A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

marias da net

A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

origem do mundo

A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Água quente, pó de café.

#erotismoemnós #2anosBiscateSC

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013, p.1 e 2

cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Oi, amor de um monte de jeito,

Dezembro é mês de aniversário biscate, o que não faz de forma alguma com que a distância diminua, mas dá uma sensação de que tudo ficará bem, melhor, mais leve mesmo, sabe?

Afinal foi aqui mesmo, cercada de amigos, onde há um ano nos conhecemos conversando sobre trens, música e sexo. Sobre dormir juntos. Ou não.

Ainda desejo que não passe esse calor, essa ternura, esse tesão que tem nos acompanhado desde que. Pego a próxima rodada de cerveja pra brindarmos e sorrio ao dividir planos. Meus, nossos.

Ah, meu tão querido leitor…

O fato é que foi primeiro aqui e finalmente com você que perdi de vez o medo de me consumir. Quero que você me coma, me ame, me deseje. Me mande cartas, declarações, fotos, lembranças, videos, gemidos. Quero também que me peças. Mais. Mais. Todos os dias.

Ah, seu cheiro, amor… seu cheiro… É, saudades. Muitas.

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cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Foi também por conta desse aniversário que escolhi escrever sobre erotismo. Em mim. Em nós. E relembrar. Porque todas as palavras sobre o assunto me remetem a você, que é minha escolha até onde pode ser escolha isso de arrepiar pele, eriçar pelos, acelerar o coração.

Você, que me manda cartas lindas, tão lindas…

A sua presença, o toque, o conforto da sua mão no meu corpo todo, do seu olhar no meu corpo dizendo: quero. Da sua língua que cala buscando a minha. Os gemidos que pouco a pouco aumentam e vão substituindo com sei lá o que essa necessidade de contar de amor. Os seus dedos me invadindo  ao invés de digitar esperas. Os meus com unhas pintadas em rubro que alisarão suas costas no depois.

Cafuné.

Aconchego.

Chegar em casa.

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cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Onde pornograficamente ando nua. Falo palavrão. Gozo gritando e incomodando os vizinhos. Gargalho e choro, meio louca, meio santa, tão puta. Biscate com todas a letras que me cabem.

Porque até nossos tratos, os ciúmes que desafiam o querer, as malas sempre arrumadas para saber mais uma vez que nada disso importa ou deveria importar são carregados de erotismo. Com ou sem clichês. Ainda. Novamente.

É. Somos. Não nos devemos, nunca nos devemos nada e no entanto, ainda quero compartilhar um tanto contigo. Tanto. Que bom ter te conhecido, amor. Como, pois, não comemorar e desejar mais Dezembros?

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cf. SANTOS, Welber. Cartas para Raquel. Brasil: BSC, 2013

Enfim, escrevi só para dizer que continuo querendo dormir e acordar ao seu lado. Te desejando de tudo que é jeito. Mas você sabe, é só por que seu café é muito, muito, muito gostoso…

Bom dia, tesão!

R.

P.S: “Quando Fevereiro chegar…”

 

Entre o Preto e o Branco

Por Mestre Addam*, Biscate Convidado

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri relativamente mais cedo que a maioria das pessoas que conheço. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

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fotografia: Alexandre Medeiros; modelo: Jessica Luz

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

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2012-12-07 08-50-00.895*Mestre Addam (mestreaddam@gmail.com) é Marcelo Leite, carioca, defensor da liberdade de expressão, da livre relação e da biscatagem em geral. Escreve ainda como Troll, no Palácio Elétrico e surta em doses homeopáticas pelo twitter @addammgl

É tão bom quanto sexo?!

Uma pesquisa feita por britânicos afirma que a música Bohemian Rhapsody do Queen é melhor que sexo (não liguem para os comentários, infelizmente são, na sua maioria, decepcionantes), não sei se concordo em relação a música relacionada ser melhor que sexo, mas posso afirmar que é tão boa quanto sexo. Opa, peraí, será que eu sou uma Biscate frígida? Porque não é apenas essa música que considero tão boa quanto sexo, existem outras músicas, existe o brigadeiro com creme de leite, chocolate meio amargo e também existe aquele cheiro maravilhoso depois de um dia de chuva, que a noite fica quente e sobe um misto de perfume de grama e terra molhada que se mistura com o perfume de Dama da Noite. Pra mim essas sensações são sensações orgásticas. Sou super sensitiva, a tal ponto de gostar de fazer essa mistura de sexo com música, comida e cheiro.

