“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Por Tâmara, Biscate Convidada

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Amadas. Eu sei que vocês querem se sentir empoderadas quando dizem uma coisa dessas. Querem sentir que têm todo o controle sobre a própria vida e o próprio corpo. Querem pensar que a violência é uma realidade distante. Querem se comprazer com a ilusão de que são diferentes e por isso estão protegidas.

Mas vocês já pararam pra pensar em qual o oposto dessa frase?

Quando eu, com 19 anos, ouvi um namorado dizer que ia dar um tiro na minha cabeça foi porque eu não deixei claro que eu não era uma mulher ameaçavel? E todas as mulheres da minha família, mães dedicadas e esposas abnegadas, que apanharam? Elas deixaram?

Eu sei que é aterrador mas nenhuma de nós está segura em definitivo, não importa quem somos ou o que a gente faça. Isso só vai acontecer quando a cultura da violência misógina for solapada.

Porque você pode apanhar de um homem que era um príncipe até ontem. Ser ameaçada por um ex que foi um ótimo marido. Ser violentada psicologicamente pelo maravilhoso pai dos seus filhos. Ser morta por um estranho que você rejeitou justamente porque pressentiu o perigo.

O pouco de conforto reside no apoio mútuo e na superação. É pra se sentir igual, não pra se diferenciar.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

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Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Vocês Precisam Parar

Por Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

micropoema de Nayyirah Waheed rabiscada por Fabiana Motroni

foram 3 as vezes que eu busquei ajuda na polícia para me proteger. para me proteger de homens conhecidos e desconhecidos. homens que me bateram, me ameaçaram de humilhação, de exposição de fotos íntimas, de agressão e de morte. é, de morte. homens que fizeram isso por causa de machismo, ciúmes, possessividade, e simplesmente por eu dizer não.

escrevi pouco sobre isso. pretendo escrever mais. mas não esses dias. às vezes, nós, mulheres que sofremos abuso e violência de gênero, violência sexual, física e simbólica, mesmo militantes, mesmo analisandas, mesmo acolhidas, mesmo com qualquer sinal de fortaleza aparente, às vezes não conseguimos sequer respirar. reviver, relatar, expor e escrever, então, nem podemos ou sabemos. ou queremos.

agora só quero dizer isso: nas 3 vezes, os delegados e policiais e outras pessoas para quem eu pedi socorro legal e institucional, me negaram socorro de todas as maneiras possíveis. de forma sistemática e institucionalizada.

. em todas as vezes eu fui culpabilizada pela violência e ameaça sofrida

. em todas as vezes meu comportamento, minha aparência, meu jeito de falar e meu ‘jeito de ser’ foram questionados, julgados e associados ao que eu sofri.

. em todas as vezes os delegados e policiais que me atenderam questionaram e duvidaram da minha avaliação sobre a violência que eu sofri (‘tem certeza que foi assim? você não entendeu errado?’)

. em todas as vezes me perguntaram se eu achava justo 1) fazer isso com meu marido/meu namorado/esse moço que é tão novo 2) prejudicar a vida deles fazendo um registro policial deles.

em apenas 1 desses casos eu consegui registrar a ocorrência, e só consegui porque eu reagi dentro da delegacia dizendo que ia chamar ‘meus amigos jornalistas’ para registrarem aquela atitude do delegado.

ou seja, a minha palavra e minha presença ali e meu pedido de socorro não mereciam nem respeito nem crédito: eu precisei mencionar outra pessoa/lugar de poder, esse sim legítimo (a mídia), para ele me respeitar.

e isso porque eu sou uma mulher branca de classe média.
e isso porque eu estava em delegacias em bairros ditos ‘nobres’.
e isso porque eu sou uma mulher feminista e militante.
e isso porque eu ja tinha mais de 30 anos de idade quando isso aconteceu.

e isso porque eu só fui buscar ajuda essas 3 vezes: existem todas as outras vezes não contabilizadas, as que eu não fui pedir ajuda.

vocês precisam entender o horror que é viver isso.

vocês precisam entender o que é ter medo de sofrer violência e depois ter medo de ser acusada de ser responsável pela violência sofrida.

vocês precisam entender o que é a sociedade dizer o tempo todo que você vale menos, pode menos, merece menos, que você é menos só por ser mulher.

vocês precisam querer isso. queiram isso. ajam. que isso não seja mais aceitável, que isso mude, que isso acabe, que isso não exista jamais.

vocês precisam ouvir as mulheres. escutar com atenção. em silêncio. ouvir quando elas dizem que sofreram uma violência de gênero, humilhação, agressão, abuso, estupro.

vocês precisam acreditar nelas, a priori.
vocês precisam protegê-las.

vocês precisam parar de rir de piadas machistas.
vocês precisam parar de fazer piadas machistas.
vocês precisam parar de apoiar pessoas machistas
vocês precisam parar de proteger pessoas machistas.
vocês precisam parar de ser machistas.
vocês precisam parar.
para sempre.
para nunca mais.

