“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Por Tâmara, Biscate Convidada

“Pra mim, homem não levanta a mão porque eu não deixo”

Amadas. Eu sei que vocês querem se sentir empoderadas quando dizem uma coisa dessas. Querem sentir que têm todo o controle sobre a própria vida e o próprio corpo. Querem pensar que a violência é uma realidade distante. Querem se comprazer com a ilusão de que são diferentes e por isso estão protegidas.

Mas vocês já pararam pra pensar em qual o oposto dessa frase?

Quando eu, com 19 anos, ouvi um namorado dizer que ia dar um tiro na minha cabeça foi porque eu não deixei claro que eu não era uma mulher ameaçavel? E todas as mulheres da minha família, mães dedicadas e esposas abnegadas, que apanharam? Elas deixaram?

Eu sei que é aterrador mas nenhuma de nós está segura em definitivo, não importa quem somos ou o que a gente faça. Isso só vai acontecer quando a cultura da violência misógina for solapada.

Porque você pode apanhar de um homem que era um príncipe até ontem. Ser ameaçada por um ex que foi um ótimo marido. Ser violentada psicologicamente pelo maravilhoso pai dos seus filhos. Ser morta por um estranho que você rejeitou justamente porque pressentiu o perigo.

O pouco de conforto reside no apoio mútuo e na superação. É pra se sentir igual, não pra se diferenciar.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

A mulher de valor, o medo da buceta e o moralismo de plantão

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores e moralistas de plantão. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta não tem valor.

Na semana passada foi noticiada uma decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o órgão recursal da Justiça estadual, na qual um desembargador emitiu um voto no qual considera que “Não cuida da moral mulher que posa para fotos íntimas em webcam“. Tratava-se de um recurso sobre uma ação de indenização por dano moral, diante da divulgação de fotos de cunho intimo compartilhados pela autora da ação (vítima da quebra de confiança) com o réu (autor da divulgação indevida das fotos que lhe foram enviadas no curso de relação intima). Popularmente, o pornô de vingança.

marias da net

A autora ganhou a ação em primeira instancia, e o juiz concedeu o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) de indenização, a ser pago pelo réu. Foi uma vitória, especialmente diante do Judiciário de um Estado onde se costumava usar uma tabela para o dano moral, e que continua parcimonioso na concessão de indenizações.

No entanto, obviamente o advogado do réu impetrou recurso, como é seu direito, e de todos (para isso existem os tribunais e o segundo grau de juridição, para que um grupo de magistrados possa dar a decisão final sobre o inconformismo de uma das partes com a decisão do juiz único da primeira instância).

O TJ/MG manteve a condenação. Nos termos do voto do relator, o desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, o valor do dano moral deveria ser reduzido para R$ 75 mil, mas rechaçou o argumento de concorrência de culpa da vítima. “Pretender-se isentar o réu de responsabilidade pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima.”

No entanto… muito bom para ser verdade? Pois é. O desembargador revisor, contudo, divergiu do relator. Para ele,

“a vítima dessa divulgação foi a autora embora tenha concorrido de forma bem acentuada e preponderante. Ligou sua webcam, direcionou-a para suas partes íntimas. Fez poses. Dialogou com o réu por algum tempo. Tinha consciência do que fazia e do risco que corria”.

Asseverando que a moral é postura absoluta e que “quem tem moral a tem por inteiro”, o julgador ainda chegou a entendimento de que as fotos sensuais diferem-se das fotos divulgadas pela autora da ação, imiscuindo-se não só no campo da moral, mas no da moralidade…

As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. São poses voláteis para consideradas imediata evaporação. São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.” Disse, ainda, o Des. Francisco Batista de Abreu: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida.”

Nesse contexto, vem-me tantas coisas a cabeça que chego a engasgar.

Inicialmente, pela condenação do réu na primeira instância, meu coração se aquece, e surge uma ínfima esperança de que algo sim, está mudando. Vários dos comentaristas do portal jurídico onde primeiro li a noticia da decisão também criticaram a postura do desembargador.

E aí vem essa traulitada. Vem esse jovem senhor, com 64 anos, mais novo que meu pai, que vem dizer o que é erótico, o que é pornográfico, e vem medir, etiquetar, rotular, e cortar fora o que não cabe em seu limitado entendimento da alma humana. Pega um conceito de sensual e pornográfico direto da coleção primeiros passos,  e vem despejar moralismo no que pode ou não pode fazer entre quatro paredes, entre pessoas adultas e capazes.

