Um bombom no 8 de Março

Por Mary W, Biscate Convidada

Sempre há uma confusão no Dia Internacional da Mulher. Porque, nós, feministas, reclamamos das rosas, bombons, parabéns. E isso parece antipático. E as pessoas não entendem mesmo (ou fingem nao entender).

Não queremos mimos porque não é o caso. Mais do que isso, reforça que nós, mulheres, temos que ser mimadas e cuidadas. E essa visão é machista e hipócrita.

O mundo não “cuida” da gente. Antes, nos exclui de tomada de decisões importantes. A luta pela autonomia econômica e psicológica da mulher é fundamental para que ela não se sinta dependente e inútil quando o casamento acaba, por exemplo.

São inúmeros os casos de mulheres que ficam completamente perdidas na meia-idade com o fim do casamento.

Não gosto também das mensagens publicitárias. Que nos chamam de “guerreiras”. Não quero ser guerreira. Quero viver minha vida com igualdade de direitos. A “guerreira” é aquela que tem dois empregos porque cria os filhos sozinha. Cadê o pai? Tá devendo pensão alimentícia, muito provavelmente. Maternidade como sacrifício é algo a ser combatido. A “guerreira” só existe porque o mundo é desigual.

Da maternidade vêm também as mensagens que contribuem para demonizar nosso direito ao próprio corpo. A gravidez da mulher é assunto coletivo. E o direito ao aborto nosso maior tabu. Essas mensagens visam manter a gente nesse sacrossanto lugar. Da mãe que abre mão de si mesma.

A gente não precisa mesmo de rosa e bombom. Eu compro meus bombons (ou ganho da minha namorada). Não preciso de mimo num dia que é de luta.

Eu quero que chefes parem de me assediar ou de alisar meu ombro em eventos profissionais. Quero poder andar na rua sozinha sem medo de homem. Quero que minha orientação sexual seja respeitada. Quero interromper uma gravidez indesejada. Quero ganhar um salário equivalente aos homens. Quero que as profissões femininas sejam respeitadas. Quero deixar de confundir abuso e ciume com amor.

Quero tudo isso. O bombom pode comer você. Já almocei.

28870551_10156096082799259_6061432163104980992_nMary W é feminista e se isso não é tudo, é tanto. Um jeito de ver, dizer e sentir o mundo. E mudá-lo. Dá pra ler o que ela pensa, no seu blog: link aqui. E pode-se ansiar por uma conversa no bar – é sucesso.

Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

feminista

Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Cada uma com seus cada qual…

“Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.” — Galeano

Cada um com seus cada qual é uma máxima que vale para quase tudo na vida. Cada uma/um com suas lutas, indignações, vida, amores, biscatagis, prazeres e dores. Carregamos o que escolhemos e o que aceitamos. Ponto. Nem mais nem menos. Por não aceitar x ou y e por escolher esse ou aquele caminho sou essa pessoa com essas ideias e características. É o que fiz de mim nesse mundo capitalista, machista, racista, homofóbico, xenófobo, transfóbico, etc, intolerante. Sou o que fiz de mim para resistir e organizar uma resistência a um mundo com essas condições. Isso não me faz melhor ou pior, apenas eu.

Dentre os meus “cada qual” que me mobilizam estão o moralismo e a hipocrisia. Mas só eles não são capazes de definir a minha revolta. Me refiro ao ódio, repulsa que algumas pessoas sentem de mulheres vadias-putas-biscates-livres que sejam também feministas. Porque até ser feminista é suportável, desde que sejam moralistas e tenham certos critérios. Feminista e puta já é vandalismo… Bueno, e aí que feminista e puta sou eu. É por mim que estas pessoas sentem ódio e repulsa. Quanto a repulsa, vá lá. Elas se sentem repelidas por mim e ficam lá no seu canto. Mas, ódio é complicado. Vai além do seu canto e causam mal ao outro.

