Festas de fim ano e o relógio biológico

Minha família nunca foi uma família muito ¨normal¨, na casa da minha mãe, só entra namorado meu ou da minha irmã depois que temos certeza que vamos passar um bom tempo com ele. Ou seja, quando há pelo menos um ano de namoro, eu levo o namorado pra casa, ele fica incomodado, sem graça e depois não volta. Na casa da minha mãe não se dorme com namorado, há uma regra muito confusa para a minha cabeça: filhas e filhos não fazem sexo lá.

Na casa do meu pai, sempre foi mais na bagunça, namorados vão pra lá, dormimos com eles, sem muito estresse, sempre todo mundo muito liberal. Desde que voltei a frequentar a casa de meu pai, levei os namorados, nada de dormir um separado do outro, nada de hipocrisia, casal dorme junto, é normal e saudável.10881569_580749158735512_3254406835003859872_n

Pra falar a verdade, meu pai e minha mãe tem uma cabeça muito boa em questão de casamento, gravidez e estudos, nunca fui pressionada por nenhum dxs 2 a ser mãe ou casar. Sei que não é muito comum ouvir mulheres feministas falarem que, em festas de fim de ano, não ouve nenhuma pergunta sobre filhxs e casamento, eu até ouço, mas não de meu pai ou minha mãe. Sempre tem aquelx familiar intrometidx que acredita que meu relógio biológico tá correndo e que eu preciso logo casar e ser mãe. Eu tenho o costume de balançar a cabeça e pensar em coisas que preciso fazer, ou se vou repetir um prato da mesa da ceia, ou já to beuba e nem presto atenção, só rio o tempo todo.

Mas, uns 2 anos atrás, numa festa em família na casa do meu pai, me perguntaram de filhos e casamento. Entendam, nesse exato momento, eu tinha acabado de terminar um relacionamento longo, não tinha nem planos de casar com ninguém. E, se você está solteira por opção, você vira uma ET em festas de família. Nessa conversa, tinha um casal da família e uma familiar divorciada e que nunca teve filhxs. Eu e essa familiar explicando que, às vezes, não ser mãe pode ser muito bom, tão bom quanto é ser mãe pra outras mulheres. O casal tentando me mostrar que a minha vida profissional não iria acabar se eu fosse mãe e esposa. Afinal, você sempre está tentando equilibrar a vida profissional com o grande sonho da maternidade. Mas eu não estava, eu nem sabia se queria ser mãe. Isso era o que elxs não entendiam, enquanto nós duas falávamos que ser mãe não era o sonho de toda mulher, elxs negavam cada frase nossa falando de, ¨alguém para nos apoiar na velhice¨ e outras frases típicas pra justificar a necessidade de ter filhxs.

E essa conversa durou bastante, até a hora em que eu desisti de tentar explicar minhas opiniões e fui ficar beuba. Pois vi que nada iria mudar, voltei ao que sempre faço em festas de família: balançar a cabeça e pensar em qualquer outra coisa. E, se eu fosse sonhar com um futuro parecido com de alguém da família do meu pai, seria com uma vida como a dessa minha parente divorciada e sem filhxs. Sempre foi livre, fala alto, fala palavrão, bebe, viaja e se diverte muito em todas as festas de família. E sempre a achei a mais divertida e a mais simpática da família.

Um Feliz Natal Animal pra você

Era uma vez o membro mais famoso de uma família de 5 pessoas ( eu, irmã, mamãe, papai e madrinha) que vivia num apartamento em Brasília. O famoso Tupi. Um vira lata, mistura de pinscher com bassethound.

Papai escolheu Tupi a dedo para nos dar, a nós, filhas, e segundo ele era o mais animadinho e espertinho da ninhada. Logo soubemos que na verdade hoje em dia seria chamado de cão hiperativo. Era da cor do bassethound, mais alto e ligeiramente mais gordinho que os pinschers mas o humor era de pinscher mesmo: nervosinho, esquentadinho e latia até pra mosca voando. Um ótimo guardião de um apartamento que vivia com a porta destrancada.

