O “homem que é homem” e uma comemoração

bowiestardust

David Bowie


Ando com dificuldade de compartilhar certas coisas, muito por conta de certos termos generalizantes.Não quero dizer “todos os homens”, porque não são. Não quero dizer “epidemia” de violência contra a mulher, porque não é doença, não é vírus que se pega no ar.

Tenho certo pé atrás com essa questão de que é “cultura”, porque a gente vê dia sim outro também o funk, por exemplo, ser criminalizado por conta dessa questão, e não acho que seja por aí.

Lembro também que a nossa sociedade em que os horrores contra a mulher são comuns é violentíssima também com os homens, justamente no processo de tornarem-se homens. O famigerado “homem que é homem”. Por isso gostei muito de um comentário de amigo, que dizia “temos é que acabar com os homens”. Acredito que seja meio por aí. Não é inerente, não é intrínseco, não é natural: ninguém nasce “homem que é homem”. Torna-se, à base de porrada.

Vi recentemente um documentário muito interessante que se chama “The Mask You Live In” – “A Máscara Em Que Você Vive” – , sobre exatamente isso: a construção do homem a partir da infância. Muito à base da porrada, mas não só. Também à base da desqualificação, da chacota, das ironias, de tudo o que você descobre que é “coisa de mulherzinha”. Cores, gostos, jeitos, trejeitos. Nada disso pode, se você for ser um “homem que é homem”. Se quiser ter o respeito do seu pai, e tantas vezes da sua mãe também.

Dor, sofrimento, caixinhas.

E uma longa estrada a percorrer se a gente quiser desmontar isso, feita de muitos passos. A cada dia. Golpe a golpe, verso a verso, como dizia o poeta.

“Se a gente quiser” não: a gente há de querer. Porque é preciso, é inevitável, é premente. Não dá pra viver com essa máscara mais. Não dá pra aceitar o “homem que é homem”, esse aí a quem ensinam a não chorar, a não ser frágil, a não mostrar medo, insegurança, tristeza.

Coitado do “homem que é homem”.

Longo, longo trajeto. Ainda mais numa sociedade tão entranhadamente machista como é a nossa, em que dizer “coisa de viado” ainda faz tanto parte do dia-a-dia.

Então, há que se aplaudir cada um dos pequenos passos. E por isso aproveito para  comemorar aqui a iniciativa do Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, abolindo os uniformes definidos por gênero. Um passo pequeno? Uma festa. Meninos, meninas: calças, saias. Do jeito que quiserem. Usar saia não te faz mais ou menos menino, como usar calça não te faz mais ou menos menina. O que é ser menino? O que é ser menina? O que te define?

Um pequeno passo. Uma fresta. Um espaço aberto. Viva.

saia-pedro-ii

A galera do Pedro II, antes de ser permitido.

Os homens hétero e a linha de demarcação

Sentar em mesa de bar com uma penca de homens cis hétero acima dos 50 é ter que ouvir uma infinitude de piadinhas sobre a última ida ao urologista, o peso nas costas e similares.
Aí você pode sorrir e esperar passar (mas demora…..).
Ou você pode questionar, e vira barraqueira.

McSorleys

Escrevi isso como status de feicebuque, e, à medida que recebia notificações, fui olhando pro texto e lembrando. E situando. E organizando, pra vir escrever aqui. Não era esse o objetivo – era apenas desabafar algo sobre a minha noite. E não se enganem: a noite foi ótima, foi agradável, foi divertida….  Falou-se de política, da nossa conjuntura líquida e tremelicante…. Era com amigos, pessoas queridas…. Mas teve isso.

Teve isso, tem isso. Isso faz parte. E, no caso, a mesa realmente só tinha homens acima de 50 anos. Mas arrisco dizer que, se fossem mais jovens, talvez não fosse tão diferente. As piadas poderiam ser outras: mas o conteúdo simbólico não iria mudar tanto assim. Homens hétero juntos: esse tipo de piada é tão corriqueiro.

Como comentei depois, o episódio – como tantos outros envolvendo grupos de homens –  me lembrou um filme do Claude Chabrol chamado “La ligne de démarcation”. Não achei o título em português, mas a tradução é ao pé da letra: “A linha de demarcação”. O filme é sobre uma cidadezinha francesa que, durante a ocupação alemã na segunda guerra, acaba sendo dividida em duas, uma parte ficando na zona alemã, outra na francesa. Pois então. Assim me parece o cotidiano dos homens cis hétero brasileiros (digo brasileiros porque me parece que aqui isso é particularmente marcado): uma eterna demarcação de zona. A hétero, em que se encontram, e o “lado de lá”. O “dos outros”. Arriscado e perigoso “lado de lá”. 

As pessoas da mesa certamente diriam (como disseram) que não têm preconceito, que estão do lado dos direitos dos homossexuais, que até têm amigos que…. E no entanto, fazem essas “brincadeiras”. Essas piadinhas. Todo dia, o tempo todo.

