Aborto e creches públicas: duas pontas

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

As duas pontas essenciais, quando se trata dos direitos das mulheres. Uma ponta, que a gente já discutiu tanto aqui, é o direito à interrupção voluntária da gravidez. O direito da mulher de escolher não continuar grávida. Fundamental, quando se fala de direitos iguais. De direitos humanos. De direito ao próprio corpo. De direito ao sexo. E não adianta vir com essa conversa de que “foi irresponsável, agora paga”: como todo mundo sabe (ou deveria saber), camisinhas furam, pílulas falham, DIU às vezes são ineficientes. A pessoa pode ser absolutamente responsável, e, mesmo assim, engravidar. No corpo dela. Na vida dela. Se é para ser consequente com o direito das mulheres de fazer sexo, é necessário e inevitável que o aborto seja descriminalizado e legalizado. Aceito que existam outras opiniões, mas então digam logo: mulher não tem direito de fazer sexo  como os homens. Já que pode engravidar.

A outra ponta, inevitavelmente, é o direito à creche pública e à educação infantil integral e de qualidade. A creche, a pré-escola, permitem às mulheres trabalhar fora, sabendo que seus filhos estão bem e cuidados. A Constituição de 88 já reconhecia isso, e garantia o direito à educação infantil para crianças até 5 anos. No entanto, o quadro ainda está muito longe de ser satisfatório.
O cuidado com as crianças ainda recai principalmente sobre a mãe, e isso é outra discussão necessária, já que se essa responsabilidade for entendida como sendo dos pais em conjunto, existe algum avanço possível. Mas o fato básico é que a inexistência de alternativas para o cuidado com as crianças pequenas penaliza, sobretudo, as mulheres da classe trabalhadora. As soluções são  em geral familiares: uma avó, um parente, um vizinho, o filho mais velho – às vezes nem tão mais velho assim. Gambiarras para suprir aquilo que o Estado não dá conta de garantir. Responsabilização e culpabilização, mais uma vez, das mulheres. Que deveriam ficar em casa, que deveriam ter um trabalho em tempo parcial…. que deveriam. E, enquanto isso, nada de independência, de autonomia, de igualdade.

Para as mulheres de classes mais abastadas, existe, além da creche privada,  no Brasil – e isso é um sintoma de atraso tão grande, do ponto de vista da cidadania  – a opção de ter uma babá. Ou várias. Mulheres que tantas vezes deixam seus filhos para cuidar dos filhos dos outros e assim garantir a subsistência. Desigualdades. Injustiças. (não, eu não estou dizendo que você trata mal a babá dos seus filhos. Apenas sonho com um mundo em que não existam mais babás).

 Duas pontas. Que parecem tão distantes, e no entanto se conectam no mesmo eixo, que é o direito das mulheres de serem iguais. De terem oportunidades e desafios iguais. Chances iguais. Trajetórias iguais. Dificuldades iguais. No direito que parece tão básico –  e está tão longe de sê-lo – de ter o mesmo direito que os homens.

 

O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

As guerreiras cansadas do 8 de março

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Oito de março e lá vamos nós para a enxurrada de ações e “homenagens” a esse ser místico e indecifrável: a mulher.

Quando não se exalta a “feminilidade”, a delicadeza, o encanto, o “toque especial” (esse último eu fico imaginando o menino do dedo verde com a roupa da fada madrinha da Cinderela, me deixa) surgem as declarações sobre a “mulher guerreira”.

Sim, todas e todos já elogiamos alguma mulher assim na vida, principalmente quando ela está passando por uma situação complicada (algo comum em nosso dia a dia, né?)

“Força, você é guerreira, vai dar conta!”

“Orgulho de você, mulher guerreira!”

“É isso aí, vá em frente, guerreira!”

Eu mesma sempre lembrei de minha mãe como uma grande guerreira. Eu mesma já me vi como uma grande guerreira. E quer saber?

CANSEI.

Não quero ser guerreira. Por sinal, odeio guerra. Eu quero paz, se possível com direito ao amor, ao sexo, ao rock (mentira, quero brega).

Lutamos diariamente contra a violência, a tirania, até contra a falta de empatia de outras mulheres (Olar.sororidade.como.vai.você). Não lutamos porque queremos. Lutamos porque não temos outra opção!

