez anos depois do 25 de abril que oficialmente coloca fim na Ditadura de Salazar, fala de amor como há muito não lia. Expressa, pela canção, a tensão do amor entre dois homens, em meio à aventura dos sentidos:

 Canção do Engate (1984)

Tu estas livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos

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Dois anos antes do lançamento de Canção do Engate, a homossexualidade em Portugal ainda era considerada crime. Variações não rompe somente com a estética moralista por meio das roupas e cores que se apresentava para seu mundo, mas também com o espectro opressor do passado em que cresceu. Expressa seu desejo sexual em meio a uma democracia ainda nascente, tematizando as tensões entre amor e sexo, ao falar dos encontros descompromissados, mas intensos em duração:

Vem que o amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que o amor
É o momento
Em que eu me dou
Em que te das

“Eu nasci no tempo errado”, dizia. Com a urgência que pulsa de dentro, talvez o tempo errado de Variações tenha sido o tempo certo para mostrar o quão atrasado aquele tempo estava. A canção rock e pop portuguesa não foi mais a mesma. E nem sou eu quem digo. O legado de três anos de carreira e dois discos ainda gera lindas releituras e inspirações. Um português, como lá dizem, com canções a não perder!

Uma versão de Tiago Bettencourt para Canção de Engate:

 

De pijaminha e ursinho na TV:

Texto inspirador (agradecimento pela indicação à amiga conterrânea de Variações, Catia Ferreira): Queer Interventions in Amália Rodrigues and António Variações.

523512_740147959334223_1070089815_nDiz, sobre si, Mayra Resende: Se onde nasci ajuda a me definir: sou do planalto central, Brasília céu no horizonte, pôr-do-sol toca o chão. Se o que estudo ajuda a me definir: sou socióloga de formação, mas a paixão mesmo é por cultura – oral, escrita, desenhada, cantada, tradicional, quente, fria, seca, crua. E um certo encanto pelo que não entendo e não uso, mas acho lindo, tipo, mapas.

Quando o Amor Acabar

Eu ainda sinto a sua falta e aqui, onde dói em perguntas, eu reviso letra a letra imaginando como construí o abismo. Sei, claro que sei, que não foi nada que fiz ou disse, apenas a vida que afasta barcas que navegam entre portos distintos. Mas saber que a vida é maior que eu não conforta. E eu demoro no nunca mais. Nunca mais não saber o que te responder. Nunca mais a conversa instigante. Nunca mais me saber no seu olho. Nunca mais querer acertar. Nunca mais rir tão fácil. Nunca mais comparar expressões. Nunca mais um novo velho filme. Um velho novo livro. Nunca mais Minnie. Nunca mais cangaceira. Nunca mais ir longe demais e voltar, assim, segurando firme outra mão. Nunca mais aquele abraço em que sabia tudo tão certo. Nunca mais querer. Sinto falta disso, daquele vazio que era vontade de te saber em mim. Ninguém puxava meu tapete como você… Eu sei que você tem essa dor. Esse medo. Sei que o seu corpo se curva e sua testa se enruga nessa angústia tão mais material que a minha. E entender isso me dói tão mais. Porque já não sou eu que aliso essa ruga. Mais, porque já não quero ser. Porque não queremos. Porque sentimos falta, eu sinto falta, de quem éramos, de quem eu era com você. Mas já não quero ser aquela.  Apenas sinto saudades: de nós, de você, dela.

Em seu disco Almanaque, Chico perguntava, meio terno, meio ácido, pra onde vai o meu amor, quando o amor acabar? E ele não é o único, garanto. Tem uns, que nem o Leminski, que acham que nem acaba, se transforma. Uma outra coisa qualquer: alívio, raiva, aprendizado. Vira raiva – ou rima. É difícil saber quando o amor passa a ter outro nome em nós. Quando somos capazes de falar da pessoa amada sem que borboletas façam festa no estômago? Quando aprendemos a usar o passado imperfeito? Quando é outro o nome que pensamos em sobressalto? Saber quando acaba um relacionamento é um pouco mais fácil, mas nem por isso. Alguns acabam o relacionamento em um golpe seco. Outros arrastam alguns ensaios. Algumas vezes, ainda, o relacionamento acaba antes pra um dos parceiros e o outro demora a entender. Quando o relacionamento acaba há sinais externos, quase sempre. Já não fazemos as coisas que fazíamos, já não temos os compromissos que tínhamos, às vezes é preciso mudar de casa, de trajeto, de bar. Mas o amor? Como sinalizar seu fim? Como simbolizar o “nunca mais”? Quando acaba o amor, pra onde vai?