Em algum lugar já comentei que ser homem hétero é eterna vigilância. Como sentar, como andar, o jeito das mãos, a entonação da voz…. As roupas, o lenço (nunca jamais em tempo algum), as cores, o corte de cabelo… canso só de listar. Nunca saberia ser homem hétero, sério. Esse homem hétero padrão. É claro que existem outros, que fazem diferente: mas esses sabem que estão sujeitos a ouvir permanentes piadinhas sobre a roupa “de viagem”, sobre o jeito, sobre as cores. Sobre o que são, sobre aquilo de que gostam.

E, mesmo numa mesa dessas, em que, além de três mulheres, só havia homens hétero, uma boa meia hora se passou à base das piadinhas. Que giravam todas em torno do cu apertado. Apertadíssimo. Tão apertado que os dentes até trincam, imaginem. Deve ser difícil também, deve haver algum tipo de exercício específico pra manter o cu tão apertado. dessa demarcação. De como eram homens-machos. De verdade. De como estavam do lado de cá, e não do lado de lá. E por isso as piadinhas.

Fico pensando na educação que gerou isso. No “isso é coisa de maricas”, no “homem não chora” e tantas outras mais. Fico pensando na coragem de quem ousou assumir sua homossexualidade diante desse panorama. Nos motivos de quem não ousou. Porque não queria contar para os amigos de infância. Porque não queria perder esses amigos. Porque não queria decepcionar o pai. A mãe. Os irmãos. Tantos motivos pra não dizer.

Cheguei até aqui no texto e me deu vontade de chorar. Lembrei do Jean Wyllys que vive naquele ambiente inóspito da Câmara dos Deputados. Do que ele deve ouvir todo dia, toda hora. Da coragem, da firmeza.

Do momento em que ele se descontrolou diante de um crápula que exaltava um notório torturador da ditadura militar.

E acabo o texto aqui, porque acabou por conta própria, com uma homenagem a ele: Jean, seu cuspe foi nosso também.

E um recado amigo:
Homens cis hétero brasileiros, melhorem. Melhorem muito.

imagem daqui.

“ Já acabou, Jéssica? ” e a insensibilidade que viraliza

Há alguns breves dias, vi em vários espaços na internet o meme “Já acabou Jéssica?” e não entendia de onde havia saído a frase, muito menos, o contexto dela. Também não dei muita importância, e, particularmente, não tenho muito apreço por memes, uma vez que muitos são produzidos com o intuito de rir da dor do outro.

E com esse, o da Jéssica, não foi diferente.

Eis que uma aluna minha me mostrou o afamado vídeo. Em pouco mais que dez segundos, uma briga de duas adolescentes é filmada, na saída de uma escola. Uma delas está no chão e é socada e chutada fortemente. Jovens fazem um círculo pra apreciar melhor o “espetáculo” que ali se desenrola na frente deles. Elas, as meninas, brigam em público, se machucam, se expõem; a cena é de uma tristeza e violência só. As pessoas à volta gritam animadamente e se mostram excitadas diante da ocorrência da agressão. Ninguém separa. Ninguém ampara. Ninguém as acolhe. Apenas filmam, observam de um jeito mórbido e, mais à frente, compartilham o vídeo de quinze segundos com o que consideram uma briga “engraçada e cotidiana” de duas adolescentes.

Daí em diante já conhecemos bem o script: o vídeo viraliza em poucos dias, se torna o assunto mais comentado da internet e a fala de uma das garotas se torna um bordão, executado a torto e a direito com o único objetivo: ridicularizar e rir da dor de outra pessoa.

jessica
Não, pra mim não dá. Não consigo achar que se possa fazer humor diante da desgraça alheia, da violência, de algo que deveríamos firmemente repudiar e combater. Fiquei consternada quando vi o vídeo. Por tantos motivos, porque sou mulher, porque já fui supervisora escolar e já apartei brigas (de meninos e meninas), porque sei o quanto é triste estar no meio do escracho público, porque sei o quanto isso violenta a dignidade de um ser humano.

A adolescente que apanha, tentando ainda mostrar que não foi vencida, querendo não se sentir tão humilhada e violentada por uma plateia sedenta, diz pra se defender: “já acabou?”. Puro mecanismo de defesa da adolescente pra tentar se proteger e resguardar ainda alguma dignidade. E é justamente esse dolorido ato final do qual milhares de pessoas riem. Ninguém se solidariza. Mais importante do que se preocupar com a menina que apanhou, é promover o riso cúmplice.

E isso diz muito sobre nós. De como nossas formas de convívio são pautadas pela violência já banalizada e introjetada como um patrimônio imaterial no DNA brasileiro. De como nos portamos (mal) diante da dor dos outros. De como na iminência de ajudar, socorrer, dar apoio, preferimos com frieza lançar o aparelho de celular e filmar. De como optamos compartilhar e espalhar às expensas o riso obtido do infortúnio alheio.

Impressiona também que a cobertura sobre o caso não tenha desencadeado nenhum tipo de reflexão sobre a cultura violenta a qual vivemos. Ao procurar saber mais da briga das duas adolescentes, li que houve a atuação do Conselho Tutelar e que ambas já “fizeram as pazes”. De acordo com a matéria, a briga foi motivada por ciúmes de um rapaz, namorado de uma das meninas (e sabemos muito bem que somos culturalmente educadas pra odiarmos umas às outras, pra nos vermos como rivais que disputam homens, beleza e juventude). Ao que consta na reportagem, a mãe da adolescente que apanhou não está nada bem devido a forma como a filha foi superexposta e ridicularizada perante, apenas de… todo o mundo cibernético.

