Diversidade, Visibilidade e Tolerância

Admitir que o preconceito está na gente. Exatamente isso, falar em diversidade e tolerância é admitir que o preconceito está em nós. Nós mesmo, frutos de processos de socialização e educativo, que recebemos por anos uma chuva de padrões de comportamento, pensamento e atitude, somo a primeira barreira para a promoção da diversidade. Então, primeiro passo na promoção da tolerância é descer do pedestal.

Não é possível começar um debate sobre diversidade, visibilidade e tolerância, se quem fala sobre isso não admite que praticar a diversidade e a tolerância é, antes de tudo, um processo individual de consciência, seguido de uma prática discursiva, de edução e auto-educação e prática social efetiva. Sim, porque é fundamental se livrar da demagogia do discurso (do midiático e o das redes sociais) e partir para ação as afirmativas e as negativas (sim, as negativas, aquela que se resume em não exaltar como “folclore” atos de visibilidade).

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Paula Rego – Branca de Neve engole a maçã envenenada

E a visibilidade, né… Vamos combinar, visibilidade é um ato de quem é diverso! Se você não é diverso, não tente tirar quem é do armário simplesmente pelo fato de que você quer praticar o seu discurso sobre diversidade. É muito bonita a empatia, a fraternidade com as pessoas diversas queridas, mas expô-las como, para o seu bel prazer egóico, não é legal.

E lembre-se que ao convidar um amigo pra uma festa sua, não inclua o adendo: “vai ter um monte de gente legal, gays, lésbicas, trans*, o pessoal do candomblé que vai fazer um batuque, um colega do mestrado que é refugiado sírio e uns ativistas do poliamor”, convide só para a festa… deixe ele descobri que não há nada de diferente em encontrar essas pessoas em uma festa ou em ir a um evento do cerimonial do Itamaraty… NÃO OBJETIFIQUE QUEM É DIVERSO. Quer dizer quem vai, diga os nomes das pessoas, de onde você as conhece, mas não a característica diversa delas.

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Paula Rego – Passos do Coelho

Promover a diversidade por meio da tolerância é romper com o processo de silenciamento, naturalizando a visibilidade de quem quer ser visível, porque tem gente que não quer, ou não quer 24h, ou não quer em certos ambientes, aceite isso. Quer discutir, excelente! Estamos aqui para isso e precisamos disso! Então, dê voz às experiências das pessoas diversas, replique a voz dessas pessoas, difunda os atos públicos dessas pessoas, mas não pense que promover a diversidade é expor a vida privada dessas pessoas, porque não é.

E é isso, promover diversidade é ensinar a tolerar os processos de visibilidade, é naturalizar esse processo, é permitir que a diversidade sexual, de gênero, racial, religiosa, de corpo, de deficiência e quaisquer outras sejam parte do dia a dia. É ensinar que os preconceitos aos diversos são resultados de processos sociais que devem ser rompidos e que depende de nós preconceituosos rompê-los! O mais difícil é sai do discurso para a prática, mas a gente pode começar a qualquer minuto.

Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

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As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

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Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

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