O moralismo que existe em nós

Por Niara de Oliveira

“…e onde sou só desejo, queres não”
(clica para ouvir enquanto lês)

Ninguém nasce pronto. A gente vai descobrindo o mundo, se descobrindo, aprendendo e ensinando, trocando experiências. E cada pessoa que passa pela vida da gente e cada dia vivido muda a gente um pouquinho. Não existem certezas. Costumo dizer que sabemos que deixamos de ser adolescentes e entramos na idade adulta quando percebemos e admitimos que temos mais dúvidas que certezas na vida.

Lembra de um texto da Lu-Borboleta dizendo que nunca a veríamos apontando o dedo para alguém chamando de machista, que as pessoas têm comportamentos machistas e que todos nós podemos escorregar? Então… Isso é a síntese do entendimento de que por vivermos numa sociedade estruturalmente machista todos estamos sujeitos a escorregar e reproduzir comportamentos machistas. Arrisco dizer que é bem provável que façamos — inclusive nós, feministas — isso na maior parte do tempo. Na menor parte do tempo a gente se vigia e cuida para não escorregar. Mas não é fácil…

Daí que o moralismo, assim como os outros ismos, é uma sombra que nos persegue. Como é difícil não criticar x outrx, não apontar o dedo para x outrx. Principalmente quando x outrx é outra, é mulher. Como é fácil apontarmos o dedo para as mulheres, e — na contramão — como é fácil termos dedos apontados para nós. Já disse outro dia e repito: Liberdade (e gosto de escrevê-la assim, com letra maiúscula) é um exercício, mútuo, coletivo. Mais do que isso, é uma luta. Constante, diária, infinda.

O meu feminismo não é o mesmo de vinte anos atrás, nem é o mesmo de dois anos atrás. O meu feminismo hoje é mais feliz, alegre e livre desde que encontrei o povo desse clube. Muitas coisas já me incomodavam antes, é fato, como algumas feministas lutarem contra a tutela da sociedade e dos homens sobre as mulheres mas em determinado momento elas mesma tutelarem outras mulheres e o movimento. Não quero ser tutelada e nem tutelar ninguém. Não me interessa substituir a pessoa do opressor, mas combater e extinguir a opressão, de todxs.

É preciso entender que ninguém é igual ou tem o mesmo ritmo de aprendizado e da troca que nos modifica, e temos olhares diferentes sobre o mundo e sobre x outrx. Daí, que não dá para exigir que só porque nos tornamos feministas e achamos que somos melhores assim que as demais mulheres passem pelo mesmo processo, igualzinho, e atuem da mesma forma, com a mesma força, intensidade e grau de consciência. E de todas as dificuldades, respeitar x outrx e o seu direito inclusive à alienação e ao processo de conscientização em formato, ritmo, conteúdo e consistência diferente parece ser o maior.

tattoo piriguete

piriguete, como deveria ser qualquer mulher, é livre para fazer o que quiser, até amor

Se uma mulher quer se assumir piriguete e até mesmo tatuar isso na pele, no que isso atrapalha minha vida ou minha luta feminista? No que a liberdade sexual de uma mulher ofende o feminismo? Esse respeito ao qual a maioria da sociedade acha que as mulheres devem se dar — sem precisar exercitá-lo — eu não quero. E pra mim não importa quem me diga que devo me dar ao respeito, se feministas ou machistas, me oprime. Minha única discordância com a ideia da tattoo acima — e isso é pessoal, a Pietra pode continuar pensando da mesma forma — é que piriguete pode ser piriguete e fazer amor e mulher casada e moça de família podem fazer sexo gostoso, basta quererem e assim decidirem. Mas é excelente ver uma mulher rotulada de forma depreciativa por seu comportamento e atitude esfregar o preconceito nas fuças dos moralistas, como quem vira o espelho na cara da sociedade e reflete nela o seu julgamento hipócrita. Isso significa libertação. Significa que para a Pietra o julgamento da sociedade já não importa mais, lhe é inútil. E a mim, como feminista e biscate, só cabe aplaudir.

Ou a libertação das mulheres, inclusive sexual, não é mais o objetivo principal do feminismo?

“O quereres e o estares sempre a fim 
do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer
que há e do que não há em mim”

Qual a relevância de mostrar os peitos num protesto?

