A gente vai se esquecendo

E​squeci seu cheiro ou como é sua barba no meu pescoço. Já não sei se nos conhecemos numa sexta ou numa quinta. Se chovia ou se só fazia frio. Quando me esforço ​muito, ​lembro q​ue​ era sexta, chovia e que eu estava no café da livraria. Isso. Foi assim. Mas a lembrança vem meio turva. Já não recordo o cheiro dos livros, tampouco o que estava lendo quando ​te​ vi. Tocava jazz​, eu acho.

A gente foi comer pizza e não lembro se foi você quem pegou na minha mão ou eu que toquei seu braço sem querer. Quando saímos, tremia de frio e você me abraçou. Me convidou pra ir pra sua casa com a desculpa de nos esquentar e eu só saí de lá três dias depois.

​Antes eu conseguia repassar na minha cabeça cada um ​dos nossos gozos, dos nossos beijos, dos nossos abraços. Conseguia lembrar quantas vezes gozei na sua mão, no seu pau e na sua boca. Quantas vezes teus lábios precorreram meu corpo enquanto íamos despertando naquela sonolência preguiçosa. Lembro como era bom dormir com você – ah, isso eu lembro.

​Até uns dias atrás, eu lembrava quantas vezes rimos das piadas sem graça, todas as nossas conversas madrugada adentro, e que sempre aquecia meu nariz no seu pescoço e que você me levava pela mão. ​Lembrava todos os nossos programas em ordem cro-no-ló-gi-ca. Todas as vezes que puxou meu cabelo e cravou os dentes na minha bunda. Agora, mal me lembro se tomamos cerveja ou vinho.

​Hoje, quando fecho os olhos e tento me lembrar do seu rosto, ele foge. ​Já não sei que dia foi aquele em que a brincadeira era você me masturbar enquanto eu continuava a contar uma história e não podia parar até gozar. Era assim mesmo, né? Ou tinha que cantar uma música? Não lembro direito. Estou esquecendo o quanto era bom sua boca nos meus peitos e minha mão fazendo cafuné em você.

Me dei conta que nem uma foto juntas tiramos, que não existe registro no mundo do nosso encontro.Podia ter gravado cada minuto nosso pra poder ver com detalhes agora, pausando, dando zoom, repetindo as falas, igual dizem que será no juízo final. Estou esquecendo e fico aqui espremendo as lembranças, querendo engarrafá-las e guardar num pote ao lado da cama pra sempre poder olhar pra o que a gente foi.

postLis

Mesa Pra Quantos

Acordar é em lentamente. Não abre o olho, não primeiro. Antes, deixa a ideia se espalhar. Alonga as pernas, faz pontinha nos dedos do pé. Um suspiro de bom lhe afasta os lábios. Sente o pegajoso entre as coxas. O dolorido gostoso no corpo. Gosto de vinho amanhecendo na língua. O cheiro de cigarro em quarto de janelas fechadas. Na sala, um cd em repeat murmura, cansado. Estica os braços e esbarra em lembranças. Move o corpo para a esquerda, tateia lençóis, um corpo. Como um filme antigo mal restaurado, os flashes. Roupas empilhadas. Um pé que esbarra na garrafa de vinho. Língua na orelha. Língua no pescoço. Um corpo que se estende no sofá. Uma boca que chupa um dedo do pé. Uma mão que se encaixa entre coxas. Morder uma bunda. Ser lambida. Tesão. Peles que se roçam. Pernas que tropeçam. Uma boca, um pau, uma bunda, outro pau, um peito, uma axila, um cotovelo, um pescoço, uma barriga, um pau, uma buceta, um joelho, um pescoço, um ombro, uma buceta, um pau. Bocas. Línguas se entrelaçando. Línguas invadindo orelhas, umbigo, cu. Uma mão em um pau, um pau em uma buceta, um pau esfregando em outro pau, uma boca chupando ombros, chupando seios, os seus, os outros, uma mão na nuca, uma mão em outra mão. Dentes. Dedos. Saliva. Um corpo sobre. Um corpo entre. Um corpo fora. Um entra e sai, um aqui dentro, agora, vem, vem. Mais. Um gemido seu em outra boca. Uma mordida quase sangue no lábio. Uma mordida na barriga. Uns olhos abertos, uns olhos fechados, umas pernas abertas, uns braços abertos, uma língua em mamilos, um saco, chupar, sugar, lamber e um dedo lhe tocando firme, rápido, leve, seios roçando em suas costas. O gosto dela em um pau, em um dedo, o suor na sua língua indo pra língua outra. Roça. Penetra. Volta. Ruídos. Risos. Gemidos. Sente um corpo que se estende em suas costas, seios e pau duro, mãos nos seus peitos, um pau que vai e vem na sua boca, mordidas na bunda, nas bundas, mãos viajantes, saliva, suor, o gosto de pele, de pêlo, seu coração batendo no peito alheio, seu sangue latejando no ouvido outrem, unhas cravadas nas costas já não se sabe de quem. Em cima, em baixo, ao lado. Fora. Olha. Uma água? Quero. Vai. Volta. Mergulha entre. Um corpo na frente, um corpo atrás, uma alegria em volta.

