Não ao #bebeuperdeu

Este texto estava no rascunho desde outubro de 2014. Mas depois de ver o absurdo de uma campanha do Ministério da Justiça onde há a responsabilização da vítima pelo que ela sofre, eu decidi publicar.

Eu fui estuprada.

No dia 21 de abril de 1997, aos 20 anos. Foi a minha primeira relação sexual, e não foi consentida. Foi em uma cidade universitária, no feriadão, em uma festa.

Mas eu não denunciei. Eu não contei para ninguém. Eu não sabia que era estupro, eu achei que foi culpa minha. Ele era da turma de amigos, era irmão de alguém, amigo de alguém. Eu me senti segura com ele. . Eu estava embriagada, ele me levou para o quarto dele. A gente estava se beijando. E eu quis parar. Eu disse não. Eu gritei, eu chorei, eu dei um soco nele, mas ele não parou. E no dia seguinte, ele foi tão gentil. Eu achei que tinha feito algo errado, que estava louca. Mas estava dolorida, com a calcinha suja do sangue da minha virgindade. E ele disse que como eu era “muito quente”, ele não imaginou que eu fosse virgem. Até a hora “h”. Nos despedimos, eu peguei o ônibus e voltei para casa.

Levei anos até superar o que houve.

Outro dia em um seriado americano, L&O: SVU, o episódio foi sobre um humorista que faz piada de estupro, e que é também um estuprador. Ele usa de todo o arsenal do “politicamente incorreto”, lança mão da liberdade de expressão, e ao final, consegue um acordo com a promotoria, e não cumpre pena.

O ponto não é nem esse. É que a responsável pela Unidade de Vítimas Especiais (Crimes Sexuais), ao levar o caso para o promotor responsável, encontra uma séria resistência.

Porque a vítima não era “confiável”. Porque ela havia bebido, havia beijado o estuprador, bêbada, em público. Porque não avisou ninguém, não pediu socorro, não contou para ninguém.

E o “humorista” faz sua fama e inclusive usa do processo para ficar mais famoso, mais “polêmico”, mais “incompreendido”.

Afinal, toda mulher bêbada que faz sexo casual e no dia seguinte não recebe flores vai acusar o parceiro de estuprador, não é mesmo? E é um dos maiores “temores” masculinos, equivalente ao da vagina dentada: ser acusado de estupro depois de sexo casual.

Ele fala que a piada não é sobre o estupro “estupro”, o “de verdade”, “for real”, mas aquele estupro do “ele disse/ela disse”. Essa categorização já diz que há vitimas que são mais vítimas do que outras. Há a antecipação, a previsão, de como vai agir uma “verdadeira vitima de estupro”. E confunde, de propósito, estupro com sexo.

Eu já fiz sexo casual. Eu sei o que significa casual, sem compromisso. E eu já fiz sexo casual depois de beber, e eu já me arrependi de ter feito sexo, casual ou não. Mas só uma vez disse não, e pedi para parar, e demonstrei meu desconforto. Só uma vez foi estupro. Houve arrependimentos, em outras ocasiões, depois que eu superei e passei a curtir sexo? Sim, quem nunca? Mas não houve outro estupro. E sim, eu recuperei minha vida e tenho uma vida sexual saudável, isso me torna menos vítima na visão de algumas pessoas -para elas, não foi estupro se não há o trauma e a frigidez posterior.

Estupro não é sexo.

Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Quando alguém diz NÃO, é não. Quando alguém diz PARE, é para parar.

Então, isso tem que parar.

Não é NÃO.

Precisamos arcar com nossas escolhas, sim, mas precisamos nos educar, a todas e todos, para entender que não há nada, NADA, que justifique o sexo forçado. NADA.

A Luciana, nesse texto aqui, fala:

“Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.”

Nem a roupa, nem a bebida, nem qualquer amasso anterior, nem ir para o quarto ou para o carro, ou qualquer dessas coisas. Ninguém “pede” por isso.