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Hoje já se tem resposta possível.  Quando o amor acaba pode ir pro Museum of Broken Relationships. Isso mesmo, um Museu de Relacionamentos Terminados/Acabados/Finitos/Findados, de Vínculos Rompidos, de Corações Partidos. Legados de um amor que já não é. Você, que teve seu amor e suas manifestações concretas e que, não tendo mais o primeiro não consegue conviver com as segundas, agora é só enviar pra Croácia! Nada mais de tocar fogo nos bilhetes, rasgar fotos, deletar emails, rebolar no lixo os mimos. Vai diretinho pra outra canção do Chico, ora… vai para as vitrines.

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Queria visitar, deve ser um tanto melancólico, é verdade. O vestido do primeiro encontro, o LP do aniversário de casamento, pelúcias, livros, a coleção de sutiãs. Objetos triviais, em si mesmo quase insignificantes, que encarnam o sentir e são, eles mesmos, narrativas condensadas. Tanta coisa por dizer, tanto futuro supostamente perdido, alguns arrependimentos, umas saudades. Alguma alegria recordada, espero. Objetos que dizem de vidas que já não são. Queria visitar, deve ser inspirador. Todos esses objetos que ocuparam tanto espaço, depois de doados, deixam o vazio pra que a vida possa ser.

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Fico pensando nas pessoas que doaram os objetos para o Museu. No que sentiam. Em como reordenaram o sentir com esse gesto. Aquele momento em que a gente deixa pra trás (fica mais bonito em inglês: let it go). Porque mandaram pra lá seus objetos? Uma forma de lidar com a dor? A compreensão de que a coisa já não comporta tudo que existiu? A ideia de que longe dos olhos longe do coração? A vontade de dar um sentido maior à sua perda pessoal?

E eu fiquei pensando nos meus findos amores. Guardo tudo, sabe. Poesia escrita em guardanapo, telegrama, foto, cartão, colagem, cartas, blusas. Eu não me desfaço de mim mesma. Tenho grande carinho por tudo que vivi. E gosto de reencontrar-me nos olhares outros que me disseram tanto. Lembrei de um episódio de How I Meet Your Mother em que a namorada atual do moço exige que ele se desfaça de tudo que ele ganhou ou comprou junto com os relacionamentos passados. Que ele abrisse mão de todos os objetos que contassem alguma história de amor que não fosse a deles. E, quando ela voltou a entrar no apartamento dele, não tinha mais quase nada. Uma certeza: somos quem somos, um tanto pelas pessoas que amamos, pelos relacionamentos que tivemos. Quando amo alguém que é, agora, mesmo desconhecendo o que foi e quem amou, amo também sua história. Há coisas que nem costumo lembrar que foram de um amor passado ai, num repente, a lembrança. O momento. A pessoa. Meu sorriso. Gosto de ter a vida que vivi por perto. Em mim. Como escrevi um dia desses: Estão em mim, os meus amores, no meu jeito de sorrir, nas histórias que repito, na ruga no canto do olho. Estão na pele, na curva do corpo, no balanço das mãos. Estão em mim. Eu sou todos esses amores. Enquanto eu for, eles são. Somos. Todo amor é eterno enquanto eu dure. Também estão nas coisas que apinho nas gavetas #SouDessas.

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Mas se fosse montar uma exposição temporária lá no Museum of Broken Relationships com as minhas despedidas: uma blusa azul. O LP Drama 3o Ato. Três cigarros. Sorvete de Flocos. Um bilhete de avião. Uma coleção de telegramas. Um ursinho. Um óculos com as lentes embaçadas. Um CD do Fito Paez. Um molinete. Uma foto na praia. Não, uma porção de fotos na praia. O que iria na sua mostra?

Museum of Broken Relationships anda por aí. Agora mesmo está na Cidade do México (link aqui). A exposição ficará lá até dia 08 de junho.

A relativização do assédio e o corpo público

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada*

Por mais que adeptos da teoria crítica achem que Big Brother Brasil não serve pra nada, há que se admitir os debates que ele possibilita, para o bem e para o mal. Na madrugada de sábado para domingo, uma situação mobilizou os participantes do BBB e as redes sociais desde então. Marcelo e Angela estavam tendo um relacionamento dentro da casa. Angela, após ter dito a Marcelo que ele vacilou, desencanou do lance e não quis mais nada com ele. Marcelo tem tentado há vários dias se reaproximar da moça, que já disse inúmeras vezes que não está mais a fim. Pois bem, durante a festa, ele seguiu insistindo (inclusive com certa agressividade), tentou forçá-la. Todo mundo bebeu, Angela bebeu também e ele seguiu do lado dela, insistindo. Quando Angela já não estava mais consciente de tudo o que rolava, ele, depois de jogar água no rosto dela, a beijou, mesmo com ela escondendo o rosto e os lábios durante muito tempo. Ele além de todo o resto, ainda queria dar banho nela, que estava praticamente desacordada. Outros participantes viram e uma briga bastante agressiva começou. Marcelo primeiro afirmou que não tinha feito nada, mas depois admitiu que a beijou sem consentimento. Estava colocada a questão de sempre: exagero ou agressão?

