Bowie, feminismo e um pouquinho de historicidade

Por Maíra Nunes*, Biscate Convidada

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Logo que li sobre a morte de David Bowie comecei a chorar – estou numa fase difícil – e enquanto chorava lia os comentários de amigas e amigos que lamentavam comigo. Foi lindo ver que tanta gente também estava na mesma vibe. Gente comentando sobre suas músicas, suas atitudes, suas vestimentas, personas e performances. Bowie foi rock, foi pop, foi indie, foi mainstream, foi underground. Foi masculino, feminino, andrógino, sex symbol, um mix de tudo o que rolava na época. Foi vanguarda, tendência, criou e transformou um monte de coisas. E todo mundo celebrava hoje a sua vida.

Mas aí apareceu a primeira menção ao fato de Bowie ser estuprador, pedófilo, racista, o combo todo (um pouco de esclarecimento aqui). Não li nada sobre isso (ah, a maravilhosa bolha), mas outras feministas comentaram. Doeu. E comecei a remoer. Não quero fazer uma defesa de algo que desconheço, mas quero aproveitar pra falar sobre uma coisa que me incomoda há muito tempo nessa vida nas redes sociais. A falta de historicidade das reflexões e críticas que fazemos.

Precisamos nos lembrar constantemente de que o mundo não começou com o FB, nem com o Orkut e muito menos com a internet. A vida no século XX era outra. Nós erramos muito. Todo mundo errou muito. Bowie provavelmente errou muito, da mesma forma que um monte de outras celebridades.

Mas parece que nos tornamos entidades desconectadas do real, vidas perfeitas que devem seguir um script prévio imaculado. É quase um fundamentalismo religioso, calcado na superioridade moral de quem nunca vacila, nunca tem dúvidas e incertezas. Nesta guerra, o combate está dado previamente. De um lado as feministas, mulheres com M maiúsculo montadas na sororidade vaginal que lhes garante, de antemão, o lugar de salvação. De outro, o macho, esse sujeito ignóbil, criminoso, cujo falo estuprador representa a encarnação do mal na Terra.

Não há escapatória, não há possibilidade de construir outras narrativas que escapem da relação vítima-violentador. Nessa linearidade vão surgindo mártires – as Solanas primordiais que vieram ao mundo para nos salvar da síndrome de Estocolmo que nos impede de viver em mundo matriarcal idílico e santo.

Às mulheres tudo, ao piroco a morte.

Eu, que só tenho dúvidas e nenhuma certeza, acho esse discurso desonesto e perigoso. Acho que precisamos ir além. Principalmente, precisamos superar a matriz sagrada que transforma a existência numa grande Cruzada.

O feminismo não é uma religião. A vida não é um sacramento a ser seguido de maneira dogmática. Bowie trouxe o glitter, o salto plataforma, a make e a desconstrução pra vida de muita gente. Que a gente possa construir um feminismo mais camaleão e menos bíblico, por favor.

923276_592588400760146_965108052_n*Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Feminicídio: #nãofoiciúme

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Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

amigas

Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

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Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Uma situação intolerável

Eu odiava esse corpo que procurava me ditar sua vontade, que não era a minha. Era igualmente deprimente ter que agir sem nenhuma informação, sem auxílio médico, reduzida às receitas de bruxas, aos remédios das comadres, alguns dos quais datando da Antiguidade: o aborto era o ato mais secreto, porém o mais disseminado da história das mulheres.
(Benoîte Groult, Minha Fuga)

O relato de Benoîte Groult se passa na França do pós-guerra, quando o aborto ainda era proibido por lá. Mas bem poderia ser no Brasil de hoje. Na França, comemoram-se este ano 40 anos de aborto legal, como conta esse texto da professora Lena Lavinas:

Dentre as maiores conquistas do pós-68 na França, sem dúvida o direito ao aborto livre e seguro foi das mais extraordinárias e incontestes. Contemplou a todas as mulheres que puderam, assim, romper a solidão e a clandestinidade, o medo e a vergonha, para expressar seu direito individual e inalienável de escolha.

