Bunda que abunda ou qualquer outro trocadilho besta

Com a inenarrável,  imprescindível e indefectível coautoria de Bianca Cardoso

Em meio a estupores políticos e tremenda crise hídrica na cidade de São Paulo, incluindo ameaça de racionamento 5×2, foi a bunda da atriz Paolla Oliveira que quase quebrou as internetez na semana passada. Trending topic por dias, seja lá o que isso realmente signifique, o certo é que a bunda de Paolla desbancou até mesmo o eterno Luan Santana do topo do Twitter. Um bunda apenas. Não. Melhor me corrijo. Uma bunda nunca é apenas. Ou mesmo “uma”. É um conjunto, afinal vem com duas band…. Não, pera! Que srta. Bia me pediu pra superar as piadas do tio do pavê, que isso aqui é coisa séria. A bunda que reposiciona carreiras e eleva a status de estrela devassa e abundante a mocinha chata e insossa das novelas globais tem que ser tratada como a celebridade que merece. Transcendente. Até parece que nunca se viu bunda igual e nem Drummond faria melhor.

bundapaola

Tentei entrevistar a bunda de Paolla pra entender melhor esse fenômeno e saber se ela estava confortável nesse papel de musa. Mas, com toda a fama, ela nem tchuns pra mim e pra minha bunda comum e corriqueira. Acabei pegando mesmo a primeira que passou na minha frente. Uma bunda anônima, da voz rouca das ruas, mas que também almeja fama e sucesso. Enquanto espera convites e que reconheçam o talento das suas formas e meneios, resolveu expor sua posição (ui!) e suas opiniões sobre o bundalelê que tomou a TV brasileira nos últimos dias.

Algumas pessoas comentaram que a cortina fez toda a diferença para a atuação da bunda. Você concorda com isso?

Bunda: Acredito que a cortina seja uma boa parceira nas cenas diurnas. Ela traz aconchego quando a bunda precisa de calor e ao mesmo tempo evoca a transparência que está super na moda.

Quando a bunda sai de cena, ela continua presente no imaginário. Qual deveria ser o foco de Paolla em seu próximo papel?

Ah, o foco sempre deve ser no meio, ne? Pra respeitar o protagonismo das duas bandas da bunda. É importante que todo o conjunto se sinta confortável no papel, que a calcinha seja macia, que as partes da bunda e o cu sintam-se incluídos no processo. Afinal, uma bunda não faz sucesso sozinha, é um trabalho de equipe.

Você, enquanto bunda anônima, se sentiu mais representada na mídia?

Há muito tempo há bundas na mídia. Especialmente nessa época de carnaval. Não me sinto representada, pois a maioria das bundas anônimas não é tão perfeita como os filtros da mídia mostram. Nossa beleza está nos detalhes, no rebolado e na esperteza de muitas vezes ter um cu guloso.

A bunda anônima tem uma vida tranquila nas grandes cidades ou pensa em mudar-se para o interior?

A bunda, por mais anônima que seja, por mais pequena ou grande que seja, geralmente não tem muita paz. Porque no Brasil existe essa cultura de passar a mão na bunda, até sem querer, apesar de Gonzaguinha já ter dito que ninguém tá com ela exposta na janela. Então, não é fácil viver nas grandes cidades com todo assédio e os péssimos assentos do transporte público. Também não é fácil viver em eventos familiares com todas as piadinhas envolvendo legumes fálicos. Cada bunda sabe a dor e a delícia de ser o que é.

O cu diz que muito do sucesso da bunda, deve-se a ele. Como você vê essa crítica?

A história e a Anaconda de Nicki Minaj não me deixam mentir. Por mais que eu e o cu sejamos uma dupla infalível, há segredos profundos envolvendo essa parceria. Como ele tem fama de gostoso, só precisa fazer mistério para ter sucesso. Eu tive que me expor, ir a luta, dançar muito o É o Tchan para ser plenamente reconhecida.

A bunda que vai é a mesma bunda que vem? Ou todos os dias há novas experiências?

A bunda que vai e vem nunca é a mesma. A cada movimento, a cada requebrada, a cada rebolation, surge um novo hit do axé. Numa sociedade capitalista a bunda nunca deixa de ser explorada em toda sua solidez e liquidez. Como diz Zigmunt Bauman: “Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade”. Para uma bunda, tudo depende da cueca e da calcinha. Apesar de nos darem segurança, apenas sem elas há a verdadeira liberdade.

