Sinal Fechado – Encontros E Despedidas

Por Rafael Fabro*, Biscate Convidado

“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe…
Quanto tempo… pois é…
Quanto tempo…”

O tempo parou, o avião caiu, a garganta fechou. Saindo de casa às 7 pra levar filha na escola como no cotidiano do pão-com-manteiga de sempre, o porteiro chama de sopetão e esbaforido: “caiu… o avião da Chapecoense caiu!”. Vou ver um pouco da tv com ele, recebo as primeiras notícias gravíssimas e fico num misto de perplexidade e tristeza relembrando a fábula da pequena equipe que alça voo rapidamente em busca de títulos impossíveis.

Esposa desce de elevador, seguimos para o carro, rapidez pra chegar ao destino, rádios aos montes (não) dão conta do acidente aéreo. Vou catando os nomes jogados por locutores catatônicos: Caio Júnior, Bruno Rangel, Kempes, Josimar, Thiego, Cleber Santana, Mário Sérgio, Deva, Paulo Julio Clement, Victorino Chermont, vários da imprensa, convidados,… Eis que surge um nome aparentemente vivo no meio da consternação radiofônica: Danilo. Sorrio com a compensação pouca, falo de lado: “baita goleiro, ele que defendeu a bola que os levou pra final”. Penso no meu pai com câncer, operado há poucos dias, criado no Oeste de Santa Catarina. Lembro por alguns segundos num sinal fechado qualquer do trânsito do nosso papo no hospital sobre o timaço do Torino que teve seu drama aéreo na Colina de Superga, em 49. O nome do goleiro deles, Bacigalupo (quando moleque, adorava esse nome das histórias paternas; quando ia pro gol nas peladas, me imaginava o tal italiano do esquadrão). Faço uma ponte entre os dois arqueiros. A mistura clássica inconsciente faz das suas e sigo viagem liquidificando imagens infantis às atuais.

O dia passa com buscas vastas por notícias, papos melancólicos em grupos de Whatsapp, olhadelas no Facebook, indicador subindo e descendo tela do Twitter. O choro é geral e em várias tonalidades. Fala-se do conto de fadas espatifado ao meio, do Davi contra Golias, de como aquele time catarinense era tão simpático aos olhos de todos. Na hora do almoço, as esquinas vão jorrando bocados da tragédia sem lá muita ordenação e temperando as teorias de engenharia sobre como ocorreu a queda. Todos falavam sobre futebol, destroços, pane seca, companhia pequena, Bolívia, Venezuela, a morte ou não de Danilo, da grandeza do Nacional de Medellín em desejar dar o título à Chape. Não havia piada, uma mísera piada. Para um povo tão ligado à zoeira como esporte em quaisquer áreas, era assombrosa a capacidade de lidar com o assunto de um modo novo e cuidadoso. Entre grupos, se pedia para que não se colocassem fotos da tragédia como abutres fizeram tantas outras vezes (em redes diferentes de comunicação): Mamonas, Onze de Setembro, atos terroristas outros e qualquer banalidade diária carioca. Houve um respeito por horas, dias. Nenhum meme deu as caras na era da comunicação cada vez mais onomatopeica e primária em que escrever textos além de três frases é quase um acinte.

“Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe?
Quanto tempo… pois é… (pois é… quanto tempo…)”

Os minutos foram céleres na terça melancólica. Danilo foi dado como morto, os sobreviventes e suas lesões foram sendo nomeados com mais precisão, notícias de homenagens dos quatro cantos do mundo nasciam aos borbotões. Minutos de silêncio, “todos somos chape”, “força chape”, escudos brasileiros todos em luto e identificados como um só: Associação Chapecoense de Futebol, em preto e branco. As redes sociais fizeram a vez da praça pública, do encontro entre abraços chorosos de antigamente. Enquanto isso, na Arena Condá, em Chapecó, território marcado pelos feitos da equipe quase toda extinta no voo para Medellín, os torcedores, simpatizantes e familiares das vítimas iam se unindo para o velho rezar de velas na mão em meio a cânticos.

Bailavam na mente vários significantes como “morte”, “futebol”, “fim” e “lenda”. Em poucas horas, percebi que estava diante de algo gigantesco. Passaram terça, quarta, quinta,… Coberturas com especialistas em acidentes aéreos, comentaristas esportivos lamentando a morte de colegas de profissão, âncoras tentando extrair o máximo de entrevistas, boletins médicos de sobreviventes e mortos, postagens nas aceleradas redes sociais de inúmeras celebridades do mundo do futebol, um palavrório sem fim para dar conta do indizível do corte abrupto do sonho. A metáfora mais repetida era de que “iriam conquistar a América e acabaram por conquistar o Mundo”.

Talvez o momento mais generoso e simbólico dessa suspensão do tempo que vivemos foi a incrível celebração confeccionada com um capricho e um cuidado admiráveis pela cidade de Medellín no Estádio Atanasio Girardot que seria palco do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana entre o time da casa, Atletico Nacional de Medellín e a briosa Chapecoense, na quarta-feira. Todos que pagaram por um ingresso para aquilo que seria mais uma partida de futebol acabaram assistindo a uma cerimônia fúnebre de poesia única por unir povos, culturas e dores. Velas e flores entrelaçadas às mãos, camisas brancas, bandeiras verdes tanto do time local quanto do catarinense pintavam o quadro da noite de comunhão de uma humanidade perdida há tempos num baú qualquer empoeirado da civilização.

Foi uma semana inteira daquela angustiazinha dolorida a tomar o ofício diário e as tarefas mais comezinhas. Só pensava no voo da famigerada Lamia, no antes, no durante, no depois que não é mais depois. No tempo que parou. Conversei com toda sorte de gente para compartilhar figurinhas: “troca aqui minha ansiedade carimbada por uma náusea repetida?”. Todos, sem exceção, falavam da Chapecoense. Todos, sem exceção, de repente, sabiam quem era Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, sobreviventes da tragédia, o goleiro Danilo e sua defesa milagrosa na semifinal que virou poema e destino, a paternidade recente do Thiaguinho, dos que não voaram por problemas banais e choravam agora nas tvs. Todos eram torcedores do Verdão do Oeste Catarinense, já sabiam de cor sobre a mística da Arena Condá e o pequeno mascote Indiozinho.

No sábado pela manhã, chuva torrencial em Chapecó a receber dezenas de caixões vindos da Colômbia. O momento nevrálgico da devastação iniciava: o velório com os corpos de cinquenta pessoas no campo da Arena Condá lotada. Tvs, rádios, sites mostravam cada quilômetro percorrido pelas carretas e os esquifes. Narrações, comentários e ofício profissional do jornalismo à beira das lágrimas frente ao microfone de trabalho. Não foram poucos os exemplos de repórteres que embargaram a voz, gaguejaram, choraram, se humanizaram. Estávamos diante de algo inédito: um episódio que chocava até os mais veteranos no papel de contar uma história, qualquer que fosse. Antes do sábado, a cena mais emblemática da cobertura da mídia e do caso em si foi o abraço maternal de Dona Ilaíde, mãe do goleiro Danilo, no repórter da SporTv, Guido Nunes. Num amparo que destruía qualquer lógica, a mãe sem filho consolava um representante da imprensa por seus vinte mortos. Rodou o mundo o abraço generoso, símbolo de uma semana única, triste, plena de ruínas, mas demasiadamente humana.

Entravam no estádio, então, os mortos de Chapecó e do mundo. Não eram só os heróis da Chape. Eram mais, muito mais. Cinquenta idas e vindas de oficiais carregando féretros às famílias e o mundo assistindo boquiaberto uma sucessão de angústias, berros, aflições, choros desbragados, cânticos entoados pelas arquibancadas, discursos aos microfones, quadros com fotos de jogadores levantados como troféus a dar volta olímpica e um sentimento inenarrável de empatia, compaixão. Conquistaram a América e o mundo. Por uma semana, nos compadecemos, nos entregamos a tentar entender o outro, o mínimo que fosse.

“Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal …
Eu procuro você
Vai abrir…
Por favor, não esqueça,
Adeus…”

Passou o sábado, a noite escureceu sobre os caixões que restaram ali na Arena Condá. Alguns já tinham voado para serem velados e passar por rituais fúnebres em suas cidades. Passou domingo, segunda e uma semana inteira desde o choque. Todos sepultados, chorados, arranhados, tocados com mãos crispadas a desejar que não fossem para sempre. Enquanto isso, aqui e ali, jornais impressos, mesas-redondas já entoavam a mesma ladainha num misto de tristeza com faxina de serpentinas de fim de carnaval. O “Vida que segue” de João Saldanha virou vírgula pro bem e pro mal. Para se falar de vida, morte, na crença religiosa de cada um ou para desabotoar as falas guardadas por dias sobre Brasileirão, rebaixamento, quem vai para a Libertadores, novos técnicos, como fica 2017 e os ingredientes batidos de sempre. Os encontros com a humanidade, essa vizinha desaparecida, foram escoando pelo ralo pouco a pouco. Enquanto escrevo essas letras, começa um Grêmio x Atlético-MG valendo a Copa do Brasil de 2016. Dizem que o show deve continuar, mas as despedidas solenes, lindas, inesquecíveis da semana que passou não mereciam ser tão fugazes.