Quantos dias sentimos vontade de não sair de casa para não termos o desprazer de ter que conviver com o machismo nosso de cada dia no trabalho, na padaria, na escola ou na casa da sua mãe?

Quantas noites deitamos em nossas camas com os músculos tensionados pelo simples fato de termos andado nas ruas e passado por diversas situações vexatórias e constrangedoras?

Nosso país possui dados alarmantes relacionados à violência contra as mulheres. O mercado de trabalho nos desvaloriza a todo momento, mesmo que sejamos quase 40% das responsáveis por um lar.

Os postos mais valorizados do mercado de trabalho ainda estão concentrados na população masculina e as barreiras de entrada em determinadas profissões parecem intransponíveis para muitas, desde a infância.

Nem falei da desigualdade salarial. Dxs empresárixs que não querem contratar mulher porque ela pode engravidar. Da imensa maioria das mulheres no trabalho informal ou nos serviços domésticos.

Nesse 8 de março,  não quero parabéns, seja pela minha fragilidade ou pela minha força.

Não quero ser homenageada pelas não-opções da minha vida.

Quero ser eu, Adriana Torres, sem qualquer rótulo, padrão ou nomeações.

Será que é pedir muito?

 adriana-torresAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

das coisas que nem o meu cachorro aguenta mais

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

choque de realidade is so last year: a moda agora é choque de ficção — vejamos:

a moça, entediada com um desterro que atende pelo nome de uma cidade serrana bicentenária, resolve gastar seu sábado a noite levando seu cachorro para passear — pelo menos tá bem mais fresco, dá até para usar um modelito de outono em pleno verão e, na falta de coisa melhor, se distrair é com isso mesmo.

atravessa a famosa praça de eucaliptos da cidade e chega na calçada ao longo do rio e, no ziguezague do seu cachorro bumerangue, que não decide se faz xixi na árvore, ou no poste, ou no meio-fio, ou na grade da ponte — veja bem que a cidade mais tediosa do universo jamais será entediante para um cachorro, um dia serei sábia assim — e ela acaba caminhando ao lado de um moço que está de papo no celular.

normal, ela segue seu ritmo, mas acaba que o moço também segue o dele e coincide que eles estão indo na mesma direção e na mesma velocidade. e a moça então ouve o moço ao celular:

— é, mas isso porque eu sou homem direito, quero ver o que ele vai fazer quando aquela pirigueti da filha dele comecar a dar pra todo mundo, quero ver se ele vai continuar achando que eu não sou ninguém. mas aí também, como ela já deu pra todo mundo mesmo, quem não vai querer ela sou eu.

e ele continua a conversa nesse mesmo nível de antice, e a moça fala para dentro de si mesma ‘ignora, hoje você está a paisana, ignora, faz de conta que você não está ouvindo nada, ignora…’, mas eis que o cachorro ziquezagueia entre as pernas do moço do celular e pronto: mais um choque de realidade no mesmo fim de semana.

— desculpa, moço, ele é assim, o gps dele veio com defeito de fábrica e ele anda em ziguezague, foi mal.
— magina, cachorro é assim mesmo (responde ele automaticamente enquanto, também automaticamente, dá uma avaliada geral na produção de outono veranil da moça)
— mas me desculpa mesmo assim.
— mas foi bom, pelo menos eu parei de falar no celular e pude reparar em você *xaveco de oportunidade detected*
— ha-ha…(sorriso protocolar e educado da moça)
— meu nome é flavio, e o seu?
— meu nome é pirigueti.
— como?
— pirigueti.
— como assim? (e olha para o cachorro como quem procura um outro olhar que compartilhasse a sua impressão de que ele só pode ter ouvido errado. encontrou um olhar de paisagem canino, muito parecido com o dos humanos, só que aquele era de verdade: ele tava com olhar fixo no matinho mesmo, o qual cheirava naquela fissura canina de quem pretende investigar o cheiro até o nivel do dna das folhas.)
— é isso mesmo. meu nome é pirigueti. primeiro nome. o sobrenome é ‘que dá pra todo mundo`. ou seja, meu nome todo é Pirigueti Que Dá pra Todo Mundo, prazer em conhecê-lo.
— (silêncio constrangedor, até que o moço arrisca) você tá me zoando né? mas gostei de você. voce é sincera, e direta, gosto disso.
— não gosta não. eu sou sincera e direta como toda boa pirigueti que dá pra todo mundo é, e que eu acabei de ouvir você falando mal de uma pessoa que era pirigueti e também ouvi você dizendo que, depois que ela desse pra todo mundo, quem não ia querer saber dela era você. então decida em que momento você tá sendo falso: se é agora, pra me cantar, ou se era no telefone.