Qual a maior dificuldade que uma bunda enfrenta pra mostrar o seu talento?

Olha, pra mim, nossa maior dificuldade é segurar o cu. A gente tem visto tanta coisa esquisita ultimamente, que ele cai toda hora, ne? Pra botar no lugar depois dá o maior trabalhão.

 

 

Silvia

Na cidade de São Paulo, cidadãs descobrem que a bicicleta é também um meio de transporte. Leia a entrevista com a educadora física Silvia Oliveira, de 31 anos e moradora do bairro de Campo Belo.[zona sul]

foto: Antonio Miotto

foto: Antonio Miotto

1-Por que você escolheu a bicicleta como meio de transporte?

“escolhi a bicicleta, como meio de transporte por perceber quanto tempo eu perdia no trânsito.”

2. De modo geral, a saúde melhorou depois que começou a pedalar? O que melhorou exatamente?

“melhorou sim e muito! passei a ter muito mais fôlego, minhas pernas ficaram beeem mais fortes, e eu passei a me sentir bem mais alegre, bem humorada e de bem com a vida!”

Foto:  Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

3. Se uma pessoa que está pensando em usar mais a bicicleta no dia a dia perguntasse a você: “E aí, o que tem de bom em pedalar em cidade grande?”, o que você responderia?

“como passar a vivenciar a cidade de maneira mais humana, mais intima e verdadeira. sua vida passa a ter mais cores, sons, passa a ser mais vida! fora q vc passa a ter mais folego, condicionamento fisico e pernas incriveis! [risos]”

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

obs. hoje, segunda-feira, ocorre o encontro entre algumas as paulistanas que caminham e pedalam, conhecido como “miça” [ um trocadilho para o hábito de beber com as amig@s em algum bar de esquina…]

Para além das caixas… Marie!

Para além das caixinhas que nos aprisionam e condicionam a agir de forma A e reagir de forma B nesse mundo machista, homofóbico, racista, etc, todo encaixotado, há aquelxs que lutam para quebrar as caixas, transpor os muros, virar esse mundo do avesso, refundá-lo baseado na lógica dx humanx. E se não for possível nada disso, pelo menos viver livremente, ser o que é, o que quer ser. 

Hoje os holofotes da Semana Bisca de Luta pelo Dia Internacional da Mulher são para a Mariana Rodrigues, inclassificável, desencaixotada.

marie

“Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo, eu quero morrer no seu bloco, eu quero me arder no seu fogo…” umas palavrinhas de apresentação
Sou Mariana, Marie, @marioca, lésbica, feminista, mulher, múltipla, singular, sem graça mas cheia de graça… Tentando superar o Retorno de Saturno, tentando entender o que é estar prestes a ser balzaquiana… analista de relações internacionais de formação e bailarina de coração…

“cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, assim, pra começar, o que é ser mulher pra você… Ser mulher é ser tudo e nada quando bem quiser e entender. Ser masculinx e femininx, ser neutrx quando der vontade. Ser independente de padrões, estereótipos, escolher pela maternidade ou não, é escolher ser mulher independente do seu sexo biológico, é viver livremente sua sexualidade. Mas ser mulher pra mim é, principalmente, entender sua condição no mundo e viver plenamente todas as suas possibilidades.

“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Quais as principais dificuldades que você encontra no cotidiano que você relaciona com sua condição de mulher? Mulher e Lésbica, feminista e fora do armário, negando totalmente tudo aquilo o que a sociedade definiu como normal para mim e tantas outras. Dificuldades e violências são muitas e múltiplas, a gente acaba enfrentando todos os dias o medo da violência física, lida todo dia com a violência simbólica, é ter que viver com seus direitos negados e a sua segurança ameaçada, tem que provar a todo momento que você é alguém além da sua orientação sexual. Cada lugar novo que você conhece, cada pessoa nova que você encontra é sair do armário novamente, às vezes é muito bom e às vezes é muito difícil. Cada vez que tem sair do armário você perde toda sua individualidade, vira a sapatão da escola, a machorra do escritório, e por aí vai… É a dificuldade de lutar contra a invisibilidade, dentro do movimento de mulheres e dentro do próprio movimento que teoricamente nos representa. Mas é também ressignificar, é se apropriar de ser SAPATÃO com orgulho e tudo mais que tudo que tenho direito porque é como biscate orgulhosamente sapatão (ou seria sapatão orgulhosamente biscate?) que eu vivo nesse mundo.