Escutando “Sinal Fechado” e seu desconforto desde os primeiros acordes, silêncios cirúrgicos, seu encontro à beira do desencontro, achei a trilha sonora pra angústia que sobrou dos destroços. Enquanto muitos parecem seguir a vida e deixar as vestes do luto ao chão, pois é preciso “seguir a vida”, penso na tensão da música, no desencontro inevitável, nessa relação contemporânea cada vez mais ensimesmada e que de vez em quando tem seus soluços, seus sinais fechados, para abraçar, velar, escrever obituários e chorar. Lágrimas com prazo de validade. Afinal, já se passaram oito dias e as buzinas já estão bufando ali atrás. Não há “timing” para se escrever sobre isso. Porém, a pena aqui se deita no papel de teimosa, o tempo dela nada tem de cronológico. Sou um atrasado crônico, meu tempo é outro.

Diante de tantos aprendizados na última semana, desse eterno vai-e-vem e a plataforma da Estação como metáfora da vida, como na genial música do Milton, só nos cabe ter tempo de calar, chorar, vivenciar as perdas, acalentar feridas abertas, abraçar quem (se) perdeu, sorrir pela generosidade de tantos. Sabermos de que há sim, por mais que o mundo contradiga diariamente, um tempo de espera, de suspiro, de bálsamo, da escuta curiosa e detalhada, do cuidar do outro. Há o outro.

Não tampemos como máquinas ditadas por um relógio tirânico a tampa dos caixões, não devolvamos aos lenços as lágrimas choradas por viúvas, não pensemos em campeonatos, escalações, em rebaixamentos, em tapetões e vilezas. Isso haverá, é da humanidade seguir ao tropeções. Uns seguem sem parar um segundo para olhar para trás, outros demoram um bocadinho mais à beira do jazigo confortando-se com uma prece ou uma conversa amena. Contudo, que tudo que se fizer por dias, meses, anos a fio sejam crivados por saudade e solidariedade no mundo do futebol e fora dele. Que o luto e a memória do que ocorreu nos últimos oito dias não sejam enterrados na cova rasa dos indigentes.

“Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai
Pra nunca mais… A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida…”

26915_411153295819_692120819_5101492_2156148_n* Rafael Fabro é moço gentil, de gostos acurados: Chet Baker na vitrola, não perde um Fellinni  na tela e, caso seja hora de ler, Paul Auster vai bem. Com esse estilo, claro que frequenta e curte nosso clube. Sabe ser amigo de biscate, ah, sabe! Carioca, psicólogo, vascaíno (tem que ter um defeitinho, né) vai aprendendo a ser: pai, marido, amigo, escrevinhador de belezuras.

A misteriosa tabela entre a caixa de retalhos, a bola e a descoberta da liberdade

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado
#BiscateandoEntreAsQuatroLinhas #BiscateFC #2anosBiscateSC

Quase que o apito, final. O ano. Abro jornal, correio, caixa de email. Caixa de costura… Gosto de ler sobre futebol. Zilhares de metáforas, que bem cabem em tudo. Das analogias, com a vida, com a guerra, com o amor… O meia que costura. A meia costurada, cerzida. Urdiduras…

coração bola

“A menina cresceu, mas ainda hoje, como todo atleticano, quando ouve um estouro de foguete, grita: GALOOOO!!!! “. Em maio de 2012, nos primórdios do blog, fomos convidados a escrever sobre nosso time do coração. E eu encerrei meu texto, Paixão em Preto-e-Branco, com essa frase. E outro dia, no Facebook, uma amiga, de São Paulo, que mora em BH, falava sobre a estranha mania dos belorizontinos de gritar GALO, do nada, em coro. Só que não é “do nada”, especialmente nesse final de ano: 2013, TREZE, é GALO, é CAMPEÃO DA LIBERTADORES, campeão das AMÉRICAS… e o final do parágrafo acabou no Raja, um time africano desconhecido para nós, que só olhamos para nossos próprios umbigos, um time africano que derrotou o Atlético e cujos jogadores disputaram um sorriso do Ronaldinho Gaúcho, reconhecendo o talento mundial. Pena que nós subestimamos o talento deles, todos, e não mostramos futebol nenhum. De toda forma, ainda assim, 2013 foi o ano do Galo, vencendo o título inédito e nos fazendo cada dia mais ter orgulho de torcer para o Clube Atlético Mineiro.”

Fui lá. Fui tentar entender, buscar, compreender, desenhar, rascunhar, chorar e mais um monte de verbo tudo junto misturar. Nesses dois anos foi sempre assim. Um texto ali e outro ali, estórias e histórias, por mais que saiba que as regras da gramática, do vernáculo, da boa escrita, teimam em afirmar que as primeiras não existam mais. Mas regras… quem acostumou a menstruar sabe bem que nem sempre…

“Ser tricolor vai além de ser um resultado prático de animação por cheer leaders eletrônicas ou por ufanismos bestas, não é um sintoma de arrogância clubística cortejada pelas redes nacionais de mídia, menos ainda é cortejar felicidades iludidas aliando-as ao abandono quando navegamos pelos vales da sombra da morte. É mais do orgulho histórico de sermos ela, a História, com seus erros e acertos, com suas dúvidas, lambadas e rebaixamentos, com a lama nos sapatos, na alma, na camisa. É mais do que nos ater a Dons Sebastiões rotos e esfarrapados como ex-deputados sujos de charuto e de manobras. É mais do que portar o estandarte de uma glória inexistente, de museu mesmo, e arrotar uma grandiosidade ao mesmo tempo que abandona as parcas cores por que o amor de sua vida não repete o que Anjos de Pernas tortas fizeram em passado longínquo. Ser tricolor é, antes de tudo, Ser. Ser tricolor é cantar, com Candeia, que “de qualquer maneira meu amor eu canto, de qualquer maneira meu encanto eu vou cantar!”

Mas que textos! Já chorei, ri, compartilhei, amei e até odiei. E sou outra agora. Depois de dois anos, aquela que achava que certas cousas eram importantes, mas não fundamentais, mudou de lado, de escrete, de time. Já me chamaram até de feminazi, numa idiotia de quem não quer entender para além do próprio umbigo. E da própria impressão que faz de si mesmo. Para nosso espelho quase sempre somos lindas, lindos, perfeitos, engajados até. Aprendi, firme, que não: fundamental. A velha anotação: o time joga, perde uma, perde outra, ganha uma, ganha outra, mas é, também, o campeonato que disputa.

Mais de ano e meio depois deste texto aqui, o que ali estava desenhado se concretizou: a despeito de um título de Copa do Brasil sofrido e até heroico, fizemos uma péssima campanha no Brasileirão e caímos à B. Subimos, é verdade, e em 2014, ano do centenário, estaremos de volta à elite. Muito provavelmente para ser um ano centernada e com sérios riscos de disputarmos o Tri da Série B em 2015. Mas, isso pouco importa. Na alegria e na tristeza; na saúde e na doença; na moderna Arena de nome alemão ou nos maltratados campos estado e país afora; continuaremos sofrida mas apaixonadamente cantando:  “Palmeiras minha vida é você….””.

Da primeira vez que me chamaram “biscate”, doeu. Opa, se doeu! Porque ali naquela palavrinha havia um adjetivo. Uma consideração, uma opinião, um rótulo, um pré: conceito. É difícil, muito, mesmo, sempre, sentir esta labareda que sobe o ventre, molha o sexo, explode no coração, muda a entonação do cérebro. Hoje sei, “biscate” é substantiv(a). Mais que palavra que só acompanha. Mais que palavras… Mais do que os jogos, bem mais que os jogos.

“Em 2012, quando tivemos o especial de futebol no Biscate, o Atlético Paranaense, meu Furacão, amargava a segunda divisão no Brasileiro. Hoje não só estamos na primeira divisão como conquistamos uma vaga na Libertadores. Fizemos uma final inédita contra o Flamengo na Copa do Brasil (parabéns pelo teu rubro-negro Luciana!) e temos, no elenco do time, o artilheiro do Brasileirão 2013. Ser torcedor do CAP – Clube Atlético Paranaense – é viver com o coração na mão, entre altos e baixos, mas nunca, jamais, despir a camisa rubro negra que, como diz o hino do time ‘só se veste por amor’.”

