Biscate e luta não se requenta em microondas

Joy Division foi uma banda que durou exatos quatro anos, ao menos pelo que se sabe. Surgiu na Inglaterra, em Manchester, em 1976, ainda em pleno explodir do movimento Punk no país, e tem seu fim em 1980, após o suicídio de seu vocalista Ian Curtis.

Entre outras coisas é tida como uma banda “depressiva”, com canções em tom obscuro e triste. Apesar disso ser um dos aspectos das canções, esta análise incomoda porque limita as características amplas da obra, que vai além do estado de espírito dos autores das canções e dos executores da interpretação. Como as características elencadas até na própria Wikipédia, em artigo a respeito do conjunto: A experimentação que ia de influencias de The Doors a Kraftweark, o andamento marcial da bateria (que veríamos até depois reproduzidos em algumas canções de outras bandas da época como o U2) e a meu ver um pouco de experimentação com a música “industrial”.

Joy division

As linhas de baixo, a bateria marcial, o uso da eletrônica, o tipo de vocal, referências criticas diretas à política pré-Tatcher, tudo isso é a meu ver um arcabouço de possibilidades de análise critica do trabalho da banda Joy Division, que no entanto é rotulada, catalogada, posta na prateleira das bandas “Depressivas” dos anos 1980.

E ai um tipo de manifestação artística fica ali, exposta ao consumo determinado, determinante, limitado, datado que a diminui a um espasmo de um sentimento de uma época. A partir disso a transformação dela em outros ouvidos em outras experiencias, outros mundos, morre, ela se torna um retrato desfocado do passado.

Se isso ocorre com um conjunto musical e uma manifestação artística, quando nos afastamos de situações menos “tensionadas” na vida social vemos que isso é muito mais amplo e presente. No caso das lutas dos movimentos sociais isso é, como se diz no Rio, mato.

Protesto de feministas estadunidenses a frente do concurso de Miss Universo em 1968

Frequentemente vemos referências às lutas feministas como algo que nasceu, cresceu e conquistou os tais “direitos iguais” nos anos 1970 e que hoje o que rola pelas Ramblas do planeta é uma excrescência, um surto de feminazis arcaístas. E isso não é novo, a própria localização temporal da luta feminista em um dado corte histórico situado nos anos 1960 é também uma redução do papel destas lutas a um elemento, a um momento único, a um tipo de fenômeno curto, localizado e que não tem continuidade nem passado.

Voltamos à transformação de algo em um tipo de artigo de museu, no sentido pejorativo do termo, de algo que o inibe, que o estagna, que o torna monolítico e por isso imóvel, sem cor, incapaz da sedução e de transformação.

Não se diz pelas ramblas que no início do século XX nos EUA , feministas, planejadores urbanos, movimentos anti-corrupção. religiosos, sindicalistas, socialistas meteram bronca na busca de redução da profunda desigualdade naquele país, no combate à falta de direitos políticos e à profunda miséria a que parte da população era exposta.

Não se diz que 20% das mulheres estadunidenses constituíam a mão-de-obra industrial até 1920, que não tinham direitos políticos e já convivam com a dupla jornada de trabalho. Não se expõe que as mudanças advindas da migração do meio rural pro urbano promoviam já atritos contra moral sexual vigente e levam à mulheres a experimentarem práticas sexuais mais livres, especialmente pelas jovens mulheres, que “batiam de frente” com valores tradicionais e tensionavam os limites comportamentais e políticos de então ( e que me parecem presentes ainda hoje).

Emma Goldman

Emma Goldman

Ao som do Blues, que cantava as vicissitudes da exploração econômica, da discriminação racial, das amarras de raça, classe e gênero, mulheres se embalavam na poesia e iam pro pau. O caso de funcionárias dos correios de Nova York que assumiam um comportamento de bastante liberalidade sexual, biscate mesmo, orgulhosas de sua situação de “independência e liberdade” é sintomático.

Na política “propriamente dita”, de ação sindical e partidária, não se pode esquecer que o formato que vemos cotidianamente em filmes e em abordagens “tradicionais” procura de alguma forma restringir a atividade política feminina às “Sufragistas”, que apesar de terem sido um movimento social fundamental na vida estadunidense da época estavam longe de serem a única forma de participação feminina na vida política cotidiana, não foi a única atuação das mulheres.