Estou há dias tentando achar-inventar-criar um termo que defina isso. Existe na literatura feminista essa classificação? Ajudem-me, por favor, se existir. Caso não, me ajudem a criar. Na falta de um termo/conceito mais completo sou obrigada a apelar mais uma vez ao bom (sic) e velho moralismo combinado à hipocrisia.

Minha boca, buceta e cu não são da conta de ninguém além da minha e de quem pretende conhecê-los mais de perto. E mesmo para quem pretende conhecer, estar, visitar, usar, abusar deles e do resto do corpo — mas povinho é fixado em orifício, né? — também não interessa o que faço com meu corpo quando não estamos no intercurso. A questão é que não é apenas o corpo. Galera se ocupa também da ‘minha moral’ (pfffffff) e vida pregressa, quantos homens já conheci biblicamente (nem eu sei quantos), se dei por amor ou só por dar e essas coisas que só deveriam interessar a mim.

deu é amor

Deixa eu dizer uma coisinha. Dar é amor. Então, dar apenas por dar já é amor, se não amor pela outra pessoa, amor por mim, pelo meu corpo, pelo meu prazer. Não interessa se conheço para quem dei, se tinha garantias, promessa de ressarcimento ou pagamento. Dei, tá dado. Vai me atirar pedras?

Ler tudo que escrevi até aqui e concordar se tu for homem e mais ou menos liberal é relativamente fácil. A coisa pega mesmo é quando a mulher que tu julgavas como sendo tua — por ilusão, contrato, compromisso, promessa, acordo — dá para outro. Inquiri meus amigos virtuais uma noite dessas sobre como reagiriam. Perguntei: Como é que você homem chama a mulher com quem se relaciona quando ela fica com outro? O assunto é tão incômodo que quase a totalidade se esforçou em responder o aceitável, ou o que eu não condenaria como resposta. Apenas ~um~ respondeu “chamo pelo telefone prá gente conversar“. Ainda tentei ajudar reforçando “me refiro na hora em que vê ou fica sabendo… no desabafo com o melhor amigo“. Não funcionou. E desculpa se apelo para a achologia ou empirismo ou ao “todos sabemos que” tão carentes de maior comprovação, mas a resposta é uma só: julgariam moralmente e a chamariam de puta-vadia-biscate-vagabundzzzzzzzzz… Não entendo porque a vergonha em admitir. Sentem vergonham do que são e pensam? Desculpaê, não sofro desse mal.

Me chamem pelo meu nome, porque se tentarem me classificar moralmente me sentirei elogiada. Beijo no ombro.

Mulher de um homem só é mulher sofrida. Mulher que tem dois homens é evoluída. Mulher que tem três homens é uma atrevida. E a que tiver mais? ela não sofre, ela curte a vida… ela é feliz, ela é bandida! — da funkeira MC Mayara de Curitiba adepta do Eletrofunk.

Orgulho feminista

Por Miss Garden*, Biscate Convidada

feminista

Quando recebi o convite pra escrever no blog, fiquei meio em choque. Algo do tipo: “Como assim? Não sou formada, nunca escrevi um artigo, uma nota ou qualquer coisa do gênero.” Mas percebi que é esta a diferença quando se abraça uma causa justa e coerente.

Porque eu precisaria de um diploma? O que tenho que esfregar na cara da sociedade é isto mesmo, minha capacidade de me expressar totalmente fora dos padrões exigidos por aí afora.

Depois de resolvido este conflitinho bobo, veio a pergunta que não se calava: “Sobre o que escrever?”

Logo em seguida me vi procurando inspiração. E foi na mesa do bar, bebendo com as amigas, que olhei em volta e percebi que não haveria melhor pessoa em quem me inspirar, a não ser eu mesma.

Com 36 anos de idade e mãe de duas meninas, me dei conta de que sou livre e sempre fui.
Um dos motivos pelo qual eu agradeço imensamente pela minha liberdade, é o fato de ter crescido sem pai.