Marie

Marie in love

“qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”. Você concorda? há algum limite? e o sexo, entra nessa operação? é dela dependente? Qualquer amor vale a pena e deve ser vivido e sentido, até se esgotar ou transbordar, qualquer maneira de amar é mais do que válida. Amar a si, amar a vida, amar o outro e a outra ou outrx, amor platônico, amor correspondido, amor vivido, amor entregue, amor devolvido, todo amor vale independente de gênero, número, grau ou orientação sexual. O único limite é o respeito, a si e ao outrx. E o sexo é claro que é parte (fundamental) dessas operações, mas não depende só do amor não. Sexo é troca, é entrega, é descoberta, é aventura que quando vem com amor é ótimo, mas por si só já é muito bom!

Marie

Marie, na luta

“Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente”. Você acha que há uma bandeira do feminismo que melhor lhe representa? E onde, na sua visão, estão as brechas, as falhas, as faltas? Acredito que falar em um único feminismo é muito pobre, pra mim, não há uma única bandeira que melhor me represente, prefiro feminismos, porque as bandeiras são muitas e infelizmente nem sempre andam juntas. Não é porque sou lésbica e que provavelmente aborto não será uma questão na minha trajetória que a bandeira dos direitos sexuais não tem que ser a minha também. Não é porque sou mulher cis que não tenha que levantar e defender as questões da transexualidade… Acho que a falha maior é essa, a brecha é falta de comunicação e até de compreensão que cada vez mais novos questionamentos se apresentam para nós. Se antes era o voto para mulheres, direito ao estudo, depois divorcio, depois pílula, depois representação politica, aborto, ainda temos a invisibilidade da mulher negra, da lésbica, da trans* e etc que são questões ainda muito negligenciadas e por muitas vezes propositalmente invisibilizadas. Como se essas questões não fizessem parte do feminismo, como se o feminismo existisse apenas para a mulher, cis, heterossexual, branca.

“oh! baby você não precisa de um salão de beleza, há menos beleza num salão de beleza, a sua beleza é bem maior do que qualquer beleza de qualquer salão…” pra você, o que é o belo? você se considera bonita? como é lidar com os padrões de beleza? Belo é se amar, é se respeitar, é se gostar, gostar do que vê e do que mostra e acima de tudo o que não gostar escolher por si só se quer mudar ou não. Me acho a mais gostosona (desculpaê). Gosto do que vejo quando me olho no espelho, gosto do que eu mostro, gosto de mim e de cada pedaço meu. Sendo totalmente fora dos padrões (baixinha, gorda, tatuada, estrábica, da perna torta) é claro que precisei de muito tempo, terapia, ajuda e muito “foda-se padrões de beleza cretinos dessa sociedade”, e toda uma construção e entendimento de quem eu sou no mundo para me sentir bem como eu sou.

Marie

Marie, Frida

“gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões”… E você? Onde gosta de roçar a língua? qual a relevância do sexo na sua vida? quais suas fantasias, desejos – dos que quer e pode partilhar com a gente, claro. Eu gosto mesmo é de roçar a língua em mulher! Não só a língua, mas cada partezinha do corpo! Sexo, sexo, sexo, para mim é sempre bom. Sexo é uma troca e é uma parte importante de mim, escolhi viver plenamente e experimentar a minha sexualidade, transo com quem eu quero e quando eu quero! Transo comigo mesmo quando tenho vontade. Fantasias são muitas sempre com entrega e variam muito com meu humor. Tem dia que quero amorzinho bem gostoso devagarzinho e tem dia que a vontade é plantar bananeira e sair enlouquecida!

“Longe se vai, sonhando demais, mas onde se chega assim…” Onde você gostaria que se chegasse? quais seus sonhos, individuais e/ou coletivos… Eu tenho tido a habilidade e a sorte de transformar meus sonhos em realidade, but never is enough for me… Cada dia eu estuo com um sonho e um objetivo novo, mal termino uma coisa já começo outra… Nesse momento é o mestrado, minha casa nova, meu relacionamento, esses são meus objetivos/sonhos cada vez mais concretos. Gostaria mesmo é daquela utopia de a gente não precisasse mais levantar a bandeira da igualdade, nem da luta por direitos, porque né?! seria tão melhor, ai arranjaríamos mais tempo para ser feliz plenamente.

