Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

Sem correntes

Eu sei, é um doce te amar

O amargo é querer-te pra mim

Do que eu preciso é lembrar, me ver

Antes de te ter e de ser teu, muito bem

Los Hermanos – Condicional

Demorei pra entender o que é amar, às vezes, acreditamos que amar é prender, isso é uma mentira! Nem sempre amar é compreender os atos dx outrx. As vezes, amar é dar espaço, mesmo quando dói se afastar. Amar é ser amiga quando se está apaixonada, pois sabe que carinho está além do tesão.

Amar é se encantar com as diferenças, é aprender com vivências diversas, é encontrar doçura no “dar espaço pra você respirar”. Muitas vezes, amar não significa lutar pra que dê certo, amar é deixar-se ir, é partir quando não se deseja, mas nos é pedido. É tomar a dolorosa decisão de não beijar quando seu maior desejo é beijar todo o tempo. Amor é respeito e compreensão, até quando respeitar x outrx dói no peito.

Em uma situação atual, estou aprendendo que deixar livre quem se ama é a maior prova de amor que poderia dar. Sei que não é um adeus, sei que, mesmo com essa vontade enorme de não dar espaço e tempo, a única atitude que posso tomar é dar espaço pra que se respire novos ares. Amar é não ter gaiolas, correntes, nada que nos prenda, pra que não fique a força, se me doer sua partida, problema é meu, você já tem os seus problemas, receios, questões, não terá que lidar com a minha dor.liberdade

Escrever nunca foi tão triste

Tentei escrever,
colocar os sentimentos em palavras.
Pensei em você,
os versos, em gotas, molharam o papel.

(Alves Rosa)

 

Ontem, olhei as nossas fotos. E todas as lembranças se transformaram num filme que assisti sozinha…

Quando te conheci, juro, não esperava nada. Eu realmente acreditei que você seria escreverapenas mais um entre tantos que poderiam estar comigo. E confesso que gostava dessa fase de incertezas. Porque parecia que quanto menos pistas nós tínhamos do futuro, mais a vontade de estarmos juntos aumentava. As descobertas eram o alimento dela.

Agora, estou tentando entender onde foi que nos perdemos um do outro…

Dói. Dói ouvir você dizer que é impossível não gostar de mim, mas que não se sente feliz ao meu lado. Ou quando você me pede para pensar nos momentos bons que tivemos. É torturante essa dor. É duro cultivar memórias que não irão se repetir. E chego a pensar que sua indiferença talvez doesse menos em mim do que a sua oferta de ombro amigo.

Ser amigos. Esta foi uma das muitas promessas que fizemos um ao outro ao longo da nossa trajetória como casal. “Casal perfeito”, nas palavras de nossos amigos e familiares. E mesmo passando a vida inteira desconfiada de “perfeições inabaláveis”, acreditei genuinamente na nossa. Achei que realmente nada iria nos abalar…

E por mais difícil que seja o meu momento atual e te dizer isso, vá. Não quero ninguém ao meu lado por pena ou por consideração. E quando você realmente souber o que procura, seja feliz! De verdade.

Quem sabe um dia, a gente não consiga cumprir aquela promessa, não é mesmo? É que as feridas não cicatrizam imediatamente após o impacto.,,

tumblr_lcyv5867q91qakmqso1_500E feridas de amor demandam muito cuidado. Porque só ama novamente um coração verdadeiramente curado. E enquanto não ama, sente mil coisas inexplicáveis. Às vezes, vai do bem querer à raiva em questão de minutos. Mas até isso passa. E ensina.

Muitas foram as páginas em branco que preenchi. Ora com cores, ora com dores materializadas em palavras. Mas escrever, para mim, nunca foi tão triste como agora.

