Não tenho filhos. E daí?

Reencontro com as colegas da antiga turma de graduação via um grupo virtual que foi criado. Muito tempo que não as vejo, que só tenho contato com algumas poucas por intermédio do facebook. Das primeiras perguntas: Quem casou? Quem tá solteira? Quem teve filhos? Respirei fundo, porque já pressentia como ia ser a tônica da conversa e falei de mim, como estava a minha vida, no que fui solenemente ignorada. Aqui o papo é outro. Muitas respondem orgulhosamente que casaram. Que já tiveram filhos. O primeiro e o segundo. Que estão grávidas. Como não tenho filhos, não casei e nem penso em engravidar no momento, senti que fui deixada de lado. Já um pouco cansada daquela conversa, tentei mudar o assunto. Muito embora porque entenda que nós somos maiores que esse projeto do casamento e que, vez ou outra, é bom conversar sobre filhos, mas também é prazeroso bater um papo sobre carreira, viagens, projetos profissionais, bofinhos, bofinhas e outras contingências mais. Então ousei perguntar: “Além disso (casamento e filhos), quais são as outras novidades? Que vocês andam fazendo de bom, meninas?”. E escuto, na lata, de uma colega que já tinha dito anteriormente que estava grávida, repetindo em alto e bom som: “eu fiz um FILHO!”. Assim, com letras garrafais mesmo. Entendo que ela esteja feliz e empolgada com a primeira gravidez (e com todo direito), mas o que não gosto é dessa sutil crítica que permeava a conversa, em dividir, as mulheres entre aquelas casadas (supostamente bem-sucedidas) e as solteiras coitadas (“mas não se preocupe, deus vai te mandar o homem certo na hora certa”). Percebendo o rumo da coisa, eu fui irônica de uma forma que até me causou arrependimento depois e falei sem pensar: “E por acaso você quer um troféu por estar grávida?”

familiaNão, não gostei do que eu disse. Achei desnecessário e um pouco arrogante até. Mas tentei ir na defesa de escolher entre um caminho ou outro. Porque sempre acreditei em um feminismo amplo e generoso, que respeita as liberdades e projetos de vida diversos de outras mulheres. Não estou criticando a escolha de ninguém em casar e ter filhos. Apenas não tolero que façam isso comigo porque tenho escolhido justamente o oposto.

Bem, depois disso, achei que fosse ser expulsa do grupo. Não fui. Mas também não me senti mais confortável de estar lá. Vi-me como uma estranha no ninho. Deslocada, perdida, sem conseguir me comunicar. Mas mais do que isso. Muito mais. A percepção da sociedade ainda é de lançar esse olhar piedoso e de cobrança para a mulher que tem mais de trinta anos e que ainda não casou. Mulher assim é considerada um projeto amputado; falta-lhe alguma coisa. Que pode ser prontamente resolvido com um marido e crianças. E dói saber que sejam as próprias mulheres a cumprir esse papel do carrasco. Nós, vítimas e algozes ao mesmo tempo dessa cultura que insiste em nos dar um script pré-acabado pra todo mundo. Mas eu rejeito, sabe? Não quero esse roteirão. Não vou dar chance para que meçam minha felicidade ou lhes dar poder para que façam o balanço da minha vida baseado em critérios que não são meus. Não acho que uma mulher que tenha casado e tido filhos seja superior a mim. Nem tampouco eu sou a ela. Somos todas mulheres, com trajetórias e escolhas diferentes. Por que eu deveria medir a minha vida pela sua? Não percebem o quão arbitrário e violento é isso? Favor parar com essa coisa de criar um ranking de parâmetro de sucesso individual pra saber quem fez mais ou menos com a sua vida. Coisa mais ultrapassada e démodé…

E o fato de eu não ter casado e não ter tido filhos não faz a minha vida menor ou incompleta. Também não é uma vida perfeita e sem crises. Uma das poucas coisas que tenho certeza, é que a existência não deve ser pautada pelo suposto verde da grama de outrem. Esse verde definitivamente não me cabe, não me representa, não me acolhe. Meu verde é outro, sabe? Sorrindo ou não, a minha grama é uma aquarela com nuances amarelas, azuis, brancas, vermelhas, cinzas e marrons. Aceite isso antes de querer me enquadrar. Apenas.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

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Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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Preconceito contra rico?

Preconceito contra rico. Isso existe?

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Se tem algo que vem me intrigando nesses tempos de debates e animosidades políticas, é esse papo de que rico sofre preconceito. É o homem branco, hétero, cisgênero, classe média/alta, sentir-se discriminado e ofendido quando chamado de “elite”, “riquinho”, “filhinho de papai”. Se sentir excluído por ser identificado com seu privilégio social. Oras, senhores, por favor: poupem-me. Vamos tentar entender o que é preconceito?