café

Sorri, agora já é dia no olho aberto, levanta, veste uma camiseta que não lembra de quem, chuta sapatos no caminho, abre janelas, muda do cd para o rádio, acende o fogo, espreguiça, a primeira xícara fumegante é só dela, gosta dessa solidão matinal, um tempo pra ir se ajustando a ela mesma, dança um pouco, ri um pouco, coloca a mesa pra três, xícara, pão, queijo, manteiga, esse gosta de açúcar, a outra fala baixo e toma café pingado meio encabulada, fé cega, faca amolada, ovos mexidos? ovos mexidos. Na bandeja as frutinhas que só ela come de manhã. Já desperta, repara que ainda cabe pelo menos mais um na mesa do café. Gargalha com a sintonia, é pensar e, no rádio, Roberto Carlos se equivocar na conta:

Faísca

Eu estava encarando sua boca, sou louca por sua boca. Sabia que não ia dar certo, quando a gente fica juntos sai faísca, bebo um copo de cerveja, acreditando que, ao engolir o líquido, iria junto o desejo de beijá–lo. Ele tem esse poder sobre mim, não sei cumprir com meus acordos quando ele está presente. “Não fico mais com ele!” Disse pra mim mesma, ele disse algo parecido pra mim um pouco mais cedo. Esse era o certo, mas o certo nunca acontece quando estamos juntos.

E acabou a cerveja, abre outra correndo, entra em casa e respira fundo, volta pra rua e enche o copo, já estava embriagada. Só não sabia se era por causa de (só) uma garrafa de cerveja ou se era por causa do seu cheiro, uma mistura de perfume com cigarro. Sem querer, ele esbarra em mim, eu arrepio toda. Vai dar errado, nunca dá certo quando estamos juntos, tenho essa fraqueza por ele que eu não entendo.
“Falei tanto que iria dar errado que ele já está deitado na minha cama”, pensei comigo. “Meu último ônibus já saiu, agora só daqui a três horas.” ele falou. “Puta merda! Três horas, tenho que me segurar pra não atacá–lo.” Pensei e respirei fundo. A gente sempre perde a hora conversando, ele iria passar rapidinho aqui e iria pra casa, mas… nunca dá certo, a gente pode planejar o contrário, mas é só quando eu estou com ele que eu não me controlo.
Ele me contou da sua cicatriz, que ele não gosta e eu acho linda, sinto tanta vontade de beijá–la, não tenho juízo quando estou com ele, só penso em beijá–lo. Como num passe de mágica, eu já estava alisando a perna dele, ele pega na minha perna, eu reclamo, ele fala “você também tá com a mão na minha perna!” E tudo flui tão bem, como se eu pudesse viver sem culpa, sem medo, sem me preocupar com o dia seguinte. Eu só sinto, desejo, amo e gozo! E é sempre assim, a gente junto não dá certo (será que não?), sempre sai faísca.

ImagemPostSaraMerteuil

Êxtase

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Às vezes é muito rápido, vai, entra, faz e sai, urgente, correndo, fugindo do mundo, nem que seja só por um instante de calor e esquecimento. Um instante de explosão, um instante de paz. Um minuto para suportar todos os outros minutos do dia. Um minuto tão rápido, os gestos quase de máquina, a eficiência quase de funcionário, a atenção só no no essencial, no objetivo, no fim.