 

Lutar contra a violência dói

Por Niara de Oliveira

violence_woman

Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

🙁

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:'(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:'(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

Das cruzes, ou sobre a vitimização

Dizem que cada um sabe a “cruz” que carrega. Um saber quase que fundamental. Conhecer a própria dor, ou dores, é a possibilidade de tomar as rédeas da própria vida, de tomar decisões conscientes – quem poderá dizer se são acertadas ou não? Mas o que dizer de quem, em nome próprio ou alheio, faz de alguma “cruz” um motivo de expressão da culpa coletiva sobre si? Como lidar com a vitimização?

As cruzes nossas de cada dia

As cruzes nossas de cada dia

Vitimizar é um processo de mão dupla. Começa em um lado não entender a dor do outro e o outro buscar atenção, por vezes supervalorizada, para si. Mas, atenção: vitimização não é aquela pessoa que chega pra você e quer conversar sobre um problema e você não está com saco. Isso é alguém com um problema e você, provavelmente, uma pessoa sem saco, ou um babaca, ou alguém que não se acha íntimo suficiente para tal. Vitimização é fazer do próprio sofrimento uma bandeira de privilégio. Vitimização é fazer da própria dor algo maior que a dor dos outros.

Eu sei, tem gente que tem bicho de pé e tem gente que tem HIV, tem gente que nasceu negro, pobre, marginalizado e tem gente que nasceu no Leblon, mas quem disse que a vitimização não está justamente em entender a dor do outro em relação à própria dor? Aliás, uma grande questão é como medir – se é que isso é possível, um sofrimento pessoal face ao convívio social? Quem tiver a resposta, tenho aqui alguns doces…

Suspeito, contudo, que é justo na dor do outro que encontramos a forma de entender e lidar com a própria dor – e não estou falando no “olha como ele sofre, que sorte que eu tenho”. Se é que essa existência serve para alguma coisa, ela serve para o fazer junto. Assim como nos satisfazemos em ter prazer com o outro, procurar lidar com a própria dor junto com a dor do outro é uma forma unir forças e encarar a realidade. É, sobretudo, uma forma de buscar apoio aos próprios problemas em um processo de troca. É uma forma de buscar carinho e apoio em alguém que tenha uma possibilidade de lhe entender.

Não por acaso, a tônica dos coletivismos minoritários é essa. Utilizar a própria situação de marginalidade, de enfrentamento do preconceito e da exclusão para reunir forças e se fazer valer para além de sofrer a existência. E, por favor, não entendamos a alegoria da “cruz” como algo imposto, como algo irrefutável. Talvez não seja a melhor alegoria para dor, mas tem a força simbólica, para além da religião, de um processo de superação. Afinal, entender a própria dor é um grande passo no auto-conhecimento, que não vai diminui-la, mas desconstruirá a ótica de “fantasma”que ela possa ter.

Das sobrevivências

a dor é minha, em mim doeu, a culpa é sua, o samba é meu

Porque tem a dor.

Junto com quem mergulha, junto com o gozo, no fundo do copo, a dor. Por vezes corpulenta, densa, gelo sólido para lamber aos poucos. Por vezes fluída, cachaça que se toma num gole só.

Inebriante. Abre os poros e toma conta de tudo por dentro.

Dói, imobiliza, e a gente chora. Choro biscate é um choro aos rebentos: soluços vistos e vergonha nenhuma. Quando dói a gente grita. Um grito lá do fundo da garganta, sentido no fígado, no estômago, no coração aos pedaços. Um grito de alma.

Porque o revés do amor é a dor. O revés da busca da liberdade, a incompreensão. O revés da intensidade, a depressão. O revés da alegria nossa de sorrisos largos, o choro desesperado, sem rumo e sem descanso. O revés é nosso e a gente o recebe. Ele faz parte da busca.

 A gente busca, e a gente sobrevive. A bisca Raquel Stanick já me disse, no desconsolo de uma noite longa de lágrimas: nós somos sobreviventes. As biscates são sobreviventes.