Preconceito existe quando alguém é oprimido socialmente. Quando é discriminado por sua condição social, étnica, por sua orientação sexual, pela sua identificação de gênero. É quem deixa de ter acesso a bens e serviços por isso. Quem sofre agressão e exclusão social por não se enquadrar nos padrões vigentes: branco, heterossexual, cisgênero, machista, com grana no bolso. É quem, por ser identificado com qualquer dessas categorias de exclusão social, sofre violência moral e/ou física. Quem deixa de gozar, ter acesso, participar da vida social – capitalista em seus cargos, ocupações, diversões, porque é pobre. Porque é negrx. Porque é gay, lésbica, mulher, transexual. É ocupar um lugar onde você não é igual para viver na sociedade com seus valores e critérios de inclusão. Quem tem pior. Quem tem mais difícil. Quem tem com muito suor e muito machucado na escalada. Quem sofre discriminações das mais diversas quanto tenta chegar.

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Elite, minha gente, é quem oprime. Chamar de elite é reconhecer que x outrx tem privilégios sociais. Qual o problema de se reconhecer os próprios privilégios? Eu tenho. Por ser branca e classe média. Por ter tido acesso à educação, à saúde, por ter nascido numa família branca, com renda – apesar de pouca, de suada, era suficiente para nos garantir uma vida digna. O que muita gente não tem. Não tem dignidade, não tem o que comer, onde morar, como viver ou sobreviver. Não pode comprar, não pode ocupar, não pode acessar.

Nunca vou sofrer preconceito por ser chamada de “branquela”, de “elite”. Nunca deixei de gozar de nada por isso, nunca sofri por isso, ao contrário: só tive benefícios sociais. Como meus benefícios podem ser a mesma causa de preconceito? Não, não são. Sofro preconceito por ser mulher, e por ser lésbica, isso eu sei o que é. Isso já me causou olhares, violências, exclusões e eu chamo de preconceito. Mas, no resto, aceito meus privilégios e, ao olhá-los, quero entender como posso fazer para que todxs os tenham. Ou para que não exista mais privilégio algum, sejamos todxs de fato iguais e com as mesmas chances, oportunidades e benefícios no viver coletivo.

Não gosto de discursos de ódio. Nenhum deles. Se você é chamado de “elite” e não gosta, às vezes pelo tom de desprezo, de raiva etc, não confunda esse sentir com preconceito. É ruim se sentir agredido, e para mim violência não se paga com violência, apesar de entender o que motiva a revolta daquelxs excluídos socialmente e vítimas de tanta porrada, no sentido metafórico e não metafórico da palavra. Mas reflita. Procure ver o que te incomoda. Procure ver poque x outrx se incomoda. Talvez fique mais fácil compreender se puder olhar através dos olhos dx outrx. Nunca saberá o que é sentir na pele, mas talvez possa se solidarizar com a dor de quem é violentado cotidianamente por ser quem é.

Quando a gente trabalha com políticas sociais de inclusão, quando a gente busca a igualdade, ou viver numa sociedade mais igual, a gente tem que olhar a desigualdade. As tantas desigualdades sociais que nos rodeiam. Tem que ver como, politicamente, podemos redistribuir bens e serviços. Recursos, cargos, salários. Como podemos ter negrxs no poder. Mulheres. Gays, lésbicas, transexuais. Como o pobre fica menos pobre. Como ter padrões menos heteronormativos. Menos machistas. Como se faz para vivermos, todxs, com um pouco mais de dignidade nesse mundo capitalista de grandes selvagerias.

Quem defende políticas sociais e de redistribuição de renda não gosta de “pobre”, nem quer que todo mundo “more na favela”, como temos ouvido recentemente. Ao contrário. Quer que todxs tenham mais. Quer que não tenha favela indigna. Quer que não tenha pobre e excluído por sua etnia. Por sua orientação sexual. Quer que não tenha miséria. E, para isso, você “elite”, terá que perder seus tantos privilégios e exclusividades. Você está prontx para isso? Reconhece primeiro, que  dói menos. E, de forma mais coerente, ou trabalha por um mundo mais igual, ou reluta e busca de qualquer modo manter seus privilégios. Mais coerência é melhor. Mais clareza. Mais sinceridade.

A minha escolha será, sempre, rever privilégios e buscar inclusões. Nem todxs estarão do mesmo lado. Democracia não é consenso, e comporta debates e visões de mundo distintas. Mas o papel de “coitadinho” da elite é, no mínimo, cômico – se não fosse trágico, e totalmente descabido. Dito isso, vamos ao debate? Quanto mais amor, mais humanidade e mais direitos humanos garantidos, melhor.

