Não obituário

Por Niara de Oliveira

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Tanta coisa para escrever e dizer… Sobre cenário eleitoral, sobre luta pela legalização do aborto, sobre cenário eleitoral e luta pela legalização do aborto. Ainda sobre ditadura e da luta por memória, verdade e justiça — esses substantivos todos, todos femininos –, e sobre o aniversário da Lei da Anistia e a luta pela sua revisão…

Mas há dias em que seria melhor não estar, e calar. Não estar no corpo, não estar atenta e forte, não tomar conhecimento. Não dá. É preciso dizer, mesmo quando faltam as palavras. É preciso lidar com as dores e perdas. Embora a morte, essa biscate, não deva ser temida, ela está aí e chega pra todo mundo.

Nem tinha acordado e já estava mais pobre, já estava menos eu. E pensando aqui que deveríamos escrever mais obituários. Obituários não apenas para pessoas, mas para tudo cuja perda teve relevância na nossa vida. Relacionamentos, objetos perdidos. Já perdi até casa. Deveria ter escrito obituário para ela (a casa), para os óculos escuros esquecidos numa lanchonete do dia do impeachment do Collor, para as fotografias do Calvin levadas num assalto em Fortaleza… Tanta coisa. Tem até sonho que merecia um registro fúnebre.

Mas dureza mesmo é escrever o tradicional obituário sobre pessoas queridas. É uma arte que não domino. Tanto que estou dizendo isso tudo para evitar de cumprir a tarefa. Desculpaê, não dá. É a dor suplantando a abnegação de dar o reconhecimento, o devido espaço na memória para alguém muito querido.

Se alguém aí for bom em escrever obituários, escreva um desse texto, e outro desse dia. 🙁

Das cartas

Porque é tão bom escrever cartas. E tão, tão bom recebe-las. Cartas para amigos, cartas para amores. Cartas. Escritas que vem de dentro contar-se para quem se gosta. Letras que chegam para contar de quem vem. Trocas, intercâmbios de palavras que sentem e expressam o que – até – algumas conversas não podem alcançar.

Temos tantos recursos hoje. Telefone sem custo de interurbano, internet, Skype, chats dos mais diversos. Corpo a corpo – ou quase – bom de se ter com quem os olhos não podem alcançar com frequência. Mas, confesso: eu gosto mesmo das cartas. Do espaço que hoje migrou para os e-mails, mas que eu já vivi com papel e selos e a alegria de receber pelo correio. Onde eu fechava o envelope com cola e olhos vibrantes, e pensava como chegaria do outro lado. O barulho do envelope sendo aberto, o cheiro do papel, as letras tortas escritas à mão. Inesquecíveis.

As cartas não economizam. Elas contam, encantam, choram junto quando a gente lê pelos olhos do outro. Contam-se sem receios de sentir o que se escreve. Poesias de amizades, de amores e de delícias de se ter um ao outro assim, também em palavras.

Literatura também se faz por cartas. Lembro quando li “Cartas a um Jovem Poeta”, do Rilke, livro que acompanhou todas as minhas cabeceiras nos últimos dez anos. Cartas que falavam comigo, em ecos lá no subterrâneo dos sentimentos. E as “Cartas perto do coração”, trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, lindas de doer.  Tantas cartas. Tantas belezas partilhadas.

Aqui deixo um pouco das minhas cartas. Essas trocadas com a amiga-confidente- irmã, escritora e dançarina do inimaginável, Kiara Terra. Começo pelo fim, para fazer mágica e inverter um pouco a ordem da vida.

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(eu)

Amiga,

Suas letras me chegam em lágrimas nossas. Salgadas. Aqui onde eu cheguei ainda não sei ser eu. Tudo novo, novo espaço, nova pele, nova roupagem. Espaço redimensionado, tudo reduzido das minhas larguezas. Meus espalhamentos de tantos tempos chegaram aqui: na contenção de mim. Espaço pequeno. Tantas despedidas, tantos desapegos. Até de quem já fui. Nada mais serve. Tudo ajustando-se e eu disforme, sem contornos. Tudo em caixas espalhadas pelo chão, muita coisa jogada fora, muita coisa que já foi minha e não me pertence mais. Pouca bagagem, pouco lastro do passado a não ser no brilho que ficou nas retinas. Coração apertado, peito doendo de uma angústia sem rosto. Vento forte, que sopra aos meus ouvidos uma música desconhecida. Vento de mudanças estruturais.

Foi muita água, a gente nadou tanto, tanto, e depois de tanto não reconhecemos onde chegamos. Inexplorado de nós mesmas. Tudo novo. Medo, emoção. Orgulho de ter ido. Dor de ter sentido. Tristeza pelas perdas, e os anseios correndo sem endereço certo. Aqui estou minha querida, e não sei mais de nada. A última crise me conteve, prendeu o cavalo, amarrou meus pés no chão e disse: pare. É preciso pouso. Reconheça-se novamente. Prepare a nova casa. Ela vem amiga, o nosso novo vem.  Estamos perto de ter toalha felpuda. Mas não como a gente esperava. O braço é nosso com a gente mesma. O acalento somos nós assim, tão despidas e tão frágeis diante do susto. Somos nós embaladas por nós mesmas. Ainda tem muito chão e estamos exaustas. Vamos dormir um pouco, vamos nos cobrir desse cobertor rosa-iogurte que aquece e lembra amor. Vamos fazer um ninho provisório para poder continuar e receber o que vem. Estamos juntas, sempre. Para mais!