Eu entendo a dor dessa mãe, sabe? O que não compreendo e não aceito, é essa falta de alteridade e empatia que se apossa de espectadores sedentos por grandes e pequenas tragédias da vida real. Uma sociedade que se ouriça e que se excita em consumir e compartilhar violência em seu estado puro, é uma sociedade que me deixa desesperançosa por dias melhores.

Daí que ninguém reflete sobre a responsabilidade da pessoa que espalhou o vídeo. Ou das pessoas que compartilharam e estão ainda, bovinamente compartilhando o dito cujo. Ninguém pensa que poderá ter contribuído pra arruinar uma vida com essa atitude, prenhe de violência simbólica.

Afinal de contas, não sou eu que estou no meio daquela briga, não é mesmo? Pra que ter empatia e alteridade? O que significa isso? Não se sabe.

E com a pontinha de otimismo que ainda me resta, espero que um dia nós tenhamos mais pessoas que apartam brigas, pacificam conflitos, resolvam pendências na base do diálogo do que pessoas que saiam por aí dando porradas a esmo e outras filmando, debochando e compartilhando agressões com a insensibilidade e a banalidade de quem ao mesmo tempo come pipoca e consome a dor alheia.

Feminicídio: #nãofoiciúme

machismomata_red

Uns meses atrás publiquei no Facebook que gostaria de criar um espaço que reunisse relatos e analisasse a maneira como a imprensa trata os casos de feminicído e violência contra a mulher. Afinal, a gente já não suporta mais que esses crimes continuem sendo noticiados como “passionais”, movidos por amor, por ciúme.

Não aguentamos mais a romantização e naturalização da violência contra a mulher. Sem contar as vezes em que somos culpabilizadas pela violência sofrida. Muitas amigas feministas se interessaram em participar e criar esse ambiente de relatos e análise da mídia.

No dia 25, Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, lançamos a página Não foi ciúme. Também estamos no twitter com a arroba: @naofoiciume

De acordo com os dados do mapa da violência, o Brasil é o quinto país no qual mais se mata mulheres no mundo: em 2013, houve 4.762 feminicídios registrados, sendo que um terço disso, 1.583 casos, foi de crimes cometidos por parceiros e ex-parceiros. Os dados são assustadores e crescentes, principalmente contra as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios de mulheres negras aumentou 54%, o que faz com elas combinem machismo e racismo em seu cotidiano; em comparação, os crimes contra mulheres brancas diminuíram 9,8% no mesmo período. Sem contar os crimes movidos por transfobia, que sequer entram nas estatísticas.

A proposta da página é reunir publicações veiculadas diariamente em nossos meios de comunicação que noticiam feminicídios como “crimes passionais”, “crimes motivados por amor / por ciumes” e outras justificativas inaceitáveis para o homicídio de mulheres. Para isso, contamos com a colaboração de todas as pessoas: nos mandem notícias de suas localidades, cometem, divulguem.

Até por isso, o nome da página, que pode ser interpretado como um símbolo das “justificativas românticas” pra crimes dessa natureza. Além disso, queremos divulgar e comentar relatos de outras violências e agressões contra mulher, não apenas aquelas que terminam em morte, incluindo os movidos por lesbofobia e transfobia.

Somente reconhecendo os crimes pelo que realmente são – mortes causadas por machismo – é que se pode lutar e combater efetivamente os assassinatos e as agressões contra as mulheres. Não é por amor. Não é por ciúme. Não é passional: o machismo mata e, muitas vezes, sai impune. Sem contar as vezes em que a mulher é responsabilizada pela violência sofrida.

Ontem, no final da noite, estávamos em 2 mil curtidas na página. Agora, no meio da tarde do 26, já passamos das 5 mil, indo pra 6 mil. Além disso, houve até agora mais de 70 compartilhamentos de nosso texto de apresentação, uma sugestão de pauta por inbox nos primeiros 15 minutos de divulgação da página e picos de mais de 100 curtidas em alguns posts. Acredito que para um primeiro dia, a visibilidade foi bem razoável.

O bom é que essa capilaridade pode potencializar mais ainda nosso alcance, gerando mais notícias, mais análises, mais críticas.

Precisamos cobrar de nossos jornalistas um posicionamento ético na cobertura dos fatos. Que as histórias sejam contadas sem eufemismos ou adjetivos que romantizam ou naturalizam a violência e/ou agressão e, com isso, contribuir para a real diminuição da violência contra mulher e o feminicídio.

