Sala de aula, maternidade e tanta vida pra viver

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

Uma das notícias mais compartilhadas nas redes sociais durante a primeira semana de março foi a do professor da UFRN que censurou a aluna por levar sua filha pequena para a sala de aula. Não vou escrever sobre o que eu acho da sala de aula, se é ou não lugar pra criança: esse não é o tema aqui. Como professora de universidade, já recebi algumas vezes alunas com seus filhos em minhas aulas e nunca tive problemas com isso. Não me recordo nem de ter ficado inquieta com o assunto, embora ache que a creche pública é das coisas mais fundamentais que qualquer sociedade deve prover aos seus cidadãos. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Fiquei foi pensando nessa vida que temos: parir e criar filhos, trabalhar, estudar, e todo o resto. Fiz meu doutorado grávida. Juca nasceu no primeiro ano do curso. Engravidei por escolha própria e sabia que estava topando a tarefa árdua de criar um menino, fazer uma tese e trabalhar (só tive licença parcial do meu trabalho). Tinha condições de financeiras de bancar uma creche, tinha uma trabalhadora doméstica que fazia todo o serviço da casa, minha mãe vinha algumas vezes me dar um help; a boa e velha rede feminina. Eu e o pai do Juca nos separamos quando ele ainda era pequeno, mas o período de guarda compartilhada também contribuiu para desafogar a agenda da semana. Enfim, dadas as condições objetivas, deu pra fazer tese, trabalhar e me dedicar ao filho. Fiquei cansada? Fiquei. Me arrependo? Não. Bem, mas essa sou eu, e eu não sou parâmetro pra nada. Aliás, ninguém é, embora nesse mundo das redes sociais as pessoas tendam a achar que suas vidas privadas são a régua universal.

Nem todo mundo engravida de forma planejada, como advoga a cartilha da maternidade competente. E não é porque as mulheres são desmioladas, há uma série de motivos que podem levar a uma gravidez em um momento da vida que não é considerado ideal. Não pretendo me estender sobre isso aqui. Uma vez mãe, com seu bebê no colo, a vida segue: tem trabalho, tem vida social, tem estudo, tem a pessoa além da mãe. Esse talvez seja o nó da questão. Tem uma pessoa que é mais do que “a mãe de”, está para além da “mãe de”, e vivemos em um mundo onde essa ideia da individualidade da mulher é um obstáculo tremendo. A negação da condição de sujeito da mulher é, no fundo, a raiz do incômodo com as crianças circulando no espaço público. Para ter seu filho consigo em sala de aula, a aluna tem que fazer referência à sua falta de condições para pagar creche ou à ausência de vagas em creche pública, tem que dizer que está sozinha ou que o pai da criança também tem suas obrigações (e ele é, obviamente, considerado um indivíduo pleno, enquanto ela não é), tem que afirmar todas as suas faltas e carências para poder viver para além da maternidade. É um paradoxo, como já dizia Joan Scott, ao lembrar que o feminismo assenta sua história na exigência de afirmação da diferença pra poder conquistar a igualdade.

Nós, mulheres, vamos assim: vivendo nossas vidas paradoxais, testando os limites do que é ser indivíduo no mundo. Precisando marcar a diferença, na luta para sermos vistas como iguais.

  AndreaMoraesNova*Andrea Moraes é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

I, Tonya e o círculo de violência

 Gilson Rosa*, Biscate Convidado

Eu sou uma pessoa dura. Gente mole e sentimental me levam à loucura. Acho que não existe nada que me irrite mais do que pessoas choronas e chorosas. REAGE, CARALHO. Eu nem sempre fui assim. Eu me tornei assim pra sobreviver. Não existia outro caminho. Só esse: trincar os dentes e seguir. A qualquer custo.