o cara para de andar e olha pra moça, espantado. a moça para de andar, em solidariedade. o cachorro, coitado, não tem opção, né, tá na coleira. e o moço pergunta:

— quem é você? de onde você veio?
— meu nome é Pirigueti Que Dá Pra Todo Mundo Mas Não Pra Qualquer Um, e eu venho do planeta Onde Quer Que Tenha Machismo Eu Não Me Calarei.

o cara continua olhando com cara de WTF e, quando a moça achou que ia ouvir um monte de merda, ele diz:
– e o salsichinha, como é o nome dele?

FIM.

ImagemPostFabiMotroni

FabianaMotroniBSC

 

*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

O feminismo fulanizado

O feminismo de internet se fulanizou. É um feminismo que está sempre com o fígado em revolução. A bile nas alturas. Uma adolescente enraivecida com os pais. Por isso, quando jornalistas nos perguntam quais são nossa lutas, as lutas são difusas. Não me identifico com esse feminismo e não consigo me declarar feminista nesse meio.

Sim, tem gente chata na nossa vida, gente machista, misógina, preconceituosa de vários tipos e níveis. Escolhi não me aborrecer o dia todo ou nem emprego consigo ter, passaria o dia brigando e discutindo. O que posso fazer nessa horas varia do pito, quando conveniente e possível, ao escracho, da ignorância ao fazendo a egípcia, e nas redes sociais dando um unfollow aqui ou um mute ali, dependendo do grau de amizade. Mas olha, isso pouco muda o cenário machista do país, viu?

Quando li O Segundo Sexo, eu tinha uns 19/20 anos: o que mais me chamou a atenção foi a insistência que Simone de Beauvoir dava para que as mulheres fossem independentes financeiramente. Vejam bem, se temos nosso dinheiro, podemos sair de nossos casamentos, de relações, da casa  dos pais, podemos mudar de emprego se temos qualificação profissional (oi PRONATEC rs) e se também dispomos de creches públicas ou acessíveis quando temos filhos. Sendo assim, não estamos à mercê de ciclos de abusos: seria bem mais fácil. Não é só isso que pesa, eu sei, mas pesa bastante.

frases-e-pelo-trabalho-que-a-mulher-vem-diminuindo-a-dis-simone-de-beauvoir-1423Parece simples, mas não é. E não é  principalmente porque nossos salários ainda são mais baixos e não dispomos de creches, as mulheres de classe média dependem de tirar outras mães de casa – elas deixam os filhos não sabemos como, e ainda reclamamos delas.  Não dividimos o trabalho doméstico e de cuidados com a família por igual. Sequer controlamos, financeiramente e moralmente falando, nossos direitos sexuais e reprodutivos, porque neles o Estado e religião se intrometem. E controlar nossas vida sexual e consequentemente o número de filhos é essencial para nossa liberdade de ir e vir e, novamente, fugir de ciclos de abusos, também.

Nesse contexto, ver a pauta feminista tomada por birras me entristece. Mas é mais fácil ganhar likes e RTs nessas questões tão pequenas que geram celeuma do que nessas grandes pautas em que há um grande consenso, eu sei. No entanto, precisamos fazer as grandes pautas circularem, ou nossos direitos morrem. Taí o grande desgovernador de SP questionando a licença maternidade de 6 meses para funcionárias públicas estaduais. Não vamos deixar mais essa, espero que o movimento feminista pressione e se una. É urgente.

img_0803Agora imagina um país que dê, de verdade, iguais condições salariais às mulheres, creches para todas as crianças que precisem, proteção no emprego, na gravidez,  acesso pleno ao planejamento familiar, num Estado laico, para que possamos exercer nossos direitos sexuais e reprodutivos, para casadas e solteiras. Aí sim teremos mulher empoderada. Aí sim, a gente não precisa ficar vivendo de picuinha besta.