Fui aqui escolhida, e confesso lisonjas, bela, nua, inteira, para escrever nestas festas de dois anos deste blogue linda. Fêmea. Plural. Legal, de bom e não de de direita – feminino de direito ou definição ideológica do palco da revolução. E resolvi que neste texto seria ela, que acaba por muitas vezes e muitas vezes tentar compreender o que se passa por uma cabeça feminina.

“Em maio de 2012 o Brasil de Pelotas estava na segundona do Gauchão e tinha ganho na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Depois disso foi rebaixado para a série D pelo STJD, entrou na justiça comum contra a CBF e a FGF, e se segurou enquanto pode enfrentando a cartolagem do futebol. Mas sabe comé… índio pequeno – mesmo guerreiro – num mar de tubarão… virou isca pra peixe. 2012 encerrou sem títulos, como sempre; mas com promessas e o crédito da torcida, como sempre. Finalmente, em 2013 voltamos à elite do Gauchão. Brasileirão? Sei lá… Andando pro Brasileirão. 2014 teremos de novo o maior clássico do universo futebolístico: o BRApel, e… “nós esse ano vamos vencer, salve o Brasil, o campeão do bem-querer”! Eu acredito.”

coração costurado

Aprendi muito das mumunhas nesses dois anos: a simples “conferida” pode encerrar um conteúdo político, sexista, machista, feio. E eu, que sempre gostei de olhar, admirar, paquerar, brincar, começo a pensar que seria muito linda a noite depois da revolução. Onde estas questões se resolveriam sem medos, receios, tolices, mas sem opressão, caralho de qualquer tamanho, tamanho qualquer de quadril. O jogo, a bola, a jogada arquitetada – ou intuição, talento, faro, tino.

“Entre maio de 2012 e dezembro de 2013, algo não mudou no Grêmio: a “seca”. Não ganhou absolutamente nada. Sequer um turno do estadual. Nem mesmo o grupo da Libertadores de 2013: ficou em segundo lugar, atrás do Fluminense. Mas nesse tempo aconteceram importantes mudanças. Paulo Odone felizmente deixou a presidência, para o retorno de Fábio Koff. Também houve a inauguração da Arena, em dezembro de 2012. Um belíssimo estádio, sem dúvidas, que oferece muito mais conforto que o Olímpico. Mas lá falta algo: alma. Parece um lugar mais voltado ao consumidor do que ao torcedor. Onde um cachorro-quente bem fuleco (eis um bom uso para o nome do mascote da Copa: como palavrão) custa os olhos da cara. Onde a norma é assistir ao jogo sentado em uma confortável cadeira… Como se estivesse em casa. Mas se é para assistir “como se estivesse em casa”, por que ir ao estádio? Minha última partida no estádio foi em abril: Grêmio 0 x 0 Fluminense, pela Libertadores. Nunca passei tanto tempo sem ir a um jogo do meu time. Talvez volte em 2014, já que tem Libertadores de novo (e num grupo difícil pra caramba). Dizem que o estádio é nossa segunda casa, mas a verdade é que agora me sinto mais em casa assistindo no buteco, junto com aqueles que não podem pagar caro por um ingresso.”

Estou aqui a cerzir. Costurar cousas neste canto de sala que tem meu computador, alguns livros, dicionários. Cerzir, fantasiar sobre tecidos puídos. Costurar, que as etiquetas todas dão como tarefa de menina porque “banal”. Enquanto que o alfaiate faz o chique, o soberbo, o diferente. Tão simples de entender as razões desses significados, destas dicotomias… mas que demora tanto quando a gente simplesmente não quer tentar entender. O passe está lá, a redonda também… o que nos impede de jogar o fino?

“Há dois anos escrevi sobre o Vasco. Ainda assinei com meu pseudônimo, Letícia Fernández, e me empolguei falando do orgulho de ser vascaína. Falei dos cem anos de história do meu time. E é exatamente essa história que vem sendo apagada hoje. Preciso explicar? Todo mundo viu a barbárie do último domingo do campeonato. Meu time do coração caiu para a segunda divisão, e isso não é nada perto do que aconteceu. O Vasco não caiu de pé; pelo contrário, caiu em meio a muita violência e vergonha. Continuo vascaína, porque torcer por um time é um amor que não se explica, mas, agora, não carrego a cruz de malta com nenhum orgulho. Minha torcida, agora, não é por gols, mas sim por decência no clube do meu coração.”

E quando me convidaram para escrever, que beleza, resolvi que seria Alfaiata. Minhas fazendas e vestidos nesta festa de comemoração: falar de futebol! Alfaita, treinadora, professora, lutadora. Tática, métrica, ponto, linha, agulha, ponta de lança, artilheira, zagueira, goleira, comentarista, corneteira… biscate.

“Transição. A palavra serve para definir o que foi o Santos de 2013. Com um presidente que já vinha se afastando por problemas de saúde e agora definitivamente licenciado, além de um técnico cansado e cansativo saindo do clube, o torcedor teve que ver seu maior craque pós-Era Pelé ir embora justamente para o clube catalão de tão amarga lembrança. Foi a saída do gênio ainda garoto que determinou a queda de Muricy, a quem o santista tem gratidão pela Libertadores de 2011, mas pelo qual nunca teve reverência, por conta de seu DNA nada ofensivo. E o samba de uma nota só caracterizado pelo refrão “bola no Neymar que ele decide” deixou de existir, dando lugar a um time comandado por um maestro ainda inexperiente, Claudinei Oliveira, que talvez tenha grande futuro à frente de outras orquestras. Fez o papel que lhe cabia, e era o que se podia fazer, lançou jovens e recuperou jogadores experientes, como Montillo. Deixou um legado (palavra da moda) e o torcedor alvinegro pode ver um Santos mais afinado com alguns reforços em 2014.”

Futebol que se define macho. E por isso, bestializam – no sentido de feras animalescas e não no bestial de estupendo, fenomenal, maravilhosa. Naquilo que podemos fazer, o melhor que faríamos, era desmachar o ludopédio. Porque a bola, é fêmea. A meta, mulher. A torcida, a peleja, a vida, a paixão, a desmedida. Olha que linda a partida, olha que maravilha, que bestial. Plural, porque coletivo. Singular, porque comum de gêneros.

Não pense que estou dizendo isso pela proximidade do “ano novo”, estou dizendo essa frase desde junho, aliás desde junho eu gostaria que o ano acabasse… Sem casa e sem comando, o meu AMOR se perdeu, tropicou, quase caiu /o\ Briguei, xinguei, chorei..agora passado o susto , quero que venha 2014 e que o velho-novo GIGANTE seja o palco da nossa reconciliação. Te amo INTER, meu CAMPEÃO DE TUDO, e sei que o GIGANTE me espera para começar a festa!!!!”

E mais, não me cabe só falar – escrever – sapatear – brincar – sobre o futebol. Outra das missões era costurar um conjunto de parágrafos e linhas descritos sobre nossos times, nossos casos de amor, nossas camisas. A minha são-paulina e as outras. Biscates que somos! E não é porque este campeonato brasileiro acabou que a linha deixou de ter sentido. O novelo todo, segue lá, necessário. Alias, já houve um “biscateando nas quatro linhas”, uma série de paixões moventes que encantou o blogue no ano passado e que inspirou este brigadeiro.

Em 2012 eu escrevi que eu torço Flamengo pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim. Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. E foi assim que o Flamengo venceu a Copa do Brasil de 2013, com essa ousadia, essa vontade de um pouco mais. Foi o primeiro campeão do “novo” Maracanã – e por mais que se conteste a forma e o processo dessa transformação, é ainda belo que o time que tem o Maraca como casa inscreva na História seu nome de campeão. Torcer Flamengo. Amar o Flamengo. É quem sou. A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do bar. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. A alegria rubro-negra é a do amor biscate. é de dançar na rua e do coração sambar no peito. Eu sigo alegre.”.

Vamos lá, cerzir pedaços. Construção. Jogada. Defesa, meio campo, ataque. Tática, estrutura, resultado, método. Aqui a agulha, a caneta, o teclado, a chuteira, o boteco. Parabéns para todas nós. Biscateando, sambando, vivendo: “Gooooooooooool”.

biscateando entre as quatro linhas

Os textos foram costurados e são: Da Renata Lima, o do Galo. Do Gílson, o do Fluminense. Do Daniel Nascimento, o do Palmeiras. Da Cris, do Furacão. Da Niara, do Brasil. Do Rodrigo, o do Grêmio. Da Nádia, do Vasco. Do Glauco, o do Santos. Da Suzana, o do Colorado. Da Luciana, do Mengo. E eu, que são-paulino.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Pequeno Compêndio sobre Questões Táticas no Futebol

Brasileirão da Biscatagem
Fernando Amaral*

Durante muitos anos o que unia Marta, Gasolina e Diego era uma amizade colorida, um festerê danado, uma alegria gostosa do descompromisso gostoso. Ninguém sabia muito como aquela história começara, nem quem deu o primeiro flerte, muito menos quem sugeriu ideias de triangulações como forma de tornar o jogo mais prazeroso. O fato é que Marta, libertária como tal, era sempre a indicada como responsável pelo fuzuê. Embora alguns insistam numa versão mais endemoniada da história, pois Diego tinha uma capacidade universal de fazer milongas, de floreios e romances tempestuosos. Mas também era inegável a vocação do Gasolina para o gol… e este apetite nunca poderia ser desconsiderado para justificar aquela peleja tão sinuosa que os três participavam, divertiam-se, encantavam. E, sincera e honestamente, este encantamento entre eles gerava mais encantamento. Era difícil não gostar e não torcer por eles.