As duas citações deixam claro o componente de direito envolvido na questão: como dizer, de verdade, que as mulheres são iguais aos homens, sem anticoncepcionais, sem a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez e sem estruturas de apoio à criação das crianças (creches e escolas integrais e públicas)? Direito ao aborto seguro, direito a creches e escolas públicas para as crianças: parecem antitéticos, e no entanto são duas pontas do mesmo quadro. Duas pontas fundamentais para garantir às mulheres o mesmo direito que têm os homens. E, portanto, fundamentais para a estruturação de uma democracia substantiva.

Enquanto na França se comemoram os 40 anos da Lei Veil, no Brasil, a situação é cada vez mais grave: mulheres continuam morrendo todo dia por abortos malfeitos. E, se sobreviverem, são criminalizadas. Não há números confiáveis, mas uma certeza: são muitas. São demais. Mortes desnecessárias. Mortes por descaso. Por indiferença. Pela hipocrisia que salva supostas “vidas” abstratas e, concretamente, mata gente. Porque o Estado supostamente laico não leva sua laicidade até a defesa da vida das mulheres. Porque a presidenta, a nossa primeira presidenta mulher, recuou o quanto pôde na pauta “sensível”. Porque existe (ainda) uma Secretaria de Políticas para a Mulher cuja titular defendia, como cidadã, o direito das mulheres ao aborto , mas não consegue fazê-lo como representante do governo.

Esse estado das coisas mantém a mulher no Brasil como cidadã de segunda categoria, não importa o que digam. E, evidentemente, a mulher pobre é a que sofre mais com essa situação, já que para quem tem dinheiro acaba sempre existindo algum “jeitinho”. É lamentável que, tanto tempo depois do final da ditadura, a gente continue vivendo a situação que tão bem descreve Benôite Groult: a das mulheres aprisionadas em seus próprios corpos. Reféns dos corpos e dos desejos. Correndo risco, todo dia.

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

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Exijo, Sim, Respeito

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

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Tu dizes que não me respeitas e eu fico aqui, me perguntando de onde tiraste a ideia de que podes negar o respeito a outra pessoa. E não que eu tenha te pedido respeito: tu levantas a voz e diz “não respeito”, e eu me pergunto o que é que tu julgas em ti tão superior ao que tenho pra dizer que não respeitas.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que não respeitas uma mulher por que ela faz sexo. E me pergunto de que ventre saíste, fecundado sem sexo. Ou quem sabe pra ti o sexo da santa mãe seja tão sagrado que ela te tenha gerado sem prazer – abnegada que é, como devem ser as mulheres respeitáveis.

E não que eu me importe com teu respeito, mas me dou conta de que é com o suor do teu corpo que pões o pão na mesa sagrada de teus filhos, do mesmo modo que com o sagrado suor do meu corpo ponho o pão e a refeição à mesa dos meus. Dizes que não me respeitas por que não estudei, e o dizes sem ter perguntado se quem sabe não fomos colegas. Nos puritanos bancos de escola em que sentaste não teria antes se esbaldado a lasciva bunda de uma puta e assimilado tanto ou mais conhecimento que tu?

Dizes que não me respeitas e vais à missa, e lá prometes amar e respeitar teu próximo como a ti mesmo. E repetes semanalmente a promessa – mas estufas o peitinho e dizes que não me respeitas. Ou pelo comprimento da minha saia, ou pela acidez feroz da minha língua. Não te desperto respeito.

Isso como se a ti ou a qualquer de nós fosse dado o divino direito de sair por aí dizendo “não conheço mas não respeito”. Não me respeitas por que te parece que meu sustento vem fácil e o teu, suado – e parte desse teu sustento tão suado vem parar em minhas mãos ou nas mãos de uma das minhas, por que não resistes. “A carne é fraca”, tu dirás – e meus demônios internos rirão da tua cara, da tua falsa moral, e guardarão tua face na memória.

