Indo

Eu estava. Eu estou. Com essa vontade. Ou esse vazio. Com essas lágrimas. Com esse eco. Com essa dúvida. Eu não sou boa de escolhas, gosto quando vou vivendo a vida no fluxo. Mas a cama grande demais, o retrato em branco e preto e aquela pergunta que acompanha madrugadas insones vão atrapalhando o ritmo. Eu tropeço. As pessoas que me amam entendem, o que me surpreende um pouco, porque eu mesma mal consigo perceber relances dessa fome. Só sei que falta. Respiro. Tenho dificuldade de ser essa eu que estou sendo. Abro portas, janelas, aplicativos e peito. Se houvesse som no vazio, seria um riso de deboche. Mas nem. Sinto um pouco de inveja de quem tem fé, além daquela da canção. Eu não costumo encontrar respostas fora de mim. E, dentro, hoje, mal encontro as perguntas. Trago o corpo em desalinho. Dizem por aí que o mestre surge quando o aprendiz está pronto. Dizem, por outro lado, que a gente escuta o que quer ouvir. Uma coisa, outra ou as duas, fui ler a Fal* para lembrar que o bom, o belo e o justo sim, são possíveis. E eis que ela, além de tudo, se faz oráculo. Eu li. Leiam também:

Q: Fal, e quando você acha que achou o cara da sua vida, mas ele é quase 15 anos mais novo do que você? como faz?

Amolis, cê sabe que eu não sou uma florzinha, não sou uma pessoa boa, não creio numa energia-muito-linda, não creio na bondade, então creia, não tou te falando isso porque sou uma fofa. Tou te falando isso porque é a real: vai lá. Quinze anos mais novo, que odeia tatuagem, usando peruca, trinta anos mais velha, muito mais alta, muito mais gordo, magro de doer, bigodudo, torcendo pro time errado, com dez vezes mais grana do que você, atleta, tatuado, bicho grilo, careca, duma profissão que sua santa família considera abaixo “do nosso status social”, fumante, cadeirante, dum gênero que você jamais imaginou que rolaria, eleitor de partidos exóticos, pobre de doer, doutro país, artista, funcionário público, com cabelo esquisito, dono de boate, gótico, pagodeiro, sertanejo universitário, iéiéié: vai lá. Sempre. Só não vale quem não quer você, quem você não quer e dimenor. De resto, vai lá. Eu juro pra você que nada, nada, nada disso importa. Na-da. Não é papo “clube dos corações solitários”, é da vida, ouça a tia Fal: vai. Seja ele o cara da sua vida ou o cara dos próximos lindos 15 minutos (a gente nunca, nunca, nunca tem como saber): vai. Vai, vai, vai. O que a sua mãe acha, eu juro, não importa, porque ela dorme agarrada no seu pai e você, vivendo pela cartilha dela, vai ou dormir sozinha (nada contra, eu durmo, mas, né?) ou dormir com um ser que não é teu número. Quem não quiser te receber de fim de semana porque “ela se juntou com aquele cara estranho” e “ele casou com aquela esquisita”, pode ir capinar um lote, porque num sábado chuvoso e tristonho, eles têm com quem ver Netflix, você vê com o cão (eu vejo com o cão, nada contra, mas, né?). Eu já pensava isso antes de o A. morrer, mas depois que ele morreu, falo pra todo mundo, o tempo todo: vai. Porque é raro. É tão bom. E efêmero. Em um segundo a sua vida muda. E se você for quem tou pensando que você é: VAAAI!!!”

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* Se você não conhece a Fal, aproveita. Fal Azevedo é artífice de letras com sentimento. Autora de “Sonhei que a neve fervia”, “minúsculos assassinatos e alguns copos de leite”, “o nome da cousa” e alimenta tumblrs a rodo. É dela o “Drops da Fal”, maior preciosidade da internet.

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