Liberdade Sexual é Pauta

Por Iara Paiva, Biscate Convidada

Esta semana vi uma matéria, não me lembro mais onde, que contava a história de uma britânica que descobriu que o marido a dopava, estuprava e filmava tudo. O horror.

Eu sei que a gente não deve ler os comentários. Mas a gente aprende com eles. Ou confirma o que desconfiava. Muita gente dizendo que é ridículo falar em estupro, é marido dela. Ela quer aparecer e tal. E nesse ponto eu entendo certas teorias radicais ainda que não concorde com elas. Porque pra muita gente sexo e estupro são a mesma coisa. Ou só ligeiramente diferentes. É estupro se é criança, se é um desconhecido com uma faca numa rua escura. Se é alguém que a vítima conhece, é sexo, e já não há mais vítima. Pra essas pessoas sexo não é uma TROCA prazerosa e consensual entre pessoas. É algo que um homem toma de uma mulher.

Por outro lado, fico entendendo cada vez menos quem acha que falar de liberdade sexual é desviar o tópico, é uma pauta de mulheres privilegiadas. A falta de autonomia sobre os nossos corpos é a principal responsável pelas violências mais cotianas. Estupro, violência doméstica, violência obstétrica, criminalização do aborto, homo e transfobia, são fortemente motivados pela idéia de que não podemos dispor de nossos corpos como desejamos. E que, se o fizermos, devemos ser penalizadas por isso. Seja ouvir “na hora de fazer não gritou” no parto, seja sofrer estupro corretivo por ser lésbica, seja ser estuprada pelos colegas de faculdade, seja apanhar do marido, todas essas violências passam pela ideia central de que somos menos gente e nossos corpos não são livres.

Deveria ser óbvio, mas não é: falar em liberdade sexual não é dizer que todo mundo tem que transar com todo mundo o máximo possível porque somos moderninhas. É dizer, inclusive, que a gente tem a escolha de não transar se não quiser, oras. Inclusive nunca, inclusive com ninguém, inclusive com o marido. Se a gente fala muito de sexo com uma agenda positiva é porque precisamos reafirmar que nós também temos direito ao prazer e isso não nos desqualifica. Porque o mundo tá aí dizendo que ou a gente presta serviço sexual não remunerado pra um homem que assuma o papel de nosso dono, ou é melhor ficar quietinha e com as pernas fechadas. É parte do meu feminismo dizer que todas as mulheres têm direito a experiências mais ricas. E que são elas quem determinam quais experiências querem ter.

616012_313606915413516_2027975164_o*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

Aprendiz de amor livre

Se a Cláudia de hoje pudesse trocar uma ideia com a Cláudia adolescente, ou mesmo com a Cláudia apática e rancorosa do ano passado, certamente ela diria:

“Você não faz ideia de quanta coisa seu coraçãozinho jovem vai viver em tão pouco tempo. Para de ser babaca e aproveita”.

ame

A sensação mais recorrente evah na vida desta que vos fala é a de aproveitar pouco o que sente. Sim, eu tenho um medo imenso de amar. Sim, sou uma bisca medrosa e já sofri demais. Vocês não fazem ideia de como fico absolutamente idiota quando me apaixono e acho que é por isso que evito envolvimentos mais profundos com as pessoas atualmente. Viro a pior companhia possível neste estado, perguntem a quem convive comigo.

Sambaram na minha cara tantas vezes por causa disso…

Eu acho que essa coisa toda vem da visão que construí do amor ao longo da minha existência. E ela é bem parecida com o que vendem pra gente como única forma de amor possível ou verdadeira. É a velha receita de bolo: você conhece alguém, se encanta e é recíproco. Aí vocês ficam, começam a namorar, tudo é lindo no começo e tals. Vem a rotina, tudo esfria e vira bosta. Termina. E lá vai você obrigatoriamente viver o luto e ficar na sofrência até que surja UM novo amor.

Por que tem que ser assim pra ser de verdade?