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Não dá pra relativizar. O que rolou ontem na festa do BBB, o que Marcelo fez com Angela, acontece todos os dias, em festas, bares, restaurantes, no play do nosso prédio, na escola, na confraternização do trabalho, na praia (e no próprio BBB, é só lembrar). E as pessoas preferem não discutir. Preferem fingir que falar nisso é exagero das mulheres, que não é assédio, que acontece desde sempre e por isso é normal. Mas não, não é normal, é agressivo, é machista e é doente. É um sintoma claro de que os homens ainda acham que são donos dos nossos corpos e merecedores de tudo o que desejam, apenas por serem homens. Nosso corpo não é público.

Que esse episódio lamentável (que não acontece pela primeira vez na TV, importante pontuar) sirva pra gente discutir os assédios que sofremos diariamente. O encoxamento no transporte público, as olhadas agressivas na rua, puxada de cabelo na boate, tentativas de beijar a força, como recentemente vimos acontecer na UFF, por exemplo.

Espero que homens que já fizeram isso algum dia reflitam sobre seu lugar de poder e o que permite que eles saiam ilesos da situação, porque, afinal, a culpa é sempre da mina (que estava bêbada, que não soube dizer não, que riu). Esse tipo de mentalidade atravessa todos os comportamentos cotidianos. Fico esperançosa quando vejo homens, como o Cassio (participante do programa), indo até o fim na discussão pra mostrar – não só ao agressor mas a todo mundo – que era, sim, assédio. E na mesma medida fico triste em ver mulheres dizendo ‘não é bem assim’.

Não posso dar números precisos, mas em se tratando do universo em que vivo, posso afirmar sem medo que quase todas as mulheres já sofreram algum tipo de agressão desse nível. Relativizar esse tipo de assédio é porta de entrada pra muitos outros. Que possamos debater isso com objetividade, honestidade e deixando em evidência a voz das mulheres, principalmente as que já sofreram com isso. Afinal, é a vida de mulheres que está em jogo.

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

O novo: swing (De novo)

Ele chega, de mansinho, e levanta a borda da camisola, devagar, até descobrir as coxas, e a dobra da carne macia onde se aninha a calcinha.

Eu, deitada de bruços, finjo que dormo, e sorrio contra o travesseiro.

Depois, não consigo conter o suspiro, e gemo quando o peso do corpo dele, aquele corpo sólido, firme, denso, pesa sobre a cama quando ele se deita sobre meu corpo.

Ele é aquele, que eu acredita capaz de reconhecer no escuro.

A gente aposta: será que reconheceria mesmo?

…….

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A curiosidade pela casa de swing começou há tempos, junto com aquelas fantasias que a gente não conta para ninguém e ao mesmo tempo, já ouviu e já confessou seja no calor da cama seja na roda de amigas.

A ideia era boa, o difícil era achar o lugar. Cidade conservadora, pesquisas na internet dão noticias de duas, mas só uma tem o endereço.

Pesquisa dali, beija daqui, pipocam blogs e fotos sobre o assunto.

E começam as dúvidas, as inseguranças…

Será que é seguro?

E se alguém me reconhecer?

E se só tiver gente “feia”?

E se acharem a gente “feio”?

E se alguém quiser me beijar? E se eu quiser beijar alguém? E na casa de swing, se usa beijar ou é só o vuco-vuco?

Um dos blogs dizia que a casa que tinha o endereço divulgado era “baixo nível”, e que havia muita gente (leia-se: homens) que contratava prostitutas para entrar, o que tira a graça do lance.

A outra só informava os nomes dos “donos” e os telefones. Eu: liga! Ele: liga você!

E não ligamos… mas transamos loucamente pensando nas possibilidades.

Final de semana seguinte, tarde de sábado modorrenta, sessão de sexo ardente (clichê? Foda-se) no sofá. E a fantasia de novo.