Outras vezes não, é devagar, sentindo cada momento, cada carícia, cada toque. Se deixar envolver, ver quase que de longe o calor crescer, perdida do mundo, perdida do tempo, rendida. Tudo bem lento, tudo quase parado, gestos longos, olhando para cada pedacinho do corpo, para cada canto escondido, para cada vontade insatisfeita. Sem hora para começar nem dia para terminar. Várias vezes. E de novo. Até não aguentar mais.

Às vezes é em pé, quase um exercício, quase uma dança. Giros de corpo, a cabeça virada para trás, as mãos se esforçando para alcançar todo o corpo, a pernas ora levantadas, ora estendidas, por vezes dobradas. Por vezes ajoelhada, por vezes curvada até tocar os pés.

Outras vezes deitada, imersa, coberta. O corpo todo tocado ao mesmo tempo, a pressão, o abraço, de algum controle, de chão. Acolhida, envolvida, entregue. Dada. O corpo inteiro envolto vagarosamente, o calor nascendo nos lugares mais inesperados.

Rápido ou devagar, mas sempre. Todo dia. Pelo menos uma vez por dia. Duas, nos dias em que o calor cresce. Três, quatro, muitas, nos dias de feriado e férias, nos dias vadios de verão na praia.

Em pé, deitada, mas sempre. Todo dia, como uma rotina cega, o dia todo como respirar. Nos dias de lida, rápido e em pé, nos dias de folga, devagar e deitada. Nos dias de férias o dia todo, nos dias de suor, todo dia.

Como? Não. Não é nada disso. Não tenho culpa se você só pensa nisso. Eu estava falando de banho.

renoir-banho-420

 

PauloCandido

Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

*******

Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

Delicadezas matinais

cafe2

Sua pele me toca logo de manhã. Cheiro no cangote, suspiro, preguiça. Um beijo meio dormindo. Um sussurro. Eu te amo. Os olhos ainda cerrados, abraço seu corpo agarrando seus quadris. Pernas enlaçadas, vejo o relógio, ainda tem tempo. Só mais pouquinho.

Cochilo de novo sentindo pulsar o peito. Sua boca grande perto da minha, tudo quente no aconchego de depois. As cobertas enlaçam nossos corpos nus. Acordo com o tesão que me arrebata quando te sinto. Sexo, pele, ossos, desvarios ainda em sonho. Você aperta meus seios como eu gosto. Subo a língua pelo seu pescoço, agarro seus cabelos, arrepios. Já é hora de levantar.

O banho. Morno. Esfumaçado. Como o café sendo passado na cozinha. Pão quente. O seu perfume misturado com o cheiro de café que invade a casa. Te beijo doce, carinho, massagem na nuca para o dia que vem.

As roupas. Deito de novo, cama amarrotada. Você ri da minha preguiça, a gente fala uma besteira qualquer, o riso solto embala o dia porvir. Você vem se despedir e eu te laço para mais um pouco. Beijos. Pasta de dente. As tarefas concretas que nos esperam lá fora. Sua presença que eu adoro. Desejo. Daqui a pouco nos vemos. Gosto de mais. Bom dia.

Carícias: de leve…

Ano novo começando e deu aquela vontade de falar de carícias… Aquelas pequenas, cotidianas, costumeiras, que podem virar um acontecimento. E tem esta receitinha que uso e vi sei lá onde. Provavelmente, numa revista feminina dessas “para agradar o parceiro”. Aí, a gente subverte tudo e vira uma folia a dois, pra nos agradar em primeiro lugar. Afinal, carícias podem apenas ser. Somente. Elas. E a pessoa que você quer.

Coloca óleo mineral num potinho, esquenta de leve no microondas, volta correndo pra cama e comece a brincadeira!