Nem todo mundo fica de luto quando um amor acaba (eu fiquei, mas isso é regra?). Tem amores que se transformam. Existem casais que ficam melhores depois que tudo acaba. E há pessoas que não encontram apenas um amor, inclusive, há quem encontre váaaaaaarios amores ao mesmo tempo.

Ficou confuso?

Bom, o que quis dizer com tudo isso é que enquanto o que vendem e ensinam como verdade única e possível são as relações monogâmicas – e quase sempre heteronormativas, diga-se de passagem – muita gente luta para desconstruir esse paradigma visando ter relações norteadas pela autonomia e pela liberdade.

Mas que liberdade é essa? É poder sair por ai pegando todo mundo, sem “compromisso”?

Olha, não necessariamente. Você pode sair por aí pegando todo mundo sem compromisso, não é crime. Mas relacionamentos envolvem uma série de outras questões, problemas e desafios. Numa relação não monogâmica, arrisco dizer que essas nuances todas podem ser multiplicadas pelo número de parceiros que se tem. São pessoas diferentes, com vivências diferentes. Cada uma com seu jeito de sentir. Complexo, né?

Para os homens, a não monogamia nunca foi exatamente uma novidade. A eles sempre foi permitido – e enaltecido – o direito ter muitas parceiras. Ainda hoje, a mulher que decide buscar uma relação livre não é vista com bons olhos pela nossa sociedade. Então, para uma mulher, a não monogamia pode significar e ao mesmo tempo exigir um nível de empoderamento e de autonomia muito grande. E ainda nem mencionei a pressuposição machista (especialmente nas relações heterossexuais) de que a moça que deseja se relacionar com várias pessoas está, na verdade, disponível. Como se ela não tivesse o direito de escolher com quem quer estar. Digo isso por experiência própria, mesmo que ela seja pouquinha.

Não acho que as pessoas não possam ser felizes inseridas nos modelo tradicional de relacionamento. No entanto, acredito que desconstruir o conceito do amor romântico pode sim fazer com que tenhamos vivências mais plenas em nossas relações. Tô aprendendo ainda. Tá difícil. Mas estou neste caminho pela minha própria vontade, porque não quero mais me destruir por conta de ideais que na maioria das vezes são inatingíveis.

Que o amor venha para me (nos) libertar.

*** Dois textos bem interessantes para quem deseja se aprofundar sobre o tema: aqui e aqui! 😉

O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

askhermore

Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

Shonda Rimes

Por Renata Côrrea

Shonda Rhimes

Shonda Rhimes

Shonda Rimes é uma showrunner e produtora executiva de séries americanas. Ela é uma das mais poderosas figuras do show business americano, criando histórias icônicas da dramaturgia da tv aberta na gringa. Sua série principal, Grey’s Anatomy já está na 11ª temporada é um dos shows mais bem sucedidos da história. Chegar nesse nível na carreira sendo mulher numa indústria muito machista já seria admirável. Mas além de mulher, Shonda Rimes é negra e gorda. Mas o que tem isso, Renata? E daí ser mulher, negra e gorda?

Elenco de How to Get Away With Murder

Elenco de How to Get Away With Murder

E daí que nas séries com o dedo de Shonda Rimes mulheres são as protagonistas. É delas a voz. E daí que nas séries onde Shonda Rimes coloca a mão, mulheres negras e não-brancas (latinas, asiáticas) e mulheres gordas, lésbicas e com deficiências físicas possuem um protagonismo inédito, vida sexual ativa, sensualidade, talento, conflito, contradições. Basicamente profundidade e um arco dramático completo.

Protagonista de Scandal

Protagonista de Scandal

Enquanto na dramaturgia o “normal” é que os donos da histórias sejam homens ou, com restrições, mulheres brancas, e os outros corpos sejam relegados a posições completamente secundárias e subalternas, Shondinha muda as regras do jogo, faz dramaturgia de primeira que mobiliza milhões de pessoas na frente da telinha com corpos tradicionalmente relegados ao segundo plano.

Naomi Bennett (Audra McDonald) e Sam Bennet (Taye Digs): personagens centrais em Private Practice

Naomi Bennett (Audra McDonald) e Sam Bennet (Taye Digs): personagens centrais em Private Practice

Isso só confirma a necessidade da indústria audiovisual ter mais mais mulheres em posições de poder, que possam decidir as histórias que serão contadas. Precisamos ter a caneta na mão: seja para criar as narrativas ou assinar os cheques que pagam por elas.

