Amor e jeitos de

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Adélia Prado)

Tenho certa pinimba das odes ao amor romântico. Pinimba, assim. Como se fosse uma irritação na pele. Ah, o amor romântico, tão exaltado por profissionais das artes e diletantes dos sentimentos. Aquele dos grandes gestos, das flores, das velas em castiçal, dos incensos (inclusive tenho alergia), das declarações em poesia derramada, das hipérboles. Aquele que todo mundo gostaria de ter. Pois bem, sei lá.

Tem quem navegue em serenatas ao luar e sonhos de valsa.
E se deixe levar pela intensidade exibida, pelos arroubos, pelas brasas.
E, claro, pode ser, tanto pode.

Mas tem também quem aprecie aquele amor que se descobre nas frestas, o improvável, o dos pequenos gestos de delicadeza, o dos silêncios e da quietude acompanhada.

Uma imagem que me vem à mente é aquela cena final de “Notting Hill”, no banco: ela, grávida, deitada no colo dele; ele, lendo um livro. Estando ali, dando uma olhada de vez em quando, sentindo aquele quentinho por dentro. Sabendo que dá pra estar ali sem dizer nada.

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Tem aquele amor meio áspero também, que aparece na comida feita, na casa limpa, um amor construído pelo esforço, talhado na pedra, de sol a sol.

Amor bonito esse que se mostra no fazer. Que precisa de tempo pra se entender. Que vem de mansinho, aos poucos, e um dia está instalado, sem que ninguém tenha percebido direito como.

Jeitos de amores. Talvez não tão óbvios. Nem por isso menos preciosos.

O cinema, me parece, afetou um tanto a forma de se perceber afetos: confunde-se tantas vezes a embalagem com o conteúdo. Ou, por outra, espera-se sempre uma só embalagem, quando podem ser tantas quanto há jeitos de ser, de chuva ou sol, de riso ou siso. As outras, tantas vezes, não se reconhece. E criam-se faltas de algo que não falta. E dores onde não precisava. Porque não houve rosas. Porque não houve violinos ou exuberantes declarações. Porque a roupa era o macacão de todo dia e não o vestido de baile, o traje de gala, que demonstrasse… o quê? O que é que precisa ser demonstrado pela roupa, pelos violinos, pelas rosas? Por que não pela comida no fogão, pela sacola do mercado, pela faxina na casa? Menos romântico, vão dizer. Sim, é certo; mas não necessariamente menos amoroso. Não menos cuidadoso. Não menos presente. E, algumas vezes, mais sólido, mais duradouro. Resistente aos ventos, às intempéries. Amor, a cada dia.

E tem o vai-e-vem das ondas: um que começa daquele jeito, de mansinho, a cada punhado de sal, um dia pode encher barragem e transbordar em arroubos, assim, sem mais nem menos. O outro, aquele dos grandes feitos, das conquistas de territórios, dos tapetes de rosas, em algum momento pode amansar, qual fera domada, pode aquietar e deitar-se ao pé da lareira, no tapete, ronronando. Vá você desenrolar.

A moral? Não tem, né. Não tem moral. Tá tudo valendo. Qualquer maneira e tal. Só que é sempre bom ficar atento, saber escutar, saber perceber, saber acolher as formas de amar que são aquelas, que são outras. As que se exibem e batem no peito, as que não se deixam perceber à primeira vista. As que atravessam mares e conquistam ilhas em seu nome, as que talvez nem se declarem. E, no entanto, estão ali. Na sombra. Ao seu lado. À espera de, quem sabe, talvez.

Já pagou o seu preço hoje?

Fique linda usando apenas estes produtinhos que custam metade do que você ganha. Emagreça com saúde (!)  até 5 kg por semana com a dieta protéica de Saturno. Siga determinada conduta e seja querida e admirada por todos. Fique rica e bem sucedida antes dos 30. Arranje “o gato” dos seus sonhos com o nosso mais novo manual de sedução da mulher antenada. Insira sua fórmula de perfeição aqui e mostre ao mundo como dá para ser muito feliz e que só não é assim quem tem má vontade.

Uhum. Já comprei essas ideias muitas vezes. E tenho certeza que muita gente que tem a oportunidade de ler este post também. E, se reconfortante for, a culpa não foi e nem nunca será nossa. Existe uma série de mecanismos bem articulados que corroboram para isso em nosso cotidiano. Por mais que pareça estar tudo OK em nossa vida, sempre haverá um filme, uma revista, um programa de TV ou alguém muito intrometido (e metido) insistindo em nos dizer: “ei, você tem mudar isso aí, poxa. Num casou ainda? Tá errado, não é assim que se faz. Você não deveria agir assim. O que os outros vão pensar? Você tá gorda, hein? Poxa, que roupa cafona…”

E como tais ideias fazem sucesso! Fico pasma quando paro para pensar nisso, ou quando vejo que eu mesma sou a vítima. Quando começo a me sentir mal por não conseguir ser exatamente o que esperam de mim. Ou quando começo a enxergar defeitos no meu corpo porque aquela saia da vitrine do shopping não caiu bem. Ou então quando lembro que me sentia “incompleta” as vezes, pelo simples fato de estar solteira.

Antes, na época das nossas avós, nos cobravam a castidade. Mulheres que não eram mais virgens não “serviam” para mais nada. Antes, mulher que não era boa dona de casa estava condenada à “solidão eterna”. Afinal, que homem que se casaria com uma mulher que mal sabe como fritar um ovo? Antes, nós mulheres não podíamos sonhar em ser astronautas, engenheiras, pilotos de avião, presidentes de nações, médicas, atletas, policiais, cientistas, designers, juízas…

Ainda hoje, mesmo que muita coisa tenha mudado, há quem pense que mulher que é dona do próprio corpo não “presta”. Biscates, essas vadias que nunca entendem onde é o lugar delas. Mesmo depois de tanto tempo, de tantas lutas e de tanto espaço que conseguimos. Por mais difícil que seja de acreditar, há quem diga que mulheres não são tão boas profissionais quanto os homens. E, mesmo que hoje nós possamos, teoricamente, ser o que bem entendermos… Ainda ganhamos 30% menos do que os homens. Ainda que sejamos maioria nas universidades. Ainda que tenhamos tripla jornada de trabalho e que isso seja visto como “normal”. É o preço que se paga por tanta independência.

Agora, as cobranças são outras. Aliás, diria que são as mesmas de antes, só que “reformuladas” pelo contexto histórico contemporâneo. Todas nós temos que ser bonitas, passivas, discretas, comedidas, monogâmicas, heterossexuais, magras, de cabelo liso, maquiadas e ter roupas da moda. Devemos trabalhar o dia todo fora, estudar e quando chegarmos em casa, arrumar tudo, preparar comida, lavar roupa… Porque é nossa obrigação. Quer ajuda (leia-se divisão justa do trabalho)? Ah, contrate uma empregada e pague um salário ridículo para ela. É que o homem, tadinho… Não sabe cuidar da casa como você cuidaria!

Ser mulher custa bem caro. Se for biscate então, mais ainda. Mas não falo aqui do quanto a gente gasta para tentar se adequar a tudo que exigem de nós. Falo do preço alto que envolve tentar (mesmo que aos poucos) romper com o status quo. Falo da coragem que a gente tem que reunir incansavelmente para enfrentar tudo que nos cobram. E falo, principalmente, dos juros, à longo prazo, que teremos de pagar…

 

 

 

 

 

 

 

 

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