É minha amiga, a gente segue sobrevivendo. Porque se há de seguir e acreditar que a luz do sol aparece por entre as nuvens. Aquela luz que a gente já viu tanto, que já nos cegou de claridades, que já nos aqueceu e nos nutriu para ir além.

Porque a gente quer o além. Biscate quer o além de si mesmo, refletido nos olhos dos outros. Quer o que está por trás. Os avessos bonitos de doer a vista. A gente inteiro cheio da gente mesmo. O amor para além dos falseamentos. O sexo para além do gozo. Ou como disse Clarice: o extraordinário tão simples de ser encontrado nas coisas comuns.

 Mas quem se busca, e busca algo mais que os protocolos e padrões engessados, os “sins” do altar dos noivos, o comprometimento de conta conjunta, as certezas do mundo concreto, já sabe que tem a dor. Quem vê para além do que a vista alcança tem dor de cabeça, por vezes, e cansaço de pernas estiradas. Quem busca o grande salto já sabe que tem que colher os espinhos das pequenezas e das tristezas dos lagos rasos. A gente se machuca, com a ingenuidade incansável de acreditar.

 Biscate tem ingenuidade, acreditem, ingenuidade de acreditar que a felicidade funda existe, de que é possível somar, de que alegria verdadeira é verdade. A gente já esteve lá, a gente já provou, a gente já viu, tá lá e é possível tangenciar um mundo livre para se ser feliz. Feliz e contingente, onde tudo pode ser, e tudo pode ser diferente. Feliz com as escolhas que vem do fundo do coração. Feliz com as aberturas, com os finitos, com o humanamente rico de possibilidades. Feliz e comprometido com o bem estar maior de se estar vivo.

 Mas enquanto isso a gente também chora e sente dor. Uma dor tão funda que às vezes a gente não respira. Um soluço continuado que parece que a gente não tem teto.

A dor é nossa e a gente chora. Forma rios e se afoga neles, para depois subir ainda mais dispostos a ir em frente. Porque quem quer muito, tem tudo muito. E eu quero o muito, a vida latente, sem roupas apertadas. Eu quero a nudez. Nadar na praia sem roupa e sem medo das ondas grandes e das submersões nos fundos gelados.

Vamos em frente?

O dom de ser feliz

Tem gente que acha que a gente que é biscate não sofre por amor.

A gente sofre, sim. E chora. Ou não chora.

E sofre, por nós e pelos outros. A gente se chama de biscate, e tira do outro o gostinho de achar que ofende, mas a gente se entristece com gente que fecha os olhos. Com gente que nega alegrias. Que nega amor, que nega amizade.

A gente sofre por amor, a gente sofre por ver o preconceito e a discriminação ainda fazerem vítimas. A gente se engaja, as vezes, só do sofá, as vezes, saindo para a rua, as vezes, só militando em nossos círculos mais restritos.

A gente sofre quando vê a miséria física, explicitada em crianças nas ruas. Quando vê a miséria espiritual, sangrando nas páginas policiais.

Eu sofro quando vejo o outro sofrer. Eu me importo.

E a gente sofre quando o Outro, aquele que um dia nos teve nos braços, vai embora, leva tudo de si, tenta apagar toda e qualquer lembrança. Tenta contaminar, quem sabe sem querer,  toda lembrança boa, tudo que poderia ter ficado, ou que poderia ter sido.

Mas a gente vai e chora, e cai em outros braços. Braços de amigos ou braços de amantes.

E de repente, ela está ali.

Felicidade.

Outro dia acordei assim, de um sonho no meio do sonho, e sonhei com um beijo e um afago.

Mas não eram os dele. Já não era sem tempo.

Saudade tem fome, se a gente não alimenta, ela míngua.

Estou matando a minha de outros sabores, alimentando outras vontades.

Estou viva, cada dia mais.

Já paguei minha divida com as saudades, já não quero mais doer.

Quero o gozo infindo, aquele que parece a morte.

E acordar em outros braços.

Felicidade.

Não é alegria.