Por Robson Sobral*

A liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix

É uma pergunta recorrente nesses dias após Marcha das Vadias e após Rio+20. Uma pergunta recorrente e vinda da boca de mulheres ditas modernas, independentes, bem resolvidas. E cá estou eu triste e desapontado com elas, porque ouvir isso da boca de senhoras criadas para serem donas de casa é algo muito mais simples para meus preconceitos aceitarem. E aí que preconceito se mostra, de novo, um obstáculo.

Primeiro, um tantinho de história.

Não, as feministas do anos sessenta não tiraram os sutiãs e queimaram em protesto. Elas levaram sutiãs, sapatos e artigos de beleza e jogaram no lixo no concurso de Miss America. Quiseram pôr fogo, mas foram impedidas. A mídia, essa danadinha, escolheu chamar a ocasião de bra-burning e o fogo que não pegou lá pegou em vários outros protestos feministas pelo mundo. Ainda assim, sem, até onde sei, peitos de fora. Perfeito, não? Um exemplo de protestos sem “desviar do assunto” para os peitos de quem protesta, sem se rebaixar.

Nessa história de desviar do assunto, o exemplo mais usado é o do FEMEN, principalmente por quem não associa o nome aos peitos. FEMEN é o grupo de ativistas ucranianas que geralmente usa o topless como ferramenta. “Ninguém sabe pelo que elas protestam, mas vão lá ver os peitos”, diz a menina moderna e descolada (e algumas mulheres mais adultas também). Da última vez em que li a respeito, protestavam contra o preço do gás russo vendido para a Ucrânia. Confesso que o que me chamou atenção para ler a respeito foram os peitos. Invalidou seu protesto? Primeiro, de que a minha opinião vale em relação ao gás na Ucrânia? Eu nem sei achar com precisão a Ucrânia no mapa. Está ali, naquele quebra-cabeça chamado um dia de URSS, em algum lugar. Mas elas falaram e falam cada vez mais e os seus peitos de fora fizeram-nas serem ouvidas. Não ligo para onde será sediada a EuroCopa, mas, por causa de seus protestos, agora sei o quão sério é o problema do turismo sexual na Ucrânia. Novamente, minha opinião não vale de nada lá, mas vale sobre o que acontece aqui, ali na Paulista, na Rio+20, na rua e da minha porta pra dentro: posso pensar sobre o assunto.

Ó, meu Deus! Isso é tão apelativo, Guillem March

No que tange a se rebaixar, a p ergunta óbvia é: segundo o juízo de valor de quem? Dos homens? Da moda? Do opressor? Das mulheres? Só porque o homens gostam de vê-las despidas, elas não podem se despir? Qual a liberdade em deixar de fazer o que se gosta só porque quem te oprime também gosta? Por que não decidir o seu próprio juízo de valor? Por que não ter direito de ser recatada ou periguete? Freira ou profissional do sexo? Elas só querem ser o que quiserem, inclusive ferramenta de protesto. A postura delas é criticada, sim, até por pessoas inteligentes e a quem respeito, mas, independente da eficiência ou não da ferramenta, e eu a considero eficiente, visto estarmos aqui discutindo-a; quem somos nos para rebaixá-las por isso? Independente do protesto, temos o direito de avaliar alguém pelo que ela faz com seu corpo?

É agora que minha opinião vale: quando aceito cada um como livre para se valorizar como quiser. O valor de quem se deita com todos ou nenhum, de quem adora se sentir desejada só importa para si. Porque quando eu olho para uma mulher e me acho no direito de estimar quanto ela vale, sou eu a me rebaixar, a me mostrar incapaz de viver bem com a liberdade dela de fazer o que quiser de si; sou eu a me mostrar limitado e esquecer que apenas a minha vida está sob a regência do meu juízo de valor. O conceito fica mais óbvio quando pensamos na Marcha das Vadias, já que lá a reivindicação básica é a soberania sobre o próprio corpo, não apenas em relação ao aborto ou contra o estupro, mas pelo direito de usá-lo como quiser, até para protestar; pelo direito de se ver como quiser e não ser vítima disso; de se sentir satisfeita consigo mesma seja pelas suas próteses nos seios ou sua circunferência tatuada do lado da cabeça raspada; de mostrar seu corpo em nú artístico ou filme pornô.