Te arrependerás do pecado de ter pago pelo gozo a uma pecadora, e pensarás te redimir dizendo “eu não respeito” – puro despeito. A mim não enganas. Eu acho graça e levanto a cabeça: exijo, sim, respeito.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n* Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”

A Dor é Minha e Ninguém Tasca

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Nesses tempos de árdua luta por tantos Direitos Humanos me coloco na empreitada da defesa de um dos mais antigos deles: o direito à dor. Quero falar da humanidade de tod*as nós, do direito inalienável à dor e à tristeza. Daquela reserva de enfraquecimento à qual tod*s temos um quinhão e que tant*s julgam ser quase uma ofensa.

A passagem por um mundo racista, classista, misógino e homofóbico não é brincadeira. Onde falta afeto, sobra dor e quem nunca teve que lidar com isso não sei como conseguem, racionalizando ou evitando sentir). Eu não, não vegetei, nem racionalizei. Sofri e sofro mesmo, sempre que posso, sempre que a vida me “permite” ainda que contra a minha vontade. Mas vontade da gente é coisa que esse mundo menos respeita…

Me recuso a me sentir culpada por me desequilibrar, não vou rastejar o perdão de quem queria que eu fosse forte porque tem a ilusão de que seja. Não sou forte sempre…Mas sempre é daquelas palavras de gente que pra mim soa como mentir pra mim mesma. Não minto pra mim mesma, só quando eu digo que não faço isso…

Sim, é contraditório, e também complexo. Porque ao mesmo tempo você é a sofredora e sua própria redentora. Não, o príncipe não virá te redimir. É sozinha mesmo. Porque o príncipe não redime nem a ele próprio. Já caiu faz tempo do cavalo branco.

Sem príncipe e sem cavalo branco seguimos em frente na nossa dor que essa sim, é só nossa. Como o imposto de renda, que odiamos, mas é de nossa responsabilidade e fugir dele pode trazer tantos prejuízos futuros que é melhor enfrentar. Pagar logo essa merda, ainda que parcelada. E a merda fede. Fede muito.

Fede tanto que exala e incomoda quem está ao redor. Mas, quem não puder cheirar um pouquinho a merda do outro ai nunca amou, né? Porque se a gente fosse só Chanel nº 05 intoxicaríamos antes dos 30 anos. E eu quero chegar ao menos nos setenta, cheirando e fe(u)dendo, como todo ser que transpira em cima dessa terra. O problema é que alguns pensam que vivem em outro lugar. Talvez no paraíso, ao lado de Descartes. Anjos serenos e fortes que não sofrem e nem se desequilibram.

Eu, que às vezes me descabelo e choro, não me sinto à altura dessas pessoas. Tenho medo de altura. Tenho náuseas. E de náuseas, já basta a do ansiolítico. Prefiro mesmo sofrer de vez em quando e depois melhorar, depois levantar, depois seguir em frente. Mas nunca mais a mesma, nunca mais como antes. As sequelas são como as rugas: estão lá, e você escolhe(?) ligar ou não pra elas. Só isso.

Não vim pra cá pra repousar. Não ando com os dois pés no chão. Quem vive assim é estátua. Vivo mesmo como o Saci-pererê. Já não tenho as duas pernas.Não opero com 100% de mim mesma, parte ficou pelo caminho, parte trago comigo.Não sou fênix, não renasci das cinzas, trago-as comigo, sombreando um colorido inicial que só resiste por completo na tela de quem se blinda.

Não uso colete à prova de balas nem curto Romero Brito.Vou de peito aberto, tentando me esquivar. Sou uma tela toda manchada de cinza cor de sangue. Mas gozo, gozo muito em cima de uma perna só.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

Do respiro preciso

Tem sido mesmo dias difíceis pra gente. Notícias arrasadoras, desassossegos, essa sensação que a gente anda mais retrocedendo que avançando. E amigues se estapeando nas redes sociais. E amigo que apela pra agressão pra te calar.  E debates arrogantes, fulanizadores, sem empatia.