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Uma cena de amor quase anódina

Era uma pessoa muito próxima. Querida. Muitos amigos ela tinha. Já de certa idade. Generosa, alegre, casa aberta, sempre pronta a ajudar os outros. Presente, cuidadosa, preocupada. Afetiva.

Não lhe sabia de amores. Nunca a tinha visto com ninguém. Não se falava disso, e pra mim estava bem assim: afinal, podia ser escolha. Ninguém é obrigado a ter alguém. Ninguém é obrigado a pavonear suas histórias, suas paixões, seus rolos na frente dos outros. Ainda mais na geração dela, em que isso não era assunto tão conversado.

Até que um dia, passeando na cidade, encontrei-a. E nem teria notado nada, caso ela não tivesse estremecido e soltado a mão da outra, antes de me cumprimentar. Mas estremeceu. E soltou.

Saí dali com isso na cabeça. Que passear de mãos dadas, uma atividade tão anódina, virava, por conta de restrições sociais, de “certos” e “errados”, algo com que se preocupar. Até comigo, imaginem. Até comigo. Imaginem não poder abraçar, beijar, dizer que ama. Dizer “minha namorada”, dizer “minha mulher”. Logo ela, tão querida, tão afetuosa, tão generosa.

Uma nuvem passou diante do sol.

Droga de mundo em que não se pode andar de mão dada com quem se quiser. Que pede contas de amores de uns e de outros, atestados, carimbos, definições. Droga de mundo que fica regulando amores e mãos alheias. Em que uns podem, mas outros não. Em que os outros se incomodam com os amores e as mãos dos uns. Com os corpos, com os afetos, com os jeitos e trejeitos. Com os gostos, com as escolhas.

Droga de mundo.

Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

É o meu corpo. E eu o celebro.

Por Vanessa Rodrigues, Biscate Convidada

No começo do ano posei pra Evelyn Queiroz/Negahamburguer. Para quem não conhece o trabalho dela, vale uma navegada aqui. Nem foi algo planejado, foi bem no susto, pra falar a verdade. E um posar com plateia e a possibilidade de milhares de pessoas assistindo. Mas, já chego aí.

Antes disso, já tinha posado prum ensaio coletivo de nus, com fotos que acabaram expostas numa instalação no fim do ano passado, com o tema: “Beleza real”.

Nessa segunda vez foi assim: duas equipes de reportagem foram na Casa de Lua, ONG Feminista que estamos consolidando e onde a Nega tem estúdio. A primeira equipe filmou a Evelyn fazendo uma ilustração. A segunda se inspirou e quis fazer igual. Mas, a ideia era não repetir a modelo, que até já tinha ido embora. Aliás, quando falo “modelo” é força de expressão, ne, vocês sabem. Não havia uma modelo. Éramos mulheres comuns posando para uma artista.

A Evelyn ficou me convidando-provocando durante toda a tarde, mas eu estava meio tímida. Apesar de já ter vivido a experiência de posar antes, tinha sido pra fotos. Com TV pelo meio, nunca. Paniquei. Na hora H, no entanto, estava eu sentada no futon da sala quando a Nega chegou, me estendeu a mão e disse: “Vamos?!”

 Olhei pra aquela mulher jovem, tão talentosa, tão linda, tão sensível e amorosa, e fui.

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Ilustração de Negahamburguer

Subi a escada para o estúdio bem saltitante, tomada pela adrenalina. Nem é que eu tenha alguma questão com tirar a roupa. Até que minha relação com a nudez sempre foi tranquila e só melhora. Meu medinho era de me saber na TV. Meu problema era a câmera. Posar, mesmo com roupa, em foto ou vídeo, pode ser um acontecimento pra mim. Porque, a despeito de me olhar no espelho e, hoje em dia, me reconhecer com prazer e alegria, a visão que tenho sobre mim num registro de imagem pode ser bastante distorcida. Ou não corresponder ao que eu presumo ou imagino deveria ser.

Daí que vocês podem imaginar o quão gigantescas essas experiências representaram pra mim.

 De repente, me vi numa sala com a Evelyn, a jornalista, o iluminador e o câmera. Eu ri. E, ainda na adrenalina, fui me despindo pra aquele bando de gente desconhecida, confiando no profissionalismo de geral e no controle da única coisa que de fato me cabia: meu corpo. Admito que apelei prum malabarismo na hora de tirar o sutiã. Além disso, mantive a calcinha e a pose acabou sendo de bruços no puff. Até porque, não dava pra chocar a família brasileira.

Mas, é que entre o tirar a roupa e o posar tem o momento de andar seminua pelo recinto. Algumas vezes. E, principalmente, tinha a câmera, que iria registrar e, eventualmente, exibir parte daquilo na TV! Que situação. Ou não. Porque, no final, foi mesmo isso. Um contundente “ou não.” Tirei a roupa alegremente, careta (nem vinho rolou, vejam bem…), porque eu quis.