Além de mim, essas maravilhosas abaixo também fazem a página:

Bianca Cardoso
Cecília Oliveira
Iara Ávila
Klaus Saphire
Niara de Oliveira
Renata Lins
Tássia Cobo

#‎NãoFoiCiúme
É #‎ViolênciaContraAMulher
É #‎Racismo
É #‎Feminicídio

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

inep_enem_redacao

Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

estacao-liberdade

Assédio não pode ser normal, mas é

É assim: assédio não pode ser normal. Mas é. E a gente tem visto isso nesses últimos dias: as denúncias todas geradas pela hashtag #primeiroassédio. O volume. Dá a sensação de que aconteceu com todo mundo que a gente conhece.  Então a gente tem que entender. Não adianta, de novo, dizer que eles são todos pedófilos. Não são. Não são doentes, não são bandidos. São gente como a gente. Os homens que assediam são gente como a gente. criados para serem homens nessa sociedade maluca aí. E é disso que a gente tem que falar. Da porra da sociedade. Do que é chamado de homem nessa porra dessa sociedade. É nisso que a gente tem que mexer. Na cultura, nos hábitos. no “homem não chora”. No “isso é que é coisa de macho”. Ou, e talvez até mais importante, “isso não é”. É dessa porra dessa sociedade que a gente tem que falar.

Não adianta dizer que é “sordidez”, que são “canalhas”. Você não nota, mas quando diz isso está reduzindo o problema. Está desconhecendo que o problema é da sociedade: logo, é de todo mundo.

Acho bem mais inquietante pensar que são pessoas comuns que se sentem no direito de fazer isso. De pegar nas meninas, nas mulheres, de não escutar, de agarrar. Homens que agarram mulheres. E a grave questão é “se sentem no direito de”. Não porque são malucos: porque assim a sociedade lhes ensinou. A cada propaganda de mulher pelada vendendo cerveja ou carro, a cada “prenda suas cabras que meu bode está solto”, a cada “ele tá fazendo isso porque gosta de você”, a sociedade ensina que é assim. Sempre que se espera que as mulheres cuidem da casa, das crianças, e ainda estejam lindas e cheirosas para seu homem, é isso que se ensina. Toda vez que se trata uma mulher como menos, como menor, como sem espaço, toda vez que são os homens que ocupam a sala e relegam as mulheres para a cozinha, toda vez que os assuntos “de mulher” não têm vez na conversa, toda vez que elas não falam… toda vez que se acha que “direitos da mulher” não dizem respeito aos homens. Que, afinal, não abortam. Que, afinal, não engravidam.

Toda vez que se diz que “homem que é homem é que”…. toda vez. Quando às mulheres não se ensina que elas têm querer e voz: também. Quando se lhes pede calma, delicadeza, voz suave, não contrariar, “deixa, ele é assim mesmo”, “é só o jeito dele”….. toda vez que se diz às meninas que elas é que não devem usar saia curta, decote, que são elas que têm que se proteger, que se cuidar, em vez de dizer aos meninos que não, que não pode, que não é pra fazer. 

É de um olhar desassombrado para dentro dessa sociedade que é a nossa que a gente precisa: não de um repúdio horrorizado, como se não tivesse nada a ver com a gente. É da mudança no tratar desde pequenino, desde bebê praticamente: como se tratam os meninos, como se tratam as meninas. O que é ensinado a cada um deles. Isso é que tem que mudar, isso é que cria uma sociedade em que cada menina, cada mulher tem uma história de assédio pra contar. Em que, por trás de cada assédio, há um homem criado “para ser homem”. Desse jeito aí. Achando que pode.

livre

Que horas ela volta e o assédio sexual

Assim como muita gente, também achei Que horas ela volta (2015), da Anna Muylaert um baita filme. É provocativo e instigante. Mais que isso, é polifônico. Anuncia vários sentidos, deslocamentos e significados. Daqueles filmes que de tão abertos a interpretações acabam sendo capazes de comportar uma pluralidade de leituras que só enriquece as impressões (individuais e coletivas) e aumenta o diálogo entre espectador e a obra.

Não sei com precisão qual é a realidade das empregadas domésticas fora do nordeste (embora imagine que não muito diferente), mas aqui (resido em São Luís, Maranhão) persiste de modo violento e silencioso o hábito de “trazer meninas” (sim, elas não têm nome) do interior para a capital de modo que estas sejam exploradas em um regime de semi-escravidão. Muitas chegam bem jovens, em média aos 12, 13 e são instadas a viverem em função das necessidades da família que as escravizam em troca de alimentação, roupas, moradia precária, produtos de higiene e as vezes, até permissão para estudarem à noite depois que todo o serviço for feito (é muita caridade, né?). O salário? Algumas famílias pagam (mal) e outras fingem que elas estão ali porque são “da casa” e devem ser gratas de boca fechada pelo sabonete e absorvente comprado. Direitos? Bem, estamos caminhando nesse sentido com a PEC das Empregadas Domésticas, mas no contexto de uma cultura de exploração que de tão enraizada na sociedade, teima muito ainda em mudar.