Eu continuo a me questionar se sou frígida, eu gosto, e muito, de sexo, mas isso não faz com que eu considere sexo a melhor coisa do mundo. Está entre as melhores coisas, com certeza, mas não sei se pode ser a única coisa boa no topo da lista. Quando coloquei no Facebook, vi muita gente discordando de mim, aí a pergunta me chegou. Mas, justo eu, que sempre fui tão assumida: “Gosto muito de sexo mesmo, e daí?” e agora me descubro como uma mulher que tem coisas que podem compensar o sexo? Será que é a velhice chegando? (27 anos e já falo velhice, mas é velhice de espírito) Não é por eu não conhecer bem o sexo, eu o conheço de várias formas, vários cheiros, vários suores e todos os gêneros.

Sempre soube que sou viciada em sexo oral porque sou muito sensível com paladar e com a boca, que sempre adorei ouvir a voz/gemido da pessoa no meu ouvido porque eu sempre fui super sensível com a audição. Mas se sou tão apaixonada por sexo, meu paladar, meu olfato e minha audição podem ser usadas nele, porque certas coisas que eu como, cheiro ou ouço podem ser tão boas quanto o sexo em si?

Já teve uma época da minha vida em que sexo era tudo, assim que o descobri, era a melhor coisa do mundo, até uns 19 anos eu não enxergava nada que fosse melhor que ele. Como quando eu descobri o cheiro da flor Dama da Noite, eu ficava extasiada, não via nada melhor que aquele cheiro, por meses eu quase perdia os sentidos ao sentir seu cheiro, até hoje o cheiro dela me deixa meio tonta de tão gostoso que é. Quando comi um chocolate que marcou a minha infância, “Mania de Morango”, lembro que eu não conseguia esquecer o sabor dele por dias a fio, sentia o sabor dele só de ver o pacote, curioso né? Quando assisti ao filme The Wall pela primeira vez eu entrei numa viagem meio alucinógena e não tinha nem bebido nada alcoólico naquele dia, mas juro que estava lá parada, viajandona… Foi a experiência musical mais maravilhosa que eu já tive. Mas depois, assim como o sexo, essas coisas passaram a ser algo maravilhoso, saboroso, delicioso, mas todas comparáveis com outras também, maravilhosas, deliciosas e saborosas.

Talvez ajude também que na minha educação em casa, sexo nunca foi algo proibido ou um tabu. Acho que a visão de “proibido” faz dele tão especial. Sei que aqui em casa sexo sempre foi um assunto falado, comentado a exaustão, desde o uso de preservativos até a ideia de que sexo é saudável, que todo mundo faz (inclusive seus pais, então, qual é o problema de você fazer?). Então sempre vi sexo como algo prazeroso a mais na minha vida. Algo prazeroso que não engorda (pelo contrário, emagrece!), não faz mal ao colesterol e que, se feito com segurança, só traz coisas boas. Mas, isso tudo não passa de um achismo meu pra explicar esse fenômeno.

É uma boa pergunta a se fazer, pessoal: Existe algo tão bom ou melhor que sexo pra você?

Sentidos

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sentidos, Borboletas nos Olhos

Chico Buarque cantou e eu não sei responder a ele nem escrever este post. Porque o erótico, é, quase sempre, inesperado. O susto que prende o olho e tira o fôlego. Surpresa. Mas passa o tempo, é preciso um texto e só me apetece ver Bardot e Michel Pic­coli:

