Já que o mar não tá pra peixe….

Hoje é dia de falar de centauros, de ninfas, de cavalos alados, de pessoas com os pés virados para trás que protegem a floresta, de meninos de uma perna só de gorro vermelho que fazem travessuras por aí…. é dia de falar de deuses ciumentos, de deuses amorosos, de deuses que cuidam das suas próprias vidas, de deuses que não querem nem saber da gente ou que nos assistem se divertindo como se fôssemos sua novela.

Dia de chapeleiros loucos, de frascos com líquidos que fazem crescer, que fazem diminuir, de gente que se afoga nas próprias lágrimas, de lagartas azuis com narguilés, de coelhos apressados, de rainhas de copas, de rosas brancas pintadas de vermelho.

De rainha das neves, de monstrinhos que quebram espelho de ver distorcido, de pássaros falantes, da menina ladra que ajuda outra menina em busca do seu melhor amigo raptado pela rainha das neves. É dia de trenós e de lapões.

De princesas da ervilha, de ratinhos falantes, de abóboras que viram carruagens, de cavalos que viram cocheiros, de sapatinhos de camurça que passam a ser de cristal por conta de um revisor distraído, de quixotes contra moinhos de vento, de sanchos e suas panças, de tabernas, de odres de vinho, de estalajadeiros, de Aldonza que era Dulcinéia.

De fantasminhas que tinham medo de gente, da menina Maribel com os olhos cor do céu e os cabelos cor de mel, do tio Gerúndio, de pastéis de vento, de rios derramados pelos olhos, de piratas da perna de pau.

De tia Nastácia e seus bolinhos, da Emília que ela fez, do Visconde que ela fez também, das histórias contadas por Dona Benta, de Narizinho, Pedrinho, de viagem ao céu, de viagem à Grécia antiga, de viagens.

É dia de fuga pra fantasia, é dia de morar na fantasia, é dia de criar uma nova realidade inventada, de se mudar de mala e cuia pra essa nova realidade, de fazer ninho, de dormir na nuvem como um cobertor, de escorregar nos anéis de saturno, de fazer guirlandas de estrelas e dançar como se não houvesse amanhã, como se não houvesse ontem, como se só houvesse a dança, as guirlandas, as estrelas.

Hoje é sexta-feira, dia de respiro, de Oxalá e de cabelo ao vento e a semana que vem a gente não sabe o que trará. Vamos fugir desse lugar, beibe. Uma banda de maçã, outra banda de reggae. Os desenhos da Mariana Massarani que nos acolhem.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, seu rei mandou dizer que contasse mais quatro.

ilustração daqui.

Da Fantasia

Ela enterra o rosto no travesseiro e pronuncia, tomando cuidado para não produzir nenhum som:

 – (…) *

Não é ele que está ali. Enfiando o pênis com enorme vontade sua vagina adentro.

Olha para trás. Pela expressão de prazer do outro, de fato, não produziu nenhum som. De qualquer forma, ela está de quatro, alguns gemidos esparsos. Seria preciso muito para desconcentrá-lo do seu próprio esforço de chegar ao gozo. Arriscou então um sussurro, ainda junto ao travesseiro:

– (…)

Olhou pra trás novamente. Não, ele não ouviu. Pode então, levar os dedos ao clitóris, movimentá-los com algum vigor e gozar. Enquanto os espasmos aconteciam, repetia o nome mentalmente repetidas vezes. Se concentrava para visualizar aqueles olhos. Pra se lembrar a cor morena exata da pele. Pensava nos nós dos dedos das mãos. Minutos depois, insone, enquanto o homem ao seu lado ressonava, se perguntou: como diabos eu vim parar aqui?

Ele era um amigo. Só um amigo. Bonito. Atraente. Mas um amigo. Só um amigo. E nem tão amigo. Amigo de trabalho. Viam-se uma vez por dia. Ocasionalmente um abraço. Conversavam fatos do mundo e da vida. Confidências poucas. Algumas piadas que possibilitavam outro sentido, porque era do feitio dele. Quando, certa feita: BOOM. Ela se viu pensando mais. Esperando que ele chegasse. Insistindo nos abraços. E imaginando que fosse ele a estar enfiando o pênis com resoluta vontade sua vagina adentro. Olhando-a com aqueles olhos de comer e estraçalhar, enquanto ela estivesse de joelhos, sugando seu pênis com dedicação. Dizendo-a com aquela voz tão suave, quase como que produzida dentro de campos de algodão, o quanto sua bunda era grande, seus peitos eram belos, sua buceta era molhada. – a este ponto, já falariam em bucetas e paus, e no prazer de todo o resto.