E com a pele besuntada, depois de palmas das mãos cheias e onipresentes, vem aquela outra parte que mais adoro.  O roçar das pontas dos dedos nas costas… Leve, mas longo e contínuo. Por horas. Saindo da omoplata, passando pela cintura, quadril e subindo de novo. Às vezes, desliza pro abdômen. Mas, nem sempre. As costas. Nas costas. E um ir se desmilinguindo toda. Virando pele. E silêncios. Quando muito, suspiros. Baixinhos. Um sussurro qualquer.

Tenho pra mim que se me mover os dedos vão se lembrar que estão ali e perceber que estão cansados. E de bruços, arrisco só um abrir de pernas. E os dedos percebem e escapam pra lá. E voltam repetindo o trajeto ao revés: quadril, cintura, omoplata, pescoço…

Posso gozar só nisso.  Com as pontas dos dedos nas minhas costas. E desse ir manchando o lençol de óleo. Há anos.

Gordos

Outro dia falei dos meus traumas de ser gorda. Bem, hoje queria falar sobre como eu adoro homens acima do peso, gordinhos, gordos.images (1)

Não alimento o desejo que a mídia vende para nós de homens fortes e com a porcentagem de gordura próxima do zero. Gosto de homens largos, com barriga grande, com pernas grandes, braços grandes e sem muito músculo. Já fiquei com homens magros e homens fortes, mas minha preferência sempre foram os mais gordos. Por muito tempo eu não aceitava o meu próprio desejo, achava feio me sentir atraída por homens fora de um padrão, mega gordofóbico, que exige que eu ame ou deseje um parceiro “apesar de” ser gordo e não por ser gordo. Acho que se libertar de padrões que se acham no direito de ditar os meus desejos é muito libertador. Mais que ser livre pra ter o corpo que eu quiser, tenho que ser livre pra desejar quem eu quiser, independente do seu corpo se encaixar no padrão midiático.

E vocês não tem ideia de como o sexo é bom quando nos libertamos de nossos preconceitos. Transar pegando na pessoa inteira, mordendo, apertando e beijando barriga, pernas, bunda, o corpo inteiro sem se preocupar. Já tive medo de meus parceiros se sentirem incomodados por eu apertar, pegar demais. Por ser frustrada com meu corpo, via o toque como uma lembrança do meu tamanho, da minha gordura, então me privava de pegar com vontade pra não levar o mesmo trauma a quem está comigo. Agora não deixo de tocar e ser tocada, aprendi a me libertar do medo de ser pouco gostosa por causa do meu tamanho. Com isso, entendi que um cara gordo também precisa entender o quanto é gostoso pra mim e só posso mostrar isso se eu pegar, morder, beijar e apertar inteiro, qualquer parte do seu corpo.

Quinta-feira passada, assistindo The Voice Brasil, na Globo, vi o cantor querido das meninas (que é muito bonito), Kim Lírio, e o achei bonito. Mas, quando apareceu o Lui Medeiros, fiquei totalmente encantada, e não é tipo “gordo com rosto bonito”, não gosto dessas coisas, quando acho bonito, acho tudo bonito, rosto, corpo e sorriso. E eu não pegaria o Kim, mas pegaria o Lui fácil, fácil! Não só ele, acho o Jack Black lindo, o André Marques também, mas eu mesma nunca analisei esse meu preconceito. Por muito tempo, eu falava que o André Marques era bonito, mas era gordo. Por um medo de assumir que gordos são bonitos e me atraem.images (2)

E o desejo é uma coisa curiosa, né? Minhas melhores transas com homens foram com homens gordos. Porque sexo não tem nada a ver com ser bom ou ruim de cama, ter pinto ou não, grande ou pequeno. Sexo também não tem nada a ver com “peso ideal” e nem com “beleza midiática”, uma trepada gostosa diz respeito apenas ao que nos agrada aos olhos, olfato, paladar e tato, o que nosso corpo quer e gosta, e cada umx de nós tem gostos diferentes. Que bom! 🙂

Agrada, mas não satisfaz

por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

tumblr_m2r9ilQutR1roos7io1_500

Não nos conhecíamos, mas nos reconhecemos como duas pessoas que gostam de sexo. Estávamos há pelo menos meia hora numa disputa onde os corpos ficavam bem encostados e os lábios muito próximos. No confronto de olhares, um mais direto e o outro se fazendo de bobo – mas foi ele mesmo que fez o gesto: correu a boca pelo meu pescoço, arrastou os lábios, os dentes e um gemido na orelha. Cedi, como não, e mergulhei para provar a boca carnuda que me desafiava com malícia. Passamos a tarde perdidos nesses novos sabores, em línguas afoitas, dois cegos se identificando.