FabianaMotroniBSC*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

Sobre ” Bela, Recatada e do Lar” e a participação masculina

Por Helena Vieira*, Biscate Convidada

É apoio. Eu acredito em movimentos e campanhas capazes de mobilizar o maior número de agentes de luta. Não é o mesmo de ridicularizar e nem é o mesmo de se apropriar. Creio que possa haver um sentido político na participação de homens nesta campanha, que seja o do reconhecimento do seu papel na construção deste estereótipo, de um papel subalterno para a mulher, de um papel decorativo e passivo.

Bela, Recatada e do Lar é ironia de luta. Não estou minimamente preocupada em dizer quem deve ou não postar fotos, de verdade. Gostaria mesmo que percebessemos que alguns discursos constroem uma vilanização de Marcela ou de Dilma ( por comparação), como se houvesse nela qualquer responsabilidade pelos discursos que tentam enquadrá-la. Essa violência é muito mais importante de ser discutida.

Mulheres não estão deixando de postar fotos porque homens estão postando. A luta não está sendo enfraquecida porque homens estão postando. A visibilidade não deixa de ser feminina porque homens estão postando.

Eu acharia terrível a participação masculina, se ela minasse ou ofuscasse a participação feminina. Isso não está ocorrendo.

” Ah, mas o homem não lida com este estereótipo”, sim, todos sabem disso e ele postar uma foto com esta legenda não fará com que achemos que ele sofra.

” Não quero homens falando por mim”, gente… Postar foto não é falar por mim, mesmo. Querer falar por mim é dizer como eu devo agir, pensar e me posicionar.

Espero que os homens possam conhecer os mecanismos de produção destes estereótipos e que hajam no sentido de combatê-los, pra além disso, não me parece bom motivo pra briga, né não?

12916230_1060263974038649_1260119018401432661_o*Helena Vieira é travesti, ativista e gosta de escrever.

Vamos Falar Sobre Gênero

Por Andrea Moraes, Biscate Convidada

“Professora, meu marido rasgou meu trabalho”; “Professora, se meu tio me agride eu posso dar queixa dele na Maria da Penha?”; “Ih, professora Andrea, essa coisa de aborto legal é lenda, bem tenho eu duas sobrinhas morando lá em casa, gêmeas, minha irmã foi estuprada e a gente nunca conseguiu tirar. Agora estão aí… Eu amo as minhas sobrinhas, mas a história fica, né?” “Quando eu era criança, vi um cara abusar da minha irmã mais velha, eu nunca mais esqueci.” “Andrea, mas e se eu não quiser ser homossexual? O que eu faço? Se alguém na minha Igreja souber?”

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No curso de graduação onde eu trabalho como professora, a disciplina que trata das relações de gênero no Brasil é obrigatória. Há alguns anos eu sou uma das docentes responsáveis pelo curso. Desde o meu doutorado, concluído em 2003, eu pesquiso o tema, por isso acabei ministrando a disciplina e gosto muito de fazer isso. Algo que desde sempre me chama a atenção são as conversas que acontecem ao final das aulas. A turma é dispensada e sempre chega uma aluna – são as moças em sua maioria quem me procuram e o curso tem muitas mulheres, embora um ou outro menino também se aproxime, usualmente com questões sobre homossexualidade – chegam como quem não quer nada, um sorriso no rosto: “Posso falar com você?” “Tem um minutinho?” E aí os papos começam e as revelações, às vezes o choro, a vergonha, o suspiro, o nó no peito. Já terminei muita aula com abraços e afagos, tentando confortar e orientar na medida do possível. Não sou advogada, nem terapeuta, mas também não creio que elas me procurem com essa expectativa. Sou alguém que fica ali na frente delas por algumas horas na semana, dizendo basicamente que gênero é uma construção cultural e que as desigualdades baseadas no sexo devem ser compreendidas e confrontadas, recito a cartilha toda das políticas públicas de gênero e sua evolução no Brasil, falamos do feminismo como movimento político e ao final do dia, eu me deparo com isso que é a matéria prima da vida mesmo: os conflitos, a dor, o interdito, a fala embargada e o abraço. Em nenhuma outra disciplina eu fui colocada nessa situação. Mas, sei que não sou a única, já troquei experiências com outros colegas de profissão que lidam com coisas parecidas em seu cotidiano de trabalho.

Ministrar um curso como o de relações de gênero é um desafio. Por um lado, a gente tem uma ementa a cumprir, a disciplina justifica-se dentro de um currículo, há leituras a serem feitas, conceitos a serem discutidos, tudo muito dentro do protocolo do que é ensinar para a graduação e despertar minimamente a curiosidade investigativa dos estudantes. Por outro, o tema mesmo do curso pulsa imediatamente na vida das pessoas, e pulsa cada vez mais com maior velocidade. Feminismo, gênero são assuntos que estão na ordem do dia. É algo que está ali tão perto, tão ao alcance da mão e tão escondido ao mesmo tempo.