Bom, vou tateando. Erótico, é, talvez, em mim, o que se inscreve na pele, seja em ausência ou presença. O erotismo, em mim, é passivo, a voz rouca penetrando em meu ouvido, o tecido delicado escorregando dos ombros, a língua audaciosa provando os lábios (quaisquer lábios), o odor do sêmen na colcha da cama, um vislumbre de torso. O erotismo, em mim, é ativo, despir-me sem espetáculo, nenhuma desculpa para o desejo, só o incisivo ato de ficar nua para os olhos outros. Deixar o nariz fazer trilha no corpo alheio até reconhecer nuances. Lamber, chupar, saborear. Sussurrar sugestões, indicar posições, sugerir lugares e formas. Tatear e ler o corpo amante em braile. O erotismo, em mim, é lacuna. É entrever. É buraco de fechadura. O entreaberto. Seja da porta, seja das coxas.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O Erotismo, George Bataille/ Uma sugestão de escuta: Âmbar / Uma sugestão de filme: Livro de Cabeceira / Uma sugestão de textura: areia da praia / Uma sugestão de comida: cogumelos *

Porque as águas do desejo são turmas
e o que percorro tem cheiro de sexo.
Aqui, eu o tenho nos olhos,
mas o sinto entre as pernas
E lateja o corpo
A pele pede mãos
pede língua
pede sonhos.
Porque em vermelho eu sentiria o teu gosto
E saberia a sabores, em rubro, em rubro.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: La Nuit Sexuelle (o post é em português)/Uma sugestão de escuta: Estranho Rapaz / Uma sugestão de filme: Ata-me / Uma sugestão de textura: água / Uma sugestão de comida: ostra *

Eu só queria me despir pra você. Tornar-me a paisagem árida, difícil e intensamente bonita que você se acostumou a desejar. Eu só queria me despir pra você. Deixar que meu corpo nu apague todas as palavras de amor que nós não vamos dizer. Eu só queria me despir pra você. Ser entendida em uma língua que nunca falamos. Em braile, talvez.

Sentindo: Uma sugestão de leitura: Quando todas as coisas são puras /Uma sugestão de escuta: Cheiro de Amor / Uma sugestão de filme: A Bela da Tarde / Uma sugestão de textura: algodão / Uma sugestão de comida: uva

E se for mesmo simples? Um dia, um lugar, uma vez? Uma esquina? E se for mesmo simples, um querer e a rima? E se for mesmo simples? Sem dor, sem medo, sem esperas? E se for mesmo simples, eu, você e o tempo espiando a gente aprender o prazer? E se for mesmo simples, eu vou, você vem, as estradas se fazem quarto para um tempo sem amanhãs. E se for mesmo simples, café forte, música na vitrola e olhos se fazendo poços? E se for mesmo simples, a pele arisca, os desejos inquietos, as saudades antecipadas? E se for mesmo simples, gentileza, malícia e aquela vontade de não dormir nunca mais? E se for mesmo simples: todos os verbos no presente, todas as perguntas no pretérito, todas as vontades no gerúndio? E se for mesmo simples, beijos curiosos, mãos impacientes e horas fora do calendário? E se for mesmo simples, sem memória, sem história, sem álbum de fotografias? E se for mesmo simples, um pouco sem razão, um tanto sem esperança, o reconhecimento tranquilo do outro. E se for mesmo simples: coragem?

Sentindo: Uma sugestão de leitura: O erotismo na arte acadêmica e moderna da América Latina /Uma sugestão de escuta: Me deixas louca / Uma sugestão de filme: Vítimas de Uma Paixão / Uma sugestão de textura: azulejo / Uma sugestão de comida: camarão

Às vezes eu penso nele. Ou neles. No meu, quase sempre. Penso no coração. É que quase toda a gente o traz lá, em seu frágil invólucro de carne e sonhos. Umas cartilagens, para aumentar a ilusão de conforto e segurança. Há quem o traga nos olhos, nunca sei se como filtro ou muralha. Os que andam com o coração na boca, claro, sempre a ponto de saltar e nos cair no colo. E tem aqueles outros, os que o trazem nas mãos, prontos para entrega, quero fazer um depósito, por favor. O que traz? Coração. Coração na mão – a gente se espanta com essa disponibilidade kamikase. “A gente”, penso, paro: eu. Eu me espanto com este ataque kamikase a si mesmo. Porque meu coração está no lugar certo: no meio das pernas.

sentidos

Panayiotis Lamprou, “Portrait of My british wife”, 2010

* Como se viu (ou não) eu roubei. Os filmes roubaram o lugar dos odores 😉

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Silent Night, Valmont

Sobre Beijos e LínguasAugusto Mozine

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Verdes, Cláudia

Verdes

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Verdes, Cláudia

Nada me instiga mais do que um olhar. Daqueles que parecem ler pensamentos, anseios, desejos. Olhar que, ao cruzar com o meu, dispensa o uso de palavras. Olhar que faz o corpo todo ferver, na mais perfeita (des)harmonia.