Uma mulher já valeu tanto quanto era obediente ao marido, tanto quanto trazia de dote, quanto casava-se virgem ou por quantos divórcios não passou. Hoje, apesar de ainda haver quem a avalie por esse valores, geralmente uma mulher vale tanto quanto o uso que faz de seu corpo. Usá-lo é coisa de piranha, de quem não tem senso do ridículo nem se valoriza, de quem não tem capacidade para usar outra coisa. Nossas novas feministas querem que se dane a cotação, querem ser apenas mulheres. Para isso usam uma ideia que não é nova, lembremos das camisetas “100% preto”: mais do que se rebelar contra o opressor, seja ele o homem, a mídia ou a sociedade, tomam dele suas ferramentas. Tomam o significado de vadia, biscate ou o que for e desarmam quem as ofende com “no seu conceito ou no meu?” ou “sou, sim, mas por minha escolha”. Tomam de volta seus corpos, tão usados pelo opressor, para dizer o que o opressor não quer ouvir. Não importa qual a ferramenta, a ideia, o conceito usado contra elas, o tomam e se orgulham disso. É a coragem de quem responde ao opressor: isso é meu e quero de volta!

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Robson Sobral* não liga se sua esposa sai por aí vestida de biscate. Além disso, é designer profissional, ser humano amador e apreciador da mulher. O resto é consequência. Você pode conhecê-lo melhor no twitter @robsonsobral ou no seu site.

Biscate e luta não se requenta em microondas

Joy Division foi uma banda que durou exatos quatro anos, ao menos pelo que se sabe. Surgiu na Inglaterra, em Manchester, em 1976, ainda em pleno explodir do movimento Punk no país, e tem seu fim em 1980, após o suicídio de seu vocalista Ian Curtis.

Entre outras coisas é tida como uma banda “depressiva”, com canções em tom obscuro e triste. Apesar disso ser um dos aspectos das canções, esta análise incomoda porque limita as características amplas da obra, que vai além do estado de espírito dos autores das canções e dos executores da interpretação. Como as características elencadas até na própria Wikipédia, em artigo a respeito do conjunto: A experimentação que ia de influencias de The Doors a Kraftweark, o andamento marcial da bateria (que veríamos até depois reproduzidos em algumas canções de outras bandas da época como o U2) e a meu ver um pouco de experimentação com a música “industrial”.

Joy division

As linhas de baixo, a bateria marcial, o uso da eletrônica, o tipo de vocal, referências criticas diretas à política pré-Tatcher, tudo isso é a meu ver um arcabouço de possibilidades de análise critica do trabalho da banda Joy Division, que no entanto é rotulada, catalogada, posta na prateleira das bandas “Depressivas” dos anos 1980.

E ai um tipo de manifestação artística fica ali, exposta ao consumo determinado, determinante, limitado, datado que a diminui a um espasmo de um sentimento de uma época. A partir disso a transformação dela em outros ouvidos em outras experiencias, outros mundos, morre, ela se torna um retrato desfocado do passado.

Se isso ocorre com um conjunto musical e uma manifestação artística, quando nos afastamos de situações menos “tensionadas” na vida social vemos que isso é muito mais amplo e presente. No caso das lutas dos movimentos sociais isso é, como se diz no Rio, mato.

Protesto de feministas estadunidenses a frente do concurso de Miss Universo em 1968

Frequentemente vemos referências às lutas feministas como algo que nasceu, cresceu e conquistou os tais “direitos iguais” nos anos 1970 e que hoje o que rola pelas Ramblas do planeta é uma excrescência, um surto de feminazis arcaístas. E isso não é novo, a própria localização temporal da luta feminista em um dado corte histórico situado nos anos 1960 é também uma redução do papel destas lutas a um elemento, a um momento único, a um tipo de fenômeno curto, localizado e que não tem continuidade nem passado.

Voltamos à transformação de algo em um tipo de artigo de museu, no sentido pejorativo do termo, de algo que o inibe, que o estagna, que o torna monolítico e por isso imóvel, sem cor, incapaz da sedução e de transformação.