As personagens emblemáticas de Camila Márdila (Jéssica) e Regina Casé (Val)

Jéssica (Camila Márdila) e Val (Regina Casé)

Quantas pessoas não construíram sua vida de privilégios em cima do apagamento dessas mulheres, que no invisível e desprezado trabalho doméstico, lhes davam condições (pra que eles, os patrões), tivessem tempo e tranquilidade para se dedicarem aos estudos, amigos, família, lazeres, viagens e outras atividades? Quantas pessoas que assistiram ao filme conseguiram fazer esse exame de consciência? Que muita gente só chegou aonde chegou devido a anulação de uma outra pessoa, mais especificamente, de uma empregada doméstica que estava ali como a Val. Fazendo a limpeza da casa, cozinhando e criando os filhos dos patrões. Curioso que a personagem da Regina Casé até recebe o Fabinho em seu quarto minúsculo quando o jovem quer amparo e carinho, mas a mesma Val é proibida, numa regra silenciosa, de sentar com os patrões e comer a mesma comida deles. Ela pode ser uma espécie de ama de leite, mas não está autorizada a desfrutar de igualdade. Ela é menos gente. Profissional de segunda classe que deve agradecer pelo colchãozinho dado pela patroa. Não é à toa que a Val passa boa parte do filme dizendo “agradecida”. Nisso há uma mensagem que estabelece um acordo entre todos: agradeço pela sua generosidade e eu me ponho no meu lugar em reconhecimento disto. E assim, a vida segue. Toda e qualquer esmola dada nesse contexto carrega em si o acordo da submissão, de quem manda e de quem obedece. Serve pra demarcar lugares. Porque, afinal, a ordem natural das coisas é assim. Deve ser assim.

Espero mesmo que essa realidade abusiva esteja mudando.

Outra coisa que me incomodou um tanto, que diz respeito a repercussão da película, foi ver pouquíssimos homens escrevendo sobre o filme. Dos textos que chegaram até mim, acho que 90% eram escritos por mulheres. E fico me perguntando se esse filme também não tocou a todos, de algum modo. Fiquei com a impressão, pela ausência das análises masculinas, que parece que a relação patrões e empregadas só dizem respeito as mulheres. A eles, muito pouco interessa. Mas também lembrei que o privilégio e/ou a descoberta de sua existência, também provoca em muitos um incômodo silêncio. Sim, o filme Que horas ela volta não é somente um filme feito de mulheres para outras mulheres. Ele representa uma realidade que todos, homens e mulheres tomam parte e contribuem para a configuração do quadro de opressão. Que saibamos ver de modo mais amplo que não se trata apenas do jogo simplista de uma mulher oprimindo outra. Dito dessa forma, gostaria de fazer algumas observações sobre, o José Carlos interpretado (com muita naturalidade e honestidade) por Lourenço Mutarelli, que junto com o Fabinho, são os poucos, mas significativos personagens masculinos do filme.

Zé Carlos é um sujeito rico por herança, melancólico por acumular frustrações no campo profissional, ocioso, angustiado e bastante depressivo (condição confirmada ao longo do filme). A chegada de Jéssica e sua alma inquieta, com inclinação pra perturbar os lugares rígidos da casa encantam Zé Carlos que tenta impressioná-la demonstrando pôr tudo que tem aos pés da jovem. Literalmente. Baseado nisto, ele oferece, com muita insistência, seus bens materiais em troca do acesso ao corpo e aos sentimentos de Jéssica. Ela fica visivelmente constrangida com as investidas dele e nas duas ocasiões em que isso ocorre, demonstra grande desconforto que faz com que desista de assediá-la.

mutarelli

Nessas duas cenas percebi uma denúncia da diretora, não sei se consciente ou não. Empregadas domésticas em nosso país também são uma das maiores vítimas de abuso e assédio sexual pelos patrões e seus filhos. No geral conhecemos casos em que isso ocorreu e que na ordem das coisas, acaba sendo diminuído em sua gravidade e até mesmo naturalizado pela nossa cultura (machista). Como se além do direito de explorar o trabalho doméstico, o patrão também tivesse direito a ter acesso livre aos corpos dessas mulheres que moram no quarto dos fundos ou que estão ali como faxineiras e diaristas. O que me incomoda bastante é o silenciamento e a conivência de muita gente com esse tipo de abuso. Já tive oportunidade de ouvir relatos de empregadas abusadas e acuadas pelas visitas sistemáticas dos patrões em seus quartos, de assédio intimidador quando faziam a faxina, entre outros. Nisso tudo, o receio de falar e ser demitida, o baixa-estima de si, a culpa, o pouco acesso a informação e as formas de defesa eram características dominantes da realidade dessas mulheres.

Sim, a Jéssica foi bastante acuada pelo Zé Carlos, que jogava nas entrelinhas com a questão da pobreza material da menina, pedindo-a em casamento em troca de viagens, da mansão que possuía e tudo que mais que ela quisesse. Nessa cena fica muito clara a tentativa de comprar a filha da empregada, que por ser pobre, tem supostamente um preço. A negativa constrangida de Jéssica é mais do que uma reação a um assédio. É uma forma de dizer que o comportamento do patrão da mãe é inadequado, que nenhum abuso é justificável e que a mentalidade senhorial q que tudo submete, deve ter limite. Aliás, nos termos de uma relação respeitosa de trabalho, ela sequer deve existir.

Em tempos de misoginia e desumanidade escancaradas, a grita em torno do tema da redação do ENEM deste ano, “Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, aponta o quanto precisamos nos educar, politizar e ampliar o debate público acerca da violência contra a mulher. E precisamos também pensar na precariedade de vidas forjadas em diferentes experiências e pertencimentos de classe, raça e gênero, que tornam alguns corpos muito mais vulneráveis do que outros. O filme de Ana Muylaert, dentre muitos aspectos, nos faz refletir também sobre a vulnerabilidade sexual que os corpos de empregadas domésticas estão submetidos no contexto da bisonha cultura de estupro que vivemos.