Elizabeth Gurley Flynn

E só pra dar um gostinho podemos abrir mão de citar a grande Emma Goldman e partir pra descrição do que as mulheres com e sem nome fizeram nas fantásticas mobilizações sindicais do IWW ( Industrial Workers of The World), que se propunha uma alternativa combativa ao sindicalismo conservador da Federação do Trabalho Americano (AFL em Inglês) e das ações do Partido Socialista da América, cuja atuação pela emancipação política das mulheres foi uma de suas principais bandeiras, mesmo não abraçando todos os aspectos dessa luta. Podemos citar que na greve de 1912 em Lawrence, Massachussets, vinte mil operários, grande parte mulheres, eram embalados por ativistas como Elizabeth Gurley Flynn, que frequentemente discursava para os trabalhadores em enormes comícios.

Kate Richards O’Hara

No Partido Socialista da América o papel das mulheres não era assessório e embora não fossem mais de 15% dos filiados possuíam forte presença na direção e se destacavam como líderes regionais e ativistas importantes como Kate Richards O’Hara, líder socialista de Oklahoma, e a escritora cega, surda e muda Helen Keller, que também era importante ativista no movimento pelos direitos dos deficientes.

São tantas as histórias que desmitificam o ativismo, a militância social e política de homens e mulheres fixados a uma só época, e cara e jeito, como se o mundo fosse um eterno congelador de movimentos, o que inclusive estimula um a busca da idade do ouro perdida (Mas isso é outra história), que teríamos de ter mais espaço para destilar o tanto de informação disponível. E falamos só dos EUA com as informações obtidas no livro organizado por Leandro Karnal, História dos Estados Unidos, há muito mais em cada país e cidade.

Helen Keller

O importante é perceber que não há um papel fixo, limitado, colhido e temporalmente morto, congelado e impossível de se manter ativo em nenhum aspecto da vida cotidiana. Matar a ideia das lutas pela conquista e manutenção de direitos como um elemento contínuo, com um lastro histórico que vai muito além de cortes temporais definidos é um ato político deliberado de tornar estas lutas ou mortas ou como quem atinge o objetivo final de sua existência.

Assim como a música de Joy Division, o movimento politico da mulher, o movimento feminista, não são só a queima de sutiãs da década de 1960 e nem morreram por terem atingido seu objetivo e mais, tem história, tem “linhagem”, tem movimentos pela liberdade, movimentos livres e ações claras libertárias par além de uma só época de “liberdade”.

Nossas vovós não ficavam só fazendo tricô, caras-pálidas!

A luta é antiga, a biscatagem também e não podem, nem querem, ser congeladas. Biscate e luta não se requenta em microondas.

Vermelho escarlate


Sangue, vermelho vivo. Sabe aquele sangue que corre por dentro? Então, a gente tem. E a gente escorre. Todo mês, com a graça da natureza, ele escorre. Bem ali do meio das pernas, seguindo uma rota conhecida que vem das entranhas, do útero, do processo de fazer-se mulher. Um fluxo pulsante que sai pela vagina, e volta para a terra. Que é força fecunda, matéria prima das nossas células.

Sangue menstrual devia ser motivo de orgulho. Orgulho, sim.  Sinal do corpo de que tudo anda bem, seguindo seu caminho de desaguar os rios femininos. Eu menstruo. E todas nós, mulheres, fluímos neste ciclo. Sem se esconder, vamos repetir? A gente menstrua.

E já é hora de esquecermos aquelas velhas amarras que vem dos moralismos antepassados, de que menstruar tem que ser escondido, que tem que ter sofrimento (claro, eu sei, cólica e TPM é um inferno, mas vamos deixar sair!), que trepar menstruada é ruim, que tem que ir no banheiro quase escondida, que o sangue é nojento, é “eca”, que mulher menstruada tem que se recolher e esperar acabar essa “tortura”. Vamos esquecer a história mal contada de que menstruação rima sempre com incômodo, que é ruim ir à praia, nadar, correr, sair de roupa justa e, até, viver, porque tem sangue vindo da vagina.