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Lavona Harding, assim como eu, é uma pessoa dura. Implacável. Ela é o que foi feito dela: Uma sobrevivente. Que sequer apaga o cigarro ao ver o marido e pai de sua filha entrar no carro e dar no pé,  deixando-a sozinha. Lavona nem se lembra mais como chorar ou se lamentar. Ela só trinca os dentes e segue. Lavona é o monstro que vai moldar, formar e ao mesmo tempo destruir e arruinar a grande patinadora Tonya Harding. Lavona tempera a pequena Tonya no fogo e no aço da pobreza, da privação e dos sonhos frustrados onde ela própria foi criada: Não existe lugar pra fracos. Lavona enxerga em Tonya um talento que a pode levar onde ela mesma nunca foi. E tenta por todas as maneiras possíveis torná-la vencedora. Sem se dar conta que essas maneiras implacáveis vão aprisionar a pequena Tonya no mesmo perpétuo círculo de violência e relações abusivas do qual nunca conseguiu se livrar.

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Tonya, como boa discípula de Lavona, abre o seu caminho a cotoveladas e pontapés. Na interpretação superlativa e visceral de Margot Robbie, Tonya é um dínamo movido a fúria, raiva, frustração e competitividade prestes a explodir a qualquer momento. Chega a ser irônico que um filme movido a esse tipo de combustão chegue a uma temporada de prêmios marcada pelo protesto das atrizes de Hollywood contra o assédio masculino. Pra Tonya e Lavona o mundo é esse onde elas duelam, se agridem e se machucam tentando fugir do circulo de pobreza, privações, pancadas e abandono dos homens as cercam. Nesse mundo, as roupas pretas do Globo de Ouro não significam nada.

14906864_10205828692916235_6183778969703579956_n* Choro de puta, deus não escuta

Detox

Você passa um ano solitária, realmente tentando se entender, você finalmente consegue se explicar, se amar, se admirar. Será que você precisa, no meio de tanta correria de alguém com você? Não, você é auto suficiente. Foi a primeira vez em sua vida que quando apertou pro seu lado, e todos os problemas foram crescendo, você conseguiu entender que você é a única que pode se salvar da depressão e da ansiedade.

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Não, você não precisa namorar, pela primeira vez na sua vida, você não quer alguém que te complete e te tire da solidão, você está completa e a solidão te faz feliz. Você está fazendo algo por você novamente, parou de viver pro outro, você ama seu trabalho, você ama seus amigos, você voltou a ter amigos, você não foge deles e esconde seu relacionamento e sua vida pessoal de seus amigos por medo deles comentarem algo que você sabe mas prefere esconder pra não ter que sair do “conto de fadas” que você criou.

Finalmente você é Sara, não uma extensão de um homem abusivo, que acabou com sua auto estima e sua personalidade. Agora é cuidar, sim, cuidar pra que não apareçam outros, eles farejam auto estima em construção, eles farejam mulheres que cuidam e amam incondicionalmente. Repete pra você mesma: “nunca mais vou mendigar amor e atenção!”; “se ele não suporta sua liberdade, sua vida fora do casal, ele não é homem pra você!”; “se ele não pode te apoiar nos seus sonhos, ele não é homem pra você!”.E com esses mantras eu sigo minha vida, me relaciono por meses, analiso, quando sinto que pode virar abusivo eu me afasto… Essa sensação incrível de poder cair fora quando eu quiser é maravilhosa!

Amor tem que ser leve, não existe amor onde não somos valorizadas, individualizadas, admiradas e livres. Nós, mulheres hetero, bi ou pan, precisamos entender que homens que nos controlam não nos amam. Controle é abuso, não vamos confundir amor com abuso.

Links sobre relações abusivas:

Exorcizando Fantasmas

I don’t care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul

I want you to notice
When I’m not around
You’re so fucking special
I wish I was special

But I’m a creep
I’m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don’t belong here

– Creep, Radiohead

Passei anos da minha vida tentando me adaptar a um padrão, tentei ser inúmeras vezes alguém que não se encaixava no que eu realmente me identifico, tudo isso pra ser aceita por outras pessoas. Passei anos da minha vida tentando emagrecer, me encaixar num padrão de feminilidade e beleza que nunca combinou comigo. Era outra mulher, outra Sara, uma Sara infeliz, uma Sara azeda.

