Vermelho

O batom.

Os lábios. Grandes e pequenos.

E até os do rosto.

O pano na tourada. Provocação. Convite.

O vinho encorpado.

A rosa do menino príncipe. Ternura.

As paredes de Bergman, em Gritos e Sussurros.

O Boi Garantido e a voz da Fafá. Potência.

Os olhos injetados de desejo, de raiva, da ressaca da noite mal dormida e bem vivida.

O calor em um abraço.

O envolvimento de quem se quer.

A mestra do cordão encarnado. Dança e festa.

A pincelada de Caravaggio.

Os sapatinhos. Casa. Dança. Sorte. Morte.

Audrey Hepburn, nas escadas, em ‘Funny Face’.

O churrasco quente e mal passado. Sabor.

Os morangos, ainda que mofados.

Os cortes. E, às vezes, as cicatrizes. Memórias.

O sol por trás do olho bem fechado inclinado pro céu ao meio dia. A coragem de.

O sangue derramado em luta. Dado a causas. Derramado por amor a outras gentes.

Meia bandeira do Mengo. Alegria.

Todo teu gosto na minha língua.

Pimenta.

A fraternidade, no filme. A liberdade, nas ruas.

Meu coração.

real

A valentia de Tereza

Em meados dos anos 70, Tereza, aos 18 anos, tomou uma decisão que certamente, mudaria todo o resto de sua vida: sair da casa dos pais. Solteira.

Hoje, tal atitude não seria vista como uma afronta (apesar de ter muita gente que ainda torce o nariz para mulheres que moram sozinhas). Mas imaginem como foi para Tereza enfrentar tudo e todos para poder fazer suas próprias escolhas, numa época em que mesmo com tantas revoluções feministas acontecendo, o Brasil estava mergulhado nas trevas de uma ditadura militar e nos resquícios de um pensamento bastante conservador?

Tereza nasceu numa cidade pequena do interior do Paraná. Filha mais velha de uma dona de casa e um comerciante, tinha duas irmãs e dois irmãos e cresceu vendo os “homens da casa” terem uma série de privilégios com os quais ela e suas irmãs jamais poderiam sonhar. As irmãs não ligavam muito para isso, pois achavam que era assim mesmo que teria de ser. Mas Tereza era muito questionadora e inquieta. Ela queria poder brincar de bola, sujar a roupa, chegar em casa mais tarde, falar palavrão… E não demorou muito até que ela se tornasse a “ovelha negra” da família e um “mau exemplo” para as garotas da vizinhança.

Ela sempre gostou muito de estudar e já na escola, mostrava-se uma aluna brilhante. O sonho dela era ser engenheira, sonho este que jamais foi incentivado por ninguém. Mas quem disse que ela desistia? Estudava nas poucas horas vagas que tinha após ajudar a mãe e as irmãs no serviço doméstico. O fato de ser tão estudiosa acentuou muito o seu senso crítico, fazendo com que ela decidisse que iria lutar com todas as forças para defender àquilo que acreditava.

Não foram poucas as vezes em que Tereza viu várias mulheres de seu convívio – incluindo ela mesma – sofrerem caladas por conta do machismo. Poucas eram aquelas que tinham coragem de enfrentar o peso que a sociedade exercia sobre suas vidas e quando enfrentavam, eram excluídas, mal vistas, duramente julgadas.  Mas nem isso fez com que ela abrisse mão de sua liberdade. Saiu da casa dos pais e veio tentar a vida em São Paulo.

Com um emprego de ajudante de bar, Tereza ganhava o suficiente apenas para comer e para arcar com os custos de um quartinho em um pensionato. Economizava todo o pouco dinheiro que sobrava e nas horas vagas, e sempre que podia, estudava. Até que ao final de seu primeiro ano em São Paulo, foi aprovada num dos vestibulares mais concorridos de engenharia do país. Ela e outra garota eram as únicas mulheres presentes num curso de duzentos alunos. Após muito esforço, conseguiu uma bolsa de pesquisa e antes mesmo de terminar a graduação, conquistou um emprego em sua área.

Dia desses, contei para um conhecido a história de Tereza. Talvez, teria sido melhor eu ficar quieta, porque tudo que ouvi foi: “valentia de mulher dá nisso mesmo: em tristeza e solidão. Certeza que a família dela morre de vergonha do que ela aprontou”.

