O Estado contra Beth

Por Niara de Oliveira

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

 

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

A Laicidade do Corpo e do Estado

As bisca tudo tão meio pirada na última semana. Foi um tal de dormir e acordar em 1968, cochilar e despertar em 1939, assistir televisão de ser teletransportado para a Idade Média, que tirou a galerê dos eixos. O trem eu descarrilou, e é um trenzão que pouca gente aguentaria por aí sem KY, é o da laicidade do Corpo e do Estado.

Olha, tio Lutero, onde quer que esteja, seja sempre o meu amoNÃO, Péra! deve estar um tanto quanto descontente, ou mesmo desapontado com o que temos passado por aí. Sua grande conquista política lá pelos idos dos 1600 e alguma coisa fia a de, justamente, separar a religião da política, relegando ao estado (na figura do príncipe, gutiguti ,<3) ao gestão sobre o corpo e à religião o império sobre a alma.

Pois é, na teoria… Ou, talvez, por algum tempo até se tenha buscado afirmar isso como uma máxima da nossa sociedade. Contudo, o que se presencia nos últimos meses (e, porque não, nos últimos anos) é justamente a tentativa deliberada de rompimento com esse ponto demarcatório da modernidade.

Da Laicidade do Corpo - Imagem de Protesto em Julho de 2013

Da Laicidade do Corpo – Imagem de Protesto em Julho de 2013

Pro pessoal aí que defende que a sociedade está se liquefazendo com o aquecimento global (#BjoBauman #Ironia), até faz sentido a reunião desses diversos fatores contraditórios e característicos de “tempos de rupturas” (?). O problema, no entanto, vai além, está justamente na opressão imposta a corpos, úteros, cus, bucetas e buracos das orelhas que se entranha e provoca sofrimento à vida em particular.

Aliás, nesse processo todo, o que mais vem assustando é a falta de preocupação generalizada (de pensadores, governos, grupos organizados) com o aspecto do sofrimento que esse rompimento da frágil laicidade do estado tem provocado. Tem se tornado fácil apontar os juízos moralistas mais diversos à ~{[(“corpos antes apenas constrangidos pelo secularismo do estado”)]}~ na vontade de lhes impor o impensável.

Não que isso jamais tenha acontecido, pelo contrário. O embate entre religião e sociedade laica pelo domínio do estado permanece desde que tio Lulu jogou merda no ventilador colocando suas teses sobre religião naquela igrejinha lá da Alemanha. O grande problema que as bisca tão enfrentando atualmente vai além, é o retrocesso que está ocorrendo nesse processo de separação.

E é por isso que, de alguma forma e conforme suas possibilidades, as bisca estão marchando, estão se movimentando, estão blogando, tuitando e estão promovendo beijaços. É pelo direito de manter nosso frágil direito ao nosso corpo e de darmos nossa alma a quem quisermos, que se justifica a nossa luta. Por isso, queremos dizer: #VoltaLaicidade #SaudadeDoSeuRabo fia.

O Estado contra as Biscates

Era tarde quente, eu buscava exercer a quase impossível tarefa da locomoção em São Paulo. Ah, São Paulo, este “point” de gente conservadora, de governo e prefeitura ainda piores do que o povo. É fogo. Fogo estava aquela tarde.

Na tentativa de distrair – e disciplinar – a população, agora há televisões nos ônibus também, além de nos metrôs. Claro que a programação é vendida para uma das poucas emissoras grandes que continuam controlando a informação. Mas o ponto não é esse.

O ponto é o cúmulo. O extremo. O abuso.

Eis que na televisão do ônibus começam longos três minutos dedicados exclusivamente a mostrar às mulheres como não se vestir. De repente, sem contexto nenhum, uma tela amarela mostra desenhos de corpos femininos com roupas de periguetes e grandes “X” vermelhos sobre as peças de roupa, acompanhados de uma legenda, caso as periguetes não tenham entendido que estão erradas: “não use saias ou shorts curtos ou justos”. Assim. Pá-pum.

O show de horrores segue. Uma outra imagem mostra uma mulher com uma calça jeans que deixa a barriga de fora e uma blusa curta. Outros “X” vermelhos e a legenda: “não use calças justas” e “não mostre o umbigo”.

Minha sensação era de querer tirar a roupa inteira, e nisso estou com o Femen. A corporalidade. O corpo. Nossos corpos. NOSSOS. Se absolutamente todas as pessoas são vítimas de um controle disciplinar promovido por alguns grupos que dominam o Estado (viva Foucault!), é fácil perceber que as mulheres são especialmente atacadas.

As leis de controle do corpo e tutela da autonomia sobre ele são dedicadas especialmente a nós – homem não aborta, né? Nosso corpo é um grande objeto de disputa pública, é preciso estar consciente.

É preciso notar o corpo.

É preciso amá-lo.

É preciso jogar uma pedra em cada um dos discursos que sustentam esse controle absurdo, abusivo. Por parte do Estado ou de outras pessoas.

Quero um mundo de periguetes livres.

 

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