Isso pra mim é bárbaro e me enche de orgulho. Existe sensação melhor do que sentir orgulho de você mesma?

Tive o privilégio de ser uma garota que não precisou estar debaixo das regras de um homem, me dando ordens e me dizendo o que fazer, eu concordando ou não.

Isso com certeza ajudou a me fazer quem sou. Me ajudou a ir colocando pra fora toda essa sede de luta e justiça que hoje eu sei o que significa e amo o seu significado.

Chego a amar algumas provocações porque eu tenho argumentos sólidos, válidos e verdadeiros.

O feminismo na minha vida teve um efeito bem interessante: afastou de mim muita gente, no geral aquelas pessoas passionais demais, passivas demais e que usam a palavra feminista num tom perjorativo quando se referem à mim.

Ele também aproximou de mim pessoas que não me julgam e que sem que eu esperasse, o abraçaram comigo com todas as forças. Ou seja, além de toda dignidade, o feminismo só me trouxe coisas boas e a cada dia que passa eu me sinto mais e mais orgulhosa ainda.

Claro que sofro frandes preconceitos e na maioria das vezes, dentro da minha própria família, que por falta de informação, julgam um abuso da minha parte me impor, exigir respeito e passar isso pras minhas filhas.

Os comentários são infinitos, mas quer saber? Eu acho lindo tudo isso, porque não basta ser feminista, tem que ter do seu lado o machismo latente pra luta ficar mais gostosa.

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* Miss Garden é biscaste paulistana, mãe de meninas e amiga de quem merece. Futebol, rock n’roll, tatuagens e cabelo curto, sim. Prefere as crianças aos animais e não abre mão do seu feminismo. Lê muito e diz que não escreve nada (nós discordamos!). Biscateia pela vida cheia de amô. No twitter é @Miss_Garden.

 

A cena mais biscate do cinema

Por Niara de Oliveira

São inúmeras as cenas do cinema que poderíamos classificar como biscates, mas nenhuma é tão ousada quanto a cena em que a feminista Louise Bryant intima o jornalista John Reed a transar com ela no filme Reds, de Warren Beatty.

Louise (Diane Keaton), tirando o casaco na cena mais biscate do cinema

Reds, de 1981, é a cinebiografia do jornalista norte-americano John “Jack” Silas Reed (Warren Beatty), desde a época em que era repórter do periódico socialista The Masses no início do século XX, até a fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos, incluindo sua vida amorosa com Louise Bryant (Diane Keaton). Beatty usou o recurso de depoimentos de pessoas que conviveram com o casal, todos bem velhinhos, dando detalhes de suas personalidades e como eram vistos. E chama a atenção num dos depoimentos antes de começar o filme propriamente dito que Louise é classificada como “exibicionista”, o que também aparece num diálogo da personagem com o marido.

Louise Bryant, em 1912

É final de 1914 em Portland, cidade natal de Reed. Louise está numa exposição fotográfica com o marido para a qual tinha posado nua em algumas fotos. O marido só soube das fotos durante a vernissage, na frente dos amigos do casal e embora eles tivessem um acordo no casamento em que ela poderia ter liberdade para exercer suas atividades como jornalista e sair sozinha — algo raro em qualquer casamento no início do século XX — esse acordo era particular e não ficaria bem ela expor o marido daquela forma. (Eu achei lindo!)

Conforme Louise havia planejado, ela sai da vernissage e vai a uma reunião no Clube Liberal, onde Jack Reed estará presente para falar sobre a Guerra na Europa — de onde ele acaba de retornar –, ele está na cidade para rever sua mãe, e Louise é sua fã e leitora. Ela fica impressionadíssima com o discurso dele — ou melhor, o não-discurso — sobre a guerra, o aborda após a reunião, pede para entrevistá-lo e o leva até um pequeno apartamento que usava como estúdio.

