Bastiana e o novo clip da Anitta

Eu estava pensando em biscatear por outras paragens, mas ontem a Anita lançou música e clip – que eu não ouvi nem vi, não é esse o cerne do post – e rolaram comentários desde “puta” – como ofensa – até considerações sobre a presença de celulite da sua bunda. Já falei sobre usarmos puta como xingamento e deixei claro que considero como absurdo tosco. Mas repito.

Chamar uma mulher de puta como se fosse ofensivo faz parte de um comportamento generalizado de buscar ofender mulheres considerando seu comportamento sexual (tem até nome em inglês, slutshaming). A sociedade apresenta um padrão moral ao qual as mulheres devem se submeter e que abrange itens desde o tamanho do decote até a quantidade de bocas beijadas, fluidos trocados, bares frequentados… e por aí vai. O bom e velho “mulher tem que se dar ao respeito” ou a versão disfarçada “sexy sem ser vulgar”.

Policiar o corpo e a sexualidade feminina é uma forma de controle, ainda mais violenta porque internalizada e reproduzida, muitas vezes, pelas próprias mulheres. Esta condenação do comportamento da mulher induz, muitas vezes, à culpa, vergonha e sentimentos de inadequação. Nós, mulheres, não devemos, não podemos. É feio, é pecado, é perigoso (e aí quando alguém é assediada, abusada, estuprada, sempre perguntam: mas onde ela estava? O que estava vestindo?) ter prazer com o próprio corpo, seja a aceitação estética do mesmo e suas particularidades, seja o usufruto sexual. É como se a dignidade feminina dependesse do seu comportamento sexual.

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Muitas mulheres procuram se adequar ao esperado, reprimem sua sexualidade, justificam a violência contra outras mulheres que não acatam o modelo… mas isto não as protege. O ideal de comportamento feminino é sempre além do alcance: amamentou em público? despudorada, pode ser ofendida; saiu tarde da aula e estava sozinha na rua voltando pra casa? fácil, pode ser ofendida; conversou com o amigo do seu marido, sozinha, enquanto ele chegava do trabalho? oferecida, pode ser ofendida. Mais ainda: cometeu um equívoco no trânsito, discordou do colega de trabalho, questionou a atitude de um homem? Mesmo que não sejam comportamentos ligados à sexualidade, é este o tópico que virá a tona na ofensa consequente: puta, rameira, vadia.

É fácil identificar o machismo presente quando se busca ofender mulheres tendo como referência sua liberdade sexual: é só reparar na discrepância de parâmetros para meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres. Pra quem se diz “cuidado, não sente de perna aberta”? Quem é depreciado por ter muitos parceiros sexuais? Quem é condenado por não se vestir decentemente?

Vez ou outra eu vejo, mesmo em meios feministas, que a liberdade sexual das mulheres deve ser “com moderação” porque mulheres sexualmente livres agradam aos homens (oi, heteronormatividade, você é insistente e insidiosa, né). Digo eu: necasquipitibiriba (sim, eu sempre argumento com fluência). Não existe liberdade sexual demais. Existe liberdade e ausência de liberdade (e, claro, ninguém é livre, a gente está livre em alguns aspectos e em outros, não, dinamicamente) e regular o comportamento de uma mulher porque ele pode agradar ou desagradar um homem continua mantendo o homem no centro das decisões.

Não é da conta de ninguém se eu uso decote. Não é da conta de ninguém se eu rebolo. Não é da conta de ninguém se eu trepo. Se estou querendo, se estou gostando, se o outro ou outros estão querendo, estão gostando, é só o que deveria importar.

E a celulite na bunda? Tenho. Opa, não era isso. É que consideramos que o corpo de uma mulher é disponível para nosso julgamento e escrutínio. “Os corpos das mulheres são públicos para serem tocados, narrados, rotulados. Seja o corpo desprezado, ridicularizado, marginalizado, os corpos gordos, deficientes, velhos; seja o corpo-troféu, magros, malhados, cirurgicamente tratados, duramente conseguidos, incensados na mídia. Os corpos das mulheres estão aí para serem questionados. De uma forma ou de outra, essa mulher está sempre errada” (texto, completo, aqui).

 Então eu não tenho nada a dizer sobre o clip da Anita – porque não vi. E não tenho nada a dizer sobre o corpo da Anita e o comportamento sexual da Anita porque não é da minha conta. Não é da sua conta. Não é da conta de ninguém, senão da própria Anita. “Mas os homens vão bater punheta com a bunda dela”. “Mas ela favorece a objetificação da mulher”. Uma dica: lutar pela autonomia da mulher é lutar para que cada uma de nós seja responsável pela nossa vida, pelo nosso corpo, pelas nossas idéias, pelo nosso comportamento. Não pelo comportamento do outro. Deve ter estratégia melhor de transformação estrutural do comportamento dos homens que inibir alguma ação de uma mulher.

Por fim, certa estava a Bastiana que decidia sobre suas roupas, seu corpo, seu comportamento tendo como critério o que era melhor pra ela: se facilita, tá bom.

Ah, o funk!

Já tem um tempo que as pessoas em minha timeline tem atacado sem dó nem piedade o funk, fazendo comparações com outros estilos musicais, principalmente o rock. Sou rockeira, por muito tempo me recusava a ouvir funk, pagode, axé. Sim, eu tinha essa atitude preconceituosa e me achava super culta de falar mal de músicas que não me pareciam inteligentes. Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes eram músicas brasileiras dignas de se ouvir. Ouvia rock e pop internacional mas nem olhava para o pop nacional ou para o rock nacional pós anos 90.

Grande sensação da música POP para as minhas alunas MC Beyoncé

Grande sensação da música POP para as minhas alunas: MC Beyoncé

Precisei conviver com adolescentes para rever esse meu conceito, eu adorava Walesca Popozuda por ser um ícone, não por cantar funk. Com a convivência com meus alunxs adolescentes, conheci Naldo, MC Koringa, MC Beyoncé. Por algum motivo eu fiquei apaixonada pelas músicas da Beyoncé e do Koringa, vou à academia pra fazer aula de Jump só porque o professor coloca MC Koringa, uma a duas músicas por aula! Sim, agora eu amo Funk!

Gosto de como o Naldo fala da sexualidade, com naturalidade, um sexo de verdade, entre duas pessoas que se gostam. Acaba com o clichê que música romântica é sempre feita para mulheres virginais. Ele fala de romance, de amor, de sexo. O machismo nos faz acreditar que falar da sexualidade de uma mulher a denigre, o que vemos são mulheres que fingem não ter sexualidade, não usam decote, não usam short curtinho, não rebolam até o chão, não fazem sexo casual. Essas coisas diminuem a mulher, transformando-a em biscate, galinha, vadia, puta! É aí que o Naldo, casado com uma dançarina, que fala da vida sexual dele em suas músicas românticas, entra. Ele não fala da amante, ele fala da mulher da vida dele. A mulher que faz sexo gostoso pode e deve amar e ser amada, quebra de preconceito total!

Claro que existem músicas tipicamente machistas no funk, como existe no rock, no pop e no pagode. Até na antiga MPB existiam cantores machistas, que denigriam a imagem da mulher como indivíduo. Pra mim denigrir a imagem da mulher está muito além de falar explicitamente de sexo, falar de submissão é denigrir a imagem da mulher, pra mim. Falar de estupro, de proibição, forçar uma imagem que transforme mulheres em objetos dos homens, isso sim é denigrir a mulher. Fazer sexo e rebolar até o chão não denigre ninguém!

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

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