Personagens Centrais de Grey's Anatomy

Personagens Centrais de Grey’s Anatomy

Personagens Centrais de Grey's Anatomy

Personagens Centrais de Grey’s Anatomy

renata corrêa* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Aborto: vamos parar com a hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. 

#AbortoSemHipocrisia

 

 Eu não sei nem o que dizer. Sério. Não sei nem o que dizer, porque a cada dois dias morre uma mulher no Brasil por conta da criminalização do aborto. É isso. Morre uma mulher a cada dois dias.
Uma mulher com nome, com idade, com história, com família. Com filhos.

Jandira, 27 anos.
Elizângela, 32 anos.
Elenilza, 18 anos.
Josélia, 23 anos.
Josicleide, 37 anos.

E tantas, tantas outras.

Morrem mulheres. Temos uma mulher na presidência, e a morte das mulheres continua sendo uma realidade. Mulheres morrem. Todo dia. E o assunto não pode nem começar a ser discutido.

É muita hipocrisia. Abortos são feitos. Por qualquer motivo, são feitos. Não queria entrar na discussão dos motivos: não há “aborto bom” e “aborto ruim”. Há mulheres que estão grávidas e não querem mais estar. Há mulheres que se arriscam para não estar mais grávidas. Se arriscam a morrer. Se arriscam a ser presas. Por não querer estar grávidas.

Não quero também falar dos homens: claro que ter apoio nessas horas é bom, é importante, se for possível. Mas nem sempre é possível. E não é porque os homens sejam necessariamente canalhas ou irresponsáveis: muitas mulheres não sabem de quem engravidaram, não têm certeza, não querem contar. Os homens não chegam nem a saber. Gravidez é, essencialmente, um assunto de mulheres. É no útero delas. É no corpo delas. É a vida delas. É a morte delas.

E nem venham me dizer que é “porque a mulher não se precaveu”, que “hoje em dia só engravida quem quer”. Façam-me o favor. Mulheres engravidam porque fazem sexo. E não existe nenhum método anticoncepcional infalível: só a abstinência.

Por outro lado, há tanto tempo que existem procedimentos seguros. Interromper uma gravidez indesejada pode ser um procedimento simples. Mas vira tragédia tão facilmente, quando a lei proíbe.

Fora, é claro, a hipocrisia do dinheiro. Haverá sempre um aborto seguro para quem tem dinheiro suficiente. As mais violentadas, sempre, são as mulheres pobres. As mulheres fazem aborto, e as que têm dinheiro suficiente fazem abortos seguros. Sempre foi assim.

Quando se abandona a hipocrisia, há esperança: mulheres religiosas a favor da despenalização do aborto; freiras a favor da descriminalização; médicos a favor da legalização do aborto. Unidos na luta pela vida das mulheres. Que fazem sexo. Que não precisam estar grávidas, se não quiserem. Que não precisam morrer por não querer estar grávidas.

Está mais do que na hora de acabar com essa hipocrisia que mata mulheres todos os dias. Está mais do que na hora de tirar esse assunto da gaveta do esquecimento onde ele fica relegado. De trazê-lo para a luz. De parar de ser conivente com as mortes de todos os dias. Vamos parar de ser coniventes. Vamos parar de matar gente, por ação ou por omissão. Vamos parar de julgar e condenar mulheres que fazem sexo.

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Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

 

 

 

misoginia e machismo: pergunte para uma mulher, ela sabe muito bem o que é.

Por Caroline G., Biscate Convidada

888 compartilhamentos, 833 “likes”, 469 comentários e algumas matérias depois de eu compartilhar a foto de uma etiqueta da marca Reserva, experimento uma sensação agridoce ao escrever esse texto.

machismo

A foto caiu no meu colo de forma bastante casual: uma amiga compartilhou dentro de um grupo fechado no Facebook e, depois de atestar a veracidade da foto, sugeri que compartilhássemos. Ninguém se dispôs a fazer a postagem, então eu resolvi fazer. Eu já havia exposto outras marcas por serem machistas antes, mas dessa vez foi diferente.

