I, Tonya e o círculo de violência

 Gilson Rosa*, Biscate Convidado

Eu sou uma pessoa dura. Gente mole e sentimental me levam à loucura. Acho que não existe nada que me irrite mais do que pessoas choronas e chorosas. REAGE, CARALHO. Eu nem sempre fui assim. Eu me tornei assim pra sobreviver. Não existia outro caminho. Só esse: trincar os dentes e seguir. A qualquer custo.

27752051_10208752252323393_6224489715683060362_n

Lavona Harding, assim como eu, é uma pessoa dura. Implacável. Ela é o que foi feito dela: Uma sobrevivente. Que sequer apaga o cigarro ao ver o marido e pai de sua filha entrar no carro e dar no pé,  deixando-a sozinha. Lavona nem se lembra mais como chorar ou se lamentar. Ela só trinca os dentes e segue. Lavona é o monstro que vai moldar, formar e ao mesmo tempo destruir e arruinar a grande patinadora Tonya Harding. Lavona tempera a pequena Tonya no fogo e no aço da pobreza, da privação e dos sonhos frustrados onde ela própria foi criada: Não existe lugar pra fracos. Lavona enxerga em Tonya um talento que a pode levar onde ela mesma nunca foi. E tenta por todas as maneiras possíveis torná-la vencedora. Sem se dar conta que essas maneiras implacáveis vão aprisionar a pequena Tonya no mesmo perpétuo círculo de violência e relações abusivas do qual nunca conseguiu se livrar.

27747485_10208752252163389_5947968302806914703_o

Tonya, como boa discípula de Lavona, abre o seu caminho a cotoveladas e pontapés. Na interpretação superlativa e visceral de Margot Robbie, Tonya é um dínamo movido a fúria, raiva, frustração e competitividade prestes a explodir a qualquer momento. Chega a ser irônico que um filme movido a esse tipo de combustão chegue a uma temporada de prêmios marcada pelo protesto das atrizes de Hollywood contra o assédio masculino. Pra Tonya e Lavona o mundo é esse onde elas duelam, se agridem e se machucam tentando fugir do circulo de pobreza, privações, pancadas e abandono dos homens as cercam. Nesse mundo, as roupas pretas do Globo de Ouro não significam nada.

14906864_10205828692916235_6183778969703579956_n* Choro de puta, deus não escuta

A violência de todo dia

Camara_deputados

O que aconteceu na noite de quarta-feira (06/05) no Plenário da Câmara Federal é de uma violência atroz. A deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) foi agredida fisicamente pelo deputado Roberto Freire (PPS/SP). Isso por si só já é uma demonstração bastante realista da violência cotidiana a que nós, mulheres, estamos sujeitas. O ato de Roberto Freire é equivalente ao do homem que agride a companheira numa discussão. O pensamento embutido nesse ato de violência é: “ora, se essa mulher não se cala, não se coloca no seu lugar, com um murro, um empurrão, uma facada, ela para”.

Pois bem, não bastasse esse tipo de violência dentro da mais importante casa legislativa desse país, o deputado Alberto Fraga (DEM/DF) ainda incitou e concordou com esse tipo de postura ao falar que “quem bate como homem deve apanhar como homem”.

Jandira Feghali, reconhecida pela sua luta em favor dos direitos das mulheres – com projetos pela legalização do aborto, como relatora da Lei Maria da Penha – foi vítima de uma violência extrema dentro do Congresso Nacional. Violência que de mais velada atinge todas as mulheres políticas desse país. A sub-representação feminina na política é só uma das faces do machismo institucionalizado, mas podemos pensar ainda nas piadas misóginas nos meios de comunicação, no descrédito das ações e projetos de lei protagonizadas por elas ou que incidem sobre a vida das mulheres, como a regulamentação da PEC das Trabalhadoras Domésticas.

Que a violência contra as mulheres está em todos os lugares, nós já sabemos. Que o machismo velado está presente nas instituições brasileiras, nós também já sabemos. Agora, uma violência física, seguida de uma incitação a mais violência, dentro do plenário da Câmara Federal é inadmissível. O discurso de Jandira Feghali, após a violência sofrida e aplaudida por muitos colegas, é muito contundente nesse sentido. A deputada relembra, inclusive, o que aconteceu com a também deputada Maria do Rosário, no ano passado, e que também não teve grande repercussão.

Essa legislatura, que é considerada a mais retrógrada desde 1964, tem feito por onde honrar esse título. O discurso de Jandira foi também um discurso pedagógico nesse sentido. Suas palavras soam como uma tentativa de “ensinar” a esses senhores o que é um Congresso Nacional, o que significa ser eleito e estar numa casa em que a vida das pessoas é decidida.