Tempos amargos

Quando penso no nosso tempo presente, me recordo dos amargos versos de Cálice: tanta mentira, tanta força bruta. E dói, sabe? Presenciar o avanço desse conservadorismo, já tão reverberado e amplificado nas redes sociais, junto com a crescente onda de intolerância e da violência contra grupos minoritários, é coisa que faz dobrar até o mais otimista dos sonhadorxs.

E aí a gente cansa, quer jogar a toalha, dar um tempo.

Um beijo de duas mulheres idosas “choca” o país e faz com que toda uma trama promissora seja repensada. Uma travesti é brutalizada na cadeia (caso Verônica Bolina) e tratada como um animal em exposição pública. Uma mulher, Amanda Bueno, 29 anos, dançarina de funk, é morta de forma hedionda pelo companheiro e câmeras registraram tudo. Um menino de 10 anos, Eduardo de Jesus, é assassinado com uma bala na cabeça, disparada por um policial no Complexo do Alemão. Na política, os projetos mais conservadores e regressivos, como a lei da terceirização, que visa precarizar ainda mais as relações trabalhistas, corre grande risco de ser aprovado. A pavorosa redução da maioridade penal. A bancada política que atende aos interesses da bala, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e da negação dos direitos humanos está mais do que articulada e infiltrando seus tentáculos em tempos de crise e caos.

E uma das coisas que mais me doem, do macro ao micro, é ver essa perversidade expressada no campo do cotidiano. Gente que nunca soube na vida o que é viver sem seus privilégios de classe, cor, sexo, gênero e etnia, e, na atualidade vêm placidamente a público defender os seus interesses. Sim, as marchas dos dias 15 de março e 12 de abril foram protestos burgueses marcados pelo discurso de ódio e pela manutenção (e aumento) dos privilégios de quem já os têm e parece nunca se dar conta disso. Não é de embrulhar o estômago?

E o conteúdo político dessas marchas, afff… Desperta em mim a síndrome de Regina Duarte: elas me dão medo. Porque são movidas por racismo, por beligerância, pela aniquilação do outro, pela anulação da diferença. Na minha humilde cosmovisão, elas demarcam mais do que uma oposição política; elas são sintoma de puro mau-caratismo de uma elite rançosa, decadente e tacanha.

E, pra piorar o estado de coisas, a sociedade brasileira não se assume como violenta. Mas ela é, até o tálamo. Um prato cheio pra gente aplicar a tese da banalidade do mal, da Hannah Arendt. E uma cultura como a nossa, que permite a naturalização da violência, o mal, esse que desconsidera o outro e implode com a prática da alteridade e da justiça, tem se instalado com tamanha força que o que sobra pra gente é o peso do pessimismo e a falta de esperanças em dias melhores.
Mas amanhã, vai ser outro dia…
Tomara, viu?

Por que o aborto deve ser um direito?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Porque não engravidamos sozinhas e não merecemos o apedrejamento alheio por uma gravidez indesejada.

Porque não deveríamos ouvir coisas horrendas do tipo: “na hora de abrir as pernas, não pensou em usar camisinha, né?”

Porque não queremos ficar à mercê de açougues humanos que são grande parte das clínicas clandestinas de abortos deste país.

Porque tortura é obrigar uma mulher a levar adiante uma gravidez que ela não queira.

Porque não desejamos ser assassinadas caso o procedimento abortivo dê errado. Porque também não somos assassinas e nem criminosas.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

Porque vivemos em uma cultura masculinista que favorece a omissão do homem que nos engravidou.

Porque quase sempre estamos sozinhas e desamparadas nisso. No antes, durante e depois. E isso é doloroso pra caramba.

Porque o aborto é uma questão de classe sim. Pergunte isso a uma mulher pobre que quis abortar.

Porque não suportamos mais depender de redes clandestinas de venda de medicamentos abortivos, quase sempre falsificados.

Porque o nosso ventre não é um espaço para o seu moralismo religioso e seus discursos autoritários.

Porque os corpos são nossos e nossas vidas devem ter prioridade acima de qualquer coisa.

Porque não somos incubadoras ambulantes e nem depósitos sem valor que só servem para despejar crianças.

Porque não precisamos justificar para ninguém as nossas escolhas, a não ser para nós mesmas.

Porque, basicamente, filhos têm que ser frutos do desejo e não de uma imposição. Apenas isso.

Porque, mesmo que você não queira, sim, NÓS ABORTAMOS! Aborto legal assegurado pelo Estado já!

É assim tão difícil de entender? Ou precisamos desenhar?

Aviso: o moralismo mata

Aviso: o moralismo mata

Sobre o aborto – precisamos, muito

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Precisamos muito conversar sobre aborto. Este é o tema lançado pela revista Trip – TPM, na matéria publicada no dia 13 de novembro de 2014. Aqui no Biscate a gente tem falado muito sobre o assunto, antes mesmo da campanha desse veículo com maior visibilidade.