Louise abordando Jack e pedindo para entrevistá-lo

Lá ele vê as fotos dela (as do nu artístico) que estão emolduradas. Logo no início da conversa ela pergunta se ele realmente não é casado como comentam e ele diz que não acredita em matrimônio. Jack lhe devolve a pergunta e ela responde: “Matriônio? Quem pode crer no matrimônio?” e muda de assunto. A essas alturas Jack, por mais liberal que fosse, já tinha formulado um conceito sobre Louise.

Ele fala por horas a fio enquanto tomam café e ela anota tudo o que ele diz. Durante a entrevista ele argumenta de forma lógica, como é próprio dos esquerdistas, sobre o porquê da guerra, da opressão das mulheres, da exploração de classe, sobre o público leitor de seu periódico e da dificuldade de conseguir financiar a impressão. Até que ele percebe que ela está cansada, ele senta a seu lado no sofá e ela propõe que eles avancem um passo. Ele diz sim e ela colocando as pernas sobre o sofá lhe diz: “O que te pareceria se te pedisse para fazer algo um pouco egoísta?” — Ele sorri e responde: “Pois deveria”, já se animando. Ela então se vira e pega uma pasta ao lado do sofá (enquanto ele se inclina sobre ela e fica no ar, no vácuo) e pede que ele leia os seus artigos e opine honestamente sobre eles. Levanta, pega o casaco dele e o manda embora (são 6h da manhã), enquanto ele tenta sem sucesso marcar um outro encontro antes de voltar para Nova York. Ele vai embora, atônito, impressionado com ela.

Na noite seguinte eles se encontram casualmente (esse acasos que só acontecem quando a gente se apaixona, ou quando esses acasos influenciam nos fazendo apaixonar? enfim…) num jantar familiar, onde ela está de novo desacompanhada do marido, eles fingem que não se conhecem, são apresentados e ele descobre que ela é casada. Entre olhares e cochichos ele debocha pelo fato dela ser casada e da profissão de seu marido e passam o jantar inteiro flertando e tentando ser discretos.


(esse vídeo sem legendas é apenas da cena biscate que cito, que está exatamente entre 15:47 min e 16:38 min do filme)

Ao final do jantar, Jack vai acompanhar Louise até em casa e conforme vão caminhando entram numa espécie de bosque ao lado da casa onde estavam. Ele diz a ela: “Não ia deixar você ir sem te acompanhar, Louise. Diga-me uma coisa. O  Dr. Trullinger (o marido) não se importa que passe tanto tempo no estúdio?”

Ela responde: “Tem que me dar um pouco de liberdade!” — Jack a retruca: “Liberdade, Sra. Trullinger?” (insinuando que mulheres casadas, sob a tutela e sobrenome de um homem não são livres), ele passa a frente dela caminhando e segue falando: “Eu gostaria de saber qual a sua ideia de liberdade. Ter estúdio próprio? Caminhar…?”

Ele então percebe que ela parou de caminhar e se volta para trás. Louise está tirando seu casaco (foto maior, acima), ela se abaixa, ajeita o casaco no chão, se ajoelha sobre ele, olha para Jack e diz: “Eu gostaria de vê-lo sem calças, Sr. Reed.”

Ele fica nitidamente zonzo, olha para os lados, faz menção de abrir o botão das calças, titubeia, ajeita a roupa, olha de novo para ela, sem saber o que fazer, se aproxima, se abaixa, a olha fixamente, sorri encantado e totalmente seduzido, tira o chapéu, a beija e eles transam ali, no bosque.

Infelizmente a cena termina no beijo e o filme continua já na manhã seguinte no estúdio de Louise, com Jack feliz cantando enquanto se barbeia e ela está arrumando suas coisas para sair e se despede dele friamente Em seguida eles discutem na escada do prédio sobre a ida dela com ele para NY e eu poderia contar o resto do filme (que tem 3h de duração) apenas de memória, mas daqui para frente se quiserem saber ou lembrar o que acontece, terão de assistir ou rever o filme.