No início da noite um pequeno descanso, um lado a lado silencioso e ofegante. Mas depois de insinuados os caminhos, eu já queria mais, mais beijos, bem quentes. Queria o outro se contorcendo, gemendo baixinho, respirando mais fundo, entregue às minhas mãos. Você quer? Sim. Eu conheço um lugar. Sim. Agora? Sim. Aqui? Sim. Os outros mesmos beijos e roupas que se empilhavam no chão. Nessa alternância de desbravamentos, uma insinuação de força nas mãos que usei pra empurrar seus ombros em direção ao colchão. Meio riso, meio tesão, ele deitou e se deixou como brinquedo novo pra diversão alheia. Sentado no seu quadril, olhos fixos naquele rosto relaxado, eu me esfregava enquanto decidia o que fazer. Com a outra mão, alisei seu peito, belisquei mamilo, escorreguei pelo braço até encontrar sua mão. Sem desviar o olhar, entrelacei os dedos e puxei em minha direção. Lambi a palma, entre os dedos, mordisquei e chupei, firme, o dedo médio, como convite ou promessa. Ele gemeu e tentou levantar o corpo. Neguei espalmando as duas mãos no seu tórax. Fica aí. Ele ficou.

 Mordi seu ombro sem força e deixei a língua molhar seus pelos até o umbigo. Pequenas contrações na barriga denunciavam os desejos, não sei bem se dele ou meus. Descobri seu pau, ainda não intumescido. Sem aviso nem preparo, enfiei-o inteiro na boca e lá o deixei, quieto, sem movimentar língua nem bochecha, apenas lá, enquanto minhas mãos deslizavam pra baixo, levantando-lhe o quadril e apertando com força sua bunda. Paciência, paciência e o pau, em espasmos, esquentou e cresceu entre meus lábios. Satisfeito, deixei que escorregasse pra fora da boca e passei a alternar mão e boca. Lambi desde a base, chupei só a cabeça, enfiei o saco na boca e fiquei chupando com ritmo enquanto apertava ora de leve ora com força. Mordi entre as coxas e suguei. Um tantinho descontrolado, segurei com mais vigor antes de colocá-lo inteiro dentro da boca. Estava gostando tanto de sentir aquele volume entrando e saindo que poucas vezes olhei para o rosto do dono do pau. Estava dominado pelo anseio de saboreá-lo. Meu corpo enrijecia e se movia como um espelho do prazer que ele parecia sentir. Seu quadril se mexia como a indicar o que, quando e como. Ali, mais forte, agora. A minha boca antecipava o quase. Quase nada se ouvia além do deslizar úmido do pau no movimento que já não era meu nem dele. O tempo. E o alerta: vou gozar – enquanto puxava meu cabelo com força, afastando minha boca e me obrigando a ver seu rosto meio distorcido enquanto o esperma quente escorria. Como um desafio a mais, lambi enquanto segurava seu pênis entre as duas mãos, acolhendo enquanto amolecia o tesão. Um cochilo, penso. Mas ele me puxa pra cima, me vira de bruços, monta e sussurra no ouvido com a cara mais cínica e toda a sua sinceridade peculiar:

– Agrada, mas não satisfaz.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

Sem Coração

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

Hilda Hilst

sou tua

Arrumei as malas vagarosamente. Você estava há horas trancado. Bati com força e gritei:

– Preciso pegar minhas coisas nessa porra desse banheiro.

– Você é uma puta sem coração – você gritou de volta. Eu ri. Você riu em ecos e abriu a porta. A primeira coisa que notei foram seus olhos vermelhos. A segunda que estava nu. De pau duro. Tinha tomado banho e senti o cheiro dos meus shampoos e de meus perfumes. Ri novamente. Cruel e cinicamente perguntei:

– Vai sentir saudades de mim, baby?