Marta era daquelas mulheres inesquecíveis.  Era fantasista, cerebral, ousada, corajosa, tratava a pelota com esmero, com gala. Tinha um faro de gol incrível. Eram numerosas as histórias de parelhas árduas resolvidas por soluções simples, mas absolutamente geniais. Assim era Marta, que ademais falava inglês, sueco, português e se tivesse que aprender italiano resolvia o trem em uma semana.

Gasolina, moço da pele preta, era definitivamente um homem de superlativos. Genial, objetivo, contumaz. Fazia gols como quem respira e era o homem das jogadas espetaculares. Para Gasolina não tinha zagueiro. A vida se apresentava e ele, com gala, com altivez e com aquela soberba de majestades, seguia adiante. Jogava o fino. Na verdade, desconfio, era a própria pelota em forma de gente.

Já Diego era mágico. Sim, a definição para aquele moço só poderia ser esta: mágico. Uma habilidade sobrenatural o acompanhava. Ninguém reparava em outra gente se Diego tivesse por perto. “Este tem pacto com o canhoto”, diziam. Devia ser verdade, pois a redonda grudava em seus pés, assim como os problemas, as confusões, as bebedeiras, as intensidades. Além de ser bailarino. Imaginem a confusão, entre sopapos e sapatilhas.

Mas o romance deles, que era uma história de muita fuzarca, liberdade e libertinagem, como nessas brincadeiras de bola em campos de futebol na rua ou nas praças e parques – não tinha muita regra, como todo jogo de recreio com tampa de refrigerante ou bola feita de papel amassado-, começou a ter problemas na mesma proporção em que resolviam estabelecer contratos, pactos, obrigações. Num jogo como estes, anotem, é batata que o ciúme venha empacotado com qualquer “porque você não me passa mais a bola”. E, convenhamos, qualquer ser vivente reconhece que o ciúme degenera qualquer encantamento.

E Gasolina queria ser melhor que Diego. E os dois resolviam pavonear. E quando pavoneavam, ainda que sem querer (não esquecendo às vezes em que isso acontecia por querer…) tratavam Marta como um bibelô, como um brinquedo para se ter. E nessa moléstia, acabava a elegância, sobrava bravata. Num jogo assim, sabemos, o vaticínio é o gol contra.

E aquela belezura de antes começou a ficar chata, tipo comercial de margarina: tudo lindo, maravilhoso, perfeito, mas nunca mais manteiga. E foi perdendo o viço, as cores e por fim, até, não jogavam mais se não fosse para competir. Dava pena, sabia… E como a vida assim vira campeonato, acabou tudo no tribunal de justiça desportiva.

Mas noutro dia a Marta resolveu ligar. Sempre ela, atrevida como só. Arteira, numa breve frase que resumia tudo: “O Campeonato Brasileiro vai começar e seria uma tremenda enorme e retumbante estupidez que nem uma cerveja a gente tome juntos.”.

 “Ô, seu Mané, desce aí umas ampolas que o negócio tá começando a esquentar…”. E o Mané trouxe foi um engradado cheio: “Vai faltar João”.

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*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Na Bola, No Peito e Na Raça

Brasileirão da Biscatagem
Flamengo, Luciana

na bola, no peito e na raça

“Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia.” (Nelson Rodrigues)

Domingos da Guia

Você sabe quando só de estar perto lhe falta o ar, a mão gela e a taquicardia se apresenta acentuada? Sabe quando você tem vontade de gritar? E o corpo todo parece não se conter em si mesmo? O sangue batuca um samba nas veias e o pescoço lateja? Sabe quando o riso é mais solto e o choro mais sentido? E você não pensa em outra coisa, só: e se, e se, e se…?

Juan
Flamengo de 1996 a 2002
Campeonato Carioca: 1996, 1999, 2000 e 2001

Você sabe o que é não aceitar nenhum convite apenas na esperança de encontra-lo? Ver que ele faz tudo errado mas não conseguir afastar-se? Sabe o que é torcer as mãos, ansiosa, antes do encontro e, na hora, não conseguir dizer nada, garganta travada e sentimento em desalinho? Sabe o que é viajar 2.600 km para ficar ao seu lado por apenas duas horas e sentir que tudo vale a pena apenas para sentir aquela emoção?

Zizinho 1939 – 1950 Tricampeão em 1942/43/44

Você sabe o que é querer tanto, tanto, que dói fisicamente e se você fosse livre você se perguntaria se vale a pena, mas você não é livre, não mais, não pode sê-lo, está perdida? Você sabe o que é acordar e pensar em mimetismos de querer bem? E ansiar pela presença? E sentir-se só e só porque não há encontros naquele dia? Você sabe o que é ficar procurando notícias, interessar-se pelas bobices cotidianas, devanear sobre qualquer palavra?

Você sabe o que é ter o coração em desalinho só de ouvir o nome? E se emocionar com pequenas conquistas, pequenos avanços? Sabe o que é irritar-se, alegrar-se, desesperar-se, embelezar-se, animar-se, tudo por obra de uma presença? Sabe o que é ter o corpo em festa? A alma em festa? A vida em festa? Sabe o que é amar e amar e amar e amar até não se saber mais?

Junior
Flamengo de 1974 a 1993
Campeonato Carioca 1974, 1978, 1979, 1981 e 1991
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983 e 1992
Copa do Brasil 1990
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundial 1981

Leandro Flamengo de 1978-1990
Campeonato Brasileiro: 1980, 1982, 1983 e 1987
Campeonato Carioca: 1979, 1981 e 1986
Taça Libertadores da América: 1981
Mundial Interclubes: 1981

É assim que eu torço Flamengo. Pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim.  Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. Meu coração rubro-negro descompassado ri-se na beleza de encontrar raça e talento em tabelas rápidas, laterais que avançam como pontas, centro-avantes raçudos e atacantes bailarinos.

Poxa, será mesmo que alguém prefere ganhar de um a zero, espremido no seu campo, golzinho amarrado esperando um erro do adversário? Será mesmo que alguém prefere ser campeão com ajuda da arbitragem, jogando alguma coisa que lembra vagamente futebol? Será mesmo que alguém prefere seu time cheio de volantes (no sentido atual da palavra que equivale a futebol de bunda no chão – tipo Dunga, ao invés de significar sua concepção de origem, alguém que arma e desarma, que joga de cabeça erguida) a um time montado com poesia e talento?

Rondinelli – Deus da Raça
Flamengo de 1971 a 1981
Mundial Interclubes: 1981
Campeonato Carioca: 1974,1978,1979,1981
Campeonato Brasileiro: 1980

Eu prefiro a doce embriaguez de um jogo bem jogado, prefiro gols resultantes da vontade de vencer, gols com drible, com tabelinhas, jogo arquitetado, planejado, com espaço para o improviso da genialidade do craque. Eu prefiro meu time com ardor e fogo nos olhos. Com ímpeto. Prefiro ousadia e risco. Prefiro o time indo pra frente. Escolho a beleza. Quando vem com vitória junto, melhor ainda. Não me importa, mesmo, não sei quantos anos de jejum de títulos brasileiros. Eu me alimento é de troca de passes, é de gol olímpico, é de cabeçadas certeiras, é de desarmes precisos sem falta… Se outros são campeões com futebol medíocre e muita retranca e ficam satisfeitos com isso? Bom a mediocridade se alimenta de si mesma.

Eu sou mais meu Mengo. Do jeitinho que ele é: bola de pé em pé, com alegria, raça, amor, tesão…Eu sou mais meu Mengo como na música do Djavan: “ainda bem que eu sou Flamengo, mesmo quando ele não vai bem”. E quando ele vai bem então: que beleza! Que festa no Brasil! O riso mais solto, o passo mais leve, as pessoas mais gentis.