Relações abusivas criam essa necessidade, não, nunca parece que é exigência do parceiro, parece sempre que você faz porque deseja mudar, que é algo que vem da sua vontade, que é um agrado a quem você ama. E isso vai te consumindo aos poucos, te fazendo mal, minando sua auto estima, te mostrando que sua beleza não existe, afinal, você não se encaixa naquele padrão que agrada seu parceiro.

O processo de se adaptar a um padrão que não era meu começou antes desse relacionamento, mas foi com ele que esse processo minou minha auto estima por completo, como eu acreditava que ele me conheceu magra, de cabelos compridos, usando roupas “femininas” eu devia me manter assim, se não ele procuraria outra desse jeito. Várias vezes ele deixou isso claro nas entrelinhas, que não era mais a Sara que ele conheceu, que eu parecia não me amar e não me cuidar pois estava engordando, não me depilava, queria cortar meu cabelo curto. Quantas vezes vi seus olhos de decepção pra minhas mudanças, todas essas mudanças vinham de um incômodo meu natural, quando fico estagnada por muito tempo num visual eu preciso mudá-lo. Ele não entendia, ele queria de mim apenas o superficial.

Era um objeto que ele mostrava passeando nas ruas, nas baladas, nos bares, nas fotos do facebook, quando deixei de ser aquele objeto, ele parou de me mostrar, vergonha de se relacionar com uma mulher fora do padrão. Não era mais a “morena” do corpão malhado e cabelos cacheados compridos e vermelhos. Queria raspar a cabeça, queria colorir o cabelo de qualquer cor, queria comer e beber bem sem me preocupar em malhar na segunda pra queimar o que ganhei no fim de semana. Ele ainda descobriu que namorava uma preta, comecei a me afirmar na minha identidade, comecei a questionar eu ficar invisível nas conversas, ele me admirava e me achava inteligente no início, eu tinha muita cultura pra passar pra ele, com o tempo ele foi minando o meu discurso, ele foi se afastando da admiração, comecei a incomodá-lo.

Sim, agora, quase um ano após o término, consigo enxergar tudo de errado que vivi nesse namoro, não foi a “infidelidade” ou a “traição” com outras mulheres que me fez mal, não ligo pra monogamia, o que me fez mal foi a insegurança da corda bamba por anos. Medo de ser abandonada pelo, segundo ele, único homem que iria me querer gorda, feia, de cabelo curto, desleixada, sem me depilar, louca, maníaca de ciúmes. Precisamos dar nomes aos bois, o que vivi foi uma relação abusiva e violenta.

Mulheres, tenham cuidado, se alguém precisa te fazer se sentir menor pra ficar bem, essa pessoa não merece estar ao seu lado. Procure amigas, apoio na família, numx psicólogx ou onde preferir, tente trabalhar sua auto estima pra sair disso antes que seja devastador.

O Estado e a vida das mulheres

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Postei isso achando graça. Poliamor e sensualidade subversiva? Tá lindo! Anarcos de grande inteligência? Cheguem mais. Mas fiz a ressalva: não seguirei a recomendação sobre a descriminalização do aborto. Esta defendo todo dia. Com tristeza, com tenacidade. Há tanto tempo que a gente já poderia ter conseguido isso. Portugal, país católico, descriminalizou o aborto por referendo em 2007. Lá, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a décima semana, independente do motivo.  Desde então, os resultados são notáveis: de 2012 até 2016, nenhuma mulher morreu em decorrência de aborto. O número de abortos também caiu, como se pode ver neste texto aqui.

Portugal legalizou o aborto tarde – na França, a legalização ocorreu em 1975, há mais de 40 anos. Na Inglaterra, Escócia e País de Gales, antes ainda,  em 1967.