“biscate é uma mulher livre pra fazer o que bem entender, com quem escolher, e onde bem quiser.” Como você se relaciona com essa ideia? Essa ideia é o que move a minha vida, escolhi ser livre, escolhi me relacionar com quem eu quiser, da forma que eu quiser e tornar público isso a hora que quiser. Seja no meu relacionamento, minhas escolhas profissionais, seja minha militância, ser Biscate Livre é quase uma identidade política. E essa ideia de autonomia é o que fortalece meus ideais e é dessa forma que eu tento viver e conviver . Acho que esse é o recado para dar ao mundo: eu sou livre mesmo que vcs não entendam assim!

Marie

Marie, colorida

Diz o Gonzaguinha: “Eu apenas queria que você soubesse/ Que aquela alegria ainda está comigo/ E que a minha ternura não ficou na estrada/ Não ficou no tempo presa na poeira/ Eu apenas queria que você soubesse/ Que esta menina hoje é uma mulher/ E que esta mulher é uma menina/ Que colheu seu fruto flor do seu carinho/ Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta/ Que hoje eu me gosto muito mais/ Porque me entendo muito mais também/ E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora É se respeitar na sua força e fé/ E se olhar bem fundo até o dedão do pé/ Eu apenas queira que você soubesse/ Que essa criança brinca nesta roda/ E não teme o corte de novas feridas/ Pois tem a saúde que aprendeu com a vida” — O que você queria que os outros soubessem de você, do mundo…? O que você gostaria de dizer além do que perguntamos ou deixar de mensagem? Queria dizer que eu acho que o mundo é bão sebastião, existem algumas laranjas podres aqui e ali (e as vezes elas parecem ser infinitas!) mas a nossa parte nessa história é não se deixar contaminar e nem contaminar o resto que vale a pena, e como vale a pena… Que olhar pro próprio umbigo e se descobrir e se libertar é ótimo, mas olhar pro umbigo dxs outrx também é muito enriquecedor tanto quanto libertador, que o que te oprime, me oprime também e já que estamos juntxs nessa porque não lutar juntxs também?!. Que eu acho que a gente não veio ao mundo a passeio, mas que a gente pode tornar essa jornada muito melhor isso pode, e deve!

Entrevista com Yazda Rajab, mulher muçulmana de alma biscate fala sobre islamismo e cultura árabe

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Conheci Yazda Rajab no mundo da dança do ventre.

Uma mulher absolutamente apaixonante, bailarina graciosa, que hipnotiza a gente sem o menor esforço. Mulher muçulmana, brasileira de alma biscate, dessas que vontade de passar mil tardes conversando… Filha de libaneses radicados no país há mais de 50 anos, guerreira, mulher de fé. E sobretudo, pessoa despachada que aceitou facinho falar pro Biscate sobre islamismo e cultura árabe.

Espero que seja tão bom para vocês como foi pra mim <3

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Yazda, uma mulher muçulmana brasileira

Charô – Quem é Yazda? Qual é a estória de sua família?
Yazda – Meus avós e pais eram camponeses. Meu pai veio para cá na década de 30, por navio, começou a mascatear como a maioria dos libaneses imigrantes e acabou fazendo a vida dele aqui. Depois que ele teve certa estabilidade, conquistou a vida dele, foi buscar minha mãe. Ele já dormiu na rua, lavou prato, fez de um tudo. A dança do ventre eu estudo há 12 anos, depois do 6º ano comecei a dar aulas. Mas sempre estudando.

Charô – Qual é a sua fé? Você decidiu seguir o islamismo depois de adulta?
Yazda – Na verdade eu sou desde criança mesmo. E mesmo depois de adulta, tirando essa parte da cultura na qual nasci e cresci, quando tive um pouco mais de discernimento e decidi estudar os porquês das coisas, continuei muçulmana. Ma seu tenho muita interferência de outras coisas…

Charô – Agora vou partir um pouco dos preconceitos que nós ocidentais temos para com a sua religião. Qual o papel da mulher numa sociedade islâmica?
Yazda – Ela tem papel fundamental como ela tem aqui no Ocidente também. Só que existem as questões culturais. O islamismo é uma coisa e a cultura árabe é outra. Quando a religião chegou lá em Meca, quando veio a palavra e o alcorão foi revelado, era um povo que sim… Tinham uma filha mulher eles matavam, era uma vergonha. A religião veio e mudou isso mas as pessoas tem uma essência, tem a cultura e isso meio que veio vindo junto. E vem até hoje.
Isso não faz parte da religião muçulmana. Vou te dar um exemplo simples, a castidade da mulher até o casamento e tudo mais, não é só da mulher muçulmana, ela é do homem também. Só que o machismo que a gente conhece e tem pavor, o mundo machista, os homens fazem o que eles querem e as mulheres se mantém castas. Mas o que se pede da mulher e do homem muçulmano são direitos e deveres iguais.