E fica todo o mundo contando com o meteoro pra acabar com a bagaça e ver se a gente ressurge melhor. Ou nem ressurge. Que venham outros nós, outros eus, outros eles e elas. Conversa vai, conversa vem, a vontade é de pegar ali o bonde da Mafalda e descer do mundo. Fui.

Mas, aí. Na última terça (9), num colégio particular, de origem bem conservadora e ainda com proposta pedagógica bem convencional, estava eu. Com mais duas companheiras e amigas da Casa de Lua pra realizar uma roda de conversa sobre gênero com alunos do fundamental.

No começo, foi estranho. Calado. Até levamos uns vídeos de youtube, meio que pra animar, mas ninguém fazia perguntas. Ai, as perguntas! Pressão de professor. Nervoso de aluno. E a gente, nem uma coisa nem outra, ficava ali esperando… o meteoro, talvez?

E, de repente, ela levanta a mão e chama atenção pro tratamento que certas mídias estão dando pra Caitlyn Jenner. E foi um comentário tão acurado, sensível, com tantos cuidados no uso dos pronomes e dos artigos, tantos cuidados em não apelar pro fácil e transfóbico “era homem e virou mulher”, que já me empertiguei na cadeira.

Opa! Pensei. Vem lindeza por aí. E veio mesmo.

De onde veio essa vieram outras. Colocações interessadas, pertinentes e, principalmente, empáticas sobre pessoas trans. Sobre a equivocada e desonesta expressão “feminazi”. Sobre assedio. E o menino que quis entender por que mais pessoas não se assumem feministas. E se mudássemos o sufixo? Propôs. Sim, o sufixo. Ismo. Não o prefixo. Achei fofo. Não entendi nadinha, verdade. Mas, achei interessado. De quem anda pensando no assunto.

E saí da escola mais felizinha. Menos desalentada. Fiquei pensando em projetos e conversas que podemos desenvolver nas salas, nos pátios, parques e pistas de skates. Ainda que tenha gente que não queira deixar. Porque coisas boas vão acontecer, e já acontecem, a despeito das almas sebosas. Eu vi. Que tem gente linda e interessada. Que quero ser amiga deles.

cabelonomundo

E tem a Diane Lima (que conheci no TEDx Women) e a avó dela, que respondia pra mãe de Diane quando esta queria usar o cabelo solto, “se a menina quer usar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo!”

Ô gente. Tem coisa mais sabida que isso? Avós. As amo.

#deixaocabelodameninanomundo

E, de repente, descubro que Elza Soares quer retocar a fênix que tatuou na batata da perna “porque sou uma delas, estou sempre renascendo de alguma coisa.” Ela simplesmente vai lançar um disco (justo com este nome!): “A Mulher do Fim do Mundo”, com músicas sobre sexo, morte e negritude.

Essa mulher, gente.

Essa mulher que decidiu que seu momento é se resolver com ela mesma. “Estava no quarto, sozinha, escutando Chet Baker, e falei: ‘Elza, quer casar comigo?’ A Soares disse: ‘Por enquanto, não.’”

Desculpa. Permaneço por aqui até saber de cor todas as músicas do novo CD. É que Diane, a avó de Diane, as meninas e os meninos do colégio ainda fazem essa bagaça valer a pena. Sei que a vida real anda ingrata. Mas, fico me apegando ao fato de que essas pequenas histórias também são vida real.

E ainda tem Elza. Elza existe. Elza renasce. Elza está aqui. Estou com ela.

 

Hoje Eu Me Diverti Muito…

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Começando no shopping. Fui pra pagar as contas da Marisa, porque né? Depois de ter o crédito cortado em tantas e num sei quantas lojas (não, não vou me explicar…) é aonde ainda posso comprar em não sei quantas vezes.