Não, senhor. Como bem escreveu a Bete Davis, aqui mesmo no Biscate:

Então, como vou eu definir o que é erótico e o que é pornográfico quando estas palavras  ganham a conotação moralista de certo e errado? Artístico e lixo? Erótico é o que me excita, e o que me excita eu bem sei. O que excita você, car@ leitor@, você também sabe.

Segundo o entendimento do terceiro desembargador da turma, que seguiu o voto do revisor:

De qualquer forma, entretanto, por força de culpa recíproca, ou porque a autora tenha facilitado conscientemente sua divulgação e assumido esse risco a indenização é de ser bem reduzida. Avaliado tudo que está nos autos, as linhas e entrelinhas; avaliando a dúvida sobre a autoria; avaliando a participação da autora no evento, avaliando o conceito que a autora tem sobre o seu procedimento, creio proporcional o valor de R$5.000,00.

O que os nobre magistrados não percebem é que o valor aqui não é só o valor que a autora tem sobre si. Eu, como disse a minha xará, Renata Correa, “particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. ”

Mas a ação em si, o ato do ex-namorado, que fosse por tempo curto (hello, o doutor acha um ano um tempo curto? Baby, conheci e fui morar junto com meu marido em menos tempo que isso, e nesse tempo, namoramos à distância, doutor, veja só). Tem nome, o ato do réu, e é pornô de vingança. E é uma dessas “modas” que pegam, e que deviam ser inibidas e não estimuladas por decisões como esta.

“Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima.”, aponta o desembargador.

Quem tem medo de buceta? Aparentemente, os julgadores tem. E acham que a mulher que não tem medo da própria buceta, que não só se toca e goza, mas tira fotos, oh, horror dos horrores, de sua “grotesca” VAGINA, não tem amor-próprio, não tem auto-estima.

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A Eliane Brum trata, lindamento, deste medo, deste horror, por parte da sociedade, neste texto aqui:

Que há algo perturbador no órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria comprado o quadro.

Eu tenho problemas com a forma da decisão, com as palavras, cuidadosamente escolhidas pelo julgador para des-valorizar não só aquela autora, aquela mulher que teve a coragem de se expor e exigir a retratação não pela exposição da imagem, mas pela quebra de confiança.

Eu tenho muitos problemas com quem não vê o machismo explicito nessa decisão, com quem a julga tecnicamente correta, pois a autora da ação, vítima da exposição indevida, se colocou em situação de risco.

Eu tenho muitos problemas, sim, com quem é incapaz de perceber que se expor para um homem, em um contexto privado não significa que a mulher não se valoriza. Pelo contrário, nesse mundo de bocetas plastificadas, depiladas, infantilizadas, é preciso muito amor próprio, muita segurança e auto-confiança para se exibir, por si, para o seu prazer. A regra é a exibição controlada e regulada da buceta para o prazer do homem, para o lucro, para a pornografia mainstream, dominante, dominadora. A mulher que se exibe porque quer, para quem quer (e só para quem quer, ouviram? Só para quem ELA quer, é bom repetir) tem um poder sobre o próprio corpo que a maioria dos moralistas de plantão não consegue admitir, aceitar, sequer tolerar, que dirá respeitar.

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Eu me descobri feminista em 2010, depois de trabalhar em um caso de estupro. Date rape, para ser precisa, ou “estupro de encontro”, uma figura importada dos EUA, onde a vítima do estupro já conhece o autor, e com ele mantém uma relação de confiança, ainda que volátil e passageira. No caso, a jovem havia conhecido o rapaz em uma festa, estavam ficando, outras pessoas foram para a casa dele depois da festa, em casais, incluindo ela, com as amigas e os amigos dele, amigos em comum, entre si. E la, depois, em algum momento, ela se sentiu desconfortável.

Ela disse NÃO. Ela se atreveu a dizer NÃO, NÃO QUERO. Não, não permito que você me use para o seu prazer. E ele prosseguiu, contra a vontade dela, mesmo sem usar de violência física. Isso É estupro. E eu o indiciei, e o Ministério Público o denunciou, o Judiciário recebeu a denúncia. Não acompanho o caso, soube que ele se mudou de Estado para fugir do processo, eu mudei de Delegacia, mudou a juíza, mudou a promotora do caso. Eu duvido que hoje ele seja condenado. Eu temo pelo que a jovem vítima terá que ouvir como “defesa” do acusado, como a vida sexual prévia e a atual serão colocadas na berlinda.