Carlinhos
Jogador do Flamengo de 1958 a 1969
Campeão Carioca 1963 e 1965
Campeão Brasileiro 1987 e 1992

Como alardeava Nelson Rodrigues: “A alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é mais funda ou mais dilacerada, ou mais santa, só sei que é diferente”. E eu nem falei da torcida; do Maracanã que é nosso (ah ah uh uh, o Maraca é nosso);, da incrível polarização que faz com que os torcedores dos outros times torçam contra com tanta paixão quanto torcem pros seus times, tendo o Mengo como farol; não contei as histórias divertidas (como a crônica do Paulo Mendes Campos na Suécia), não tratei das bandeiras, uniformes e cores, não fiz o histórico dos títulos, a trajetória dos ídolos…Eu nem falei do Zico! Há tanto a se amar no Flamengo que uma semana de biscatagem só pra ele ainda não seria suficiente.

Zico
Flamengo 1971 – 1990
Campeonato Carioca 1972, 1974, 1978, 1979, 1981, 1986
Campeonato Brasileiro 1980, 1982, 1983,1987
Copa Libertadores de América 1981
Campeão Mundiall, 1981

A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do aeroporto. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. É de dançar na rua e do coração sapatear no peito. Do sangue acelerar, da respiração falhar, dos olhos nublarem. A alegria rubro-negra é de festejar hoje, esperar os amanhãs e sorrir dos ontens.

Uma Paixão Imponente

Brasileirão da Biscatagem
Palmeiras, Daniel Nascimento

Um amor assim, biscate, livre, liberto, não vem de bate-pronto como uma decisão que se toma na vida, de caso pensado. É necessário a maturidade, aquela cevada, as dores. Passar pela etapa do gozo e da dor. Compreender que muitas coisas são incompreensíveis e que pra ser verdadeiro não faz-se mister a posse e que com isso a palavra fidelidade ganha um sentido mais amplo. Vira cumplicidade. Esse amor vem de manso, te magoa, te faz sofrer. Mas justamente tais passos lentos e dolorosos fazem tal sentimento penetrar na carne e na alma. E assim os obstáculos somem. Vem aquela paz e tranquilidade de uma relação onde sabe-se que não importa os obstáculos, as agruras, as lágrimas: sempre teremos um ao outro.

Falo de uma relação com outra pessoa? Poderia bem ser. Mas no caso é o que sinto ao querer transcrever minha paixão por meu time: o Palmeiras.

Nasci em 1978. Quando criança eu amava – e ainda amo – mesmo é o futebol. Sou de uma família onde toda a parte paterna é palmeirense e a parte materna corinthiana. Diz meu pai e meu avô materno comprova que este fez de tudo para que eu fosse mais um alvinegro na família: deu-me camisa, bola, boné. Eu poderia dizer que meu pai venceu a batalha mas as coisas nunca são tão simples assim. Afinal nos anos 80 (como hoje por sinal, mas isso não importa) o Palmeiras não ganhou nada. Imaginem uma criança louca por futebol ver os amiguinhos corinthianos e são-paulinos revezarem-se na comemoração por títulos. Até o Santos teve sua vez em 1984. E a Inter de Limeira, em 1986. Justamente em cima do Alviverde. Mas a grande verdade é que eu realmente não me importava muito. Gostava mesmo do jogo.

 Mas aí veio a adolescência e nela junto com os hormônios que nos dão pulsão e desejos veio a necessidade de por tal amor à prova. Pensei até em não torcer pra time nenhum ou, como bom metido a outsider, torcer por um time de tradição mais refinada como o Santos ou Botafogo (que sempre me foram simpáticos) ou a Portuguesa. Afinal, time que não ganha nada por time que não ganha nada esta é mais cool. Como diz um grande amigo meu: eu era jovem e tolo. Isso era uma clara fuga. E tudo foi recompensado e confirmado em 12 de junho de 1993. Dia dos namorados; só podia ser. O Palmeiras humilha o Corinthians, logo o Corinthians! na final do Paulistão por 4 x 0, devolvendo derrota simples na partida de ida, levanta a taça, quebra o jejum de 17 anos, me dá um tapa na cara e diz: você é meu! E era.

Torcida que canta e vibra

A partir daí, lua de mel: grandes times, grandes jogos, grandes conquistas. Mais estaduais, bi-brasileiro, Copa do Brasil, Mercosul, a cobiçada Libertadores. Vi grandes craques desfilarem e honrarem o manto-sagrado alviverde, como Evair, Edmundo, Mazinho e seu show contra o Boca Juniors, Alex, Zinho, César Sampaio, a era Felipão – quando aprendemos a ter raça, e o maior de todos: São Marcos.

Como não há mal que nunca acabe nem bem que dure pra sempre, hoje voltamos a vivenciar uma fase ruim. Mas como disse no início, esse amor já está consolidado, enraizado, e não há queda pra segunda divisão (quando fui em todos os jogos que ocorreram no Palestra), vexames ou gozações que nos afaste. Ouço muito dizer que viraremos uma nova Portuguesa. Como se isso importasse ou fosse vexatório. São tolos; não aprenderam ainda. Eu e o Palmeiras não precisamos ter títulos, ter maior torcida, ter o melhor estádio, ter nada. Simplesmente somos.

Daniel Nascimento é palmeirense, roteirista de ficção científica e faz um guacamole como ninguém. Tem 33 anos de paixão por futebol, ama os grandes torneios mundiais e tem saudades do Desafio ao Galo. Nasceu em São José dos Campos, mas tem alma cigana, mora em São Paulo e já viveu em outras três cidades, outro estado e outro país. Não está satisfeito, tem aquela coceirinha de conhecer muito mais do mundo. Não sabe de umas tantas coisas, mas sabe bem de uma, onde  estiver terá sempre uma raiz: sua paixão pela Sociedade Esportiva Palmeiras

O campeão do bem-querer!

Brasileirão da Biscatagem
Brasil de Pelotas, Niara de Oliveira

Nasci numa família dividida entre gremistas e colorados. Os homens todos gremistas talvez expliquem a minha aversão pelo tricolor gaúcho, talvez seja o azul, não sei. Fato é que nunca entrei nessa disputa e cheguei a cogitar torcer por um time que não fosse gaúcho. Mas sem ver de perto e sem poder manifestar e nem com quem dividir a paixão o futebol perde muito da sua graça.

Tinha dezoito anos quando um grupo de amigos petistas estava combinando um churrasco  bem próximo da Baixada para ir depois ao jogo. Animei de ir, talvez mais pelo frege e pela curiosidade que sempre tive de ir no mítico Estádio Bento Freitas. Era um domingo sombrio, bem do tipo que gosto, quase chovendo. E ali, no meio da mais apaixonada torcida de futebol era impossível não se apaixonar também, e desde então meu coração é Xavante.

Títulos? O Grêmio Esportivo Brasil de Pelotas foi o primeiro Campeão Gaúcho, em 1919. Esse permanece sendo nosso principal título. Né… Fazer o quê?

Como um time consegue manter uma torcida tão apaixonada e fiel sem títulos? Ninguém sabe. Esse mistério não pode ser explicado, só sentido. Só estando na Baixada, em meio àquela torcida rubro-negra, barulhenta e exigente — sim, não tenham dúvidas disso — é possível explicar o que é ser Xavante.

Quando quero contar quem é o Brasil de Pelotas para quem nunca ouviu falar, falo do nosso maior feito: o terceiro lugar no Brasileirão de 1985, que incluiu derrotar o Flamengo não por sorte, mas por competência. E não era qualquer time. Era o Flamengo de Fillol, Mozer, Leandro, Adalberto, Tita, Zico, Adílio, Andrade, Aílton, Bebeto e Chiquinho; treinado por Zagallo. Foi esse time que o Brasil de Pelotas inacreditavelmente venceu na Baixada por 2×0. O time Xavante vencedor? João Luís, Jorge Batata, Silva, Hélio, Nei, Dias, Alamir, Lívio, Canhotinho, Márcio, Doraci, Bira (25’/1) e Júnior Brasília (86’/2) treinado pelo lendário Valmir Louruz. O Brasil perdeu o jogo de volta no Maracanã por 1×0, sendo que foi um gol de pênalti do Bebeto.

Se fosse hoje, onde os jogos são de 180 minutos, talvez o Brasil tivesse ido à final do Brasileirão de 85, talvez tivesse sido campeão. Mas… Se vocês notarem, o Brasil não conseguiu usar seu uniforme principal nem no Maracanã. Valia “a força da camisa”, leia-se o poderio dos grandes times de futebol.

Tem ainda a história da quase troca de Joaquinzinho por Pelé, história curiosa do futebol brasileiro. Joaquinzinho, craque do Brasil de Pelotas, interessou ao Santos, que na proposta de compra incluiu o empréstimo de Pelé na negociação. O Brasil pediu muito dinheiro pelo passe e o Santos desistiu do negócio. Joaquinzinho acabou indo jogar no Fluminense e depois no Corínthians. A história é confirmada por Pelé.