Deixemos o sangue vir enquanto a gente dança, ama, e se espalha por aí sem medo. Deixemos o sangue vir porque ele é força, uma renovação mensal da gente mesmo. A gente pode se tocar, o sangue que sai é de um vermelho colorido e bonito, a gente pode usar absorvente interno e agora os incríveis coletores menstruais (tire suas dúvidas aqui, no Blogueiras Feministas), a gente pode sentir a nossa feminilidade por inteiro, pode dormir se tiver sono, pode berrar se tá nervosa, pode chorar sem motivo, pode mandar todo mundo a merda, pode viver o que se chama ciclo. Porque a vida é cíclica. E existe prazer nos ciclos, um prazer bom de ser o que se é.

A artista plástica Vanessa Tiegs (http://vanessatiegs.com/) usou o seu sangue menstrual para pintar quadros, esses aí que ilustram o post. Foram 88 pinturas com seu próprio sangue, que hoje transitam por galerias ao redor do mundo. Ousada? Ela foi lá e fez, com seu ciclo, arte. E a gente pode fazer com o nosso ciclo o que bem entender.

Porque biscate é bem vermelho escarlate. Que pinta e borda as mais diversas ousadias de ser mulher.


“É água no mar, é maré cheia” – As Biscates da Zona Costeira Cearense

GUEST POST Por Tiago Costa*

“É do medo que nasce a coragem”  — Mentinha, pescadora da Comunidade de Curral Velho, Acaraú – CE

Imagem do I Encontro Estadual de Mulheres Pescadoras do Ceará -- 27 a 29 de novembro de 2009, em Fortim (Foto: arquivos Terramar)

Conheço muitas biscates: Teens, de classe, desfrutáveis, mães, militantes, feministas… Todas mulheres incríveis e fantásticas!

Quero, nesta oportunidade, falar de outras biscates com quem convivo desde 2006, quando ingressei no movimento socioambientalista na Zona Costeira Cearense. Com elas dividi e divido momentos de luta, de mobilização, de resistência, de desabafo, de ruptura e de muitos risos, festas, conversas e confidências nos terreiros de suas casas: são as mulheres pescadoras!

É muito comum, mesmo na zona costeira, atribuir à pesca como uma atividade masculina. Isso porque nessas comunidades a atividade masculina é mais centrada, enquanto que as atividades das mulheres tendem a ser mais multidirecionadas. Em outras palavras, os homens dão conta das atividades produtivas: pescam ou cuidam da lavoura; as mulheres, além de pescarem e cuidarem das lavouras, dão conta do trabalho reprodutivo (cuidam dos filhos, idosos e doentes, cozinham, lavam, passam, etc.).

E porque essas mulheres são biscates:

Primeiro, mesmo desenvolvendo inúmeras atividades dentro da cadeia produtiva da pesca, essas mulheres sofrem grande invisibilização, inclusive de seus companheiros. Contra isso, elas estão lutando e se organizando para o seu reconhecimento enquanto pescadora, pautando e articulando as políticas específicas de proteção, de assistência técnica, previdenciárias, etc. que demandam a sua participação no setor pesqueiro.

Segundo, nos conflitos socioambientais na zona costeira, são elas que costumam a ser mais afetadas e são elas que estão na linha de frente, nos momentos de denúncia, de articulação, de mobilização e luta contra os projetos de desenvolvimento que destroem seus modos de vida, sua cultura, suas atividades e seu meio ambiente. Posso citar aqui a trajetória da pescadora Mentinha de Curral Velho, que na luta contra a expansão da carcinicultura sobre os manguezais ou no avanço das eólicas que desterritorializam comunidades, sofreu e continua sofrendo ameaças de morte, mas nunca se calou: tornou-se uma grande liderança; viajou meio mundo – chegando a ir representar as pescadoras em um encontro na Índia -; e ainda escreve poesias e frases, como esta que inicia o post.

Terceiro, essas mulheres estão se descobrindo mulheres, falando de si mesmas, construindo conhecimentos, resgatando saberes e se descobrindo a cada dia sobre o seu “estar no mundo”, problematizando questões não apenas sobre o seu trabalho, mas também sobre os seus corpos, as suas vidas, os seus cotidianos e os seus direitos enquanto mulheres.