*Obrigado, Marisa, por me fazer todo mês ter que ir até à sua loja mais próxima pagar meu cartão e consumir mais… (Sim. É isso mesmo: não discuto propaganda machista da Marisa porque não posso pagar à vista em outros lugares, me julguem…)

Mas enfim… É … enfim… o limite do cartão da loja amiga dava apenas pra bolsa lindona de creusa, costurada provavelmente por escravxs (bolsa só troco a l’única de mãe solteira “básica” de dois em dois anos e já fazia três desd’aquela grana e Jah é legal e eu tenho bom gosto, por necessidade e tals (sim , podem me julgar pela escrita necessária de caraminholas entre parênteses, eu deixo).

Enfim, enfim, enfimmmmmmmmmmmmmmm… comprei a tal da bolsa lindona de creusa. Pedi em preces enquanto anotava as parcelas, que visse (por favor!) de mão de obra honesta, inocente que sou…

Daí que depois de arrumar troços numa praça de alimentação e dar a bolsa antiga (saudades para sempre em meu heart!) pra moça da praça de alimentação, pedindo desculpas e tals (mas era só para não acharem que eu estava jogando uma bomba na lixeira), capitalista que sou, e já me sentindo mais dadivosa, senti no âmago do meu ser que precisava de uma nécessaire. E de uma carteira. Cronometrei R$ 40,00 reais e uma hora em lojas populares.

Até que ela chega, aquela biscate sensual, me oferendo em voz rouca e lúbrica:
– Você já tem o cartão da… (inclua o nome da sua empresa aqui depois de pagar nossa percentagem). Fazer o que? Eu disse sim, facinha que sou. E que horror, aprovaram-me créditos e ainda me deram 1.200 royais com dez por cento de desconto apenas pra ontem.

Ai. Ai.

Não podia comprar a sandália a mais nem tampouco aquele jeans. Mas eu o vesti. E lembrei. Que há mais de seis anos eu não em permitia comprar nenhum jeans que custasse mais de R$ 70 pilas. Daí aquela calça me abraçou em gostosuras, e sequer pinicava em troca do carinho oferecido, vejam só que horrror!!! E porra, a sandália era linda e acreditem eu só tenho sete pares dessas coisas de pés…

Comprei mais. Comi no chinês e ainda cometi a insanidade de pegar um táxi pra casa. Desculpem.

Aí eu decidindo morrer porque “como assim eu posso pagar?” a amiga ligou. E eu tinha tanto para fazer, mais contas inclusive. Mas né? Saímos para comemorar aniversário. Porque ela sempre foi dessas.

Me diverti ainda mais.

Ca cara daquele cara quando eu disse que eu mesmo pagava minha conta e não íamos esticar pra porra de lugar nenhum. Ca cara daquele outro quando eu disse que ele era ridículo por achar que… Ca cara de tacho quando eu disse que não, eu não tinha emagrecido, e na verdade aquela era uma comemoração não só do aniversário da amiga, mas também do meu novo manequim de calça jeans, bem maior desde que…

Então. Sério. Né? É isso que é ser LibFem? Me emponderar aos quarenta anos, depois de muitos abusos em prestações? Te pago uma cerveja e daí você me explica melhor, ok?

Nem Mais Nem Menos

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Nós passamos essa quinzena aproveitando o mote do Dia Internacional da Mulher escrevendo com recortes, olhares e abordagens variadas. E, acho, variadas é um termo importante. Penso que ver o Outro, respeitar sua alteridade e conviver com ele é um bom caminho pra uma sociedade com menos dor.

Na escrita (e na leitura, né, por que não?), com algum esforço, vamos sendo (e não me refiro especificamente, agora, a esse blog, mas as pessoas que militam à esquerda e nas frentes de luta de minorias) um tantinho mais inclusivos. Abandonamos ou tentamos abandonar, as generalizações que tornam invisíveis as pessoas que não correspondem ao padrão que ocupa nosso imaginário. Já não escrevemos: “as mulheres” porque sabemos que esse termo não contempla a variedade de pessoas que assim se identificam. “As mulheres” costuma acolher, de maneira geral, brancas, jovens, cisgêneras, magras, sem deficiência. Não somos todas assim, sabemos e escrevemos: mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência, mulheres pobres.