Não é estar apaixonada.

Não é acreditar que é retribuida.

É tanta coisa, e não é descritível.

É crível, só isso.

Palpável.

É se bastar, mas ter espaço para o outro, para os outros, para a preocupação e o cuidar, para o compartilhar e o dividir, para o egoísmo e o altruísmo.

Eu sou boa.

Quis ser má, quando foram maus comigo.

Mas essa não sou eu.

Quando chega a vazante, eu sou de Câncer.

Tenho minhas memórias e meu aconchego.

E tenho meu sorriso.

A vida segue.

(e para fazer invejinha, que sou boa mas não sou santa, mando uma fotinha de um momento de felicidade simples, ao lado de Renato Teixeira e Almir Sater, depois do show em BH)

Depois do show, a gente segue, tocando em frente
Eu sei… que nada sei…

Um(ns) Final(is) Infeliz(es)

Quando ela o conheceu, tudo era diferente. Ela era ela e ponto. Usava aquelas roupas viçosas e coloridas, como sempre gostara. Seu perfume era marcante e sua maquiagem brilhava tanto quanto seu sorriso. Havia sim quem achava tudo aquilo uma cafonice sem precedentes, mas ela não ligava. Como disse, ela era ELA. E ponto. E se orgulhava muito disso.

Pensando ela que havia encontrado a “sua metade”, começou a namorá-lo. No princípio, tudo era mágico. Declarações apaixonadas, flores, presentes. Juras infinitas de amor. Aos olhos de todo mundo que conheceu aquele casal, parecia que aquele era um relacionamento perfeito. Parecia que ele a amava mais que a própria vida. Parecia tanta coisa bonita que acabou ficando bem difícil entender o que na verdade se passava.

Tudo começou com algumas pequenas censuras. Sabe aquele ciúme bem de leve que em algum momento todos enxergavam como se fosse “bobagem de casal”? Pois é. E de tanto todos acharem aquilo normal – ela inclusa – acabaram por não perceber o que aquilo realmente representava.

– Com essa saia, você não sai de casa comigo!

– Mas, quando você me conheceu, eu usava justamente essa saia! Por que isso agora?

– Porque agora você é minha mulher. Minha! E mulher minha não se veste feito puta. E mais: não quero que converse ou ande junto com aquela fulaninha lá. Não a vejo como uma boa influência para você.

Silêncio. Obediência e troca de roupa. Tristeza, que foi rapidamente relevada. Afinal, ela o amava e achava que no fundo, tinha razão. Agora, ela era comprometida e tinha que se policiar mais em relação às suas atitudes. Mesmo que boa parte de seus dias tenha se transformado num verdadeiro inferno.

E ela, sempre com a culpa rondando seus pensamentos, foi deixando de ser quem era. Perdeu seu brilho, seu sorriso. Não fazia mais o que gostava, afastou-se dos amigos e da família. Cobria seu corpo, como se sentisse vergonha e medo dele ao mesmo tempo. E ainda assim, achava que estava tudo bem. Que era assim que tinha de ser e que o orgulho que um dia tanto teve de ser como era se transformou em dor.

A partir daí, foi um passo para que toda essa violência passasse da moral para a física. Ela começou a apanhar por qualquer motivo, bastava contrariá-lo. Com medo de denunciar e de perder a vida ou de colocar a vida de sua família em risco, calou-se. E só parou de sofrer quando foi morta. Morta por aquele que mais amou. Por aquele que deveria (ele prometeu isso!) proporcionar a ela felicidade.

Finais tristes como este infelizmente não são exceções. Ainda hoje, mulheres têm sua existência ceifada todos os dias. A violência contra a mulher não é um mero problema de casal e deve ser coibida efetivamente. Afinal, “ELA” poderia ser eu, você, uma amiga, sua mãe, ou alguém que você goste muito. Esta poderia ser a história de qualquer uma de nós, biscates ou não. Basta ter nascido mulher.

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