Começariam a conversar algum dia. Uma coisa levando a outra, ele contaria que sempre que a via sentada, com as costas eretas, na cadeira do escritório, imaginava-a nua, sentada sobre ele. Ela diria que todas as vezes, nos abraços, quando ele levava a mão à sua nunca, imaginava-o puxando-a pelos cabelos, direcionando sua boca para beijar-lhe todo o corpo. Ela confessaria que tremeu de tesão naquele dia em que desceram as escadas juntos e sozinhos. Ele, que o batom vermelho dela o botava louco.

Esperariam, então, que todos os outros se fossem. Inventariam que o compromisso atrasou-se e não poderia ser deixado para o outro dia. Encaminhariam-se, já se beijando, sem nada dizer, para dentro do banheiro e foderiam ali, de pé, roupas postas, com pressa e sofreguidão. Encostados à pia, o espelho apenas a testemunhar o desejo. O pau ereto arranharia as mucosas, na falta de preliminares apropriadas. Mas, uma vez inteiro dentro, os líquidos desceriam abundantes e o movimento tornaria-se fácil. Ele agarraria os peitos dela ainda sob blusa e seguiria metendo-se com determinação e força. Gozaria. Ela não faria questão. Queria sair de lá levando a expectativa consigo. Queria permanecer sentindo a circulação pulsar. Como um “quase” físico. Como uma esperança de que mais haveria. Apaixonariam-se.

E então, ela notou que a esse ponto, não era mais da vagina que a fantasia fluía. Mas daquele lugar sabe Deus onde fica, de onde a gente espera demais da vida, quando lá está. Fechou este livro então aberto e depois os olhos. Adormeceu. Sonhou com ele, mas não lembrou detalhes. No outro dia, pegou-se pensando no quão clichê, para os outros, seria: reivindicar-se a vida toda tão biscate e tornar-se infiel.

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A primeira casa de swing a gente nunca esquece

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Eu já sabia que havia uma casa de swing na rua de casa. Na.Rua.De.Casa. Walking distance.

Estava casada há quatro anos, mas se nem filme pornô dava para assistir juntos, e transar se tornou o aprimoramento da repetição de 4 etapas apenas, na mesma ordem, com a mesma intensidade… (se já tivessem mostrado a ele o episódio de Friends com os 7 passos para a felicidade…), o que dirá sugerir a ida a uma casa de swing. Jamais, jamais…

Eis que veio a separação, por uma lista de motivos que mal justificam o casamento, ok, mas ela veio com tudo e abriu espaço, pelo menos no começo, para muita liberdade e para que tudo o que não havia acontecido acontecesse, de alguma forma.

Clichê dos clichês, o advogado que cuidaria do divórcio vai em casa para discutir alguns detalhes. E depois que você chora dez minutos no ombro dele, percebe que o perfume é ótimo e que sempre rolou um clima e… depois de quatro anos e pouco, uma transa decente. E uma conversa deliciosa. E “ah sim, vamos combinar algo”…

E uma semana depois, por telefone – há uma casa de swing aí próximo da sua casa, conhece? E eu – não, ainda… (ele) – Vamos? Na quinta? (eu) – E por que não?

Fantasia por fantasia, casa de swing para mim era uma coisa meio norte americana, e eu não conseguiria imaginar o que veria. O que vi. (E o que ainda não saiu das minhas alegres memórias).

Melhor lingerie, vestido sensual, casaco porque fazia um friozinho. Salto alto. Perfume. O advogado chegou a sugerir de deixarmos para lá, mas não… fomos caminhando, copos de plástico com whisky na mão, rindo alto até chegar na portaria. O porteiro, todo simpático, pergunta se queremos uma introdução à casa, que eu descubro ter 4 pavimentos… Apresenta uma antessala em que você, com a chavinha recebida na recepção, deixa sua roupa no armário e fica de roupão. Camisinha grátis. O advogado ficou com 7, eu nem quis porque, afinal, tinha ido só para apreciar. Importante lembrar que a casa tinha todo um calendário – um dia certo para casais e homens sozinhos, outros para casais e mulheres sozinhas, outro somente casais, e outros eventos especiais, tematizados. Outra coisa curiosíssima – os casais pagavam um preço muito pequeno enquanto os sozinhos pagavam quatro vezes esse valor… compreensível, para manter a oferta equilibrada…

No térreo, ficava o bar, com a melhor batata frita da região, segundo relatos coletados no local. Um palco para live performances de sexo explícito a noite toda. Música para fazer um fundinho, e uma turma conversando muito numa boa, uma parte já em seus roupões, e outra ainda em suas roupas. Ah sim, um pouco mais para o fundo, a entrada para uma área com sauna e duchas. .