Mas o primeiro país em que se legalizou o aborto foi a União Soviética, em 1920. Segundo a wikipedia, “[p]ela lei soviética, os abortos seriam gratuitos e sem restrições para qualquer mulher que estivesse em seu primeiro trimestre de gravidez.”

Possibilidade de interrupção da gravidez. E, com isso, preservação da vida das mulheres. Da dignidade das mulheres. Dos direitos iguais das mulheres.

Parece evidente, para mim, como já disse em outro texto, que a outra ponta desta questão consiste no apoio do Estado à criação dos filhos, com creches e escolas gratuitas integrais e de qualidade, com saúde pública universal, com a possibilidade de flexibilização de horários no trabalho para mães e pais. Estas duas pontas não se opõem, mas se complementam no reforço aos direitos das mulheres. De ter filhos, quando querem tê-los; de não tê-los, quando não for o caso.

De novo, a URSS foi pioneira e implementou uma política de construção de creches públicas: “De 14 creches com número de vagas desconhecido, antes de 1917, a Rússia passou a ter mais de 365 mil vagas em 1932 nas cidades” (aqui). Com foco no direito das mulheres, aborto legalizado e creches públicas passavam a constituir partes integrantes da política de Estado para as mulheres.

Um século depois, o Brasil ainda patina e retrocede: a ofensiva religiosa e reacionária busca destruir até o direito já adquirido de abortar em caso de estupro, anencefalia do feto ou de risco de vida para a gestante. Todos os outros casos são considerados “crimes contra a vida”.

O que já era um direito limitadíssimo, que não atendia às mulheres, periga se transformar em direito nenhum, já que a PEC 181, que originalmente tratava da extensão do direito à licença-maternidade para mães de prematuros, foi alterada de forma a incluir no texto os termos “dignidade da pessoa humana desde a concepção” e “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“. Ou seja, como no famigerado “Estatuto do Nascituro”, busca-se, através de uma gambiarra, igualar os direitos de um feto em formação aos direitos da mulher viva que o carrega em seu ventre. Um escândalo, um absurdo, algo que faz da mulher grávida uma incubadora sem vida própria e autônoma.

Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo.  

Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

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“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Por Tâmara, Biscate Convidada

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Amadas. Eu sei que vocês querem se sentir empoderadas quando dizem uma coisa dessas. Querem sentir que têm todo o controle sobre a própria vida e o próprio corpo. Querem pensar que a violência é uma realidade distante. Querem se comprazer com a ilusão de que são diferentes e por isso estão protegidas.

Mas vocês já pararam pra pensar em qual o oposto dessa frase?

Quando eu, com 19 anos, ouvi um namorado dizer que ia dar um tiro na minha cabeça foi porque eu não deixei claro que eu não era uma mulher ameaçavel? E todas as mulheres da minha família, mães dedicadas e esposas abnegadas, que apanharam? Elas deixaram?

Eu sei que é aterrador mas nenhuma de nós está segura em definitivo, não importa quem somos ou o que a gente faça. Isso só vai acontecer quando a cultura da violência misógina for solapada.

Porque você pode apanhar de um homem que era um príncipe até ontem. Ser ameaçada por um ex que foi um ótimo marido. Ser violentada psicologicamente pelo maravilhoso pai dos seus filhos. Ser morta por um estranho que você rejeitou justamente porque pressentiu o perigo.

O pouco de conforto reside no apoio mútuo e na superação. É pra se sentir igual, não pra se diferenciar.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

quem tem medo 5

Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Vocês Precisam Parar

Por Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

foram 3 as vezes que eu busquei ajuda na polícia para me proteger. para me proteger de homens conhecidos e desconhecidos. homens que me bateram, me ameaçaram de humilhação, de exposição de fotos íntimas, de agressão e de morte. é, de morte. homens que fizeram isso por causa de machismo, ciúmes, possessividade, e simplesmente por eu dizer não.

escrevi pouco sobre isso. pretendo escrever mais. mas não esses dias. às vezes, nós, mulheres que sofremos abuso e violência de gênero, violência sexual, física e simbólica, mesmo militantes, mesmo analisandas, mesmo acolhidas, mesmo com qualquer sinal de fortaleza aparente, às vezes não conseguimos sequer respirar. reviver, relatar, expor e escrever, então, nem podemos ou sabemos. ou queremos.

agora só quero dizer isso: nas 3 vezes, os delegados e policiais e outras pessoas para quem eu pedi socorro legal e institucional, me negaram socorro de todas as maneiras possíveis. de forma sistemática e institucionalizada.