mulheres

Eita, Luciana, mas pra que tanta picuinha? O tempo que tu leva só pra escrever esse tanto de mulher isso e mulher aquilo já dava pra estar tratando dos temas realmente importantes. Então, pra mim e pra várias mulheres que não se vêem nem são vistas no espectro “as mulheres”, visibilidade, escuta, representação, reconhecimento são realmente importantes. De maneira geral, aliás, as pessoas, as mulheres, que menos se questionam sobre a necessidade de sim, nomear as diferenças, são aquelas que menos diferenças apresentam em relação ao padrão. Penso eu que, talvez, seja porque reconhecer (e a seguir, tentar abrir mão de) nossos  privilégios é difícil, mesmo (ou especialmente?) para quem tem poucos. Por isso muitas vezes, quando se aborda questões específicas, ora de mulheres negras, ora de mulheres com deficiência, muitas vezes ouvimos que é muito drama, exigência demais, demanda de perfeccionismo, etc. Porque não nos sentimos implicados na desumanização que promovemos, como sociedade, quando naturalizamos discursos e comportamentos excludentes, muitas vezes por causa de uma causa principal, necessidades prioritárias, um bem maior (e, como eu já disse, estou fora de Bem Maior).

E digo que não conseguiremos sair dessa espiral de exclusão sem escuta. Porque mesmo as pessoas que tentamos e escrevemos e talz, pisamos na bola. Porque, repito sempre, não é que sejamos (de forma estanque, cristalizada) transfóbicas, capacitistas, racistas, machistas, gordofóbicas, etc. É que nos construímos sujeitos em relação e a sociedade é estruturada de forma racista, capacitista, machista, gordofóbica, transfóbica, etc. E nós internalizamos e reproduzimos. E isso naturaliza e/ou invisibiliza uma série de dores.

Esses dias uma mulher contou como fez para escapar de uma situação de desconforto originada no comportamento machista: o assédio na rua. Narrou  que para deixar de ser assediada simulou uma expressão facial que ela chamou inicialmente de careta e, a seguir, disse que parecia que ela tinha uma doença ou uma deformidade. E aí, segundo a narrativa, os homens passaram a desviar o olhar e ela não se sentiu mais intimidada. Se você não encontrou o erro, se não sentiu o travo na boca, é disso que estou falando: de como somos forjados pra ignorar as dores dos que nos são diferentes. A mulher se sentiu menos ameaçada, menos assediada. Que bom pra ela. Mas não é bom que ela conte isso como uma vitória e, principalmente, acho eu, não é nada bom que pessoas militantes, grupos feministas aplaudam e disseminem o texto e a “estratégia” como válidos. Esse discurso é ofensivo para mulheres com deficiência de várias formas que nem sei dizer (e, aqui, não é um recurso de linguagem, não sei mesmo, reflito e imagino algumas nuances, mas quero mais é ouvir, ler, saber sobre o que elas pensam, por isso perguntei, por isso estou procurando mais). Uma delas é invisibilizar que assédio e suas gradações de violência, incluindo o estupro, não são situações apenas relacionadas à atratividade mas também – e muitas vezes preferencialmente – à vulnerabilidade. Este tipo de discurso esquece que pessoas com deficiência são vítimas também. Faz um eco doloroso, inclusive, com a piada do estupro de mulher feia é praticamente um favor. Não é. Outra coisa que me ocorre é que o pareamento “simulei uma deficiência = não sou mais assediada porque me tornei repulsiva ao olhar” é violento porque nega às pessoas com deficiência o potencial de causador de desejo. Criticar esses discursos não é desqualificar as pessoas que eventualmente os reproduzem, mas questionar porque aceitamos essas distinções, porque não nos inquietamos, porque não amarga na boca. Não estou querendo minimizar o desconforto da mulher que narra sua vivência de assédio, mas questionar de que lado a corda está rebentando.