No entanto, é muito simbólico que a relatora da Lei Maria da Penha seja agredida dessa forma. Isso nos leva a crer que, bom, não estaremos nunca a salvo em uma sociedade estruturalmente misógina, racista, homo-transfóbica e elitista.

 

#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

banner 25nov_

Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? “A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* “O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie “Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! “Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? “De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

violencia contra mulher

Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

Miosótis

Entrevista-depoimento com/da MIOSÓTIS*

Contra a violência as mulheres. São Paulo, 23/11/2013. foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

#fimdaviolenciacontramulher :

” Nome fictício:  (é uma flor.)

Situação: 19 anos, sem emprego, sem filhos, e sem relação com o agressor.

Relato da violência: Estava voltando para casa (4 km de caminhada a 4 anos) quando ao terminar de atravessar uma das ruas, um carro bateu em mim. O meu antebraço ficou encaixado no carro (meu corpo ficando em cima do capô) até ele parar, mais ou menos uns 100 metros do local da pancada. Depois, vários motoboys me ajudaram ligando pra minha família e depois ligaram para a SAMU. Estava muito mole e tentando recobrar a memória, mas ainda não estava sentindo dor alguma. Por alguma razão, que ainda tento entender, não quis processá-lo. Ele pedia muitas desculpas, mas continuava com um discurso de que eu também estava errada por estar a pé, por estar sozinha e estar andando à noite. Total imbecilidade. No hospital, apesar de terem tirado Raios-X do meu corpo, disseram que eu não havia quebrado nada. Uma semana depois voltei por sentir dor no antebraço, aí descobri que estava quebrado. Depois disso tudo fui a um hospital particular e engessei o braço e fiquei uns três meses achando que o osso iria calcificar, mas não havia jeito. Depois de quase cinco meses depois do acidente (até marcar e fazer todos os exames demora…), tive que fazer uma cirurgia de enxerto de células ósseas, do meu próprio quadril. Depois fiz um mês de fisioterapia e o braço parece bem melhor.

Situação do processo: Não o processei, mas ainda estou juntando as coisas para receber o dinheiro do seguro obrigatório do carro, que cobre acidentes, o DPVAT.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido: o posto de saúde falhou muito ao me mandar para casa com o antebraço quebrado sem eu saber. Isso agravou o estado do meu antebraço, pois se soubesse na hora, daria para colocar o antebraço no lugar e não perderia todo esse tempo com dor.

De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge?
Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”
……………………..
*Texto originalmente publicado em novembro de 2010

Histórias de horror: pergunte a uma mulher

violence-against-women-facebookDomingo, mais ou menos umas 17h. Estava voltando do mercado quando um vizinho e grande amigo me chama para alertar a respeito de uma cena que ele viu, ao ir para o trabalho, na madrugada daquele mesmo dia: uma moça semi-nua, em desespero, cercada por policiais e moradores do entorno. Ela tinha acabado de sofrer um assalto, seguido de estupro.

Moro na periferia da zona norte de São Paulo e este é o terceiro caso que soubemos, num período de 10 dias. Sim, DEZ dias. Três garotas foram violentadas praticamente no “quintal” da minha casa. Poderia ter sido eu. Ou minha mãe. Ou uma amiga querida. E mesmo que não tenha sido com uma conhecida, foi como se eu tivesse sentido a dor dela em mim.  E sou capaz de apostar com vocês que toda mulher já pensou duas vezes antes de sair sozinha ou de confiar em alguém, temendo pela própria integridade.

16dias20081Situações como a que descrevi acima estão longe de serem restritas às periferias das grandes cidades. Acontecem todos os dias, no país inteiro. Basta ser mulher para ser uma vítima em potencial e para ter medo. Isso quando o estuprador não é alguém da própria família ou do convívio da mulher, característica da maior parte das ocorrências.

Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.

Estupro não é sexo. É uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher, que pode vir a destruir a sua vida e auto estima de um jeito muito difícil de ser superado. Estupro é tentar destruir alguém para mostrar poder. Todo ativismo contra ele é absolutamente necessário e nunca é demais. E se você ouvir falar de alguém que sofreu esse abuso, não pergunte que roupa ela estava vestindo, se ela “provocou” ou o porquê dela andar sozinha à noite. A culpa não foi dela.

Queria muito viver para ver o dia em que nenhuma mulher precise sentir medo.

Para saber mais: Número de estupros supera o de homicícios dolosos no país, diz estudo. (G1)

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero

O #FimDaViolenciaContraMulher é o bem que se quer!