. em todas as vezes eu fui culpabilizada pela violência e ameaça sofrida

. em todas as vezes meu comportamento, minha aparência, meu jeito de falar e meu ‘jeito de ser’ foram questionados, julgados e associados ao que eu sofri.

. em todas as vezes os delegados e policiais que me atenderam questionaram e duvidaram da minha avaliação sobre a violência que eu sofri (‘tem certeza que foi assim? você não entendeu errado?’)

. em todas as vezes me perguntaram se eu achava justo 1) fazer isso com meu marido/meu namorado/esse moço que é tão novo 2) prejudicar a vida deles fazendo um registro policial deles.

em apenas 1 desses casos eu consegui registrar a ocorrência, e só consegui porque eu reagi dentro da delegacia dizendo que ia chamar ‘meus amigos jornalistas’ para registrarem aquela atitude do delegado.

ou seja, a minha palavra e minha presença ali e meu pedido de socorro não mereciam nem respeito nem crédito: eu precisei mencionar outra pessoa/lugar de poder, esse sim legítimo (a mídia), para ele me respeitar.

e isso porque eu sou uma mulher branca de classe média.
e isso porque eu estava em delegacias em bairros ditos ‘nobres’.
e isso porque eu sou uma mulher feminista e militante.
e isso porque eu ja tinha mais de 30 anos de idade quando isso aconteceu.

e isso porque eu só fui buscar ajuda essas 3 vezes: existem todas as outras vezes não contabilizadas, as que eu não fui pedir ajuda.

vocês precisam entender o horror que é viver isso.

vocês precisam entender o que é ter medo de sofrer violência e depois ter medo de ser acusada de ser responsável pela violência sofrida.

vocês precisam entender o que é a sociedade dizer o tempo todo que você vale menos, pode menos, merece menos, que você é menos só por ser mulher.

vocês precisam querer isso. queiram isso. ajam. que isso não seja mais aceitável, que isso mude, que isso acabe, que isso não exista jamais.

vocês precisam ouvir as mulheres. escutar com atenção. em silêncio. ouvir quando elas dizem que sofreram uma violência de gênero, humilhação, agressão, abuso, estupro.

vocês precisam acreditar nelas, a priori.
vocês precisam protegê-las.

vocês precisam parar de rir de piadas machistas.
vocês precisam parar de fazer piadas machistas.
vocês precisam parar de apoiar pessoas machistas
vocês precisam parar de proteger pessoas machistas.
vocês precisam parar de ser machistas.
vocês precisam parar.
para sempre.
para nunca mais.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Vamos Falar Sobre Gênero

Por Andrea Moraes, Biscate Convidada

“Professora, meu marido rasgou meu trabalho”; “Professora, se meu tio me agride eu posso dar queixa dele na Maria da Penha?”; “Ih, professora Andrea, essa coisa de aborto legal é lenda, bem tenho eu duas sobrinhas morando lá em casa, gêmeas, minha irmã foi estuprada e a gente nunca conseguiu tirar. Agora estão aí… Eu amo as minhas sobrinhas, mas a história fica, né?” “Quando eu era criança, vi um cara abusar da minha irmã mais velha, eu nunca mais esqueci.” “Andrea, mas e se eu não quiser ser homossexual? O que eu faço? Se alguém na minha Igreja souber?”

