Vocês Precisam Parar

Por Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

foram 3 as vezes que eu busquei ajuda na polícia para me proteger. para me proteger de homens conhecidos e desconhecidos. homens que me bateram, me ameaçaram de humilhação, de exposição de fotos íntimas, de agressão e de morte. é, de morte. homens que fizeram isso por causa de machismo, ciúmes, possessividade, e simplesmente por eu dizer não.

escrevi pouco sobre isso. pretendo escrever mais. mas não esses dias. às vezes, nós, mulheres que sofremos abuso e violência de gênero, violência sexual, física e simbólica, mesmo militantes, mesmo analisandas, mesmo acolhidas, mesmo com qualquer sinal de fortaleza aparente, às vezes não conseguimos sequer respirar. reviver, relatar, expor e escrever, então, nem podemos ou sabemos. ou queremos.

agora só quero dizer isso: nas 3 vezes, os delegados e policiais e outras pessoas para quem eu pedi socorro legal e institucional, me negaram socorro de todas as maneiras possíveis. de forma sistemática e institucionalizada.

. em todas as vezes eu fui culpabilizada pela violência e ameaça sofrida

. em todas as vezes meu comportamento, minha aparência, meu jeito de falar e meu ‘jeito de ser’ foram questionados, julgados e associados ao que eu sofri.

. em todas as vezes os delegados e policiais que me atenderam questionaram e duvidaram da minha avaliação sobre a violência que eu sofri (‘tem certeza que foi assim? você não entendeu errado?’)

. em todas as vezes me perguntaram se eu achava justo 1) fazer isso com meu marido/meu namorado/esse moço que é tão novo 2) prejudicar a vida deles fazendo um registro policial deles.

em apenas 1 desses casos eu consegui registrar a ocorrência, e só consegui porque eu reagi dentro da delegacia dizendo que ia chamar ‘meus amigos jornalistas’ para registrarem aquela atitude do delegado.

ou seja, a minha palavra e minha presença ali e meu pedido de socorro não mereciam nem respeito nem crédito: eu precisei mencionar outra pessoa/lugar de poder, esse sim legítimo (a mídia), para ele me respeitar.

e isso porque eu sou uma mulher branca de classe média.
e isso porque eu estava em delegacias em bairros ditos ‘nobres’.
e isso porque eu sou uma mulher feminista e militante.
e isso porque eu ja tinha mais de 30 anos de idade quando isso aconteceu.

e isso porque eu só fui buscar ajuda essas 3 vezes: existem todas as outras vezes não contabilizadas, as que eu não fui pedir ajuda.

vocês precisam entender o horror que é viver isso.

vocês precisam entender o que é ter medo de sofrer violência e depois ter medo de ser acusada de ser responsável pela violência sofrida.

vocês precisam entender o que é a sociedade dizer o tempo todo que você vale menos, pode menos, merece menos, que você é menos só por ser mulher.

vocês precisam querer isso. queiram isso. ajam. que isso não seja mais aceitável, que isso mude, que isso acabe, que isso não exista jamais.

vocês precisam ouvir as mulheres. escutar com atenção. em silêncio. ouvir quando elas dizem que sofreram uma violência de gênero, humilhação, agressão, abuso, estupro.

vocês precisam acreditar nelas, a priori.
vocês precisam protegê-las.

vocês precisam parar de rir de piadas machistas.
vocês precisam parar de fazer piadas machistas.
vocês precisam parar de apoiar pessoas machistas
vocês precisam parar de proteger pessoas machistas.
vocês precisam parar de ser machistas.
vocês precisam parar.
para sempre.
para nunca mais.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

O peso da palavra “vadia” ainda mata mulheres

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esse clube se denomina biscate desde sempre com muito orgulho. Vadias, putas, vacas profanas, libertinas, piranhas e qualquer outra palavra com a qual queiram atacar nossas vivências ou liberdades serão mastigadas e cuspidas de volta com nossa boa falta de educação. Fazemos resistência justamente a quem acredita que a mulher tem um “papel” na sociedade. Porém, sabemos que isso não é fácil para todas as mulheres. Especialmente para as mais jovens, que numa idade em busca de aceitação sofrem muito com o machismo da sociedade.