Foi mágico, desde o primeiro instante. Risadas, bom papo e aquele frescor que nos envolve quando conhecemos alguém interessante. Silêncio gostoso. E ele, o olhar. Olhar que me pegou feito um raio. Verdes olhos, onde eu quis por inteiro mergulhar.

E assim fiz. E faço, sem o menor pudor. Quero que me olhe cada vez mais. Quero me esbaldar nesse brilho de vida e de paixão que emana de seu semblante. Quero sentir cada pedacinho de você enquanto perco-me nestes verdes. Meu tom de verde favorito.

O que explica tanto furor, tanta vontade?

Seu olhar me diz, mesmo que eu saiba disso há muito tempo, que sou livre. Livre para estar em chamas, sem limites. Livre para decifrá-lo. Livre para mostrar-me inteira. Livre para deixar que o meu corpo conheça o seu. Livre para que eu também dispense o uso de qualquer palavra, já que minhas mãos, beijos e suspiros são perfeitamente capazes de traduzir.

E logo eu, que um dia pensei que algo do tipo era exagero de quem afirmava sentir… Hoje não abro mão. Ah… Como é gostoso… Como é sensacional o frio na espinha que dá só de lembrar. Ai, se você estivesse comigo neste instante. Se eu pudesse agora mesmo perder-me contigo…

Como disse lá em cima, nada, nada MESMO me instiga mais do que um olhar. Olhar como o seu. Olhar que é apenas um prenúncio para um irresistível deleite. Deleite banhado em verde. Meu tom de verde favorito…

 

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Sobre Beijos e Línguas

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sobre Beijos e Línguas, Augusto

Beijo: lábios, línguas, encontros. Sim, o beijo. A mais erótica das artimanhas, tão carnal e tão banalizada e, ainda assim (ou por isso), o que mais causa tesão. É o beijo, o bom beijo, o caminho para um bom sexo, para uma boa relação, para a duração de um relacionamento. Acabou o gosto pelo beijo, pode fazer a fila andar…

É assim que eu gosto. O grau mais básico de conhecimento do outro, língua com língua. Mas não só isso, para a língua chegar à língua precisa do olhar, da cumplicidade, do suspiro profundo captar todos os cheiros e perfumes, precisa do abraço, da pegada. Encostou lábio com lábio e não tremeu, nem precisa botar a língua lá que só vai achar cuspe… Sim, beijo por beijar é só troca de cuspe…

É isso mesmo! O beijo é o meu ato da entrega. Encostar os lábios, abrir suavemente a boca, invadir e deixar-se invadir pelo outra língua, com carinho, ternura e, mesmo, violência… descobrir se aquela boca é a “conta melhor que tiraste em vida”… O jogo de línguas, a troca de paladares, as mordiscadas nos lábios, a barba no pescoço, o beijo no pescoço, a pontinha do nariz subindo pelo lado do rosto, o toque úmido da boca naquele pedaço desconhecido entre a parte de trás da orelha, a nuca e o cabelo, o segredo de liquidificador…

Beijar é se unir, é provar o gosto do outro passando a língua no próprio lábio, só para ter certeza do quanto é bom. É ter as mãos nos cabelos, nos ombros, nas costas, na cintura, na bunda, nas pernas e naquilo e ter aquilo na mão e ter a mão naquilo e aquilo na mão e a mão naquilo e aquilo na mão… PERA! Já deixou de ser beijo… é outro post…

Beijo é abraçar por trás, acariciar o pescoço com ou sem barba, com ou sem dentes, com ou sem língua, encoxar… é todo o jogo de pernas, por frente e por trás, lembra que não existe pecado do lado de baixo do equador e da linha da cintura… fundamental! E em meio à encoxada, retomar o beijo, mesmo que dê torcicolo…