 (ela: Kiara Terra)

Querida Sil,

Por que tanto. Não desejamos menos do que tudo. Inteiro. Grande como fosse. E caminhamos, corremos, voamos em desarvoro o quanto podíamos, prometemos a nós que seria como andar de bicicleta…pedalar, pedalar ininterruptamente. Sem cair.

Estávamos cansadas e a ladeira era enorme ainda. Era nadar a vida a braçadas, mais e mais, e pedalávamos de olhos fechados. Vida abaixo, vida a cima. Viva vivida toda, como você gosta de dizer minha amiga.

E nos cansamos. Coração saia pela boca. palavra já não saia. O que saia era o coração mesmo, em veia e sangue. Paramos. Sem colo ainda. Nada do mar aberto, nem sinal de toalha felpuda. Ainda estávamos no descabimento. Depois de tudo ainda estávamos ali e nossa casa de agora não nos vestia. Ainda não.

Sonhei com você, te contei. Só não contei que chorávamos juntas. Depois das suas últimas notícias o sonho fez mais sentido. Chorávamos cansadas. Exaustas, tal qual criança de volta de viagem. Tantos dias fora de casa. Tanta gente. Pele alargada por tanto voo e músculos doloridos.

E paradas a gente não se sabe muito. Paradas é o desajeito diante do espelho desconhecido da casa de alguma visita. A visita somos nós em nossas casas novas. Aqui onde cheguei está tudo em ruínas. Do teto ao chão e o cheiro de cimento molhado me avisa que será preciso esperar um tanto antes de. Desvio dos restos da minha casa espalhados pelo chão.

Aqui só se pode andar devagar por que o pó fino das coisas desfeitas tomou tudo. Serão algumas dúzias de dias em bate estaca. Só bem depois no silêncio. Noite, escuridão translúcida, permear tudo. Só depois virá uma tarde calma quente e forte de corpo refeito, para um abraço demorado de encontrar um segredo no outro sem precisar de palavra, nem de coração que escape.

Só quando a maré encher. No ainda de agora acolhidas pelas águas fundas, sentido opaco e imóvel. Tudo tão longe. Rua de carnaval nenhum. Sem rastro anterior. Caminho novo só a gente outra vez. E a gente da gente, casas nossas habitadas inteiras e cheias de frestas transpassadas e acolhidas. Nós. Até desatar.

Post de sábado quente

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Sábado. Sol. Quente. Aqui tá mais fresquinho. Pela janela vejo a pedra, vejo o verde. Vejo azul o céu.

Post no Biscate: hoje é meu dia. Calor. Preguiça. Saco de gelo na nuca. TV-abobrinha. É meu dia: e isso pega, isso gruda nas idéias, isso atrapalha o fresquinho do saco de gelo na nuca.

Deixar pra lá: não sei fazer. Penso no que a Déborah me disse-que-o-analista-dela-disse- pra-ela mas podia ter sido pra mim: você nunca deixa pra lá e considera feito? Ele disse pra ela e ela me disse. A mim. E ele podia bem ter dito a mim, porque é mesmo a minha cara. Uma lista de não-feitos. De pendências quase caindo do pé. Mas permanecendo. Incomodando. Impedindo o balanço da rede, o dengo do sábado, o relaxar no calor.

Mas é assim: a gente ouve. Parece que nem deu atenção. Muda de assunto. E mesmo assim aquilo fica lá, ecoando. Esse ficou. Minha imagem é de fios desamarrados: na minha cabeça tem um monte deles. Pendências pendendo penduradas. São fios pretos, não que eu jamais tenha pensado nisso ou escolhido sua cor. Mas vejo-os: são pretos. Num varal. Desamarrados.

E aí, como uma nova porta, um novo horizonte desconhecido, a idéia nunca dantes navegada, quase revolucionária: e se eu deixasse pra lá? E se eu simplesmente aceitasse que alguns não? Que na verdade nunca, que talvez nem deveriam ter sido? Que nem estão mais lá, se eu olhar com honestidade?

Não sei ainda. Tá calor. Dá preguiça. E tem que definir. Tem que decidir que fios. Os que ficam, os que vão. É também um tipo de comodismo, esse não-escolher: um faz-de-conta à maneira da Emília. Faz de conta que estão todos ali ainda. E que um dia eu vou fazer. Vou amarrá-los um a um, bonitinhos, com laço e tudo. Vou completar. Vou fechar um ciclo.

E no “não sei” nada acontece. É necessário coragem pra deixar ir. Desapego. Até dos desafios, até dos problemas. Desistir: também uma sabedoria.

Aprender a desistir: um novo caminho. Novo fio?

Enquanto isso, a rede. O azul. O calor. A janela. A pedra.
O post.

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