Semana passada, a mídia noticiou o caso das listas “Top 10 Vadias” que estão circulando via redes sociais entre os alunos das escolas de São Paulo e tem provocado abandono dos estudos e até tentativas de suicídio entre as meninas.

Os alunos montam rankings classificando dez meninas como “vadias”. Os nomes circulam pelo WhatsApp, vídeos no Youtube, Facebook e até cartazes colados no interior das escolas. Cada colégio tem sua lista e alguns alunos as divulgam semanalmente. As escolhidas que ficam mais de uma semana no ranking vão subindo de colocação. Desde que a lista começou, há quase um ano, a rotina dessas meninas se transformou em uma espécie de prisão e condenação sem que nada tivessem feito.

Essas listas não são novidade. Já existem há muito tempo, mas antes eram restritas à turma da escola. Hoje, com as redes sociais e aplicativos de celular tudo é amplificado e ganha dimensões muito maiores. A violência não se restringe apenas ao ambiente escolar e o apoio é minimo, há muita cobrança de todos os lados. É o velho discurso da “mulher que não se dá o respeito”. Como se houvesse justificativa para a violência. É absurdo que as pessoas insistam em culpabilizar essas meninas ao invés de tentar compreender como nossa sociedade cria meninos que acham o abuso e o assédio algo corriqueiro.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Essas listas de classificação de meninas não são fatos isolados, assim como o estupro de uma menina de 12 anos por três colegas no banheiro de uma escola em São Paulo também não foi. A cultura violenta que atinge diretamente as mulheres também está presente entre os jovens e as escolas não estão fazendo muito para mudar isso.

Programas de educação sexual e igualdade de gênero são constantemente barrados por deputados e vereadores conservadores, que ainda acreditam que não falar de sexo com crianças e adolescentes vai fazer com que eles não pensem nisso. A falta de diálogo e informação com os jovens só tem contribuído para o aumento dos casos de violência.

Por que os meninos acham legal humilhar as meninas dessa maneira? Por que é divertido rir, expor e fazer escárnio da sexualidade de meninas? Provavelmente, não se importam com o fato de que várias delas estão vivendo um inferno em suas vidas. E isso acontece porque não veem as mulheres como eles, não as veem como pessoas. E quem desumaniza essas meninas e mulheres? A própria sociedade que apoia e incentiva que os meninos sejam predadores e as meninas passivas.

É preciso muita autoestima, apoio de pessoas próximas e orgulho para enfrentar a quantidade de violência a qual se é exposta no momento em que seu nome passa a circular nessas listas, a ser pichado em muros, a ser divulgado por gente que elas nem conhecem na internet. É algo que quebra por dentro, coloca essas meninas numa situação de vulnerabilidade e desespero enormes.

Grupos feministas organizaram um “Grafitaço” para apagar os xingamentos expostos em muros da periferia de São Paulo. Mesmo assim, vemos a apatia da sociedade em relação a essa violência absurda. Estamos preocupados em pensar e propor medidas eficazes para coibir esse tipo de ação? Vamos incluir a juventude no debate? Quais currículos educacionais brasileiros promovem um debate amplo sobre o assunto entre os alunos?

Infelizmente, parece que estamos bem distantes de mudar esse quadro. De mudar essa maneira podre e cruel com a qual as meninas e mulheres são tratadas em nossa sociedade. O peso da palavra “vadia” continua matando meninas e nós não podemos deixar isso acontecer.

Ajuda as vítimas do estupro coletivo no Piauí

A violência contra a mulher continua sendo um problema grave e urgente. Semana passada, três adolescentes foram vítimas de um estupro coletivo na cidade de Castelo do Piauí (PI). Nesse momento, o que as pessoas mais precisam é ajuda e apoio. Amigos e familiares das quatro meninas violentadas encabeçam uma campanha para arrecadar dinheiro para o tratamento das garotas que permanecem internadas nos hospitais. Intitulada “Flores para Elas, a iniciativa já está sendo divulgada nas redes sociais. A intenção é ajudá-las financeiramente e psicologicamente.

+ Sobre o assuntoListadas como vadias, punidas por serem mulheres. Por Jarid Arraes no blog Questão de Gênero.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Não ao #bebeuperdeu

Este texto estava no rascunho desde outubro de 2014. Mas depois de ver o absurdo de uma campanha do Ministério da Justiça onde há a responsabilização da vítima pelo que ela sofre, eu decidi publicar.

