Ogra. Desde criancinha

Ontem, vi muitos amigos publicando em suas timelines do Facebook sobre a chamada  Escola de Princesas  em Uberlândia – MG. Eu lembro que já fiquei muito incomodada com a ideia no começo deste ano, quando a notícia foi veiculada pela primeira vez. Mas como curiosidade é algo que ainda vai me matar um dia, decidi abrir a página. E uma das primeiras coisas que vi, foi isso:

“Sua filha é preciosa para você e precisa ser preparada desde já para que seu coração seja capaz de discernir entre o certo e o errado, entre a ação que produz algo bom e o gesto que traz constrangimentos. Desta forma ministramos ao coração das meninas valores e princípios éticos, morais e sociais, que a ajudarão a conduzir sua vida com sabedoria e discernimento.”

Esse “preparada desde já” ecoou por alguns momentos em minha mente. Após essa brilhante introdução, há o que eles chamam de “Características de uma Princesa”: ter boas maneiras, ser sempre bondosa e generosa, estar sempre bonita e bem vestida e saber como deixar o “castelo” organizado e impecável e esperar o “príncipe encantado”. Esses valores são estranhos para vocês? Pois bem…

emily-strange-nightmarepp31311O que antes era um incômodo, se tornou indignação. Porque acho muito leviano que: alguém se proponha a oferecer esse tipo de serviço; que tantos pais achem bonito e benéfico condicionarem suas filhas a esse ponto, acreditando que isso seja “brincadeirinha”. Não sou mãe, mas na minha modesta opinião, crianças não precisam estudar boas maneiras. Devem sim conhecer limites, não serem como bonecos. Meninas não precisam de dicas de beleza, nem se preparar para esperar um “príncipe encantado”.

Criança tem mais é que ser criança e acho fundamental que nós adultxs possamos garantir que elxs não pulem essa etapa tão importante de suas vidas. Será que todas essas meninas foram para a escola de princesas porque realmente era essa a vontade delas, ou foram motivadas por excentricidade (eufemismo para irresponsabilidade) dos pais? É tão mágico assim reproduzir valores tão conservadores? Por que a gente ainda tem essa “mania de monarquia”, sendo que em boa parte do mundo, pessoas abominam cada vez mais isso?

Foi inevitável que eu me lembrasse de quando eu era criança e preferia notavelmente as bruxas às princesas nas histórias que ouvia ( geralmente nas versões da Disney, fui criança nos anos 90) e uma professora me perguntou: “nossa, você é tão boazinha, por que prefere as bruxas más e feias?” Respondi que era porque as princesas eram todas iguais, muito rosas e muito paradas. As bruxas eram mais divertidas.

Talvez, eu tenha sido uma “ogrinha”: adorava me sujar, brincar de massinha, correr, fazer teatrinho, andar de patins, nem ligava para minha aparência. Mas fui criança. E gostaria demais que isso não se torne um privilégio, mas uma realidade possível para as meninas das futuras gerações.

*Não linkei a página aqui, mas ela pode ser facilmente encontrada no google.

 

Biscateando com o feminino

Por Silvia Badim*, nossa Biscate Convidada

Bom, ser biscate não é uma tarefa fácil. Isso já é sabido em tons fortes e letras claras, com dedos em riste e defesas prontas para sermos quem somos. Uma biscate vai conquistando espaço, esparramando-se, sentindo-se à vontade com seu eu no mais profundo feminino plural. Um feminino feito de muitos, uma vontade feita de muitas, e uma liberdade conquistada de seguir seu caminho e dizer: eu vou. E vamos assim como for, com as pernas de fora ou os seios respirando ar puro, com paqueras roubadas ou beijos pedidos, com amigos risonhos e amores declarados. E, sobretudo, com coerência de ser quem se é. Com o sorriso franco rasgado de orelha a orelha, saltando pelos olhos: eu posso. E como é bom ser quem se é.

E a gente pode ser muita coisa, mesmo que os julgamentos avolumados digam não. Caminhamos pelo não com o orgulho afiado, buscando a autoestima esticada pela felicidade. E as possibilidades de amores se alargam à medida em que caem as amarras morais. O afeto cresce em cada esquina onde exista uma flor vermelha, e a vontade aumenta em cada gozo compartilhado com sede de vida.  A gente pode, a gente tenta. A gente quer.

Uma biscate aprende logo cedo que amor não se esgota, amor se multiplica. Que o corpo é a chave para a acessar tanta coisa lá dentro, e lá dentro é um mundo que não ter portas ou fronteiras. Lá dentro é grande e fundo como os oceanos gelados. E a gente mergulha, é claro que a gente mergulha. Porque sem mergulhar as coisas perderiam metade da graça, e morreriam sem nunca terem nascido por completo. E eis que um dia, lá embaixo, naqueles mergulhos profundos, a gente descobre que a sexualidade é livre. Lá, beirando o fundo, não existem marcas de territórios ou quadrinhos com posses e regras.  É um reino livre para nadar-se de braçadas, para acolher-se em estado submerso. E se o preconceito já não existia para o outro, passa a não existir para a gente também. A gente perde o preconceito com a gente mesmo. E aí a vida pode se apresentar, sorrir e chorar, colocar amores e desamores aos montes, escondidos debaixo da pedra ou visíveis em cartazes. A gente enxerga. A gente enxerga a gente sem máscaras, desenrola o novelo e lá no fundo somos essência brilhante que molda-se livre.

As barreiras de gênero então se alargam e a gente se permite biscatear com o feminino. Biscate-biscate amando mulher, repartindo corpos nus com a mesma forma e mistério de entranhas. O amor pode, ele é. Biscate ama, mulher ou homem, feminino ou masculino, homem-mulher ou mulher-homem, trans ou supertrans, qualquer coisa acima de rótulos ou caixinhas com etiquetas. A gente quer o outro, assim como ele é. É assim que é bonito: assim dilacerado em verdades, assim pronto para transgredir a vala comum. Até porque não sabemos de fato o que somos. Mas temos pistas e vontades acolhidas.

Sim, somos biscates. E somos livres. Eu sou!

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* Silvia Badim é uma santista morando em Brasília, escrevendo no blog Estranhas Entranhas, gostando de Nina Simone, Bob Dylan, Billie Holiday e Chico Buarque. Diz ela, com auxílio dos Mutantes, que “seu peito é de sal de fruta, fervendo no copo d’água”, nós achamos que ela escreve lindamente espalhando sua entranhas vermelhas por aí e aqui. Você pode conhecê-la melhor na sua página do Facebook.

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