Que nada. Ai se ele soubesse… É que depois daquelas palavras, perdi a paciência de contar e a vontade de conversar com ele novamente. No entanto, digo para vocês: Tereza hoje mora com seus três gatos em um dos prédios de apartamentos que projetou. E nem pensa em se aposentar, porque ama muito aquilo que faz. Não se casou porque não quis, e tem bons amigos. Adora viajar e dançar. Sua família hoje tem muito orgulho dela e fala sobre sua trajetória com muito carinho. A coragem dela foi forte o suficiente para transformar o preconceito em respeito.

Depois disso, só posso concluir que “valentia de mulher”, ao contrário do disse o meu famigerado conhecido, não traz nada que envergonhe. Muito se engana quem pensa que uma mulher que luta por seus sonhos e pela conquista de seu espaço é infeliz e solitária. Tereza – e tantas outras hoje – estão aí para mostrar isso. E é nela – e nestas outras mulheres livres e destemidas – em quem eu, que ainda tenho um longo caminho a percorrer, quero me espelhar.

Dando um rumo para a própria vida

Convém dizermos que, quando alguém dá um “rumo” para a própria vida, significa que esta pessoa tomou uma decisão ou fez uma escolha que implicará em alguma mudança. E mudar às vezes dá medinho. É um pouco complicado para muita gente adaptar-se ao novo. O futuro assusta e nem sempre temos – ou achamos que não temos – condições de arriscar. Decidi compartilhar por aqui uma experiência minha bem recente que demandará um esforço grande da minha parte.

Eu tenho 23 anos. Daí,  você se pergunta o que uma garota tão nova tem a falar sobre mudanças… Pois, bem. Lá vai! Eu entrei na faculdade muito cedo, mais precisamente aos 17 anos. Escolhi o curso de Letras, que na época, era UM SONHO para mim. Eu adorava (e adoro!!!) ler, ia muito bem em Literatura na escola, dava aulinhas de inglês e tinha certeza absoluta de que era aquilo que eu faria a vida toda. E que aquele era o meu “rumo”.

Hoje eu sei que deveria (e devo) desconfiar sempre de certezas absolutas…

Além desse mundo inebriante das palavras, Arte  sempre me fascinou. Música, teatro e desenho  ocupavam boa parte das minhas atividades. Contudo, era através do desenho que eu expressava tudo que sentia, que aprendia, que vivia. E era ali que eu me destacava. Só que mesmo com tanta gente dizendo: “Cláu, invista nessa área, corra atrás, aperfeiçoe-se”, tive medo. E assim, concluí o meu curso de Letras, aos 20 anos. Fiz de tudo um pouco nesta área: lecionei, revisei, traduzi… Gostei. Só que a tão almejada realização, aquela vontade de fazer isso cada vez mais… Não chegou. Nem com um projeto de mestrado em fase de conclusão.

Adiei um pouco a idéia do mestrado e fui fazer um curso técnico. Mais precisamente, de Design Gráfico. Não encontro palavras para expressar o quanto me apaixonei por cada coisa nova que aprendia, por cada esboço, por cada minuto das aulas de composição, de desenho geométrico, de computação gráfica. Eu respirava aquilo. Fui conhecendo gente, mantendo contatos. Vieram os trabalhos como freelancer e foi ficando difícil conciliar meu emprego fixo e estável como servidora pública e os projetos e as ilustrações. Só que ainda assim, estava feliz por ter a oportunidade de fazer o que gosto.

Pois é. Eu deveria estar engajada com o mestrado, procurando orientadores, escolhendo qual processo seletivo tentar primeiro… Mas ao invés disso, me matriculei num cursinho pré-vestibular semi-intensivo que começará em maio. Vou tentar ingressar em um curso superior de Design ou de Arquitetura – que também me agrada sobremaneira –  numa universidade pública de Sampa. Vou começar do zero numa área totalmente diferente da que me formei. Vou, com um certo atraso, investir naquilo que sempre quis. E não estou cabendo em mim de tanta felicidade!

Espero que meu relato não tenha cansado vocês. Mas, um dos princípios fundamentais para que alcancemos com plenitude a nossa autonomia é ter coragem, sobretudo de mudar. Mudar quantas vezes for preciso, até que consigamos viver de bem com nós mesm@s. E, como vocês bem sabem: biscate é também uma mulher que tem peito ( literalmente ou não) para assumir os riscos que envolvem dar um (ou uns, por que não?) rumo para a própria vida.

E para finalizar, aqui vai uma frase fantástica que o meu amigo Gilson me disse, via twitter: “fazer o que gosta pode não enriquecer, mas ajuda a sorrir”.

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