A trivialidade do exemplo, o machismo muito sutil e o tamanho da marca contribuíram para uma avalanche de ódio e misoginia na minha postagem. Já estou acostumada com isso, posso dizer com alegria que nada disso me atinge. Ter suscitado debate é sempre, sempre, positivo. No entanto, confesso que não esperava um ódio tão flagrante, agressões tão relacionadas com o fato de eu ser mulher. É, de vez em quando a gente tem que sair da nossa bolha e se conformar que temos um longo caminho a percorrer.

Nos comentários muitos disseram que a mãe, que convenientemente esqueceram também ser uma mulher, “faz isso mesmo”, “sabe fazer tudo melhor que a gente”. Tudo = lavar, passar, fazer sua comidinha favorita. É uma memória afetiva, mas também é parte de uma herança muito cruel de uma sociedade machista e que impõe papéis de gênero ultra definidos.

Muitos falaram que a ironia da etiqueta era flagrante, mas a marca se defendeu de outra forma: “a Reserva acha a troca de opiniões muito saudável. Temos um longo histórico de campanhas questionando preconceitos e nosso mural aqui no Facebook é aberto para que todos os mais de 2 milhões de fãs possam se expressar, sempre. Só deletamos em casos extremos quando perdem a mão nas ofensas e palavrões e o diálogo deixa de ser saudável. Sobre a etiqueta que você contesta, já mencionamos que precisamos sim nos explicar e deixar claro que a Reserva é uma empresa fraternal, que preza pelo clima bom, o afeto e o bom humor. De fato, nunca foi a intenção passar uma mensagem sexista, mas sim amorosa. E claro, carinho que também pode ser representado pelo pai, avô, tio, tia, irmã … independente do sexo ou até mesmo da relação de parentesco. Lamentamos que você tenha se sentido ofendida, MESMO. Apesar de ser uma marca masculina a Reserva é feita para homens e mulheres e por homens e mulheres, independente de opção sexual, credo, raça e idade. 60% do nosso corpo de trabalho é feminino e na reserva as mulheres ganham em média 20% a mais do que os homens. Fazemos o convite pra vir ao nosso QG tomar um café e conhecer melhor a marca e ver de perto o que temos feito. Temos certeza que você irá se surpreender PARA O BEM! Um GRANDE abraço!

Ela diz que não quis ofender e pede desculpas. No entanto, se você for na página da Reserva no Facebook, você vai ver vários posts criticando a etiqueta e mais um tanto defendendo, de forma agressiva e misógina, e esses últimos a página Reserva curtiu, como que num agradecimento à “solidariedade”. Então, ela tá legitimamente se importando com a opinião das mulheres que sentiram ofendidas? fica claro que não, que é só péssima gestão de crise mesmo. Faltou coragem de admitir que sim, a persona da marca deles é essa aí: uma pessoa que acha que afazeres domésticos são, e naturalmente sempre vão ser, área de expertise de uma mulher. Isso é sexista, não tem como discutir.

bonus track: se quisessem mesmo fazer a piadinha com mãe, etc, poderiam ter colocado “veja as instruções em xxx. ou vai ter que perguntar pra sua mãe?”. não é uma questão de não ter senso de humor ou não poder fazer piada. Fazer piada pra manter o status quo é muito fácil, é ir na maré. Quem faz diferença é quem consegue usar um esteriótipo e provocar reflexão, mostrar o absurdo da situação pelo riso/estranhamento. Ficar reproduzindo discursos discriminatórios é mais velho que andar pra frente. Espero que algum dia as pessoas se liguem que esse tipo de “piadinha” é tão cafona e retrógrada quanto as de português, loira, etc.

As mulheres têm o direito de não serem representadas de forma discriminatória e de não terem suas vidas limitadas a papéis de gênero aprisionadores. Não é só uma etiqueta, é uma marca que capitaliza em cima de uma mentalidade medieval e que acha que vai se safar, Mas não, não passarão.

Muito barulho por nada? Barulho de quem, nada pra quem? Porque obviamente ficou todo mundo que importa bastante incomodado.

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*Caroline G. é publicitária e feminista e acha que essas duas coisas podem coexistir. é muito curiosa e tem os sonhos mais legais (que ela já viu).

Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

loreto02

Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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