É quase impossível falar sobre aborto sem que alguém solte algo como “assassinato de seres humanos inocentes” se referindo, sempre, ao embrião em gestação, com a clara intenção de silenciar quem se manifesta a favor da regulamentação e descriminalização da interrupção voluntária da gravidez – que no Brasil só é não é punido criminalmente em três casos: gravidez decorrente de estupro, risco de morte para a mulher e depois do STF assim decidir, quando se trata de feto anencéfalo. E se mesmo os três casos em que não há que se falar em CRIME, ainda não há a regulamentação sobre como a MULHER vai proceder para se submeter à intervenção, pelo sistema de saúde público ou particular, e ainda há o estigma e ainda há a violência moral e até física contra a MULHER que escolhe não levar a termo uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo ou mesmo se houver risco de morte para a gestante, o que dizer sobre o debate amplo e consciente, transparente, claro, pacífico, sobre o abortamento voluntário?

1606921_842009922499794_318466483375386735_n

Me recordo a primeira vez em que pude ouvir e falar sobre aborto, na Faculdade de Direito da PUC MG, em 1997.

Aulas de Língua Portuguesa. Professora Jane.  “Júri simulado”. O tema: aborto. Ao meu grupo coube defender a legalização. Tantos anos depois, e me lembro que foi uma das poucas vezes na vida acadêmica em que pudemos discutir sobre o tema. Obviamente meu grupo “perdeu”, no júri, mas foi por pouco. E foi a primeira vez em que, sem internet ainda, pesquisei a fundo um tema. Maternidade Hilda Brandão, Secretaria de Segurança Pública, Biblioteca Luiz Bessa.

Enquanto escrevo, tento me lembrar dos números, dos dados. Eram parcas as informações, mas conversei com médicos, e havia mortes decorrentes. Muitas. E mortes invisíveis. Na SESP- antiga Secretaria de Segurança Pública, quase nenhuma informação. Nada que eu me recorde hoje.  E quase nada nos jornais. Poucas publicações disponíveis para uma jovem graduanda inexperiente. Algumas publicações em revistas impressas – talvez mais do que hoje!

Mas dos argumentos contra, eu me lembro. Um dos debatedores contrários era de uma religião que não aceita o aborto devido à crença na reencarnação. Outra era evangélica e outros, católicos. Mesmo no meu grupo, que devia “defender” o direito ao aborto não havia consenso, pois alguns eram pessoalmente, contrários (pausa para mencionar: que professora brilhante, Jane Quintiliano. Como trabalhou com aquele pequeno grupo de calouros em Direito as questões do discurso! Somente hoje eu consigo elaborar o quanto foram importantes aqueles seis meses de aulas para a minha formação.) Fim da pausa.

Os discursos contrários não se alteraram. Os argumentos são geralmente os mesmos, como se pode ver nessa pequena pesquisa “google” com o critério “precisamos falar sobre aborto”.

busca google falar aborto

Eu trabalho com a lei. Com o Direito. E o Direito, bem, ele é essa coisa que admite tanta interpretação, não é mesmo? Um delegado incluiu o ex-marido e a amiga de Jandira como partícipes do crime de “provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem o provoque”. Ah, a letra fria da lei… Ele está errado? Tecnicamente, não. Sim, é possível juridicamente defender essa tese, assim como tantas outras teses aberrantes, de um Direito focado em si mesmo, não visto como um instrumento. A LEI, essa coisa imutável, escrita na pedra – não, esperem… A LEI não é imutável, ainda bem. Ou seríamos ainda, mulheres e negros, objeto e não sujeitos de Direitos – coisas, bens, algo a ser comprado e vendido. Não faz tanto tempo assim que a LEI mudou. E além da lei, há a política criminal. As opções do “aplicador da lei”, seja ele o delegado, o promotor ou o juiz.

É preciso olhar além e adiante da lei, e por baixo da letra da lei, o que há, subjacente. Uma cultura que ainda vê a mulher como coisa, como incubadeira. Uma cultura que ainda vê a mulher que faz sexo como alguém que “merece apanhar”. Não faz tanto tempo assim também que a LEI, essa coisa imutável, extinguiu com uma norma que diferenciava o tratamento dado a um crime diante do fato da mulher ser “honesta” ou não, sendo que o “honesta” entre aspas mesmo já era questionado há quinze anos, quando meu professor de Penal, juiz e conservador, disse em sala de aula que nenhuma de nós ali, em uma faculdade  noturna de Direito, em 1997,  era uma mulher honesta, para os critérios do legislador e do julgador de 1940.

aborto3

Vejo que hoje, em 2014, estamos tentando discutir, debater, há pessoas sérias e honestas se dispondo a sair de dentro dos muros da hipocrisia para falar sobre o aborto como questão de saúde pública, e com questão de dignidade da MULHER, mas infelizmente, em uma pequena googlada é possível encontrar dezenas, se não centenas, de textos e vídeos escritos e produzidos por pessoas que usam com tanta futilidade do argumento da defesa da “vida” quanto se lixam para a vida e a saúde das MULHERES. Com argumentos geralmente religiosos e emocionais, muitas vezes agressivos e violentos. 🙁

Não desistiremos.

Nenhuma mulher tem que morrer por culpa da SUA convicção pessoal.