Muitos tipos de beijo, tic tac, selinho, lábios sem língua, lábios com língua, só línguas… mas guardem os dentes, pelo amor de dada! Lábios… lábios tremendo, comprimidos… explorar lábios reprimidos! Finos, grossos, pequenos, grandes lábios… Muitos tipos de língua: pequenas e sapecas, grandes e complacentes; sufocantes, extenuantes, insaciáveis, incontroláveis, preguiçosas, apavoradas… muito grossas, muito finas, línguas…

Procurar línguas diferentes e descobrir outros beijos. Pegadas diferentes, entregas diferentes… Ficar só em línguas brasileiras não me bastou… a curiosidade pela língua mãe fez da portuguesa, gráfica e ritmada, uma experiência oposta à pura malemolência tropical. As raízes italianas…a língua quente e arfante, digna de arrebatamento! A inglesa… cuidadosa e educada, que pede licença para entrar e marcar um compasso inteligente, irônico e amável.

São línguas, jeitos diferentes… Humores distintos. Estadunidense… afoitas e eufóricas, loucas que uma vez controladas levam ao êxtase! Húngara, aff, as húngaras! Não é atoa que o diabo as respeita… Quer que façam miséria no seu coração? Beije línguas húngaras… Turcas! Línguas engraçadas, quase apavoradas, sempre à espreita e dispostas à plena carícia… Francesa!!!! Nem quero comentar… Doces-apimentadas, revolucionárias, porém metódicas… cartesianas, postas e dispostas à experiência. Vietnamita… um tanto oprimidas… singelas, porém potentes, basta mostrar o seu jeito e aguardar o resultado…

Sou desses, dado à experimentação… Indianas… picantes, mas inocentes… quase exotéricas. Lituanas, carentes e potentes… incrivelmente compenetradas! Bermudas… safadas, nem um pouco sérias e perigosamente luxuriosas! Neozelandesas, incontroláveis e potentes… essencialmente oferecidas! E, por fim, a Grega, o poço da civilização! Se há língua a ser provada para mostrar o porquê da existência humana, beije a grega! Há no beijo grego algo inexplicável, algo metafísico, da esfera do inaudito… o beijo grego é o ponto alto de toda a entrega, o berço de onde todas as línguas buscaram seu aprendizado! Um beijo grego pra todos vocês! Beije!

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Façamos…

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Façamos, Renata Lima

Aquelas horas lânguidas, em uma cama grande, espaçosa, ou aquela meia hora agitada, em um carro apertado, ou aqueles minutos intensos, em um canto qualquer…

Qual o som que te embala?

Cada som, uma expectativa, uma lembrança, um desejo.

Every inch of my love…

Led Zeppelin é rock blueseira. E combina com horas de sexo intenso, selvagem mas demorado. O que? Selvagem e demorado, não combina? Você que pensa, e que pena que pensa assim.

De qualquer forma, na lista de rock n’ roll, sempre cabem oustras combinações e outros sabores (e velocidades e duração…)

A voz rouca e gemida de Plant em Rock n’ Roll,  é um espelho da minha voz, rouca, gemida, quase ganida. Cio.

Aretha, Nina, Ella…

Elza Soares. E Chico (nem eu consigo escapar de Chico… esse muso da alma Biscate…)

Façamos. Vamos amar…

Arrepiam-se os pelos da nuca. A boca fica seca. Pede por uma taça de vinho, um queixo áspero arranhando o pescoço. Uma mão dura apertando a cintura. A respiração ofegante, o pulsar do sangue concentrado em um único ponto. Parecendo que a voz dele e a dela se misturam e derretem cada nervo e cada músculo do corpo, tudo se concentrando em uma poça quente e ardente.


Uma festa lotada. Um funk batidão rolando. Um tesão irreprimível.

Quero te dar, quero te dar.

Rapidinho, em pé, ao som do batidão.

Vem cá, vem cá, vem cá.

Não precisa dizer mais nada.

Frejat e sua voz rouca, seu olhar de quem cheirou uma carreira de … gatinhos.