Estava eu, com meu corpo sem padrão – mas, com certeza, não no padrão assinalado como o “ideal”-, de mulher com mais de 40, que pariu dois filhos, nada atlética e com as pernas sem depilar! Era isso tudo. Minha história e eu. Juntas. Indissociáveis.

 E estava feliz. Tranquila? Não, necessariamente. Mas, feliz.

E não é que eu tenha tentado esquecer da câmera. Nem tinha como. Ela existia, enorme, invasiva, onipresente, lembrando-me do que viria. Mas, naquele momento, eu.estava.feliz! Na hora não me veio um pensamento racional ou elaborado “uau, como eu sou empoderada!” Foi mais um “que delícia esse negócio!” Era tenso e sexy, ao mesmo tempo. O “dane-se!” retumbou na minha cabeça. Bom, nem preciso dizer que a ilustra da Evelyn foi pura delicadeza, ne?

Conversei com a jornalista sobre padrões de beleza, tirar a roupa como ação libertária, posar… e também contei que passei a vida em dietas insanas até sentir que eu não merecia isso e começar um processo de amor e reencontro com a minha auto estima. Mas, reconhecia que a pressão é draconiana, que nos abate e que é difícil escapar muitas vezes.

E que ainda me sinto enredada, por momentos fugindo das câmeras, escondida atrás de alguém, como um espectro, sem sequer existir nos registros, mesmo estando lá. É um caminho. As vezes, a gente retrocede 3 casinhas das 5 que avançou. Mas, vai indo, ne? Participar dessas três experiências – a exposição, me deixar ilustrar e a matéria – e falar disso tão longamente como o faço agora também são parte da trilha.

Finalmente, claro que a reportagem na TV me deixou aflita e eu fiquei semanas esperando, com medo dos ângulos, dos closes. E quando foi ao ar, acabei nem badalando muito, mas por timidez e falsa modéstia que por um não gostar. Pra falar a verdade, pra quem eu mostrei até disse, na absoluta e livre sem-vergonhice: “Então. Eu, divando. Lide com isso!”

 Disse isso pra mim.

fotoperfilfor*Vanessa Rodrigues, jornalista, feminista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Escreve no Brasil Post e pode ser encontrada noFacebook e e Twitter (@vanerodrigues).

Teve um dia que me chamaram de puta…

I’m a bitch, I’m a lover
I’m a child, I’m a mother
I’m a sinner, I’m a saint
I do not feel ashamed
I’m your hell, I’m your dream
I’m nothing in between
You know you wouldn’t want it any other way

Meredith Brooks – Bitch

E esse dia não foi o único, mas foi uma ocasião diferente das inúmeras vezes em que fui chamada de puta no dia a dia. A diferença estava na importância que a pessoa tinha na vida do meu companheiro na época. Sim, fui chamada de puta por umx familiar de um namorado, mas também não foi x primeirx membrx da família de um namorado meu que me chamou de puta. O que diferenciou é que, nas outras vezes, eu ainda não estava empoderada e, dessa vez, já era Biscate assumida.

Mas, pensemos: Porque me chamar de puta? Bem, a pessoa usou esse nome pra mostrar que desaprovava meu relacionamento com esse namorado. Afinal, um homem como ele não deveria namorar uma mulher como eu. Mas, como sou eu? Bem, sou ex-professora, formada e pós graduada, com meu emprego próprio, me mato de estudar todos os dias pra passar em um concurso público e apaixonada pela minha mãe. Se eu fosse uma mãe, tia, avó, irmã, eu adoraria uma mocinha dessas como namorada de umx membro da minha família. O que incomodou tanto essa pessoa, afinal? Ah, eu esqueci, sou daquelas mulheres que transa no primeiro encontro, não frequenta igrejas, bebe muito, mora fora da casa de sua mãe e seu pai, foi criada em um “lar desfeito” (ah, o medo de mulheres divorciadas criarem pequenos monstros que não fazem as tarefas de casa sozinha!) e tem suas opiniões muito fortes. Sim, eu sou uma biscate!

Meus companheiros não precisam ir a casa de minha mãe e meu pai me pedir em namoro, na verdade, se ninguém por lá aceitar o namorado ou namorada, eu nem ligo. Sou carinhosa, gosto de cuidar de quem amo, cozinho e faço agrados, mas espero agrados de volta, como me ajudar com a louça que acumulou em minha pia por causa de minha tendinite (afinal, divisão de tarefas vem também de cuidar e amar). Não sou muito simpática com pessoas que me impõem coisas como religião, comportamentos e atitudes. Não quero e nem preciso ser recatada ou delicada, falo alto, rio alto, durmo pelada na casa do namorado. E apesar de adorar namorar, tenho uma lista beeeeeem extensa de parceirxs sexuais em meu passado.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Biscate, piranha, vagabunda, puta, palavras que pra mim são tão comuns (resignifiquei todas para não julgar as coleguinhas) que fiquei em dúvida se deveria me defender ou não, mas, no calor da discussão, me defendi, me magoei. Afinal, praquela pessoa, ser puta é ser indigna. Não ser mulher praquele cara especial (bastante, como todos os caras que não separam mulheres pra transar e pra casar) era ser puta, ele não me buscou na casa de mamãe e pediu minha mão em casamento, eu não cheguei virgem até ele. Então eu não era mulher que a “família” escolheria pra ele.