Jack e Louise, em novembro de 1916

Jack e Louise se casaram em novembro de 1916, após o envolvimento dela com o escritor Eugene O’Neill (no filme interpretado por Jack Nicholson) em Provincetown, no litoral de Massachusetts, em meio ao relacionamento com Reed, onde os três e mais outros amigos dividiram uma casa durante o verão.

Louise Bryant é quase sempre vista apenas como a sombra de Jack Reed, o grande jornalista comunista americano, que sempre foi tratado como espécie de herói na União Soviética. O filme também passa a ideia de uma jornalista e escritora não muito capaz e uma feminista intimidada pelas demais feministas amigas de Reed, principalmente Emma Goldman. Mas basta saber um pouco mais da história dos dois para perceber que Louise era ousada, uma mulher anos luz a frente de seu tempo, guiada pelos seus desejos, vontade e coração, e que não poderia ser nem retraída e nem sem conteúdo. Muito pelo contrário.

Quando Jack morreu (de tifo aos 44 anos, em Moscou, 1920), Louise escreveu ao amigo Max Eastman: “Eu não tenho coragem para pensar o que vai ser sem ele. Nunca amei realmente qualquer outro no mundo inteiro como a Jack e nós estávamos terrivelmente ligados… Ninguém em momento algum esteve tão só quanto estou. Agora eu perdi tudo.”

Louise tomando sol em Provincetown, 1916

Louise continuou seu trabalho como jornalista, publicou o livro Espelhos de Moscou em 1923 e diversas entrevistas com personalidades como Benito Mussolini e Enver Paxá. Em 1924 ela se casou de novo e se mudou para Paris. O casamento acabou quando seu marido descobriu que ela tinha um caso com o escultor Gwen Le Gallienne. Em 1928 desenvolveu Adipose Dolorosa (ou Doença de Dercum) e recorreu ao uso de álcool e drogas para suportar as dores. Morreu em Sèvres em janeiro de 1936 aos 50 anos de hemorragia cerebral, consequência de um tombo nas escadarias do Hotel Libéria (Paris).

Difícil dizer se Louise era biscate porque era feminista ou era feminista para justificar filosoficamente a sua biscatice, ou afirmar se a cena protagonizada por Diane Keaton aconteceu exatamente assim ou foi fruto da imaginação de Warren Beatty e Trevor Griffiths, roteiristas do filme. Mas é bem facinho se apaixonar pelo filme, pela Louise Bryant de Keaton nesse romance vermelho e nessa cena biscatésima. Né?

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Warren Beatty produziu, dirigiu e protagonizou Reds. Baseado na vida de John Reed e em seu relato (o mais fiel) da Revolução Russa, “Dez Dias Que Abalaram O Mundo”. Levou dois anos entre filmagem e montagem e conta ainda com Gene Hackman, Mureen Stapleton e Paul Sorvino no elenco. Recebeu treze indicações ao Oscar e levou três estatuetas, incluindo Melhor Diretor para Beatty.

A boa violência

Shibari, do theobscura.org

Era uma vez outra biscate – que já contei tantas histórias de biscates nessas sextas-feiras, não? – e ponto.
Essa biscate era antenada. Ligada. Pós-modernizada. Defendia o direito biscate aqui e ali. Falava de liberdade, falava de opressão. Reivindicava. Suava. Biscate que dava.

Tinha um segredo.

Não dizia a ninguém, tinha medo.

Essa biscate, tão feminista, fantasiava submissa. De quatro, amarrada, couro e correntes, apanhava. Xingava, gritava e gozava de dor.
A biscate gostava era de violência. Difícil assumir. Apontavam-lhe dedos, discursavam nos mais diversos palanques: sobre a fantasia, a pornografia, a dominação.

Até que assumiu. Assumiu e, como biscate que era, bancou.

Pois qual não foi a surpresa das outras – feministas mas tão, tão moralistas – descobrindo que a violência podia sim, ser liberdade. Biscatagem da mais pura, autêntica: bastava que ela dissesse “sim – faço porque quero”.

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