16dias20081

O Biscate Social Club está entrando nos 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero, e de hoje Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta Contra a Violência à Mulher e Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher — até o dia 10 de dezembro — Dia Internacional dos Direitos Humanos — todos os posts do clubinho terão a eliminação da violência de gênero como tema, cada bisca escrevente com o seu olhar, sensibilidade, suas histórias e as histórias de violência que não podem ser esquecidas.

Adoraríamos viver num mundo, continente e país onde essa luta não se fizesse necessária. Mas, sua necessidade se torna cada dia mais premente. A violência contra a mulher de tão comum ficou banal. Há uma onda de suicídios de adolescentes por conta do machismo explicitado na divulgação de fotos da intimidade dessas meninas. Não começou agora, mas talvez o caso mais conhecido seja o da Fran. E a imprensa nunca diz o motivo principal desses crimes e nem se aventa a possibilidade de responsabilização criminal dos ex dessas meninas por suas mortes.

1401888_302675966537694_1188881183_o

O recente feminicídio de Letícia Monique, de 17 anos, pelo ex-namorado no Paraná, virou frisson da imprensa e na internet. Não pelo feminicídio ou pela vida de Letícia, mais uma ceifada pelo machismo, mas pela espetaculização do crime. Foi quase tudo gravado pela câmera de segurança do supermercado onde ela trabalhava. Mas, o mais impressionante das cenas, embora nenhum veículo tenha atentado para isso, é a inércia, a imobilidade das pessoas assistindo Letícia ser arrastada para fora do supermercado por seu assassino. Ela nitidamente pedia socorro.

Dizer que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher‘ não cola mais como justificativa para se omitir, a Lei Maria da Penha já permite que terceiros façam a denúncia à polícia, e o casos de violência contra mulher saíram do espaço privado tem muito tempo. Letícia não foi vítima apenas do machismo de seu ex-namorado, ela foi vítima do machismo de todas as pessoas que assistiram e seguem assistindo ao seu assassinato.

E aí, vai ficar só olhando? Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero. 😉

1471306_10200159095220228_1934062838_n

O que mais saiu na rede:

25 de novembro: contra a violência física e simbólica às mulheres – Blogueiras Feministas

Violência contra as mulheres: Já basta! – Marcha Mundial das Mulheres Brasil 

Vídeo da Marcha Mundial das Mulheres Brasil 

Conheça o Projeto Entre Nós

Receita Contra a Violência

Por Niara de Oliveira

Para uma vida sem violência, se você for HOMEM:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não manipule. Não estupre. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “presas” suas. Você não é um caçador ou um predador. Você é só humano, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas através do privilégio que tens agora pode se voltar contra você a qualquer momento. Se há alguém reclamando de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito.

Para uma vida sem violência, se você for MULHER:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção de que quem é maior que você e está em situação de privilégio poderá tirar proveito disso. Então, não recorra a subterfúgios para tentar manipular, porque se você é capaz de jogar as pessoas envolvidas no jogo são capazes de entendê-lo. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “concorrentes” suas. Você não é caça nem presa. Você é só humana, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas podem se voltar contra você a qualquer momento. Se há quem reclame de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito. Use a inteligência também para detectar as situações de violência não apenas quando você ou “os seus” poderão se tornar vítimas. Não se proteja das pessoas, mas da violência com que elas possam te atingir e atingir os demais. Se organize com as outras mulheres e com os demais grupos tidos como desprivilegiados na escala do poder e opressão. 

LEMBRE-SE: machismo, racismo e homofobia são estruturais. Não existem pessoas machistas, racistas e homofóbicas. Existem ATITUDES machistas, racistas e homofóbicas e TODOS NÓS podemos cometê-las a qualquer momento, até mesmo quando temos a melhor das intenções. Não há ideologia, organização, cor, orientação sexual, religião ou boa intenção que te imunize desses preconceitos estruturais. Saibamos que ao tentar seguir essa receita iremos errar e o que vai nos diferenciar será a forma como trabalharemos esse erro. Como diria um negão da pesada do samba, o Noite Ilustrada, “reconhece a queda e não desanima… levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Ouça aqui!

LEMBRE-SE: qualquer sistema baseado no cerceamento de liberdade e direitos e que segregue as pessoas produz obrigatoriamente violência e NINGUÉM está a salvo nele.

O 25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, em homenagem a LAS MARIPOSAS. Patria, Minerva e María Tereza Mirabal foram atraídas para um emboscada e assassinadas pelo ditador Trujillo na República Dominicana em 1960. A data foi escolhida pela Assembleia das Nações Unidas em 1999 para o dia de combate à violência sexista.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...