O fato é, não existe isso de você não é homem ou mulher pra alguém. Relacionamentos deveriam ser construídos longe de preconceitos e caixinhas de “par ideal”. E, quando conseguimos construir fora de caixinhas esse relacionamento entre duas pessoas (ou 3 ou 4, a escolha é das pessoas envolvidas), vem uma pessoa de fora querendo se meter no que tá dando certo por puro preconceito. Então, familiares, acho que se um homem namora uma puta, biscate, vadia ou o que for, isso só diz respeito a ele. Deixe que ele seja feliz, pois, se escolheu aquela pessoa é porque é com ela que quer dividir aquele momento de sua vida. Seja por uma noite, seja por meses ou anos.

This labeling
This pointing
This sensitive’s unraveling
This sting I’ve been ignoring
I feel it way down
Way down

These versions of violence
Sometimes subtle, sometimes clear
And the ones that go unnoticed
Still leave their mark once disappeared

Alanis Morissette – Versions of Violence

Seriam as feministas super mulheres?

Adorei esse post da colega biscate, Sara Joker, mas esse comentário da Danusia no post mexeu muito comigo:

“(…) mais uma consideração… tem uma coisa que ainda me incomoda muito no discurso feminista. Vejo as feministas publicando textos lindos na internet, lindos mesmo… Mas todas elas dizem que são super bem resolvidas sexualmente. Todas. Acho que ainda não li nenhuma feminista insegura na cama. Pois bem, eu sou. feminista, e nem um pouco bem resolvida, em VÁRIOS aspectos da minha vida. o que não me faz nem um pouco menos feminista. E já tive sim vários problemas de ser rejeitada por ser gorda. VÁRIOS. Sendo gorda me tornei invisível pro homens.”

Mas achei que minha resposta ao invés de comentário devia virar post.

Sempre me defini como feminista desde que conheci o feminismo lá nos idos de 80/90 mas encontrar esse grupo de mulheres feministas pela internet e depois tê-las também na vida offline mudou bastante a minha vida.  Não sou a mais militante de todas, mas manifesto minhas opiniões sempre que possível, visando explicar o quanto o mundo ainda é machista e porque precisamos do feminismo (um parêntesis de agradecimento ao discurso da minha eterna Hermione) , ou participar de marchas e outros eventos sempre que dá.

O feminismo que vivo hoje é de acolhimento, parceria, debate, questionamento. Desde que encontrei minhas amigas de idéias e ideais me sinto menos só e de quebra tenho companhia deliciosa par várias conversas. Esse tipo de irmandade e comunhão você pode achar também em sua religião, aliás, a sensação de pertencimento e acolhimento é uma das coisas que faz as pessoas frequentarem suas igrejas. Mas isso você também pode achar na militância. Essas sensações fazem bem para autoestima, é inegável. Mas serei eu uma super mulher sempre correta? Longe disso, tanto que adorei o post da Sara e me identifiquei.

Mas o que isso tem a ver com supostamente as feministas terem autoestima aparentemente mais elevada ou serem mais bem resolvidas consigo mesmas e na cama?

Como disse a Luciana, sempre sabiamente (minha gurua) , posso dizer por mim. Olha, feministas são como todas as pessoas, tem medos e  inseguranças, mas no aprendizado diário com as amigas aprendemos todas a ver que somos mais, muito mais, que as mulheres de Nova que a mídia teima em vender (e até mesmo a mídia vem mudando isso: um exemplo são as campanhas da Dove de “real beleza”),  aprendi a curtir o meu  estilo próprio, a ser menos fútil, a prestar mais atenção no próximo. (sobre ser menos fútil, ainda curto coisas lindas, mas foco mais no “ser” que no “ter”) . Consequentemente, a gente encana menos com o corpo, o sexo, as relações amorosas. O foco da vida muda, é mais crítico às demandas exteriores da sociedade, e isso dá leveza.

Veja bem, mesmo com isso tudo o medo de não ser aceita, de ser gorda, de ser feia (verdadeiros monstros na cabeça de uma mulher) diminui muito, quase some, embora    às vezes espete aqui e acolá. Mas temos amigas maravilhosas que botam a gente no devido lugar: o de rainhas de nós mesmas.