Não sei se a placa ainda está lá, e infelizmente eu não tenho mais a foto, mas ao chegar a Pelotas, próximo da Polícia Rodoviária, existia uma placa dizendo: “Bem-vindo a Pelotas. Aqui de cada dez habitantes, oito são Xavantes!“. Não sei se a proporção é exatamente essa (já teve até proposta do Cão Uivador de que a cidade adote o escudo do GEB nos órgãos públicos — proposta muito justa, por sinal), mas é mais ou menos isso. Diferente da grande maioria dos municípios gaúchos que se dividem entre tricolores e colorados, nós temos a nossa própria rivalidade. E Pelotas, além do arqui-inimigo Lobão (EC Pelotas), tem ainda o Farrapo (GA Farroupilha).

Por que o Brasil é tão popular em Pelotas? Bueno, lembrando que Pelotas é a cidade mais negra do Rio Grande do Sul e que a história de riqueza das Charqueadas foi construída à custa do trabalho escravo, talvez uma parte da letra do nosso hino — composto em 1956, pelos músicos José Costa e Victor Jacó — explique:

“Brasil, Brasil, Brasil
As tuas cores são nosso sangue nossa raça”

Entre as minhas lembranças mais ternas está eu cantando (não se iludam, só a lembrança é terna, eu canto muito mal) para ninar o Calvin quando ele era bebezinho (eu cantava o hino da Internacional também…). Agora que estou longe de Pelotas, ouço os jogos pelo rádio, via web. O Brasil está disputando nesse momento a segundona do Gauchão e acabou de ganhar na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Ou seja, só amor explica.

É assim que os jogadores na Baixada comemoram as vitórias, junto da torcida.

E só o amor imenso de sua torcida poderia fazer o time superar seu pior momento, que foi o acidente com o ônibus do time em 15 de janeiro de 2009 que vitimou o zagueiro Régis, o treinador de goleiros Giovani Guimarães e nosso maior ídolo, o atacante Claudio Milar. Após o acidente, o Brasil de Pelotas perdeu todos os jogos que disputou pelo Gauchão e caiu para a segundona sempre apoiado e aplaudido pela torcida Xavante.

ídolo Milar fazia esse gesto na comemoração de seus gols

Por que Xavante? Após a vitória do Brasil num BRAPEL em 1946 por 5×3 (havia terminado o primeiro tempo perdendo de 3×1, na casa do adversário) “a torcida vencedora não se aguentou nas arquibancadas, atropelou o alambrado e invadiu o campo para comemorar. Vendo toda aquela euforia, quase que descontrolada, um dirigente áureo-cerúleo (do Pelotas) comparou a festa em vermelho e preto ao filme “Invasão dos Xavantes” (em cartaz naquela época), dizendo: “eles foram um bárbaros ao final do jogo, pareciam uns Xavantes”. Irreverente que é, a torcida rubro-negro ignorou o tom pejorativo da expressão e adotou a simpática e querida figura do Índio Xavante como mascote do Brasil.”

Essa história de termo pejorativo ser adotado com orgulho e usado a seu favor, nós biscates conhecemos bem, né?

Mais sobre a história do Brasil de Pelotas? No site Xavante.

PS: Esqueci de dizer… O Felipão não iniciou sua carreira como técnico de futebol no Brasil de Pelotas, mas sua passada pela Baixada foi decisiva. Foi lá que ele conheceu seu fiel escudeiro Flávio Teixeira, o Murtosa, que é pelotense.

Grêmio, um amor não correspondido

Brasileirão da Biscatagem
Grêmio, Rodrigo Cardia

“Eles” ganharam, de novo… Tem sido uma triste rotina nestes últimos 11 anos: o Grêmio, quando parece que vai ser campeão, nos frustra – desta vez conseguiu nem chegar à decisão do estadual. E os vermelhinhos vão lá e vencem. É dose.

Não sei dizer a partir de que momento me tornei gremista. Foi em algum dia dos anos 80, isso é certo. Vitoriosos anos 1980 e 1990: torcer pelo Grêmio naquela época, salvo alguns anos anômalos (tipo 1991) era garantia de felicidade futebolística, de flautas contra os adversários (“secadores”). Eram tempos em que os colorados eram apelidados de “melancia” toda vez que o Grêmio enfrentava algum time verde: sabem como é, melancia é verde por fora e vermelho por dentro…

Vieram os terríveis anos 2000, e a decadência. Seu primeiro ano foi exceção: Grêmio campeão da Copa do Brasil em 2001, com um futebol encantador. Mas depois, tudo foi tristeza. Em 2003, em pleno ano do centenário, ao invés de brigar por títulos o Grêmio só conseguiu se manter na Série A. E mesmo assim, não abandonei meu time, por mais acostumado que eu estivesse com situações opostas, ou seja, de conquistas. Fui ao estádio, tomei chuva e no grito, igual a 1996, ajudei o Tricolor a ganhar para, ao final, sair abraçando todo mundo que estava por perto. Se antes era uma taça, em 2003 era não ter de brigar por outra taça, a da Série B.

Só que no ano seguinte não teve jeito: a torcida já estava desanimada com a bagunça na qual o clube tinha se transformado, e o Grêmio caiu. Então aconteceu o que foi regra com os grandes clubes que caíram: a torcida abraçou novamente o time, e o Olímpico voltou a ser um caldeirão que amedrontava os adversários. O time de 2005 do Grêmio chorava de tão ruim, só que no Olímpico jogava com bem mais que 11 jogadores. Quanto àquele jogo nos Aflitos contra o Náutico, o que salvou o Grêmio foi alguma coisa que um dia ainda será explicada: era na casa do adversário, com quatro jogadores a menos… Aquele momento fez lembrar as décadas de 1980 e 1990, quando o Grêmio só conseguia nos fazer chorar se fosse de felicidade.

Era o “pontapé inicial” para uma nova era vitoriosa, certo? Afinal, já acontecera do Grêmio cair em 1991 e na sequência ganhar tudo, logo isso se repetiria. Porém, eram outros tempos, outros dirigentes. Em 1993 tínhamos Fábio Koff (campeão da América e do Mundo em 1983) na presidência, e um rival deprimido (apesar de ter ganho a Copa do Brasil em 1992). Já em 2005 o Grêmio tinha Paulo Odone como presidente, que adorou poder repetir ad nauseum o exemplo da Batalha dos Aflitos para se esquivar das críticas a cada mau resultado (como tanto temos visto em 2011 e 2012), e ainda por cima “descobriu” que nosso Olímpico Monumental é “defasado” e por isso precisamos de um novo estádio no “padrão FIFA”; não bastasse isso, o co-irmão garantia participação na Libertadores do ano seguinte para, pasmem, ganhá-la.

Pois é, o Grêmio vem tratando mal sua torcida nos últimos anos. Nosso amor pelo Tricolor há muito tempo não é mais correspondido: não só os resultados não vêm, como ainda o Grêmio vai se mudar para uma “casa nova” que servirá para definitivamente transformá-lo em um clube de elite. Algo que já acontece no Olímpico, é verdade (estão aí os ingressos a R$ 40 em jogos de Gauchão para não me deixarem mentir), mas que na Arena é escancarado pela mensalidade a R$ 92 para assistir ao jogo atrás do gol. Saem o torcedor e a torcedora, entram o consumidor e a consumidora: mais do que para torcer, o objetivo do estádio passa a ser o lucro.

E desse jeito, a todos os que não se enquadram neste padrão de classe média, só restará a alternativa de acompanhar o Grêmio pelo radinho ou pela televisão, em casa ou no buteco (para ao menos poder abraçar todo mundo toda vez que vencermos os jogos). O Tricolor nos despreza, mas nós seguimos amando-o, numa situação que lembra um “pé na bunda” vindo de quem amamos: por mais impossível que seja, acreditamos que ela “abrirá os olhos” e perceberá a bobagem que fez ao mandar passear alguém que tanto a ama. Com apenas uma diferença: chega um momento em que nós “abrimos os olhos” e decidimos parar de sofrer por aquela pessoa; já o time de futebol, este sim é amor eterno.

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Rodrigo Cardia é um portoalegrense gentil, historiador, de esquerda, crítico na vida e no futebol, que odeia calor e não tem intimidade nenhuma com o sol. Curte cinema, coleciona camisas de futebol e, embora de coração partido pelo Grêmio, gosta de uivar para a lua. Você pode acompanhá-lo no seu blog ou pelo twitter @caouivador.

A cruz do meu peito

Brasileirão da Biscatagem
Vasco, Letícia Fernández

Difícil precisar desde quando sou biscate e desde quando sou vascaína. Desde sempre? Lembro da fotografia de infância, eu só de calcinha…e camiseta da TOV (Torcida Organizada do Vasco).