O direito ao aborto seguro é direito das mulheres!

E de perto…?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Outra vez, a estatística. De longe, é um número. O número de mortes no Brasil por causa de procedimentos clandestinos em razão do aborto. A quinta causa de morte materna no país. Morte. Mas… e de perto?

Quem é aquela moça? O risco dela morrer numa agulha de crochê é mesmo uma vingança por uma trepada descuidada? Até quando a gente vai considerar que o sexo é, basicamente, para procriação, um ato solene, um bater carimbo? Por que transformar o sexo nalgo sacro ou numa roleta russa, onde o pecado está ali ao lado e por isso você pode, inclusive, morrer?

Toda a questão filosófica sobre a existência, a vida, a perenidade, deus, deuses, deusas, mãe, mães. Toda a vida de debates, reflexões, camisinhas, pílulas, “responsabilidades” podem e devem estar nos cardápios, nas camas, nos dilemas, nas escolhas. Mas… e se?

aborto_site_28

A pergunta não é – como querem muitos – a de ser a favor ou não. Esta pergunta mascara intenção, esconde o verbo, oculta. A questão é manter na clandestinidade, no obscuro, na vala suja, um procedimento que feito de forma segura pode impedir mortes, prisões, dores e pontos finais. O comércio clandestino de quem pode pagar.

Vamos continuar fingindo que ali na esquina não existe uma gravidez indesejada? E agora, nesta maluquice pós moderna, vamos mandar para a inquisição, para a chama das bruxas, aqueles e aquelas que “contribuem” para a realização do aborto? Vamos mandar mais gente para lotar e lotar prisões por causa de nossa incapacidade em entender desejos e não desejos, possibilidades e não possibilidades, maturidades e imaturidades, diferenças, sexos?

O pecado original, a salvação, a danação eterna. Mas ali, ali na esquina, tem uma gravidez indesejada. E se a gente não mudar a lei, não descriminalizar, não oferecer amparo e proteção, vai continuar a significar morte, dor, ponto final. E estatística, lá longe.

Até ser aqui perto… Então, perguntamos: “E de perto…?”.

***********

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Cansei…

Cansei…

cansada (1)

… do acolhimento do discurso conservador por uma maioria sem memória da história política mais recente, identificada com os piores delírios da direita ultraconservadora.

… das viúvas e viúvos do regime militar, que salivam em imaginar a ditadura de um moralizador Estado mínimo (mas máximo na arrecadação de impostos).

… da ausência de empatia, alteridade e compaixão pelo outro (Um pouco de tudo isso não cai mal não, sabe?).

… do cinismo de nossa classe média, encampando os ideais das elites, que por sua vez, têm verdadeiro asco da vida de classe média. Ou do pobre que vota nelas, nas elites.

… do eterno mimimi dessa gente que não consegue enxergar um palmo além da sua bolha de privilégios – geralmente sem margem de erro pra mais ou pra menos: homem branco, heterossexual, cristão e de classe média.

… do discurso esquizofrênico da “nova política” (eu vejo um museu de grandes novidades – Cazuza já cantava essa pedra).

… dos meios de comunicação que são empresas a serviço de interesses hegemônicos e que dão uma cobertura política tão parcial e escusa que chega a beirar o criminoso.

… de ouvir que o PT implantará a ditadura comunista e patrocinará, além de Cuba, toda a China e a Coréia do Norte (bem que podia começar patrocinando o comunismo aqui no Maranhão, rs).

… do ódio de classe manifestado na ojeriza aos programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família (porque a culpa da pobreza é do pobre, como ensina o capitalismo e a meritocracia, by the way).

… do racismo esboçado por nossa classe médica contra os médicos (negros) cubanos do programa Mais Médicos (essa gente parece empregada doméstica!).

… das defesas apaixonadas por um Estado cada vez mais militarizado, autoritário e genocida da população negra e pobre, através da redução da maioridade penal (bolsonaristas vão ao delírio!).

… do perigoso discurso moralizador em defesa da família, proferido pelos “homens e mulheres de bem”. Vocês estão falando de qual família mesmo? Famílias higienizadas, sem veado, sem sapatão, sem trans, apenas com mulheres que não abortam e cheia de homens honrados?

… do racismo geográfico contra os nordestinos (essa gente sem estudos que não trabalha e que é um obstáculo para o desenvolvimento do sul maravilha, não é mesmo?).

… do argumento que a alternância de poder é uma marca da democracia, logo, o PSDB teria supostamente todas as credenciais para melhorar a saúde da coisa pública brasileira (Oi? A racionalidade mandou lembranças…).

… do preconceito de gênero em aceitar uma mulher na presidência. Pior ainda pelo passado de esquerda e militância que essa mulher carrega na sua história de vida (porque sim, isso é um demérito pra muitos).

… da arrogância de um playboy desrespeitoso e corrupto (agressor de mulheres?) que se põe como arauto da exemplaridade e dos bons costumes.

Enfim, cansei dos argumentos que não conseguem enxergar que o buraco é mais embaixo. Muito mais.

405423_165442536896518_1676306589_n

Notinha de Rodapé: No BiscateSC todo mundo é livre pra votar ou não em quem quiser…espia aqui.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...