Sobre sexo, bom, ao não julgar o comportamento sexual de alguém pelo meu parâmetro (é certo o meu? Certo para mim, não obriga ninguém) também me vejo mais livre sexualmente e com menos medo de ser julgada.  E também fico mais livre, mais livre fico mais segura de mim. São pequenas atitudes que mudaram em mim a partir da convivência com o feminismo, embora eu já fosse livre, só encontrei que não me julgue.

Ademais, é natural das pessoas na internet sempre mostrarem o seu melhor, raramente mostrando os seus defeitos. Talvez por isso as feministas fiquem parecendo fantásticas super mulheres.  Mas observe que mesmo parecendo super,  sempre tem um post de autocrítica, de questionamento e exposição de medos, como o que me inspirou a escrever este post.

Na verdade isso é só fruto de encontrar gente bacana parecida com a gente e que nos apoia. Então o feminismo é autoajuda? Não, mas é também  amizade e suporte. E isso faz toda a diferença.

Eu tô cansada dessa merda

Eu tô cansada dessa merda
Da violência que desmede tudo
Da minha liberdade clandestina
De ta no meio dessa briga, Chega!*

Porque tem dias em que eu me canso. Chego em casa rouca, as pernas cansadas, a voz brigando por resultado nenhum. Não, é mentira. A gente tem resultados. E é assim que eles germinam: baixinho, em silêncio, crescendo rasteiros na grama do jardim. Em cada olhar sensibilizado, em cada pequena iniciativa de proteção à mulher, à diversidade, à fala da população que é sempre calada pela mídia de massa e pela política perversa de exclusão.

Eles estão sempre lá, os donos do poder. Os Sarneys da vida. Os “macho” usurpadores da liberdade feminina. Os machistas agressores. Os homofóbicos. A voz dominante da opressão aos pobres. Aos negros. A grana suja do tráfico lá no Congresso, e todo mundo fazendo de conta que tá tudo bem, que as drogas devem continuar todas ilegais porque “fazem mal”.

As campanhas financiadas pelas grandes empresas que querem grana, e mais grana, seus whiskys importados no iate na praia, suas mulheres plastificadas de silicone, sua viagem para a Europa arrotando caviar e degustando a elite soberba que sempre cagou na nossa cabeça brasileira. É essa grana mesmo, que cresce e destrói coisas belas. Se ao menos as mães fossem felizes. Mas nem isso. Essa vida consumista é vazia. E a violência contra a mulher existe lá também, no paraíso de praias artificiais com grama sintética e champanhe francês.

Eita!
Que o sangue pinga nas notícias
Vendidas como coisa bela
A merda já tá no pescoço
E a gente acostumou com ela

Aqui embaixo tá foda. Todo dia é uma notícia nova de corrupção, de violência, de morte. Mulheres morrem por abortos clandestinos às pencas, enquanto a grana cala e paga o preço da hipocrisia. Porque lá em cima, na montanha, mulher que aborta não morre e ninguém fica sabendo. Aborto de rica é só uma solução para um problema. Aborto de pobre é crime.

Negrxs apanham por coisa nenhuma. Lésbicas são agredidas por amarem. Gays são espancados por não “falarem como homens”. Trans são agredidas até dentro do próprio movimento feminista! Xs militantes do SUS estão esgoelando que a saúde vem sendo sucateada e vendida à preço de banana e ninguém fala nada. Não, minto de novo. Falar a gente fala, mas a todo momento temos nossos microfones cortados nas grandes arenas decisórias.

A máquina acordou com fome
Vem detonando tudo em sua frente
Comendo ferro, carne e pano
Bebendo sangue e gasolina

Mas eu acredito. Que temos que gritar contra as violências e injustiças. Que temos que nos mobilizar. Que temos que brigar por um mundo melhor. Que temos que denunciar. Que não podemos nos calar. Que temos que juntar nossas forças, parar de atacarmos os aliados, os movimentos tantos que estão despontando com causas diversas de luta, e lutarmos com essa grande lógica perversa capitalista e excludente, branca, machista, homofóbica, elitizada e concentradora de renda, riqueza, bens e outras parafernálias tantas que nos fazem consumidores vazios e desumanos.

É que hoje eu cansei. Vou dormir um sono bom, e voltar com mais energia para as brigas tantas.

*versos da banda Eddie. Eu tô cansado dessa merda. 

No tempo da delicadeza

Talvez no tempo da delicadeza. Aquele tempo. Todo mundo anseia pelo tempo da delicadeza. Dos olhos nos olhos. Da atenção ao detalhe. Do cuidado, da leveza. Da busca da gargalhada, do vem cá que eu te dou um abraço, do já passou, do não há de ser nada. Do não sei como vai acabar mas estou aqui contigo. De mãos dadas, contigo. Em silêncio contigo. Do não concordo com você mas nem por isso deixarei de te amar. No tempo da delicadeza, não deixarei de te amar. Porque sei suas perguntas, embora não concorde com suas respostas.