Mas lá na década de 1980 minha torcida era só televisionada. Até eu me mudar para terras cariocas e me embrenhar pelas ruas estreitas de São Cristóvão. Você jura que se perdeu, insiste em seguir o fluxo dos carros, e de repente ele surge. Imenso. Colossal. O Gigante da Colina. Ou, pelo menos é assim que parece aos olhos de quem ainda lembra de Romário e Bismarck nas revistas Placar de duas décadas atrás.

Lá dentro, o caldeirão – com o perdão do clichê – ferve. A Força Jovem entra, a bateria toca, e torna-se impossível não cantarolar os hinos que você jurava nem saber a letra. E falem do Maracanã, o lendário estádio de todas as lendas, mas é em São Januário que um cruzmaltino se sente em casa (uma pequena provocação de 24 mil lugares: é o único dos quatro grandes times cariocas a ter, de fato, uma casa).

São Janu pode não ser suntuoso como o Maraca, palco de muitas das minhas alegrias (e algumas tristezas) dominicais. Mas lá no estádio do Club de Regatas Vasco da Gama há uma mística inviável de ser repetida em outro lugar: as arquibancadas ficam tão próximas do gramado que você escuta tudo. Xingamentos ao bandeirinha, ao juiz, aos jogadores. E entre eles. E entre nós, nervosos e de unhas roídas, e os onze moços que correm atrás de uma bola para nos fazer felizes. Ali, no Caldeirão, os milagres são possíveis. Somos imbatíveis.

O mesmo não posso dizer dos clássicos no mais emblemático dos estádios (Wembley e Bombonera, nem se atrevam a querer tomar nosso lugar). Perdi as contas das vezes em que cheguei alegre e zoando o time adversário por não poder descer na rampa da Uerj do metrô*, mas voltei cabisbaixa após uma derrota do meu time de coração. Não foi o caso daquele domingo em que Juninho, na época ainda não Fenomenal, fez o único gol contra o mais irritante dos nossos oponentes. Eles, eliminados. Nós, seguindo no campeonato que no final nem vencemos.

Na comemoração eu ainda contive um pouco da minha biscatagi. Evitei abraçar e beijar logo na boca do moço bonito de camisa do Vasco que estava ao meu lado. Não foi daquela vez – ainda. No segundo encontro, lá estava ele de novo vestido a caráter, com a Cruz de Malta estilizada no peito. Eu teria de ser louca se resistisse a um vascaíno com a indumentária perfeita.

Podem dizer que a gente é sempre “vice”. Somos, agora, vice-campeões brasileiros e acabamos de perder o Carioca. Vencemos nos pênaltis o último jogo da Libertadores e iremos enfrentar outro time brasileiro, justamente o campeão do Brasileiro ano passado, nas quartas-de-final. Talvez percamos. Talvez cheguemos bem perto da praia e fiquemos em segundo lugar de novo. Espero que não, é claro.

Mas quem se importa? Continuaremos com São Janu, com Juninho Monumental, com mais de um século de história. Digam que nosso uniforme parece uma simples camiseta branca transpassada por um cinto de segurança de automóvel. Pra você ela é só isso. Pra mim, aquela Cruz de Malta vermelha é a cruz que carrego no meu peito com orgulho.

*Para evitar confusões na chegada ao Maracanã, as torcidas adversárias sempre têm de descer uma estação de metrô antes, a São Cristóvão. Somente os vascaínos descem na Estação Maracanã.

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Letícia Fernández é vascaína, claro, além de jornalista e blogueira. Jura que se derrete por um moço com a camisa cruzmaltina, mas dizem por aí que ela não resiste aos tricolores. Ela nega. Autora do polêmico Cem Homens, divertida, desbocada, sem papas na língua, e você pode acompanhá-la também pelo twitter @vidadeleticia.

Santos, o prazer do jogo

Brasileirão da Biscatagem
Santos, Glauco Faria

“Sem você, eu não existiria”. A frase lugar-comum que sai vez ou outra de alguma novela mexicana ou de algum (a) amante desesperado (a) se aplica, sem exagero, à minha relação com o meu time, o Santos. Isso porque meu avô materno, mineiro, recebeu como recomendação médica, por conta de sua hipertensão, mudar-se para uma cidade litorânea (sim, isso se “receitava” em outras eras). O usual seria o Rio de Janeiro, mas seo Benedito preferiu ir para o litoral paulista, ficando mais perto do time pelo qual ele havia se afeiçoado, o Santos.

Não se sabe porque ele, que só acompanhava futebol pelo rádio, se apaixonou por um time que, àquela altura, tinha sido campeão paulista apenas uma vez, em 1935. Mas certamente já sabia que aquele clube tinha algo de diferente. Foi o primeiro do Brasil a ter uma linha ofensiva que fez cem gols em uma única competição (média incrível de 6,25 por partida em 1927) e primava por tratar bem a bola, ainda que não conquistasse naqueles anos 40 grandes títulos. Mas quem precisa de títulos quando se tem o talento e a técnica? Além de gols… Muitos gols.

Se é verdade que o gol pode ser comparado a um orgasmo pelo fã de futebol, nenhum outro time trouxe tanto gozo aos seus como o Santos, clube profissional que mais balançou as redes nesse planeta. Foram 11.817 vezes. Mas não serviu apenas os seus porque, em boa parte do tempo, seu jogo é arte e, portanto, trata-se de um amor livre, democrático, que deleita também os não santistas e supera rivalidades e sentimentos mais mesquinhos. Pois quem não sente prazer vendo um lance de um Ganso (cuidado com os trocadilhos…) ou pasma diante de um Neymar, perguntando a ele: “como você fez isso?” (qualquer semelhança com situações semelhantes em momentos íntimos fica a critério de quem lê).

Mas o Santos não é só o gol. É o que vem antes. É um time que sempre adorou as preliminares, que às vezes vale e deleita mais que a conclusão. Essa magia é parte da própria história do clube. São boleiros-artistas-arteiros que desfilam há décadas com a camisa santista e que fizeram do imponderável uma realidade. Que outro time consegue inverter a lógica e fazer o torcedor da cidade grande torcer para o time da cidade quase pequena?

Lembro de um causo contado por um saudoso dono de boteco de Pinheiros, o Vavá. São-paulino, ele foi ao Morumbi assistir a um SanSão num dia em que Pelé e cia. fizeram miséria e colocaram seis gols nas hostes tricolores. Mal percebeu e estava aplaudindo a atuação alvinegra no meio da torcida são-paulina quando os outros torcedores, contrariados com a atitude, passaram a reprimi-lo de forma pouco amistosa. Nisso, um torcedor, do tipo armário dois por dois, se levantou e decretou: “Deixa o garotão aí, ele tá certo”, encerrando a animosidade.

É esse tipo de encantamento que o Santos exerce sobre os rivais. Incentiva até traições ao clube amado, como a do Vavá. São torcedores que muitas vezes se deixam fascinar e, pegos com a boca na botija, fingem que não é com eles. “Não é nada disso que você está pensando. Estava só olhando…”

Mas para não dizerem que esse texto é só exaltação, é preciso contar o que foi viver um drama que  todo amante da bola quer evitar: o jejum de títulos, a seca. Sim, porque perder um ou outro campeonato é uma coisa, mas quando você fica anos a fio sem ganhar… Haja paciência pra aguentar os rivais. Ainda mais se boa parte desse período (18 anos) coincide com a sua adolescência. Em meio a turbulência afetiva, hormonal e ciclotímica desse período, seu time só leva couro. Um clube com história brilhante, mas você olha pro campo e só enxerga “inhos”. Ora o técnico é o Joãozinho, um lateral é o Flavinho, no ataque tem um Serginho Fraldinha. Ninguém conseguia se empolgar com um cardume de diminutivos.

Era fase, fase… O martírio acabaria e a adolescência também. Veio Giovanni, um camisa dez clássico, que fez a maior partida que já vi um jogador fazer. Depois, o time que sairia da fila, com Diego e o insinuante Robinho. De novo o Santos era arte. E, desde então, quantas vezes não foi, como ontem, em um inapelável 8 a 0 na competição mais importante do continente.

O que o presente do Santos mostra é o que toda sua trajetória tentou ensinar. Mais do que o jogo em si, o importante é dar prazer. E sentir. O resto é consequência.

 

Glauco Faria é daqueles caras que tem o jeitinho de colocar a palavra certa no lugar mais inusitado. Duplamente santista (mas tem simpatia pelo São Vicente A.C. e pela Portuguesa Santista), jornalista, membro (ui!) do Futepoca, Filho de Peixe e tem outros textos pela rede falando de coisas menos divertidas.