Começo de noite daquele mesmo sábado, eu entro no site, pego o endereço, e decido: é hoje. Vai ser lá mesmo. Vamos debater as regras.

Combinamos de só olhar, ver qual é, não transar com ninguém.

Vestidinho solto, sem sutiã, salto alto.

Chegamos. Vergonha de entrar, parece que todo mundo sabe e está olhando. Ele pega minha mão, e me sinto confiante de novo. Danem-se.

Entramos. (eles revistam para ver se não temos câmeras, mas eu entro com o smartphone. O segurança avisa que se alguém achar que eu estou tirando fotos podem pedir para eu sair. Ok. Não é que eu vá fazer check in no Foursquare ou no Facebook!)

Eu peço uma bebida, para ficar soltinha, e começamos a olhar. Casa vazia, ainda. Música brega tocando. Cheiro de gordura saindo da cozinha. Brochante.

Damos uma volta, eu acendo um cigarro. Vamos ver o que tem lá fora?  Jardinzinho mal cuidado, algumas mesas, uma boate. Opa.  E um labirinto, como dissera o segurança. Vamos entrar?

Pérai, tem mais coisas para ver. Salas com nichos, onde havia um casal solitariamente se pegando, ela gemia alto mas me soou meio falso.

No quarto ao lado, um sofá enorme, e vazio. Sem portas, apenas cortinas.

Voltamos para o bar, e ficamos conversando, observando, namorando. E começam a chegar mais pessoas.

Pessoas mais velhas que a gente, na faixa dos 40, entre eles uma mulher bem gata, eu achei, com um cara razoável. Ele discorda, não gostou.

Começa o movimento na boate, músicas misturadas, nem sei, nem lembro. Mulheres jovens, homens mais velhos, homens jovens. Mulheres gordas. Homens baixinhos, magrinhos.

Não é a fantasia de uma festa com panicats saradas e bonitões bombados. Eu acho excitante, ao mesmo tempo que meio frustrante: não vi ninguém se pegando, poxa!

Saimos de novo, e eis que entramos no quarto com os “nichos”, onde o casal se pegava mais cedo. Agora está cheio. Eu me sinto segura ao lado dele. E pego pelo pescoço, puxo para o canto, e o beijo. Ele sobe meu vestido, afasta a calcinha, e quase gozei, de pé, só de pensar na situação.

Mas é meio desconfortável, e o lugar é acarpetado, meio que fede a mofo, e a gente começa a espirrar!

Sala do lado, a do sofá grande. Um casal. Ela de quatro, e o homem, de pé. Há outro casal, de pé, observando. Nem reparei. Ficamos na parede, encostados, eu meio sem graça de olhar fixamente. Viro de costas, beijo o queixo do meu parceiro, e o casal do sofá muda de posição. O homem se sentou, recostado, enquanto uma mulher loira o cavalga lentamente.

Entra mais gente. Eu me sento na beira do sofá, puxo meu namorado pelo cós da calça, e tiro para fora o pau duro. Os gemidos ao meu lado me excitam. A sensação de saber que há mais gente do lado me excita. Coloco o pau na boca, enquanto meu namorado me acaricia os cabelos, as costas, o pescoço…

De repente, uma outra mão. Um susto. Mas continuo. Depois, de novo, e de repente, o casal ao lado para, e uma pessoa sai da sala.

Era um homem, sozinho, na noite de casais. E parece que ele violou uma regra tácita, que eu não sei bem qual é. Mas pra mim, foi não consentido, não houve um olhar, uma permissão, nada. Cortou o clima. Não quis continuar, nem entrar no labirinto.

Não foi bem com eu esperava. Mas ao mesmo tempo, foi excitante. Descobri ser meio exibicionista.

E descobri que todo mundo faz sexo. Gordos, magros, novos, velhos, feios, bonitos. É uma constatação bem óbvia, mas que não parece, porque o que se chama de “sex simbol” geralmente vem em padronagens bem especificadas, onde não há espaço para diversidade, ou então, há um espaço bem fechadinho, nos sites de pornografia mainstream: gordas, obesas, coroas, ninfetas, negras, ruivas, loiras, velhas, asiaticas, e tudo ou quase tudo que se imagina. Como um nicho específico, quase como um compartimento.

O mais legal de ir nessa casa de swing específica foi ver quebrado esse lance, ver todo mundo “junto e misturado”.

Ainda quero voltar. Não sei se volto lá, tive noticias de homens que realmente contratam prostitutas, vão lá para “comer” as mulheres alheias e ainda contam vantagem. Achei ridículo. E me tolheu. Que droga, né?

Mas tem a outra. Ainda vamos ligar…

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