E talvez eu esteja errada. Eu já estive tanto errada. Tanto. Porque não de novo? Porque haveria eu de gritar minhas respostas, em vez de tentar entender seus caminhos, suas escolhas, seus motivos?

As perguntas estão aí e ninguém respondeu de verdade, vai. E tudo parece difícil, sem saída ou alternativa. Tudo parece áspero, rígido, sem nuances. Sem meios-tons.

Faz a gente sonhar com ele. O tempo da delicadeza. Do cuidado. Das sutilezas. Do talvez, do por que não, do não sei, do acho que você tem razão. Do vamos andando e no caminho a gente há de descobrir. Há de encontrar abrigo. Uma sopa quente, um cobertor. Um cantinho pra chorar as mágoas e descansar as bolhas dos pés. Uma tina de água pra lavar a alma. Pra lavar as angústias. Aquele tanto de mágoas.

Deixa em paz meu coração. Ele é um pote até aqui. Então, só mesmo lá. No tempo da delicadeza. Se lembra, maninha? Tinha a fogueira, os balões. Os luares do sertão.

Se lembra do futuro que a gente combinou? Eu era tão criança e ainda sou. Continuo naquela. Querendo acreditar que o dia vai raiar só porque uma cantiga anunciou.

Apesar. Malgrado. Embora. Contudo. Entretanto.

A gente continua. A gente vai levando só de birra, só de sarro. A gente vai fumando, que também, sem o cigarro….

E não me deixe aqui, tão sozinha, a me torturar
que um dia ele vai embora, maninha, pra nunca mais voltar.

(Viu? Eu disse que continuava tão criança. Idade vai mudando todo dia, maturidade é outra parada.)

 

Meu peito minhas regras

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 Seios. Peitos. Começo esse texto dizendo que admiro a beleza dos seios femininos. Seios que devem ser deixados livres para respirar, e para serem como forem. Seios fartos, seios discretos, seios de qualquer forma. São bonitos e são, cada qual, pertencentes às respectivas mulheres que os carregam. A elas, só elas, e mais ninguém.

Custamos muito nessa sociedade machista a aceitar o fato de que o corpo da mulher pertence somente à mulher. E não importa se ele está exposto ou coberto até o pescoço, nosso corpo é nosso e de mais ninguém. E temos o direito de dispor desse corpo como quisermos. Onde e como quisermos.

E não, não quer dizer que isso é um convite ao macho e aos olhares cheios de fetiche se os peitos estão descobertos, desnudos, ou aparecendo debaixo da blusa. Com decotes. Cobertos ou tapados. Não, não se trata de outra pessoa, não se trata de sedução, não é sobre você que está olhando, que está passando, que está convivendo. Trata-se do direito da mulher dispor sobre seu corpo, andar com seu corpo pelas ruas, fazer dele o que bem entender sem que outra pessoa se aproprie, interfira, ou invada esse corpo. Mesmo que com olhares avessados.

E dentre essa liberdade dos peitos e do corpo da mulher, tem um tema que sempre aparece: a amamentação. Essa fase em que algumas mulheres cis experimentam alimentarem seus bebês com algo incrível que eles podem receber: o leite materno. Colo, leite, peito, boca. Tudo ali, numa relação que é cotidiana e faz parte das paisagens do dia-a-dia.

Mas não é assim tão fácil. As mulheres cis que amamentam passam por diversas situações de constrangimento e restrição aos seus peitos de fora. Locais apropriados para amamentar. Expulsão de lugares públicos. Convites a amamentarem seus filhos em banheiros ou salinhas “apropriadas”. As restrições moralistas ao “local” da mulher amamentar, e como ela deve amamentar, são absurdos mascarados de “boas regras de convivência”. Machismo camuflado em cada olhar julgador do peito de fora amamentando uma criança.

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Não, a mulher não tem que usar paninho para esconder o peito. Não, não tem que amamentar no banheiro ou em salinhas escondidas. Ela não tem que nada. O lugar da amamentação é onde e quando a mãe e a criança quiserem.  E você que está em volta não tem nada a ver com isso. Acostume-se que a mulher tem um corpo, e que esse corpo pode ser usado como e quando ela quiser, da forma como quiser, e você não tem o direito de tolher ou esconder ou abusar desse corpo. Bem como você não tem o direito de interferir nessa relação: deixa a mulher dar o peito para o bebê, ou não dar o peito para o bebê, pelo tempo que quiser ou não quiser. Para a criança grande demais para mamar ou para a criança pequena demais para ser desmamada. Você não tem nada a ver com isso.