E as letras quentes e sugestivas.

Um carro. No escuro. Só a lua. Os vidros embaçando, as pernas batendo no painel.  E a voz do Frejat cantando: vê se ao menos me engole.

Mas é claro.

A verdade, no entanto, é que a melhor trilha sonora para esses vários momentos é aquela que o corpo faz.

Os gemidos, as palavras, os suspiros, os gritos, os urros (tem uns que gozam em silêncio, mas adoro quando urram de prazer).

O som da pele escorregando nos suores misturados.

A sucção de uma boca ávida.

O som da cama batendo na parede. O colchão rangendo, os lençóis caindo ao chão.

O escorregar dos corpos colados, mudando de posição, e o súbito estalar de um tapa, espalmado, espalhando arrepios pela coluna acima. E abaixo.

Qualquer que seja a trilha sonora escolhida, não podem faltar aquelas palavras quentes, picantes, obcenas.

Sim, eu quero, sim eu gosto. Não pára.

E o súbito silêncio, quebrado apenas pelo ruído do isqueiro, e da brasa do cigarro queimando, e o sorriso mudo que antecede o sono saciado.

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

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Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

Erótico Pornográfico

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
Erótico Pornográfico, Bete Davis

Lembrei-me de que um dos primeiros trabalhos escolares que fiz, lá pelos idos dos 15 anos de idade, e que era para estabelecer as diferenças entre os conceitos de pornografia e erotismo. Para tal, usei dois livrinhos da coleção Primeiros Passos. Tirei 10 e ficou por isso mesmo. Grosso modo, no trabalho bobo escolar, ficou estabelecido o  que reza o consenso geral – e o mesmo apontando pela minha busca no Google neste momento (faça o mesmo você, se tiver dúvidas): erotismo, advindo do deus Eros, o deus do amor, é  a sensualidade, o sexo aplicado à arte, em vários links  o conceito é associado a obras de arte conhecidas, como a belíssima  e sensual escultura “O Beijo” de Rodin. Já o conceito de pornografia sempre é associado a palavras mais grosseiras, nunca ao belo ou sensual, e os exemplos visuais sempre remetem a Playboy.

Fucei mais um pouco e deparei-me com um trabalho que não poderei comentar todo, devido a escassez de tempo, mas me pareceu interessante e que analisa as três obras pornográficas (opa!) de Hilda Hilst – O caderno rosa de Lori Lamby (1990),  Contos d’escárnio, Textos grotescos (1990) e Cartas de um sedutor (1991). Destes só li, infelizmente, Cartas de um sedutor. Também li, e adoro, A Obscena Senhora D. (acho até que preciso reler) e não entendi porque a  autora do trabalho não o colocou entre o que ela classificou como trilogia, aliás entendi. A Obscena Senhora D. fala sobre a vida de uma senhora e sua alma até estar naquela escada e inescapavelmente tem que falar de sexo, o sexo permeia  a vida, só os hipócritas acham que transar é para reprodução reconstituição da família e não recreação e outras coisas, como até constituição de laços financeiros rentáveis. Do que me lembro,  Cartas de um sedutor fala do sexo na vida e da vida com sexo, de forma bem mundana e nada romantizada.

Recomendo os dois livros, assim como os poemas de Hilda Hist, que eu adoro, Zeca Baleiro inclusive, musicou alguns que ficaram lindos. Mas a questão é que estamos aqui para falar de erotismo, eu estou aqui pra falar do meu erotismo, e eu não sou mais garotinha virginal de 15 anos que divide o mundo entre o pornográfico da playboy e o erótico e sensual do Rodin, sendo o segundo socialmente permitido e aceito e o primeiro moralmente e socialmente condenável. Às favas meu moralismo! Meu erotismo é pornográfico. Todo ele. Com todas as palavras. Meter. Trepar. Transar. Lugares públicos. Tapas. Putas. Nelson Rodrigues. Deliciosa fotos de homens e mulheres nus. Ficando até ridículo de tanto clichê junto (só um problema, nunca mais poderei ler um conto erótico na internet sem a voz do Marcelinho, no entanto, graças a Eros, reli a Hilda sem a voz dele rs).