Então você me puxou com força para seus braços. Gemi quando senti seu pau entre minhas coxas. Foi como uma senha, um sinal, uma ordem para que rasgasse com força meu vestido e me deitasse no chão frio do corredor. Pensei em ódio. Mas foi doçura o que senti quando você beijou meus cabelos, meus ombros, minha boca. Meus seios. Com uma delicadeza quase sufocante tirou minha calcinha e quando ela chegou aos meus pés, foi a partir deles que começou a passar a tua língua, primeiro entre os dedos e subindo por minhas pernas, atrás dos joelhos, no meio das minhas coxas. Quando sua boca chegou na minha boceta você interrompeu o óbvio, abriu minhas pernas e colocou-se sentado entre elas. Me olhou nos olhos enquanto enfiava um dedo em mim.

– Eu quero que você goze na minha mão.

Com mais força, enfiou. Dois. Três. Novamente. Rapidamente. Obedeci e gozei, molhando suas mãos e dedos. Você espalhou líquidos em minha barriga para logo depois lamber-me. Ainda sentado, aquela inclinação sedutora da cabeça. Com que urgência eu lhe quis naquele momento. Então cavalguei, colocando suas mãos nos meus quadris, pedindo para me puxar em direção ao seu pau.

– Goza, sua puta sem coração – sua ordem.

Obedeci e gozei novamente. Fiquei de quatro, joelhos no chão duro, cara virada para olhar e pedir:

– Come minha bunda. Enfia seu pau no meu rabo agora.

Você, com força, zelo, tesão e todas as nossas perdas, história e saudades futuras, me fez gritar:

– Mais, mais, mais, me fode, me fode, porra. Mais. Assim, assim, assim….

Suplicar:

– Bate, bate com força, mais, mais, mais… mais… come gostoso meu cu.

Declarar:

– Eu vou gozar. Eu estou go….zan…do, caralho. Agora… a…go…ra… a…go…ra…

E você gozou junto comigo. Fora de mim.

– Puta sem coração – sua voz ainda uma última vez enquanto amorosamente espalhava seu gozo em minhas costas.

Puta sem coração. Fui embora sem olhar para trás. E nunca mais voltei.

Quando

por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

01

Quando acordo e te vejo de costas, ali dormindo nesse nosso colchão no chão, dá vontade de desenhar nas suas costas com a língua. Sobe um desejo de abraçar teus ombros e te acordar com mordidas na orelha. Você de costas é um convite para sentir teu coração no peito. Te puxar de barriga para cima e me aninhar por algum tempo, corpos roçando, pernas e pêlos misturados, me encaixar no teu morno e pensar que às vezes mentiras podem ser verdades por alguns minutos.

Quando acordo e te vejo de barriga para cima, você sabe que não resisto a subir em você, começar a beija-la do umbigo até o queixo e de volta até a buceta. Sempre tenho mania de te acordar, porque você sorri ao me ver ali querendo mais. Agora tenho você, nessa casa vazia, com o tempo que temos para sermos duas. Dali a pouco sei que tudo vai acabar, mas agora só meu corpo nu, pedindo você.

Somos nós aqui outra vez, você disse. Porque é mesmo improvável esse nós, porque apesar de nos beijarmos tanto e dormirmos tão bem juntas, amanhã é outro dia e não há nós todos os dias, nossos dias correm ao sabor da água salgada que corrói as cordas.

Sempre preferi as manhãs para transar, porque assim o resto do dia fica mais tranqüilo, porque saio com o sol no rosto e nosso cheiro ainda grudado no meu corpo. É quando gozo no seu ouvido, quando você enfia seus dedos bem fundo e eu dou aquela paradinha sem ar com o rosto entre seus seios. É quando nossos corpos caem suados e entorpecidos. É aí que eu te beijo com mais desejo e cumplicidade. Sempre estamos juntas aí.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