“(…) e quando a gente se descobre mesmo, como mulher, então a gente começa a se sentir responsável pela história, não só a nossa, mas a história da sociedade, a história das outras mulheres, a história do mundo, – da vida, né?” — Nazaré Flor, pescadora/trabalhadora rural do Assentamento Maceió, Itapipoca – CE

Quarto, para finalizar, essas mulheres se comprometem com uma ação política  que rompe com os paradigmas do patriarcado sem se verem atreladas ou engolfadas em movimentos estranhos as suas preocupações e interesses específicos, através da Articulação de Mulheres Pescadoras. Elas têm aprendido a se reinventarem e a se imporem no seio do movimento feminista contra a dominação simbólica. Com o apoio desse movimento, essas mulheres tem se mostrado capazes de dialogar, de elaborar uma fala pública e de se manifestarem contra instituições que contribuem para eternizar a sua subordinação.

“A grande vingança nossa é a esperança. A mudança traz a ruptura – e às vezes só acontece no grito, na marra” — depoimento de uma pescadora no I Encontro da Articulação das Mulheres Pescadoras do Ceará (AMP-CE)

Logo, desconstruindo as imagens essencialistas que geralmente são atribuídas às mulheres que vivem na zona rural e na zona costeira, espero ter trazido um pouco sobre esse ser biscate dessas mulheres, que reivindicam sua condição de pescadora e lutam por seus direitos, construindo sua própria organização e mobilização contra o patriarcado e contra a lógica capitalista de desenvolvimento.

.

* Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

Um Bicho Bem Bolado

GUEST POST por Gilson Moura Henrique Junior*

Escrever sobre Mulher não é nada fácil.

Apesar do mandamento pessoal de que nada, absolutamente nada, é simples, diante da multiplicidade  de fatores que a tudo influenciam e tornam praticamente todos os âmbitos de nossa vida sob o manto do subjetivo, o arcabouço de significantes que o objeto “mulher” tem, e não a mulher-objeto, não faz do assunto ser bolinho.

O meio de campo embola entre a estruturação de um “mulher” desumanizada, catalogada numa gaveta onde se lê “mãe, dona de casa e servil” e a divisão sistemática que o mundo masculino adora e nada de braçada ao abraçar entre “mulher pra comer ou pra casar”. Isso sem contar as diversas determinações que opõe ativismo feminista a delicadeza, força e agressividade vinculada a lesbianismo, etc.

Além disso tudo, a própria condição de macho, masculino, branco e hétero me torna automaticamente membro do grupo “de risco” da perpetuação de todos os rótulos e conceitos que generalizam a “mulher’”entre esta ser um bicho incompreensível misturado a uma eterna rebelde diante de papéis “fáceis” que esta “tem” de executar para ser uma “mulher respeitável”. As inúmeras aspas  já dão a linha do problema prático, científico, político e sensível, no âmbito pessoal, que falar sobre mulher traz consigo.

A partir dessa introdução plena de explicações que soam quase que como uma desculpa, resolvi mandar às favas os escrúpulos da consciência e declarar numa mistura de termo machista recuperado pelo bom-humor com um cinismo leve pra por a cachola pra sambar na cara da sociedade: Mulher é um bicho bem bolado.

Bem bolado para além dos desejos sexuais e estéticos do escriba, mas pelo arcabouço de significantes que essa belezinha traz pro dia a dia das cacholas plenas, diante do simples fato que mulher, este ser humano que precisa antes de mais nada driblar a la Neymar a perseguição de tantas camisas de força que a buscam despersonalizar, não é apenas um ser humano do sexo feminino, e sim a líder de um cortejo onde é perseguida pelas palavras “mãe”, “esposa”, “hétero”, “submissa”, “serva”, “irmã”, “filha” e fatalmente pelas expressões “deve obediência” e “pra casar” ou “pra comer”.

Mulher, apesar de bem bolado, é algo sempre visto sob ângulos que por vezes mal saem da bunda ou da prochaska. Ouvir uma mulher é algo que é considerado virtude pela sociedade. Quantas vezes não se ouve “esse homem é ótimo, é um bom ouvinte”? Ou seja, ouvir a mulher é considerado virtude pelo raro disso, pela voz da mulher ser considerada no âmbito social, e reproduzida no psicológico, como inaudível ou insignificante para a lógica das decisões cotidianas.

A estética para a mulher tem peso dois, a mulher não pode ser feia, sob pena de ter piadas a seu respeito indicando que estupro pra ela é bom. Homem feio ainda tem o migué de ser chamado de charmoso, mulher feia é quase colocada a ferros. Fora a necessidade atávica da beleza como pré-requisito, o rosto, a bunda, os peitos, as coxas são mais importantes que ela. É claro que como fenômeno social recente, de ao menos 60 anos, isso pega também pro lado macho, mas o peso maior é sobre a mulher que precisa ser bela “para arranjar bom marido”. Além disso tudo a lógica de ser “prendada”, de ter o domínio das “artes do lar”, em um papel restrito a ela, mulher, como se uma condenação, como se a casa fosse residência, mundo privado, dela, apenas dela. O mundo é dos homens, a casa é da mulher.