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No curso de graduação onde eu trabalho como professora, a disciplina que trata das relações de gênero no Brasil é obrigatória. Há alguns anos eu sou uma das docentes responsáveis pelo curso. Desde o meu doutorado, concluído em 2003, eu pesquiso o tema, por isso acabei ministrando a disciplina e gosto muito de fazer isso. Algo que desde sempre me chama a atenção são as conversas que acontecem ao final das aulas. A turma é dispensada e sempre chega uma aluna – são as moças em sua maioria quem me procuram e o curso tem muitas mulheres, embora um ou outro menino também se aproxime, usualmente com questões sobre homossexualidade – chegam como quem não quer nada, um sorriso no rosto: “Posso falar com você?” “Tem um minutinho?” E aí os papos começam e as revelações, às vezes o choro, a vergonha, o suspiro, o nó no peito. Já terminei muita aula com abraços e afagos, tentando confortar e orientar na medida do possível. Não sou advogada, nem terapeuta, mas também não creio que elas me procurem com essa expectativa. Sou alguém que fica ali na frente delas por algumas horas na semana, dizendo basicamente que gênero é uma construção cultural e que as desigualdades baseadas no sexo devem ser compreendidas e confrontadas, recito a cartilha toda das políticas públicas de gênero e sua evolução no Brasil, falamos do feminismo como movimento político e ao final do dia, eu me deparo com isso que é a matéria prima da vida mesmo: os conflitos, a dor, o interdito, a fala embargada e o abraço. Em nenhuma outra disciplina eu fui colocada nessa situação. Mas, sei que não sou a única, já troquei experiências com outros colegas de profissão que lidam com coisas parecidas em seu cotidiano de trabalho.

Ministrar um curso como o de relações de gênero é um desafio. Por um lado, a gente tem uma ementa a cumprir, a disciplina justifica-se dentro de um currículo, há leituras a serem feitas, conceitos a serem discutidos, tudo muito dentro do protocolo do que é ensinar para a graduação e despertar minimamente a curiosidade investigativa dos estudantes. Por outro, o tema mesmo do curso pulsa imediatamente na vida das pessoas, e pulsa cada vez mais com maior velocidade. Feminismo, gênero são assuntos que estão na ordem do dia. É algo que está ali tão perto, tão ao alcance da mão e tão escondido ao mesmo tempo.

Nesses anos todos de trabalho, eu já me embananei nessa função, quem nunca? Lembro que no início, os relatos me assustavam e eu ficava achando que eu devia estar fazendo alguma coisa errada, não estava dando o “tom certo” à disciplina. Ficava com medo do curso se transformar em consultório ou muro das lamentações e eu um arremedo de ajuda. Depois fui me entendendo melhor nesse lugar e mais, vendo que eu também tinha as minhas histórias pessoais. Através da confiança que as alunas depositaram em mim, eu aprendi a confiar em mim mesma e a me enxergar como não muito distante das histórias que eu ouvia. Foi só aí que eu deixei de me apavorar com esse lugar de professora que escuta e a conferir uma maior simetria a minha relação com essas alunas. Aprendi a ver que talvez fosse ali mesmo, no final da aula, que as histórias faziam seu sentido e longe de confundirem o conteúdo da matéria com a emoção, tornavam esse conteúdo vivo.  Esse exercício me fez perceber que os caminhos para o conhecimento são múltiplos e não concorrentes. A gente estuda, lê os autores, pensa com eles e a gente sente, vive, chafurda nos sentimentos e toma distância deles pra continuar tudo novamente, mais uma vez.

Numa das últimas aulas desse ano, uma aluna perguntou por que o direito ao aborto era um tema tão persistente na agenda das discussões do feminismo. Claro que a resposta pra isso pode estar em 100 laudas, espaço 1,5 com notas de pé de página e 50 referências bibliográficas recentes. Mas, a única coisa que eu pude responder na hora foi o seguinte: é persistente porque nos afeta, e a gente persiste naquilo que nos afeta.

AndreaBiscate

Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

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