Não se diz pelas ramblas que no início do século XX nos EUA , feministas, planejadores urbanos, movimentos anti-corrupção. religiosos, sindicalistas, socialistas meteram bronca na busca de redução da profunda desigualdade naquele país, no combate à falta de direitos políticos e à profunda miséria a que parte da população era exposta.

Não se diz que 20% das mulheres estadunidenses constituíam a mão-de-obra industrial até 1920, que não tinham direitos políticos e já convivam com a dupla jornada de trabalho. Não se expõe que as mudanças advindas da migração do meio rural pro urbano promoviam já atritos contra moral sexual vigente e levam à mulheres a experimentarem práticas sexuais mais livres, especialmente pelas jovens mulheres, que “batiam de frente” com valores tradicionais e tensionavam os limites comportamentais e políticos de então ( e que me parecem presentes ainda hoje).

Emma Goldman

Emma Goldman

Ao som do Blues, que cantava as vicissitudes da exploração econômica, da discriminação racial, das amarras de raça, classe e gênero, mulheres se embalavam na poesia e iam pro pau. O caso de funcionárias dos correios de Nova York que assumiam um comportamento de bastante liberalidade sexual, biscate mesmo, orgulhosas de sua situação de “independência e liberdade” é sintomático.

Na política “propriamente dita”, de ação sindical e partidária, não se pode esquecer que o formato que vemos cotidianamente em filmes e em abordagens “tradicionais” procura de alguma forma restringir a atividade política feminina às “Sufragistas”, que apesar de terem sido um movimento social fundamental na vida estadunidense da época estavam longe de serem a única forma de participação feminina na vida política cotidiana, não foi a única atuação das mulheres.

Elizabeth Gurley Flynn

E só pra dar um gostinho podemos abrir mão de citar a grande Emma Goldman e partir pra descrição do que as mulheres com e sem nome fizeram nas fantásticas mobilizações sindicais do IWW ( Industrial Workers of The World), que se propunha uma alternativa combativa ao sindicalismo conservador da Federação do Trabalho Americano (AFL em Inglês) e das ações do Partido Socialista da América, cuja atuação pela emancipação política das mulheres foi uma de suas principais bandeiras, mesmo não abraçando todos os aspectos dessa luta. Podemos citar que na greve de 1912 em Lawrence, Massachussets, vinte mil operários, grande parte mulheres, eram embalados por ativistas como Elizabeth Gurley Flynn, que frequentemente discursava para os trabalhadores em enormes comícios.

Kate Richards O’Hara

No Partido Socialista da América o papel das mulheres não era assessório e embora não fossem mais de 15% dos filiados possuíam forte presença na direção e se destacavam como líderes regionais e ativistas importantes como Kate Richards O’Hara, líder socialista de Oklahoma, e a escritora cega, surda e muda Helen Keller, que também era importante ativista no movimento pelos direitos dos deficientes.

São tantas as histórias que desmitificam o ativismo, a militância social e política de homens e mulheres fixados a uma só época, e cara e jeito, como se o mundo fosse um eterno congelador de movimentos, o que inclusive estimula um a busca da idade do ouro perdida (Mas isso é outra história), que teríamos de ter mais espaço para destilar o tanto de informação disponível. E falamos só dos EUA com as informações obtidas no livro organizado por Leandro Karnal, História dos Estados Unidos, há muito mais em cada país e cidade.

Helen Keller

O importante é perceber que não há um papel fixo, limitado, colhido e temporalmente morto, congelado e impossível de se manter ativo em nenhum aspecto da vida cotidiana. Matar a ideia das lutas pela conquista e manutenção de direitos como um elemento contínuo, com um lastro histórico que vai muito além de cortes temporais definidos é um ato político deliberado de tornar estas lutas ou mortas ou como quem atinge o objetivo final de sua existência.

Assim como a música de Joy Division, o movimento politico da mulher, o movimento feminista, não são só a queima de sutiãs da década de 1960 e nem morreram por terem atingido seu objetivo e mais, tem história, tem “linhagem”, tem movimentos pela liberdade, movimentos livres e ações claras libertárias par além de uma só época de “liberdade”.

Nossas vovós não ficavam só fazendo tricô, caras-pálidas!

A luta é antiga, a biscatagem também e não podem, nem querem, ser congeladas. Biscate e luta não se requenta em microondas.

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