Mensagem Para Uma Paixão de 20 Anos

Por Mabel Dias, Biscate Convidada*

mensagem

Era um dia como outro qualquer. Acordei para ir ao trabalho e como sempre  faço chequei as mensagens no Whatsapp. Deparei-me com uma que chamou minha atenção. Era de um amigo  com quem há muito tempo não conversava. Achei estranho, pois ele nunca me mandava mensagens, nosso contato era tão formal que mal nos falávamos virtualmente. Apesar de achar estranho, fiquei contente com aquele contato. Tomei café e segui para o trabalho normalmente.

Ao chegar lá, comentei com uma amiga sobre a mensagem que havia recebido. Ela me sugeriu conversar com ele e saber qual é.

– Ah, amiga, se você soubesse, eu sempre fui a fim desse cara!

Sorrimos.

No dia seguinte, checando mais uma vez o aplicativo de mensagens, mais uma. Desta vez, com a foto de uma flor e a pergunta de como eu estava. Isso me enchia de felicidades e ao mesmo tempo de angústia. Não tinha coragem ainda de perguntar o que estava acontecendo.

Conversando com outra amiga, ela me disse para desencanar, pois podiam ser apenas cuidados e gentilezas de um amigo. Mas, dentro de mim, havia algo que sinalizava que não era apenas isso. Mesmo assim, não quis criar coisas na cabeça.

Os dias foram passando  e eu fui me acostumando a, toda manhã, ser acordada com estas mensagens de carinho. Minhas manhãs eram tristonhas, pois havia acabado de sair de uma depressão, e o que ele estava me proporcionando eram momentos de alegria, que me reenergizavam.

De repente, as mensagens se tornaram mais explícitas. E aí, o sinal vermelho acendeu: Nossa, será que ele está apaixonado? Este não era o problema, mas sim o fato dele ser casado. Isso para mim era um choque.

Criei coragem e perguntei o que ele pretendia com tudo aquilo.

– Pretendo pretender….não sei – ele disse.

E eu a cada dia ficava encantada e perturbada. Se fumasse, já tinha fumados os cigarros do mundo inteiro, tamanha minha angústia. Era o homem de quem eu tinha sido a fim na adolescência, que eu sempre quis e que agora estava aí, atraído por mim. Mas, eu também pensava: já foi, é passado, ele perdeu a chance, me perdeu, não vai mais me ter. Ficava num dilema. Parecia ter voltado à adolescência. Era de fato um pouco tarde para isso. Ele vem agora. Casado. Seria tudo isso um pesadelo? Sem falar nessa condição que nos impedia de ficarmos juntos, morávamos em cidades diferentes. 600 km nos separavam.

Apesar de todos os empecilhos, eu me via apaixonada, via a oportunidade de ficar com ele. Mas, mantinha meus pés no chão, pois não sabia ainda – apesar dos evidentes sinais – o que estava acontecendo.

Conversava sempre com minha amiga sobre esta situação, para poder ter a opinião de alguém que estava de fora. Ela, sempre moderada, me alertava para “ter cuidado” e “não cair em armadilhas”.

Em um dia que estavámos conversando via Whatsapp, perguntei a ele se tudo isso não era uma aventura para ele. O casamento devia ter caído na rotina e ele queria apenas se distrair comigo. Ele negou. Porém, em nenhum momento, ele me disse que estava apaixonado. Ao passo que eu já estava e dizia. Ele não admitia. Ou não estava.

Nossas conversas se tornaram  mais íntimas e ele me perguntou se não estava sendo machista por não falar com a esposa sobre o que estava acontecendo. Disse a ele que deveria criar coragem, saber o que realmente queria e aí então conversar com ela.

Toda vez que falávamos nesse assunto, me vinha uma aflição. Já imaginava que ele não iria deixa-la, pois tinha um relacionamento de muito tempo, tinham filhos e até um neto. Aí eu recuava e dizia a ele que era melhor não nos falarmos mais. Voltar ao contato formal. Mas, ele insistia que não queria parar de falar comigo e que não se imaginava um dia sequer assim.

– Você me preenche – ele dizia.

Eu parava e olhava para aquelas palavras piscando em meu celular, suspirava e não sabia o que dizer. Ponderava a situação, pensando sempre nos prós e os contras.

Tudo o que acontecia entre nós era maravilhoso, meu peito enchia-se de alegria. Sinto que fui egoísta em alguns momentos em não pensar em como a esposa dele ficaria, caso ele a deixasse. Ao mesmo tempo, sentia que isso não era problema meu. Não era eu quem tinha um compromisso. Mas não queria que ela se magoasse. Olha só, eu já pensava que estava com ele.

Eu não sabia o que podia acontecer. Ao final, podia ser eu a magoada, pois existe também essa  história de que os homens casados, depois de algum tempo, veem as esposas como mães, cuidadoras, e aí isso passa a nutrir o casamento, embora não haja mais paixão e às vezes nem sexo. Ou a estabilidade da relação deles poderia oferecer um encanto que a nossa não poderia. Ou a idéia de monogamia como caminho único e obrigatório podia magoar todo mundo.

Enquanto isso, eu ficava naquela situação surrealmente feliz. Em minha cabeça o impasse de dar seguimento a tudo ou dar um basta e dizer: não!

Não tem resposta certa e caminho fácil. Não tem modelo ou prescrição. Histórias são em aberto, sem soluções ou definições. Tudo pode acontecer, nada pode acontecer. Importa que a vida é minha, o caminho é meu. Um espaço se abriu, algo já aconteceu. Daqui pra frente….  verei para onde os passos que dou me levarão.

mabela*Mabel Dias, é jornalista, deu uma força na realização da Marcha das Vadias de João Pessoa e faz parte do Coletivo de Comunicação Intervozes. É uma mulher que luta por um mundo melhor para todas!

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