No subsolo, um labirinto interessantíssimo. Luz negra e paredes com buracos estrategicamente localizados. Um código de conduta facílimo de entender e a possibilidade de amassos desconhecidos e intensos, sem maiores contatos (ou não … ). Devo dizer que é extremamente excitante para uma primeira abordagem… aparência, dimensões e outros critérios pré-estabelecidos desaparecem. Puro prazer e muita, muita fantasia. Mãos, outras mãos, diversas mãos, uma ou outra língua inesperada…

No segundo piso, algo parecido com um “esquenta”. Sofás largos para um pouco de carinhos e chamegos, banheiros (limpos a cada 10, 15 minutos, impecáveis devo relatar) e alguns boxes acolchoados, alguns com poltronas, outros apenas escuros, e uma cortinazinha convidativa para os olhares curiosos. Lembre-se, para privacidade mesmo, só pagando a parte alguns dos poucos quartinhos do local. Mas não é, definitivamente, o caso.

No terceiro piso, uma sala onde rolava a maior suruba que eu já testemunhei. (A única, até o momento). Duas camas que deveriam ter, tranquilamente, 3×3 m. E em cada uma, uns seis casais se pegando. E uma moçada em volta olhando, se inspirando, se divertindo, se masturbando. Era isso que eu buscava. O olhar sem culpa de algo que estava ali, totalmente despido de preconceito (ou não, ainda não tenho certeza), e pura luxúria e desejo no ar. Os casais se alternavam, e o clima era por demais envolvente para quem queria apenas olhar.

Eu me segurei muito, mesmo. Até que de repente cruzei olhares com o negro de sorriso mais lindo desse universo, e cujo pinto era de ator pornô. Sério. Não precisei falar absolutamente nada, e em minutos já era eu no meio daquela cama. Com ele por cima, depois com ele e outro cara. (E sim, eu ainda permanecia com a minha roupa, do jeito que entrei, alguma pequena alteração momentânea…) Pouco depois já havia um terceiro, todo cuidadoso, que me tirou do meio da galera para uma outra cama ali mesmo, menos tumultuada. Fez, em quinze minutos, o que o ex não fez em uma vida.

Um dos caras da cama volta e nisso, o advogado que foi comigo ressurge de algum lugar, e vamos em quatro para um daqueles acolchoados. Transar com outra mulher não me seduziu tanto quanto poder finalmente ter dois caras na minha mao, na minha boca. Foi sensacional.

Parei um pouco; se eu fumasse, teria sido para fumar. Mas não. Foi para pegar uma água e olhar, lá no térreo, o show erótico… não houve nada mais redentor do que essa noite. Uma lista de fantasias realizadas e um contato com um lado meu que não havia. O desejo e a curiosidade deram espaço para o olhar para o outro que ali estava, e confesso, não foi nada convencional. Ou melhor, foi convencional demais. Os casais são na verdade homens e mulheres como eu e o advogado, que se organizam para ir realizar as fantasias. Quando são, de fato, casais, você vê que ou falta muita na intimidade deles, ou já se chegou a um ponto de tamanha cumplicidade que essa troca de parceiros não incomoda.

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Não vi ali ninguém do tipo ‘moderno’. Vi muita gente que está um pouco fora dos padrões de beleza, muita mulher inspirando Botero, acima do peso como eu. Muitos caras para quem você sequer olharia na rua. Baixinhos, esquisitos, nerds. Gente de verdade, disposta a te acompanhar em descobertas interessantes.

Não vi, nem ouvi, e muito menos senti, qualquer tipo de agressão ou insinuação. Terminei a água, pensando em ir para casa, mas aí o sorriso bem dotado da noite ressurgiu e fez com que não sobrasse nenhuma lembrança do que eu tinha sido até a hora de entrar ali.

Leia também: Tudo que você sempre quis saber sobre casas de swing…e nunca teve coragem de perguntar!

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