Charô – E em relação aos pais e aos homens muçulmanos, existe algum tipo de subordinação?
Yazda – Existe um respeito, um respeito que a maioria das pessoas tem ou deveriam ter. Por sabedoria, experiência. Subordinação acho que é uma palavra meio pesada. Mas ela existe, não vou te falar que não, mas como eu já disse antes mais por questões culturais. O alcorão prega o papel da mulher feminina, o papel do homem, o papel do filho, normais como aqui no ocidente também.

Charô – Agora um pouco da dança. Existe alguma contradição entre a sua dança e a sua religião?
Yazda – Todas (risos). Mas assim, vou te falar uma coisa muito particular minha, que eu acredito muito, tudo vai da intenção que a gente coloca nas coisas, que a gente tem dentro do coração. Então quando eu danço, dou aulas ou estudo, a minha intenção ali é uma. Se as pessoas tem uma visão distorcida, cabe a cada um resolver seus próprios problemas. Eu estou aqui fazendo uma coisa e você tá pensando outra, problema seu.

Charô – Existe alguma restrição à dança? No Egito é proibido dançar de umbigo de fora, no Líbano também?
Yazda – Ah sim, lógico. A gente sabe que a mulher muçulmana, não digo a maioria hoje em dia, ela tem todo aquele conceito do Hijab (pronuncia-se rijeb), de colocar o véu. Até aqueles que não usam, isso eu digo de cidade mais do interior tá. Porque eu fui lá um tempo atrás e está tudo mudo, mais peladinhas do que eu. Lindo, eu achei excelente. Mas com certeza tem a vestimenta, nem é tanto a questão do umbigo. O peito, os movimentos…

Charô – O que é o Hijab, para que ele serve?
Yazda – Em primeiro lugar, ele não é uma coisa obrigatória. Eu digo que não é obrigatória querendo dizer o seguinte- eu por exemplo, meu pai e minha mãe não podem chegar pra mim e dizer você vai colocar. Já não vai mais estar valendo, eu posso até colocar mas aos olhos de deus já não vale mais. Religião é uma coisa espontânea, ou você sente ou você não sente.
Então se você carrega aquilo e fala eu quero, eu vou colocar de coração porque eu quero, vai com deus. A minha mãe por exemplo não usa Hijab. Uma vez que eu pensei em colocar, meu pai me viu com lenço e disse tira essa porcaria da cabeça agora. Tira, pode tirar, não quero saber de você usando isso. Pelo respeito aos mais velhos que acabei de falar, ele me convenceu (risos).
O Hijab é usado como uma forma de proteção à mulher mesmo. Não é uma questão de submissão. Você precisar andar toda pelada também é uma forma de submissão uma mulher precisar andar toda desnuda só pra um cretino olhar pra ela. Tem de usar porque gosta, porque acha bonito e se sente bem. Não por causa de alguém.

Charô – E o que existe por baixo do Hijab?
Yazda – O Hijab que a gente está falando é um lenço que o rosto fica de fora e roupas compridas, posso usar blusa de manga comprida e uma calça comprida, daí você vê o que você quer usar. Uma calça branca, uma blusa azul, uma blusa colorida. Os preceitos são não usar roupa transparente porque aí já mostra o contorno do corpo ou uma roupa muito justa.
A questão do por baixo vem a burca, que é uma coisa diferente – é aquela roupa preta, tem só a redinha nos olhos. Eu acredito que ela não existe na cultura libanesa, eu não vi. Mais Arábia Saudita. E diga-se de passagem, não foi uma coisa imposta por deus e nem dita por ele. Ele falou sim do Hijab mas as mãos, os pés e o rosto podem sim ficar de fora e a burca cobre tudo.