Eu fui estuprada.

No dia 21 de abril de 1997, aos 20 anos. Foi a minha primeira relação sexual, e não foi consentida. Foi em uma cidade universitária, no feriadão, em uma festa.

Mas eu não denunciei. Eu não contei para ninguém. Eu não sabia que era estupro, eu achei que foi culpa minha. Ele era da turma de amigos, era irmão de alguém, amigo de alguém. Eu me senti segura com ele. . Eu estava embriagada, ele me levou para o quarto dele. A gente estava se beijando. E eu quis parar. Eu disse não. Eu gritei, eu chorei, eu dei um soco nele, mas ele não parou. E no dia seguinte, ele foi tão gentil. Eu achei que tinha feito algo errado, que estava louca. Mas estava dolorida, com a calcinha suja do sangue da minha virgindade. E ele disse que como eu era “muito quente”, ele não imaginou que eu fosse virgem. Até a hora “h”. Nos despedimos, eu peguei o ônibus e voltei para casa.

Levei anos até superar o que houve.

Outro dia em um seriado americano, L&O: SVU, o episódio foi sobre um humorista que faz piada de estupro, e que é também um estuprador. Ele usa de todo o arsenal do “politicamente incorreto”, lança mão da liberdade de expressão, e ao final, consegue um acordo com a promotoria, e não cumpre pena.

O ponto não é nem esse. É que a responsável pela Unidade de Vítimas Especiais (Crimes Sexuais), ao levar o caso para o promotor responsável, encontra uma séria resistência.

Porque a vítima não era “confiável”. Porque ela havia bebido, havia beijado o estuprador, bêbada, em público. Porque não avisou ninguém, não pediu socorro, não contou para ninguém.

E o “humorista” faz sua fama e inclusive usa do processo para ficar mais famoso, mais “polêmico”, mais “incompreendido”.

Afinal, toda mulher bêbada que faz sexo casual e no dia seguinte não recebe flores vai acusar o parceiro de estuprador, não é mesmo? E é um dos maiores “temores” masculinos, equivalente ao da vagina dentada: ser acusado de estupro depois de sexo casual.

Ele fala que a piada não é sobre o estupro “estupro”, o “de verdade”, “for real”, mas aquele estupro do “ele disse/ela disse”. Essa categorização já diz que há vitimas que são mais vítimas do que outras. Há a antecipação, a previsão, de como vai agir uma “verdadeira vitima de estupro”. E confunde, de propósito, estupro com sexo.

Eu já fiz sexo casual. Eu sei o que significa casual, sem compromisso. E eu já fiz sexo casual depois de beber, e eu já me arrependi de ter feito sexo, casual ou não. Mas só uma vez disse não, e pedi para parar, e demonstrei meu desconforto. Só uma vez foi estupro. Houve arrependimentos, em outras ocasiões, depois que eu superei e passei a curtir sexo? Sim, quem nunca? Mas não houve outro estupro. E sim, eu recuperei minha vida e tenho uma vida sexual saudável, isso me torna menos vítima na visão de algumas pessoas -para elas, não foi estupro se não há o trauma e a frigidez posterior.

Estupro não é sexo.

Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Quando alguém diz NÃO, é não. Quando alguém diz PARE, é para parar.

Então, isso tem que parar.

Não é NÃO.

Precisamos arcar com nossas escolhas, sim, mas precisamos nos educar, a todas e todos, para entender que não há nada, NADA, que justifique o sexo forçado. NADA.

A Luciana, nesse texto aqui, fala:

“Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.”

Nem a roupa, nem a bebida, nem qualquer amasso anterior, nem ir para o quarto ou para o carro, ou qualquer dessas coisas. Ninguém “pede” por isso.

Se em algum momento de uma relação, uma pessoa pedir para você parar e dizer que está desconfortável com situação, que não quer, você não tem que insistir, que forçar de forma psicológica ou muito menos física. Você tem que PARAR. A pessoa não te “deve” nada.

E se em algum momento de uma relação você se sentir desconfortável, intimidada, ameaçada, você TEM o direito de dizer NÃO. Você não “deve” nada.