Nesses anos todos de trabalho, eu já me embananei nessa função, quem nunca? Lembro que no início, os relatos me assustavam e eu ficava achando que eu devia estar fazendo alguma coisa errada, não estava dando o “tom certo” à disciplina. Ficava com medo do curso se transformar em consultório ou muro das lamentações e eu um arremedo de ajuda. Depois fui me entendendo melhor nesse lugar e mais, vendo que eu também tinha as minhas histórias pessoais. Através da confiança que as alunas depositaram em mim, eu aprendi a confiar em mim mesma e a me enxergar como não muito distante das histórias que eu ouvia. Foi só aí que eu deixei de me apavorar com esse lugar de professora que escuta e a conferir uma maior simetria a minha relação com essas alunas. Aprendi a ver que talvez fosse ali mesmo, no final da aula, que as histórias faziam seu sentido e longe de confundirem o conteúdo da matéria com a emoção, tornavam esse conteúdo vivo.  Esse exercício me fez perceber que os caminhos para o conhecimento são múltiplos e não concorrentes. A gente estuda, lê os autores, pensa com eles e a gente sente, vive, chafurda nos sentimentos e toma distância deles pra continuar tudo novamente, mais uma vez.

Numa das últimas aulas desse ano, uma aluna perguntou por que o direito ao aborto era um tema tão persistente na agenda das discussões do feminismo. Claro que a resposta pra isso pode estar em 100 laudas, espaço 1,5 com notas de pé de página e 50 referências bibliográficas recentes. Mas, a única coisa que eu pude responder na hora foi o seguinte: é persistente porque nos afeta, e a gente persiste naquilo que nos afeta.

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Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

Por Maíra Nunes*, Biscate Convidada

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Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (um pouco de esclarecimento aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.

923276_592588400760146_965108052_n*Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

amigas

Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

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Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Uma situação intolerável

Eu odiava esse corpo que procurava me ditar sua vontade, que não era a minha. Era igualmente deprimente ter que agir sem nenhuma informação, sem auxílio médico, reduzida às receitas de bruxas, aos remédios das comadres, alguns dos quais datando da Antiguidade: o aborto era o ato mais secreto, porém o mais disseminado da história das mulheres.
(Benoîte Groult, Minha Fuga)

O relato de Benoîte Groult se passa na França do pós-guerra, quando o aborto ainda era proibido por lá. Mas bem poderia ser no Brasil de hoje. Na França, comemoram-se este ano 40 anos de aborto legal, como conta esse texto da professora Lena Lavinas:

Dentre as maiores conquistas do pós-68 na França, sem dúvida o direito ao aborto livre e seguro foi das mais extraordinárias e incontestes. Contemplou a todas as mulheres que puderam, assim, romper a solidão e a clandestinidade, o medo e a vergonha, para expressar seu direito individual e inalienável de escolha.

As duas citações deixam claro o componente de direito envolvido na questão: como dizer, de verdade, que as mulheres são iguais aos homens, sem anticoncepcionais, sem a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez e sem estruturas de apoio à criação das crianças (creches e escolas integrais e públicas)? Direito ao aborto seguro, direito a creches e escolas públicas para as crianças: parecem antitéticos, e no entanto são duas pontas do mesmo quadro. Duas pontas fundamentais para garantir às mulheres o mesmo direito que têm os homens. E, portanto, fundamentais para a estruturação de uma democracia substantiva.

Enquanto na França se comemoram os 40 anos da Lei Veil, no Brasil, a situação é cada vez mais grave: mulheres continuam morrendo todo dia por abortos malfeitos. E, se sobreviverem, são criminalizadas. Não há números confiáveis, mas uma certeza: são muitas. São demais. Mortes desnecessárias. Mortes por descaso. Por indiferença. Pela hipocrisia que salva supostas “vidas” abstratas e, concretamente, mata gente. Porque o Estado supostamente laico não leva sua laicidade até a defesa da vida das mulheres. Porque a presidenta, a nossa primeira presidenta mulher, recuou o quanto pôde na pauta “sensível”. Porque existe (ainda) uma Secretaria de Políticas para a Mulher cuja titular defendia, como cidadã, o direito das mulheres ao aborto , mas não consegue fazê-lo como representante do governo.

Esse estado das coisas mantém a mulher no Brasil como cidadã de segunda categoria, não importa o que digam. E, evidentemente, a mulher pobre é a que sofre mais com essa situação, já que para quem tem dinheiro acaba sempre existindo algum “jeitinho”. É lamentável que, tanto tempo depois do final da ditadura, a gente continue vivendo a situação que tão bem descreve Benôite Groult: a das mulheres aprisionadas em seus próprios corpos. Reféns dos corpos e dos desejos. Correndo risco, todo dia.

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

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