Esses são apenas exemplos isolados de um sem número de questões, a lógica própria  da sociedade produz outras como a culpabilização da mulher pela conquista de direitos e por estes, por óbvio, também trazerem, qual uma maldição de pandora, ônus, como o da maior mortalidade de mulheres por enfarto após maior participação no mercado de trabalho.

Claro que o senso comum que diz “elas não queriam direitos iguais? tá aí!”, finge não ver que os direitos ganhos não superaram o acúmulo  do novo papel advindo dos direitos com o velho papel nunca superado do macho-paxá incompetente que não lava louça ou se responsabiliza pela participação com culhões no trato com os filhos, ou seja, as moças seguram as pontas em duas frentes e a macharada ainda diz besteira. Fora que dói nos ovos o “elas não queriam direitos iguais? Tá aí!” porque pra mim direitos iguais deveriam ser norma, a diferença, a casta, é tolice de pau pequeno.

É nesse mundo que o “bicho bem bolado” resistente que só, inteiro, digno, se lambuza em ainda nos presentear vidas, artes, lições. É neste mundo de papéis rígidos, rosas, para mulheres e direitos amplos e liberdades totais, plenas, ao ponto de ter defesa prévia em caso da ignomínia do estupro, pro macho adulto, branco, que veste azul, que as fêmeas, por vezes chamadas de feminazis, nos dão o baile de produzirem Rosas, Joyces, Simones, Elis, Cássias, Fridas.

Em uma metáfora ruim: Elas nadam com camisas de força.

Filho que sou de Logunedé com Oxum resolvi escrever após ouvir uma inspirada Maria Bethânia cantando “As Yabás”, onde várias facetas do divino feminino são cantadas através das Deusas Iorubás: Obá, a guerreira forte, masculinizada, que “não tem homem que enfrente”; Euá, a “menina bonita” e virgem que não tem medo de nada; Iansã a guerreira que comanda os ventos, uma menina bonita sem principio ou fim e Oxum, minha  mãe, a mãe, a beleza, o rio.

Ouvi também “As Minhas Meninas” de Chico Buarque onde a longa educação do “macho protetor” é dita com sensibilidade que não o torna um ditador, onde “As meninas são minhas só minhas na minha ilusão” e no entanto “ E a solidão maltratar as meninas, As minhas não”.

Tudo isso gerou esse post imenso. Porque foram “As Minhas Meninas” que junto com um velho ogro, me tornaram o que sou. Foram elas, que me pertencem sem meu domínio, a quem pertenço, qual pertenço às deusas de minha fé, que  me fizeram irmão, amigo, amante, namorado, noivo, filho. E a cada minuto desses tendo de obrigatoriamente superar as  imposições que tornavam cada menina algo menor, desumanizado, ínfimo, parco, calado.

Os ogros tem camadas, e os velhos ogros sabem disso. O maior legado dos ogros é não ver nem dizer as biscates assim, como menos, como parte, como gueto, como sem alma.

Tantas as biscates são, tanto quanto as deusas, de tantos tipos, tantas são estas “Minhas Meninas”, com tantos rostos, formas, deslizes, acertos, risos, gritos, ódios. Como torna-las apenas mães? Como torná-las “devoradoras de homens”? Como dividi-las em “pra comer” ou “pra casar”? Cabe “pra amar”?

E “homens” somos só “homens”? Não somos grandes, pequenos, gordos, bobos, ogros, falsos, mortos, vivos, fogo, água? Somos pedras encaixadas ou seres?

Somos, antes de mais nada, um bicho bem bolado.

.

*Gilson Moura Henrique Junior é um ogro intolerante com altas doses de doçura, carioca, tricolor, da extrema esquerda incendiária que se define como “um malaco de classe poetizando respingos” e que veio a esse mundo para enfiar o dedo na ferida alheia. Quer conhecê-lo melhor (por sua conta e risco)? Ele escreve o blog Na Transversal do Tempo e você pode achá-lo no tuíter @redcrazydog.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...