Amor Colorado

Brasileirão da Biscatagem
Internacional, Suzana Dornelles

O amor clubístico é o amor que não trai, amor sem ciúme, amor incondicional, só comparado ao amor materno. Podemos trocar de amores, namorados, marido, de partido, casa, cidade, estado, país, mas de clube não, não tem como… Eu escolhi o Inter e o Inter me escolheu, somos parceiros nas vitórias e nas derrotas.

o Gigante da Beira-Rio

O Beira-Rio é a minha casa, meu templo, meu lugar de vibrar, gritar, cantar e em algumas vezes, sofrer, entristecer… Sim, porque amantes sentem na alma o sofrer do outro. Já saí de lá chorando… O ano era 99, a causa: o Juventude, de Caxias do Sul.

Para quem não sabe, o Internacional é o clube do povo do RS, nasceu em 1909 dando oportunidade a jogadores de todas as etnias, não só aos brancos (como o nosso co-irmão que nasceu seis anos antes), com isso seus torcedores são em sua grande maioria mulatos, negros, pobres e com sangue nas veias como a  camiseta encarnada, vermelha, vermelhaça! Nosso mascote é o Saci, e de tanto nos chamarem de macacos com intenção racista e preconceituosa, viramos o jogo, e hoje temos também o Macaquinho como mascote, adorado pelas crianças coloradas.

Eu, tentando abraçar da arquibancada o meu colorado

Amo o Inter de forma louca, me arrepio vendo aquela bandeira enorme tremular em frente ao estádio e o brilho do luminoso que diz “SC INTERNACIONAL CAMPEÃO DO MUNDO” quando passo por lá, moramos perto um do outro.

O campeonato brasileiro começa, e nas quartas ou quintas, sábados ou domingos, dedico toda a minha atenção ao MEU AMOR que me fez CAMPEÃ DE TUDO, e me faz MUITO FELIZ!

VAMO, VAMO INTER! TU ÉS MINHA PAIXÃO!

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Suzana Dornelles é gaúcha de Porto Alegre, colorada, divertidíssima, de bem com a vida — nem sempre com as pessoas, de luta e quase nunca se entrega. Socialista do tipo extrema esquerda incendiária, franca do tipo que enfia o dedo na ferida e que não tem papas na língua. Siga-a no twitter no perfil @sudornelles.

Meu coração é rubro-negro e bate pelo Furacão

Brasileirão da Biscatagem
Atlético Paranaense, Cris Rangel

Sou paranaense, curitibana, para ser mais precisa e não carrego qualquer orgulho disso. Em compensação sinto muito orgulho em dizer Sou Atleticana!

Minha história de amor e paixão com o Clube Atlético Paranaense (CAP) começa… Gente começa antes que eu sequer pensasse em nascer!

Vou explicar. Sou descendente de italianos e alemães por parte de pai. Meu avô paterno, como bom italiano, torcia pelo Palestra Itália, o Palmeiras. No Paraná o time que tinha a simpatia de Seu José era o Coritiba.

Meu pai, em plena infância e adolescência e querendo ser o inverso do que era o pai dele e fazendo tudo para contrariar começou a torcer pelo Corinthians e pelo Atlético, arquiinimigos do Palmeiras e do Coxa. Menino danado esse meu pai. Imagino eu a decepção do meu avô, mas foi assim mesmo que tudo começou.

Meu velho sempre gostou de futebol. Jogava quando menino e moço. Chegou a conhecer alguns dos grandes nomes do Furacão (CAP) e conseguiu ter três filhos torcedores atleticanos, duas filhas, diga-se, apaixonadas pelo time e uma neta também torcedora do CAP.

A primeira vez que prestei atenção em futebol e no Atlético foi lá pelos anos 80 quando, depois de uma fase de seca de títulos nos anos 70 o time venceu um campeonato paranaense. Foi a glória em casa, meu pai comemorando o título do rubro-negro e a gente junto, um bando de crianças que só sabia que a bola tinha que entrar no gol.

Cresci e sempre acompanhei futebol até que, grávida, entrei pela primeira vez na Arena da Baixada, o Caldeirão como é chamada, pra ver meu time jogar, ao vivo e em cores. Até aquele momento não tinha sentido emoção maior. A torcida inteira nas cores vermelho e preto, gritando ‘Uh! Caldeirão! Furacão Ê Ô Atléticooooo’ mexeu comigo, mexeu com a menina que estava na minha barriga e levou meu coração a saltos gigantescos. Nunca esquecerei daquele momento enquanto viver.

Nasceu a menina e, um ano depois, em 2001, o Atlético foi finalmente campeão Brasileiro. Gritei muito naquele dia, sofri outro tanto. Mas, amor e paixão sempre nos levam à glória e ao sofrimento, não tem jeito.

Em 2005 o CAP foi vice-campeão da Libertadores. Outro tanto de lágrimas derramadas na final. E, em 2011 novas lágrimas: o rebaixamento para a segunda divisão do Brasileirão, numa partida com o arquiinimigo Coritiba. Chorei. Chorei como criança vendo o jogo enquanto montava a árvore de Natal.

Este ano jogaremos na série B. Estamos na final do paranaense contra o Coritiba e ainda na disputa pela Copa do Brasil. E eu vou torcer com vontade. Meu time consegue fazer vir à tona o meu lado passional, minha veia enfurecida, que grita, discute, briga, chora e se entrega numa torcida muitas vezes insana. Talvez por isso mesmo que eu ame tanto, o futebol e o Atlético, porque é nesse momento, no meu momento torcedora, que me entrego à paixão com garra e vontade.

Curiosidade – O apelido de Furacão do Atlético Paranaense deve-se ao time de 1949, que foi campeão paranaense sem nenhuma derrota e do qual o Capitão era o zagueiro, falecido no início deste ano, Nilo Biazzetto. O jogador ganhou, naquele ano, o apelido de Capitão Furacão, daí o apelido do Atlético até os dias de hoje.

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*Cris Rangel é atleticana de corpo, alma e ventania. Jornalista na fria e carrancuda Curitiba. Mãe de menina. Audaciosa. Corajosa. Encrenqueira. Louca por cinema, rock’n roll, vinho e conversa afiada. Corredora amadora, aficcionada por academia. Biscate exigente, livre e liberta.

Meu maior amor

Brasileirão da Biscatagem
Fluminense, Gilson Moura Henrique Junior

Nem sei quando as vi pela primeira vez. Aquelas cores, aquele jeito, aquela forma de trânsito nas minhas mãos, corpo, pele, coração.

Era como uma marca na alma, um pedido, algo que aquele moleque de oito anos não entendia porque amava e derretia nos pés daquelas cores e passos, passes, gritos, gol.

Não foi simples essa paixão, nunca. A sedução ao redor não era parca e nem leve. Avôs amados, Pais encantados e heróicos, tios com badulaques, mas lá estava ela, a bandeira, a cor, as três cores, o grito, o urro, o gol.

O grito operário Luso, a marra Flamenga ou a Gloriosa marca da memória de artes antigas em preto e branco, pesavam sobre a mente para influenciar a escolha, mas não conseguiram tirar meus olhos, a alma, o corpo, o mundo daquele amor.

Havia nascido tricolor, amava o Fluminense, amava suas cores e nem ao menos sabia até vê-las bandeira, grito, chute, gol.

E o tempo passava naquela sedução tateante e encarnada, de inicio tímido o amor era como quem pega na mão e treme, como quem não se sabe ainda amando, como quem teme o mergulho. De criança que via e amava ver o campo, aqueles homens que vestiam-se do meu amor, aqueles corpos, saltos, chutes, aquele frenesi físico que perambulava sob meus olhos. Tudo me era amor de uma forma leve, longínqua, mas quente e viva.

 Cresceu o amor, cresceram as fomes, a paixão, a necessidade de tocar as cores, o escudo, o nome, o saber-se delas. A pele pedia, o corpo ansiava, a alma gritava por vê-las, por vê-los, ao grito, ao passe, ao chute, ao gol.

 O tempo não nos foi leve, não nos poupou do abalo, da queda, do ódio, do medo, da tristeza de ver o que faziam delas, das cores pelas quais tinha o amor dos que nunca abandonam ou trocam. O tempo chegou quando ávidos e tolos barões estupraram-nas, destruíram-nas, queriam tirar-lhes o nome, o Football, transformá-las em passado. E caíram, foram lançadas ao inferno.

 Como Orfeu fui, fomos, buscá-las e sem olhar para trás subimos, subimos e as amando, as tomando nos braços, as tomando como quem retoma aquele amor, agora maduro, sabido, comido, sensualizado e consuma um casamento, um livre casamento que devora, que reparte, que compartilha e tem o coletivo amor em um leito de grama e grito e urro e gol.

 Hoje somos isso, amantes, amados, queridos loucos e deitados sobre a tez de três cores que traduzem uma tradição, uma bandeira, uma tatuagem na alma

 Neste amor buscamos outros, outras, e seguimos.

 Meu primeiro amor.

 Meu maior amor.

 Tricolor.

 E não um time de três cores.

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