Aos 40 anos e depois de muito sexo, depois de tanto me conhecer, me tocar e me saber… Às favas as luzes apagadas. Às favas as idiotices do que pode ou não entre quatro paredes,  o que é ou não é feminismo no sexo, no erótico, no pornográfico entre eu e meus parceiros, entre quatros paredes. Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Nunca deixe de experimentar então. Passe seu batom vermelho. Vista seu corset. Peça tapas.  Dê tapas.  Veja vídeos e filmes, caseiros ou de arte. Veja hentais. Use algemas. Coloque uma máscara, a cueca boxer, pegue um chicote. Ou fique simplesmente nu ou nua e olhe nos olhos.  Ou seja suave e doce e tome um vinho escorrendo entre os seios. Faça um striptease. Tantas fantasias… Seja Rodin ou seja Hug Hefner, é tudo clichê, e tudo delicioso, desde que seja o seu desejo.

Espera

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Será uma quinzena caliente não lhes parece? 

#Erotismo em Nós
Espera, Raquel Stanick

Querido M.,

Resolvi te escrever, porque ainda nos lembro. Muito. Deve ser por causa do excesso de vinho e uísque barato dos últimos longos anos e a proximidade dos quarenta. Ou porque tenho trepado muito pouco ultimamente. Este seria, entre risos, seu veredito final, tenho certeza.

Enfim, essas lembranças são principalmente sobre sua delicadeza e insistência em certos carinhos tão seus. Daqueles do tipo que depois de algum tempo sendo feitos, me deixavam pronta para enfrentar banheiros em bares cheios ou ruas escuras em locais ermos . Carinhos que até hoje se por acaso repetidos em meu corpo por outro alguém, me levam de volta ao tempo de nós dois.

Por exemplo, quando mesmo entre amigos e cervejas, pegavas minha mão, e exploravas em círculos minha palma, com um língua lenta e morna e molhada e tesa. Eu gostava de ver seus olhos abertos, divididos entre me fitar de soslaio e prestar atenção à conversa das pessoas na mesa que estivéssemos.

A resposta da minha mão, quando me era devolvida, longos minutos depois, era levá-la ao jeans sujo que estivesses usando. E ele sempre estava duro, como se com tua língua tivesses lido que meu futuro próximo era foder contigo noite adentro.

Gostava também quando com tua unha comprida de violonista coçavas engraçado por trás do meu joelho, um sinal de que logo depois, irias com uma leve pressão de dedos apertando minha coxa até enfiar teu dedo na minha boceta molhada. As calcinhas foram abolidas, os vestidos se tornaram meu uniforme na nossa batalha diária. Alguém chegou a vencê-la, querido?

Encontrei a Ana dia desses num boteco aqui na cidade louca, e ela me lembrou que foi você que me fez beijá-la a primeira vez. Disso eu não lembrava, mas ainda sinto o gosto do riso que te acompanhava quando eu acordava em nossa cama e puta da vida, expulsava a mulher que por acaso estivesse conosco. E então, quando eu voltava para o quarto e começava a quebrar coisas, você me derrubava no chão e prendia minhas mãos e sufocava meus gritos com um beijo agressivo e antes de se meter entre minhas pernas com brutalidade, comentava que eu havia adorado cada momento com a tal desconhecida. Eu sempre acreditava em você. E gozava. E gozava. E gozava.

Enfim, lembro principalmente quando você correu atrás de mim numa rua alagada, no meio de uma chuva infernal, quando decidi que aquele estado de eterna ânsia e desejo só poderia acabar nos matando. Lembro quando eu finalmente cansei e sentei naquele banco de praça e você estava lá logo depois, e me obrigou a sentar no seu colo e me comeu agarrando meus seios com força e puxando meus cabelos com raiva. E quando me sabias preste a gozar, me empurrou para longe de ti e de volta à minha decisão. E me deixaste sozinha.

Desde então, nunca mais parou de chover, querido.

Daqui a três dias estarei de volta à nossa cidade, e marquei com alguns de nossos velhos amigos no mesmo velho local. Se puderes aparecer, te prometo minha mão em cima da mesa, novamente à espera de tua língua.

Irás?

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