Ah, os estereótipos

São muitos deles, podem reparar. É só andar por aí um pouco atento para perceber que muitas vezes transitamos na vida real como quem transita pelos comerciais da novela das oito, que não é nem mais das oito hoje em dia. E que quando terminam os comerciais, aparecem os papéis pré-concebidos, a “mocinha” e a “vilã”, o “gay” e a menina “negra”, o “intelectual” e o “malandro”, o “pobre” e o “rico”, o “empresário bem sucedido invejado” que vai casar com a mocinha no final e ter muitos filhos loiros de dentes brancos e felizes para sempre.

A vida imita a arte? Não que eu considere que a novela seja arte, muito e antes pelo contrário, mas me aproprio do jargão para dizer que desde sempre essas histórias impregnam modelos e padrões, tão costumeiramente encontrados no nosso dia-a-dia (sem o pretenso glamour do plim-plim, claro, isso guarda-se para o desfile do programa de domingo). Reforçam a venda de mercadorias e modelos de comportamento, tão vazios e, infelizmente, espalhados nos mais diversos campos da sociedade. E a vida inspira a “arte” televisiva com seus estereótipos enquadrados em rótulos tão bem delineados no nosso cotidiano.

Ainda tem gente que pensa que mulher gay é aquela de trejeitos masculinos, botas, cabelo curto, calça jeans e colete. Esquecem que a sexualidade é livre, e tem mulher cabeluda, loira escovada, de saia curta e sapato de salto, que gosta mesmo é de amar mulheres. Que o cara gay é o cara delicado, de voz mansa, que gosta de vestir roupas espalhafatosas ou coisa que o valha, e esquece que tem homem barbudo, forte, de fala grossa, másculo daqueles de encher os olhos de testosterona, que se amarra mesmo é em caras e amores masculinos.

Desconsideram que a mulher com a saia curta e colada que fala alto e bebe todas na mesa do bar pode ser casamenteira e fiel de doer a vista, que a moça certinha, “comportada” e ajoelhada dentre os fiéis pode estar fervendo por dentro e se divertindo (espero) nos muros detrás da igreja com outros moços e moças também “comportados” ou quem sabe (espero de novo) com aqueles que estão bebendo do outro lado da rua, jogando sinuca e falando palavrão bem alto sem qualquer religiosidade aparente.

Esquecem também que todo mundo tem bem e mal, que tem vadiagem e biscatagi enrustida ou declarada, que tem vontade de trepar e tesão que corrói as vísceras, que tem algo de santo e de profano, que tem malandragem e gingado e caretice daquelas das mais carolas, que pode ser mãe e pai, que pode ser trabalhador concentrado, tatuado bem sucedido, fumante bem conservado e preocupado com a saúde, enfim. Os slogans de comercial não servem para definir ninguém. Os papéis da novela não representam a vida, a vida não está no roteiro global, graças aos astros somos seres complexos e não-enquadráveis, escapamos do rótulo, da caixa de papelão das prateleiras do mercado, escorregamos por essas etiquetas e nos espalhamos, sem forma e sem padrões, pelo mundo afora.

Resta-nos ter coragem para enxergar isso, e ir além. Coragem para não termos margens, para sermos, apenas e tanto, o que somos por dentro, para nos descobrirmos livremente, para fugirmos dos julgamentos, para espalharmos mais amor pelos dias, amor daqueles de verdade que não tem final feliz e sim muita trepação e vadiagem, fidelidade de alianças fortes e mãos dadas, brigas e entendimentos, construções das mais belas e das mais toscas, das mais elaboradas e das mais simples, de tudo isso que nos escapa às palavras e nos faz, lindamente, seres estranhos e complexos.

Como já disse Fernando Pessoa, nesse trecho que já foi meu quadrinho de parede, eu repito e grito esses versos com meus braços bem abertos, em busca da inteligência nova e da renovação dos seres humanos para além de qualquer estereótipo. E viva a biscatagi!

 “Sim, todos vos que representais o mundo,

homens altos passai por baixo do meu desprezo

Passai, aristocratas de tanga de ouro,

Passai frouxos

Passai radicais do pouco!

Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas

Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.

Sufoco de ter só isso a minha volta.

Deixem-me respirar!

Abram todas as janelas

Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.

Nenhuma ideia grande, nenhuma corrente política que soe a uma ideia grão!

E o mundo quer a inteligência nova

O mundo tem sede de que se crie

O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.

O que aí está não pode durar porque não é nada.

Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!

Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.

Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico

e saudando abstratamente o infinito”. 

Sobre amizades, biscates e verdades absolutas

São Paulo, horário de pico, metrô lotado. Eu, que nunca perco a mania de prestar um pouco mais de atenção em conversas mais exaltadas, não fiz nada de diferente desta vez. Antes tivesse feito. Porque assim, pouparia meus ouvidos de mais um suntuoso clichê proferido como verdade absoluta e inquestionável.

Duas mulheres conversavam em alto e bom som. Uma delas, especialmente, dizia com veemência que depois que passou a “selecionar melhor” (!!!!!) suas amigas,  deixou de ser traída pelo marido. Aquela velha história, sacam? “Ah, mas ele é homem e a carne é fraca. E esse bando de biscate não perdoa e dá em cima mesmo.” Coitadinho… O pobre marido dela é bem santo, só que ao contrário.

A outra moça concordou com tudo e reforçou: “ah, por isso que eu nunca deixo o meu homem (!) sair sozinho com amigos quando sei que terá outras mulheres por perto. Também começei a tomar cuidado com umas “amigas” da onça das quais sempre desconfiei. São bonitas, mas estão sem ninguém e morrem de inveja da minha felicidade”. Então tá, né? Que conceito mais escabroso de felicidade…

Vamos lá. Analisem comigo quantas ideias clichezentas  estão presentes em tão poucas palavras:

1- a ideia de que toda mulher é falsa e invejosa;
2- toda mulher só pode ser feliz se estiver se relacionando com alguém. Ou que o fato de ela não ter um compromisso amoroso é o suficiente para ela querer prejudicar quem tenha;
3- mulheres bonitas (leia-se dentro dos padrões vigentes) são “perigosas”;
4- caso ocorra uma traição dentro de um relacionamento (heteronormativo), a culpa será sempre da mulher. Ela, geralmente, é uma biscate que não poupou esforços para seduzir o homem que estava quietinho no canto dele;
5- a ideia de que amizade entre homem e mulher na verdade não existe e que sempre haverá outros interesses, pelo menos de uma das partes;

Perceberam ou estou exagerando?

Passado o meu desânimo e controlada a minha vontade de manifestar qualquer opinião, fiquei pensando um tempo a respeito do que presenciei. Ou de onde vinham tantas idéias odiosas direcionadas para outras mulheres. Todo mundo sabe que a nossa sociedade, ainda muito machista,  é uma das principais propagadoras de tais pensamentos. Só que, ainda que eu perceba como funcionam estes mecanismos bastante opressivos, fico particularmente triste quando vejo que muitas mulheres ainda os perpetuam. Muitas vezes, de forma bem cruel.

Não as culpo. Só que mesmo sabendo que eu não consigo sozinha consertar o mundo, gostaria de fazer aqui um convite à reflexão. Enxergar mulheres – e pessoas em geral – através de estereótipos (bem ultrapassados, por sinal) é bem limitador, não acham? Penso eu que já passou da hora da gente parar de naturalizar fatos e comportamentos que dependem do caráter de cada um, e não do gênero.  E seria bem legal se algumas pessoas parassem de culpar os outros – biscates ou não –  por suas inseguranças.

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