Se em algum momento de uma relação, uma pessoa pedir para você parar e dizer que está desconfortável com situação, que não quer, você não tem que insistir, que forçar de forma psicológica ou muito menos física. Você tem que PARAR. A pessoa não te “deve” nada.

E se em algum momento de uma relação você se sentir desconfortável, intimidada, ameaçada, você TEM o direito de dizer NÃO. Você não “deve” nada.

Eu escrevi a primeira vez sobre o tema em 2011, com o título “isso não é um convite para me estuprar”, no Blogueiras Feministas Mas não tornei público que eu também fui uma vítima de date rape.

Toda vez que alguém faz piada com estupro, uma de nós sente de novo a dor e a vergonha que passamos. Toda vez que alguém ri e diz que é só uma piada, uma das mulheres que passou por isso se sente pior. E somos muitas, uma em cada quatro.

(sim, foi muito difícil para mim falar isso, publicamente, mas é preciso. Eu preciso. E não, eu provavelmente não vou denunciar quem foi o sujeito. Mas eu tenho o direito de contar o que houve, sim, porque foi real, sim, e porque pode acontecer com qualquer uma. Sim, você, que está ai e olha com ares de “isso não vai acontecer comigo, eu me dou ao respeito”, saiba que pode sim, acontecer com você, e que eu vou estar do seu lado, se você precisar).

Leia também: Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher

violence-against-women-facebookDomingo, mais ou menos umas 17h. Estava voltando do mercado quando um vizinho e grande amigo me chama para alertar a respeito de uma cena que ele viu, ao ir para o trabalho, na madrugada daquele mesmo dia: uma moça semi-nua, em desespero, cercada por policiais e moradores do entorno. Ela tinha acabado de sofrer um assalto, seguido de estupro.

Moro na periferia da zona norte de São Paulo e este é o terceiro caso que soubemos, num período de 10 dias. Sim, DEZ dias. Três garotas foram violentadas praticamente no “quintal” da minha casa. Poderia ter sido eu. Ou minha mãe. Ou uma amiga querida. E mesmo que não tenha sido com uma conhecida, foi como se eu tivesse sentido a dor dela em mim.  E sou capaz de apostar com vocês que toda mulher já pensou duas vezes antes de sair sozinha ou de confiar em alguém, temendo pela própria integridade.

16dias20081Situações como a que descrevi acima estão longe de serem restritas às periferias das grandes cidades. Acontecem todos os dias, no país inteiro. Basta ser mulher para ser uma vítima em potencial e para ter medo. Isso quando o estuprador não é alguém da própria família ou do convívio da mulher, característica da maior parte das ocorrências.

Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.

Estupro não é sexo. É uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher, que pode vir a destruir a sua vida e auto estima de um jeito muito difícil de ser superado. Estupro é tentar destruir alguém para mostrar poder. Todo ativismo contra ele é absolutamente necessário e nunca é demais. E se você ouvir falar de alguém que sofreu esse abuso, não pergunte que roupa ela estava vestindo, se ela “provocou” ou o porquê dela andar sozinha à noite. A culpa não foi dela.

Queria muito viver para ver o dia em que nenhuma mulher precise sentir medo.

Para saber mais: Número de estupros supera o de homicícios dolosos no país, diz estudo. (G1)

Biscates em luto, na luta pela liberdade sempre

Minha coluna em luto. Eu. Vocês. Elas. Todas.

Dadas como presente, de outrem a outrem.

Elas não. Não tiveram palavra. Eram só corpos.

Como fica a liberdade em tempos de estupro coletivo? Hoje só me calo.

Ser biscate é um privilégio.

* * *

Este texto se refere ao estupro coletivo seguido de assassinato de respectivamente sete e duas mulheres, por dez homens, no município de Queimadas (PB). A mídia não disse, ninguém quase disse, então é nosso dever dizer. Um crime de gênero contra mulheres – esse mecanismo tão cruel de cercear a liberdade de nossos corpos. Leia textos muito bons sobre isso aqui.

Não dá pra calar: Estupro Não é Sexo!

Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

.

Mais sobre o assunto:

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