Eu escrevi a primeira vez sobre o tema em 2011, com o título “isso não é um convite para me estuprar”, no Blogueiras Feministas Mas não tornei público que eu também fui uma vítima de date rape.

Toda vez que alguém faz piada com estupro, uma de nós sente de novo a dor e a vergonha que passamos. Toda vez que alguém ri e diz que é só uma piada, uma das mulheres que passou por isso se sente pior. E somos muitas, uma em cada quatro.

(sim, foi muito difícil para mim falar isso, publicamente, mas é preciso. Eu preciso. E não, eu provavelmente não vou denunciar quem foi o sujeito. Mas eu tenho o direito de contar o que houve, sim, porque foi real, sim, e porque pode acontecer com qualquer uma. Sim, você, que está ai e olha com ares de “isso não vai acontecer comigo, eu me dou ao respeito”, saiba que pode sim, acontecer com você, e que eu vou estar do seu lado, se você precisar).

Leia também: Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sempre fui assim, meio soltinha, sempre gostei de ser amiga de homens, sempre gostei de andar de roupas confortáveis e sempre gostei de sexo. Mas, uma coisa que posso dizer, nunca fui capaz de fazer mal a ninguém, fazer qualquer tipo de violência com ninguém, sempre me chamaram de trouxa pois não sabia tratar ninguém mal, mesmo que me tratassem mal.

Mas o que você quer dizer com isso? Bem, o que desejo dizer é que usar roupas curtas, ser livre não é desvio de caráter, não me faz uma pessoa ruim, então porque eu ou qualquer mulher que usa uma roupa curta mereceria ser estuprada? Na verdade, minha pergunta é mais séria ainda: O que faz com que qualquer ( boa ou ruim, independente do caráter! ) mulher mereça sofrer uma violência dessas? Queria entender O porquê de uma mulher que decide ficar confortável, não morrer de calor ou, até mesmo, se sentir sexy e bonita (ela tem o direito sim de usar qualquer roupa por qualquer motivo!) faz com que ela mereça passar por qualquer violência,?  Além disso, que tipo de castigo é esse? Desde quando violência é uma forma de punir alguém? Para mim é machismo sim essa visão.

Não sei ver diferença entre uma mulher e outra por sua vestimenta ou atitudes, não vejo diferença entre nenhuma pessoa por nenhum motivo assim. Sei que rotular pessoas é um costume muito comum no nosso dia a dia, mesmo sem querer, precisamos nos policiar todos os dias para não o fazer e não acho justo apontarmos pessoas ou colocarmos em caixinhas, mulheres que merecem violência e mulheres que não merecem. É muito parecido com a tão irritante história da “mulher de malandro”, não existe quem goste de sofrer violência doméstica, existem pessoas que dependem financeira ou psicologicamente de alguém ou que estão num relacionamento por medo de como serão vistas se pedirem divórcio. É muito difícil rotular uma pessoa por suas atitudes.

Me sinto todos os dias, acuada ao sair na rua, a noite ou não, de roupas curtas, quando bebo ou quando respondo um homem que me canta. Mas, se eu não tomar uma postura, quem sou eu? Preciso lutar contra o preconceito. Viver em cárcere, sendo que sou eu a vítima, é afirmar que a sociedade deve continuar como está! É colocando a boca no mundo que faço minha parte: é saindo para beber, é rindo alto e escancarado e é também brigando de forma justa pelos meus direitos e de outras mulheres.

Não Mereço Ser Estuprada

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sou as minhas lutas, eu sou quem mostro no dia a dia, eu sou mulher e indivíduo com vontades e voz. Não posso me calar, já existem muitas outras mulheres caladas por aí, sofrendo escondidas. Tomamos a iniciativa para puxar outras a fazer o mesmo. A reação é em cadeia, sempre!

Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

.

Mais sobre o assunto:

Isso não é um convite para me estuprar!!!!
A Mídia que estupra
Me Sentindo Estuprada
Bial, o Cínico
Estupro: o que é, como não fazer
Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele
A cena do Big Brother é um problema do Brasil
O “Boa noite Cinderela” do BBB
O suposto estupro: não existe amor no BBB
O estupro no BBB
O estupro é lindo!
Uma analogia: De quem você acha que é a culpa?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...