A nossa sociedade e seus valores estruturantes nos ensinam que existem pessoas que são mais pessoas que outras. Existem pessoas e corpos que são mais. Mais adequados. Mais ajustados. Mais aceitáveis. Mais desejáveis. Mais amáveis. Essas pessoas podem mais. Merecem mais. O quê? Olhar. Proteção. Segurança. Apoio. Desejo. Narrativas complexas. Essa sociedade que faz uma cadeira estreita nos aviões e as pessoas, as mulheres gordas que emagreçam. Essa sociedade que diz “se vista como alguém da sua idade” e as mulheres velhas que se virem pra entender que seus corpos não merecem mais ser vistos. Essa sociedade que patologiza as pessoas transgênero e as mulheres trans que se escondam, se mascarem, se disfarcem para não serem mortas. Essa sociedade que questiona a legitimidade da autonomia e escolha da mulher pobre (olha aí, ganha o bolsa família pra comprar calça jeans de marca). Essa sociedade que dissemina “cabelo duro”, “cabelo ruim”, “cabelo de Bombril” e as mulheres negras que se virem para resgatar sua auto-estima e para protegerem suas filhas desse ataque constante e insidioso.  É essa sociedade, em que estamos e reproduzimos, que se estrutura para marginalizar e, preferencialmente, apagar, as mulheres com deficiência. Elas são menos, aprendemos. Menos potentes (e aí cada história de “superação” nos leva lágrimas aos olhos – porque estava subentendido que não era pra elas conseguirem, claro, sem essa suposição a comoção não se daria). Menos adequadas (aos empregos, ao lazer, ao olhar). Menos ajustadas (como se a sociedade fosse um dado da natureza, como se a escolha de fazer escadas e não rampas, por exemplo, não fosse uma construção social, política e cultural). Menos aptos ao desejo (além da suposição de que as pessoas com deficiência são “repulsivas” como na narrativa mencionada, também temos os discursos que infantilizam ou des-sexualizam suas demandas). Menos amáveis (e pululam suposições que “fulano só pode estar com ela por pena” ouveja essa mulher tão jovem sacrificando-se e casando com o namorado que teve aquele acidente horrível).

Se eu tenho uma utopia é essa: que as pessoas não sejam mais nem menos. Que as mulheres não sejam mais nem menos. Que sejam vistas, ouvidas, desejadas, amadas, acolhidas em sua diferença e especificidade. Que nos libertemos do “tem que” e passemos a usar mais o verbo poder como opção e potência. Que o tempo e o espaço que passamos escrevendo, descrevendo, incluindo mulheres negras, mulheres trans, mulheres velhas, mulheres gordas, mulheres com deficiência seja um reflexo da nossa escuta e um aspecto consistente da nossa militância.

***********

Eu estava escrevendo esse texto e vi a tradução de um discurso da Shonda Rhimes que me comoveu e que trata de assuntos relevantes de uma forma com o qual me identifico. Diz ela, entre tantas lindezas:

“Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo. Sua tribo pode ser qualquer tipo de pessoa, qualquer um com quem você se identifique, qualquer um que sinta como você, que sinta como familiar, que sinta como verdade. Você deveria poder ligar a TV e ver sua tribo, ver sua gente, alguém como você lá fora, existindo. Para que você saiba no seu dia mais escuro que quando você corre (CORRE metafórica ou fisicamente) há um lugar, há alguém para quem correr. Sua tribo está esperando por você.

Você não está só.

O objetivo é que todo mundo possa ligar a TV e ver alguém que se pareça consigo e que ama da mesma forma. E, igualmente importante, todo mundo deveria poder ligar a TV e ver alguém que não se parece consigo e que não ama da mesma forma. Porque assim, talvez, essas pessoas aprenderão com essas personagens.

Assim, talvez, não irão isolá-las.

Marginalizá-las.

Apagá-las.

Talvez elas irão até mesmo se reconhecer nessas pessoas.

Talvez elas até aprendam a amá-las.”

Tenho cá pra mim que esse é um dos caminhos: ver mais, ouvir mais, saber mais. Amar mais.

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