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E essas decisões, desses homens e mulheres, sobre o nosso valor, vão pautar no futuro a forma como tantos casos semelhantes serão tratados. Serão essas pessoas, que vivem nesse mundo, que decidem e decidirão nosso valor.

Eu fecho com a Renata Correa, de novo:

Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história. (Renata Correa, Mocinha de Valor)

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Você, o Médico ou o Estado?

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Texto 1: Em trabalho de parto, levada por policiais armados e obrigada a fazer uma cesariana que não queria: não é mentira. Aconteceu em Torres, RS

Texto 2: Justiça retira mãe em trabalho de parto de casa para obrigá-la a fazer uma cesariana

Texto 3Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

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Para quem está achando justificável ou ok dez policiais arrastarem uma gestante pra fora de casa em trabalho de parto: eu não vou entrar em indicações necessárias e desnecessárias de cesárea. Mas eu vou falar de ética profissional. E de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Se a médica ou a juíza tivessem seguido os princípios da bioética, jamais teriam mandado dez policiais armados na casa de uma gestante em trabalho de parto. É ético o mandato só ter sido expedido com tanta rapidez pois a médica era amiga da juíza?

Politicamente o que aconteceu foi um caso de punitivismo. Uma mulher decidiu a respeito do seu proprio corpo e foi punida por isso. É impossível não perceber o paralelo entre as violências sexuais sofridas por mulheres todos os dias. Acabou de sair uma pesquisa do ipea onde dizem que mulher com roupa curta merece ser abusada. O que é isso além de punitivismo?

Juridicamente é um precedente perigosíssimo você tirar uma cidadã da sua casa, uma cidadã que assinou um termo de responsabilidade, uma cidadã que estava acompanhada, que tinha feito pre natal e mais do que isso uma cidadã que DECIDIU não seguir uma orientação que não coadunava com suas crenças e conhecimento. Então agora se uma testemunha de jeová não quiser receber transfusão de sangue um médico pode obrigar? Então se vocês decidirem se tratar com homeopatia (é placebo, não vai curar!), comer doce (dá diabetes!), fumar (câncer!) numa balada, beber (dá cirrose e vai que você resolve pegar o carro?), usar decote (as pessoas acham que roupa provocante te coloca em risco se violência) o Estado vai ter o direito de colocar a polícia na porta de vocês? Afinal são atitudes que podem colocar a vida de vocês em risco. Ué? Mas quem decide o que acontece com o seu corpo? Vocês, o médico ou o Estado?

Aliás o bebê não estava sentado. Isso foi só a justificativa da médica. O bebê estava cefálico. Mas isso não importa. Esse bebê podia estar de lado, podia ser o bebê de rosemary, podia ter feito mecônio 12 cruzes. Não importa. Importa que o que uma mulher decidiu a respeito do seu corpo foi desrespeitado pelo Estado. Sabe que sistema político violava os corpos das pessoas com justificativas institucionais? Dou uma chance.

A ditadura acabou. Mas não para as mulheres. Acabou 50 anos atrás. E ainda vivemos em estado de exceção. Temos direitos humanos. Exceto quando usamos roupas curtas, estamos grávidas, somos biscates, etc etc. Quase humanas.

renata corrêaRenata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Resumo da semana: fim da violência contra a mulher

E o nosso resumo da semana começa com uma imagem delicadamente selecionada pelo Claudio Luiz, para nossos #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher. 

by Pure Evil

Na segunda, tivemos o post inicial que fala dos nossos 16 dias de ativismo. E, infelizmente, assunto é o que não falta. Na terça, a Sílvia contando da violência cotidiana que é o aborto ilegal. Na quarta, a Luciana se perguntando  “O que é que vão pensar?” ; na quinta, o desabafo doloroso da Niara: “Lutar contra a violência dói”. Na sexta, a Lis traz outro tema de saúde pública à baila: “A Aids e as mulheres”. E no sábado, tem a Renata Lins tocando em uma questão incômoda: a de que os homens que agridem mulheres são, com frequência, conhecidos próximos de suas vítimas. É. Difícil. século XXI, e a gente ainda está aqui falando sobre isso. Vamos à luta. Boa semana!