Venho discordando de posturas que praticamente obrigam ou julgam a mulher que hoje escolhe não amamentar. Ou escolhe, no cansaço do seu dia ou da sua noite, dar um complemento para o bebê. Dar um danoninho, uma chupeta. Um leite artificial. Sim, não tenho dúvidas acerca da importância da amamentação. Meu filho mamou até os 3 anos (essa foi a minha escolha e a minha história, que não se aplica a outra pessoa). Bem como não tenho dúvidas de que existe pouco apoio à amamentação, que as mulheres não são orientadas corretamente a amamentar, tirar leite para xs filhxs tomarem enquanto não estão perto etc, e que a indústria do leite artificial é poderosa em seus artifícios capitalistas e suas estratégias para vender leite e desqualificar a força e importância do leite materno, atingindo inclusive diversos profissionais de saúde que atendem essas mulheres.

Sim. Mundo capitalista, indústrias lucrativas em cima das mães e seus bebês, várias estratégias para minar a amamentação e aumentar o lucro das empresas de alimentos. E amamentar é de graça. E está tudo ali. Eu adorava a praticidade da amamentação. Não precisa lavar mamadeira, não precisa esterilizar, não precisa comprar lata de leite, nada. É só colocar o peito pra fora e pronto, você sabe que a criança está bem alimentada. Mas, e a mulher que não quer? Que não gosta? Que não consegue buscar apoio? Que trabalha e não aguenta a criança acordando de madrugada? Que tá cansada? Que tem sono? Ou que simplesmente não quer? Já ouvi absurdos julgadores que não tenho coragem de reproduzir. Não, essa mulher não é obrigada pelo bem do seu bebê. Não, essa mulher não precisa nada. O corpo é dela, o seio é dela, e na minha opinião isso sempre estará acima do que “é melhor para o bebê”. Recentemente vimos o caso absurdo e criminoso de uma mulher ser levada para uma cesárea contra sua vontade pelo argumento falacioso de que “era melhor para o bebê” (veja mais  aqui). Quem sabe o que é melhor para o bebê?

Quando aprenderemos a respeitar a escolha das mulheres, seja ela qual for? Mesmo que consideremos – no caso da amamentação – que essa escolha não totalmente é livre, pelo fato da mulher estar influenciada pela indústria do consumo, vamos respeitar e não intervir na amamentação ou não amamentação alheia? Vamos deixar de lado julgamentos às mulheres e nos concentrarmos na militância contra o sistema? Ademais, já é tempo de garantirmos às mulheres o direito amplo e irrestrito ao próprio corpo.

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* texto inspirado em uma discussão no facebook, principalmente nos meus diálogos com Deborah Leão, a quem agradeço a contribuição e as partilhas!

 

 

 

Um conto de fadas que não acaba

Era uma vez uma menina que sonhava. Com grandes feitos, com lutas contra o mal.

Ela tinha ouvido histórias contadas pelos antigos. Histórias dessas lutas, e sabia que muita gente tinha sofrido, tinha sido presa e torturada por conta delas.

A menina com a cabeça cheia de sonhos alimentava esses sonhos com livros. Muitos muitos muitos livros. Os livros eram um mundo que a acolhia: quando o mundo daqui se tornava por demais doloroso e estranho, ela mergulhava sem escafandro nem garrafas de oxigênio no mundo dos livros.
Mas lá ela tinha guelras.
O mundo dos livros era familiar e mágico, aconchegante e estranho. Mas uma coisa – ela bem sabia – era certa: ele sempre estaria lá. Quando tudo mais não estivesse, sempre haveria o mundo dos livros. E para lá ela poderia fugir, lá ela podia se refugiar.

(esperem aí que eu vou buscar um café e conto mais.)

Pois então. Teve aquele dia. Em que um personagem do mundo dos livros apareceu no mundo de cá. E foi como Monteiro Lobato, que sabia das coisas, conta, quando os personagens do País das Fábulas resolveram visitar o Sítio do Picapau.
meio bagunçado.
De repente a fronteira se esgarçou, as brumas se afastaram e os dois mundos se encostaram.

Mas isso não pode.
(ou tão pouco).

A gente de verdade pode ir no mundo de lá – contanto que crie guelras.
Mas os personagens de lá…. é melhor, quem sabe, que fiquem lá.
Eles não fazem de propósito.
Eles acham que são gente como a gente.
Não são.

A gente torce para que tudo “dê certo”. Pra que caminhos que constroem novos sonhos e recuperam antigas esperanças se firmem e se concretizem no mundo de verdade.
A gente tá perto, olhando, querendo que dê.

Mas com cuidado.
Devagar.
Sem esquecer
que a gente é daqui.
Que eles são de lá.
E que os encontros podem até acontecer.
Mas tão pouco.

(e é por isso que o conto de fadas não acaba).

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