Depois que eu e irmã crescemos, a gente não mais corria pro Tupi correr atrás, ele amava isso, mas sem problemas, as crianças do prédio se incumbiam disso. Gostavam tanto que se papai demorava a descer com ele elas tocavam o interfone e perguntavam que hora que o Tio ia descer com o Tupi.

Uma vez uma amiga da minha irmã chegou na portaria do prédio mas tinha esquecido o apartamento e disse: ah vou na casa da Taicy,  e nada, o porteiro era novo e não conhecia todos pelo nome. Tentou meu nome, do meu pai, da minha mãe e da madrinha. Nada. Aí lembrou. TUPI. O porteiro; AH! No 503! Pois é, famoso mesmo na família era ele. E olha que papai volta e meia dava entrevista pra tv.

Dez anos depois, irmã já casada e morando a muitos km do plano piloto parou no seu bairro para abastecer o carro. O frentista: ahhhh eu lembro da senhora! Oi? Seu pai descia com um cachorrinho ( meu pai comprava cigarros no posto da frente de casa e sempre ia com o Tupi, que latia pra todo mundo, obviamente) . E tascou: como está o cachorrinho? Minha irmã riu e informou que infelizmente ficou velho e faleceu.

A primeira vez que o Tupi, cachorro de apartamento, viu um gato, que tivemos por pouco tempo, ele estranhou. O gato ganhou o nome de UFO (unknow flying object) diante da estranheza que o Tupi sentai por aquele animalzinho, mas isso não durou muito. Logo o Tupi resolveu adotar o gatinho, uma mãe, e protegia o bichinho e o carregava na boca, como os animais fazem com filhotes.

Tupi não comia ração, comia tudo o que a gente comia: chocolate, biscoito recheado, doce de leite (amava)  e principalmente queijo. Uma vez madrinha esqueceu um ovo de páscoa  meio aberto na mesa de centro. Tupi comeu tudo, passou mal e ficou umas semanas nem querendo ver chocolate. A gente chegava um pedaço no focinho dele e ele virava  a  cara.

Mas a melhor foi no tempo da inflação altíssima quando mamãe compro filé mignon que estava na oferta. Papai que colocava a comida do Tupi a antes de ir almoçar (se a gente colocasse ele não comia) e foi partir um pedaço do filé pro cachorro. Mamãe quase teve um treco e meu pai respondeu: o meu cachorro come o que eu como.

De outra  vez a gente viajou de férias para acampar e deixamos Tupi na casa dos meus avós em Goiânia. Ele ficou triste e não quis comer, minha avó preocupada mandou meu avô comprar um frango bem tenrinho para fazer canja pra ele, talvez estivesse doentinho. Nem preciso dizer que ele comeu até lamber os beiços. Isso, entre outras coisas,  fazia uma amiga da família dizer que na próxima encarnação queria nascer Tupi.

Quando papai foi pro hospital e veio a falecer depois a gente achava que o Tupi, já velhinho, uns 15 anos, ia morrer junto. Ele ficou uns dias esperando sentado na poltrona como sempre fazia. Mas depois acho que se deu conta que seu dono preferido não ia voltar e foi viver a vida. Mas nunca mais foi tão alegrinho.

E nesse Natal estou aqui pra lembrar que cachorros são assim: leais, divertidos e amáveis acima de tudo, e amáveis porque são muito amados.  E se existiu um deus menino ele só queria que a gente fosse assim bacanas como os cachorros. Então desejo a todos no Natal muito amor e muitas lambidas, literais, dos nossos bichinhos, e figurativas daqueles que nos amam e acarinham. Um feliz natal cheio de amigos como o Tupi ou esse cachorro aqui me me inspirou a escrever para  vocês.

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Eu e irmã com o Tupi <3

( esse post  também é dedicado a Deborah, Ricardo, Vinícius e claro, a Phoebe)

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