Rabo

Uma coisa que ela gosta: o cheiro na cama. Nos lençóis remexidos pelo sexo que se dorme a seguir. Odor do esperma. Do liquido morno que saiu da sua buceta em gozo. Suor, suor, suor. Saliva. Enfia o nariz, inspira a lembrança, exala desejo. Seu corpo vai acordando. Querendo. Ela se mexe e sente o corpo dele encostado em suas costas, o respirar compassado, a mão descansando embaixo de um seio. Ri um pouco, ele só com a camiseta do pijama, ela mesma nua. E tantos lençóis. Depois da cama, o mundo, o frio, o dia. Mas ainda não. Agora não. Agora ela esfrega a bunda nele. Roça, roça e sente. O pau lateja. Bom. De novo. Ele resmunga. Ela empurra a mão dele pelo corpo até que chegue entre suas coxas. Dedos entrelaçados brincam com seus pelos, separam os lábios, enfiam-se no úmido. Um gemido, ela não está bem certa de quem. Mexe o corpo pra facilitar o acesso. Mais fundo. Mais molhada. Os dedos, mais despertos que o resto dele, brincam. Passeiam. Tocam. Esfregam. Ritmo. A outra mão, como ignorante do que a direita faz, belisca os mamilos que alcança. Ela estende os braços sobre sua cabeça e puxa a dele pra si. Me lambe. Me morde. Ele lambe, do ombro ao pescoço. Morde a orelha. Volta ao pescoço alternando beijos, mordidas e pequenos sopros. Ela empina a bunda contra o pau duro enquanto impulsiona o tronco pra frente. Ele aproveita pra chupar, firme, suas costas. Ela sente tudo, o roçar áspero nos seios, a língua provando a pele, o pau pressionando o rabo, os dedos no vai e vem, dentro, mais, forte, sim, sim, sim. Pequenos estremecimentos. Ela arqueja, respira pela boca, os olhos mais abertos, o corpo mais mole, a buceta em pequenos espasmos. Prazer. Não há dúvida, agora, que estão acordados. Excitados. Ela sente o corpo entre a satisfação e a fome. Mais? Mais. Em um movimento ao mesmo tempo íntimo e brincalhão, ele enfia os dedos mais fundo e depois os retira, devagar, esfregando o molhado da buceta ao cu. Ela aproveita a posição do corpo, pernas entrelaçadas, quadris se esfregando e troncos distantes pra inclinar-se ainda mais em direção à gaveta da mesinha de cabeceira. Camisinhas, camisinhas, ela sussurra, eles riem, creme também – ele diz. A voz, as palavras, os sentidos implícitos, tesão, tesão, tesão. Ela pega a camisinha, não rasgue com os dentes, ela sempre se diz, mesmo que esteja com pressa, com vontade, ah, que vontade de ser enrabada. Agora é a intimidade construída e repetida feito movimento, camisinha que colocam juntos, o creme com que ele a prepara, as mãos levantando as nádegas, afastando, devagar – ele diz, sim, devagar – ela concorda, mas empurra o corpo em direção ao dele. Ele geme, o pau ocupando os espaços apertados que se moldam conforme o avanço. É quase dor, só não sabem de quem. Sabem tão pouco naquele momento. Quase não sabem a música que começa, repentina, no rádio despertador. Quase não sabem os ruídos abafados de alguém acordando no apartamento superior. Quase não sabem o sol sem calor que atravessa as cortinas. Quase não sabem os lençóis em desalinho já desnecessários. Sabem o gosto de pele, sabem os sons dos gemidos, sabem pedaços do outro entrevistos nos movimentos. Sabem em mãos que puxam, empurram, exploram, apertam, esfregam. Sabem em ritmo, suor, sons dos corpos que se atritam e se encaixam. Sabem em tesão no pau que lateja no ir e vir de ocupar o rabo e no rabo que se abre em aceitações. Ele para. Respira mais fundo. Ela geme um pequeno protesto, ele volta a deslizar as mãos sem rumo pelo corpo dela. Ela suspira. E se mexe. Mais. Assim eu vou gozar, é ele que protesta, como quem gosta. Ela firma as pernas segurando as dele, move o braço pra trás e crava as unhas na bunda dele, faz do corpo um arco, onde os pontos de encontro são o quadril e o pescoço – que ele suga já meio fora de ritmo. Eu te sinto. Duro. Dentro. Assim? Assim? Sim, sim. Vem forte. Vem mais. Goza. Goza. Goza. Gozam.

rabo

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...