Charô – Como é a beleza para a mulher muçulmana?
Yazda – A mulher muçulmana é muito vaidosa, muito vaidosa. Se enchem de ouro e aqueles olhos pretos (maquiagem), adoram cabelo. O padrão de beleza da mulher árabe, da mulher muçulmana, também não deixou de ter um pouco de interferência de fora. Por que a mulher muçulmana é morena de cabelo preto… mas elas afinam sobrancelha, colocam botox no olho, plástica no nariz…

Blogueira usando Hijab

Blogueira usando Hijab

Charô – Existem outros códigos de vestimenta, para os homens por exemplo?
Yazda – O profeta Maomé deixou alguns costumes que seria a forma ideal de o muçulmano se comportar. Então fala que o homem anda com a barba um pouco maior, com a barra da calça um pouco mais curta, mas ninguém faz isso. Não é uma coisa que se diga faça ou você não será um muçulmano.

Charô – Nós temos muitos preconceitos sobre a sua e a sua cultura, concorda?
Yazda – A gente ia ficar aqui umas 3 horas falando dos preconceitos. Não digo que eu sofro porque pra sofrer preconceito você tem de ligar mas… Que a mulher não tem liberdade nenhuma, o que mais falam. Ou vocês são violentos, por conta das brigas entre Israel e Palestina..

Charô – Sobre o sexo na cultura árabe e na religião muçulmana, como ele é visto?
Yazda – Na verdade o sexo é visto dessa forma, uma coisa sagrada, linda, lícita, maravilhosa, gostosa, tudo isso mas tem essa questão de praticar o sexo depois do casamento. Eu vejo isso mais como uma preservação de muita coisa que a gente acaba sofrendo, que a gente vê que as pessoas sofrem também, de fazer antes. As pessoas que eu falo que não sabem usar o sexo, que não sabem fazer com responsabilidade. Não mais uma questão de você está pecando ou você não é de deus…

Charô – E os jovens praticam? E o namoro?
Yazda – Risos. As meninas estão agora mais saidinhas. Elas adoram fazer sexo anal para preservar ali na frente e dizer eu sou virgem. Tem muitas que fazem isso. Muitas que enfiam o pé na jaca e é isso. Não pode ter contato mas sempre tem (risos). Ainda tem famílias que preservam um pouco isso mas são muito tradicionais e muito raras.

Charô – Falando um pouco sobre inserção da mulher na política, existem mulheres nos cargos de comando?
Yazda – Lá você vê muito pouco. A gente não foge desse preconceito não. A política lá já é muito difícil, os homens não dão contam, já é a maior bagunça. Se eles não conseguem se manter no poder, imagina a aceitação de ter uma mulher ali. Isso está extremamente longe e não sei isso vai acontecer e tem preceitos religiosos aí no meio também, de uma mulher em posição de comando político.
Porque (o cargo prevê) reuniões íntimas, mais confidenciais, de ter de ficar sozinha com um homem… Tem toda essa coisa puritana do islamismo que existe. Nem é tanto porque a mulher não pode ou não tem capacidade de estar no poder. É mais para a mulher não ter contato direto com o homem.

Charô – Sobre a tolerância religiosa, como são vistos os outros deuses e as outras culturas?
Yazda – Tem até um versículo no alcorão que diz que nós temos de respeitar a tudo e a todos. Existem muitas brigas entre eles mas foi isso que foi mandado pra gente. A mensagem é muito clara e o versículo é muito simples, independe de interpretação. Ele é simples e direto. Conviver sempre com as diferenças e fazer o bem sem olhar a quem.


Mas é claro que a coisa toda tem de terminar em ventre, então assista a essa apresentação da Yazda com o grupo Les Almées.


AGRADECIMENTOS ou YAZDA SUA LINDA

Antes de fazer essa entrevista, a primeira da minha vida, falei com a Yazda sobre os meus preconceitos e a minha ignorância acerca da sua religião e cultura. Ela, com muita paciência, topou a empreitada de explicar o básico, responder essas perguntas tão primárias sobre a sua concepção de mundo.

Uma estória que não entrou pra entrevista, o significado do nome Yazda. O pai sempre disse para ela que se tratava de uma princesa e ela sempre acreditou nisso. Um dia, maiorzinha, descobriu que essa princesa na verdade era a sua avó <3

Em meu nome e em nome do time Biscate Social Club, muito obrigada.

Lembrando que esse post faz parte de uma série sobre dança do ventre aqui no blog.

charÕ

*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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