Todos os textos dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher e de gênero do BiscateSC estão naquele banner vermelho, bem no alto da coluna à direita. Cliquem e acompanhem! 😉

Lutar contra a violência dói

Por Niara de Oliveira

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Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

🙁

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:'(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:'(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

Rafaelita

“Seu rosto é o rosto da mãe Africa, sempre pronta a nos abraçar, com sorriso no rosto e alegria no olhar.”

RAFAELITA, Mulher, migrante, empregada doméstica, moradora de cortiço, com 2 filhos já em universidades públicas, [usp e unifesp] e com seus 64 anos é uma entusiasta defensora do reaproveitamento dos alimentos.

Lembrando que em 25 de julho será comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra na América Latina e Caribe, reflita sobre a importância da instituição deste dia:

1. A Mulher negra é vitima de uma dupla discriminação: de gênero e de raça em todos os países da América Latina, tanto na cidade como no campo. Portanto, a trabalhadora rural negra é vitima de mais uma discriminação;

2. As mulheres negras chegam a receber mensalmente cerca de 66% menos nos salários quando comparados com os homens não negros principalmente no Brasil, na Colômbia e na Venezuela;

RAFAELITA

3. A grande maioria das mulheres, 93%, encontram-se no trabalho domestico, o que representa 8 milhões de pessoas; destas 80% não possuem a formalização do vínculo empregatício;

4. Estes problemas enfrentados pelas mulheres negras brasileiras fazem parte, com poucas diferenças de fundo cultural e históricos, da vida de suas irmãs nos demais países da América Latina e do Caribe.

RAFAELITA

E você o que fará dia 25 de julho?

Vou vadiar, eu vou

“Fui feita pra vadiar, eu vou…”

marcha das vadias sp 2013

A concentração e os preparativos na Praça do Ciclista [Av. Paulista esquina com Rua da Consolação], antes da Marcha das Vadias de São Paulo 2013 em 25 de maio.

marcha das vadias sp 2013

marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013marcha das vadias sp 2013

Mulheres e homens participaram da Marcha das Vadias em São Paulo, percorrendo a Avenida Paulista, Rua Augusta e terminando na Praça Roosevelt – zona central.

marcha das vadias sp 2013

clique nas imagens

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“A Marcha das Vadias de São Paulo, assim como a Marchas das Vadias no mundo, marcha para que a sociedade entenda que as mulheres não são responsáveis pela violência que sofrem. A sobrevivente NUNCA é culpada. Culpado é o agressor.”

Ouça também Não Vadeia – Clementina de Jesus.

Somos muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Roubei esse título descaradamente da Bisca-Borboleta Luciana, porque condiz lindamente com o que irei escrever hoje.

O último sábado foi marcado pela realização da Marcha das Vadias em várias cidades do Brasil. Eu, como biscate e vadia paulistana de nascença e por opção, estive na 3ª edição da Marcha, em Sampa. E foi tudo muito lindo, como eu nunca tinha visto (ao vivo) antes.

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP - 2013

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP – 2013

Tinha muita gente. Muita mesmo. A imprensa e a PM contabilizaram cerca de 1500 pessoas, mas acho que tinha muito mais gente. A Rua Augusta ( já consagrada como uma das mais boêmias da cidade) estava forrada de vadias. Vadias sim. Vadias com orgulho, de todas as idades, gêneros, cores e crenças. Vadias que empunhavam mensagens de liberdade e de empoderamento sobre seus próprios corpos.

Namorado e eu, vadiando juntos!

Namorado e eu, vadiando juntos!

Com o tema “Quebre o Silêncio”, a Marcha das Vadias de São Paulo chamou a atenção para a importância de denunciarmos  agressores e estupradores, que agem covardemente porque acreditam na impunidade e porque o machismo arraigado em nossa cultura faz com que eles acreditem que brutalidade, principalmente contra um grupo historicamente oprimido, seja um pré-requisito fundamental para provarem a sua “masculinidade”.

O que eu achei mais legal nesta edição? A pluralidade. Vi muita gente jovem, muitos idosos e crianças e muitos homens, bradando frases como “Cuidado, cuidado, cuidado seu machista. A América Latina vai ser toda feminista!”; “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o machismo!”; “Eu amo homem, amo mulher, tenho o direito de amar quem eu quiser!”. Me enche de orgulho e de esperança saber que tantas pessoas acreditam e defendam a ideia que o mundo seria um lugar muito melhor sem o machismo.

Se ser livre e se lutar por isso é ser vadia, somos TODXS vadias. Muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

 

 

Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

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