Nós, gatos

Captura de Tela 2017-12-20 às 17.51.53Com a chegada do jardineiro notamos a presença da gata. O moço veio orçar um trato no jardim do quintal da casa que nos mudamos poucos meses antes. O matagal alto, a dama da noite quase vergando de tão pesada indicavam a necessidade de uma intervenção profissional.

Mas ela estava lá, com três crias, muvucadas num buraco perto do coqueiro. Os bichinhos já caminhavam faceiros. Intuímos que não eram tão bebezinhos assim, ainda que estivessem mamando. Há quanto tempo eles estariam ali sem que percebêssemos, naquele quintal que obviamente precisava mesmo de um cuidado, já que, né?!

A gata pariu no nosso quintal e não notamos!

Fiquei meio assim, me sentindo culpada, sabe?

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Adiamos a poda.

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Teve uma vez que um gatinho apareceu na casa dos meus pais. Éramos pequenos. Meu irmão, apegado, logo adotou o bichinho. Meu pai não queria, por causa dos curiós. Meu irmão e eu perguntamos por que ele não soltava os pássaros. Ele respondeu que era porque eles não sobreviveriam, acostumados com o cativeiro. Fiquei calada.

Aí que com dezenas de crianças em casa, o gatinho no meio da folia, pisei na cabeça dele sem querer.

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Não costumo compartilhar memes de gatinhos nas redes sociais.

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Compramos comida pra gata, recomendada pelo povo do facebook, que é pra onde costumo correr quando coisas assim acontecem em minha vida: uma passagem curiosa na rua, um diálogo inusitado com meus filhos, uma gata parindo e morando no meu quintal…

E foi me sentindo meio São Francisco pagando um carma que fui levar comida e água pra gata. Arisca, arreganhou os dentes e se pôs em posição de ataque. Tive medo. Sai correndo, magoada.

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Dia após dia um corriqueiro alimentar-a-gata-fugir-da-gata, entre ridícula e ressentida.

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Tenho um filho caçula que volta e meia quer dar um tempo sozinho com o pai porque passa muitas horas comigo.

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A gata virou Gata. Pensei em dar um nome mas achei que seria muita prepotência sobre um ser que obviamente não queria intimidade.

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Gata subia no pé de dama da noite e só ouvíamos seus arrulhos, bravos e estressados. Chamo de arrulho porque é a primeira palavra que me vem. Não é um ronronar. É um som meio grrr (tem nome pra isso?).

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Nunca tinha ouvido falar de gato feral. Achei que fazia sentido. Gata de rua, selvagem, brava, nada condescendente com humanos, possessiva com os filhotes, afrontosa, que aceita minha comida e me enxota, impaciente e irritada.

***

Sábado de manhã, esse caçula que não vai muito com minha cara me chamou, preocupado. Gata não estava bem. Metade imóvel, outra metade muito agressiva. Levantava as patas dianteiras, “rosnando” pro nada, como se ainda estivesse trepada na dama da noite, enquanto as traseiras, inertes, permaneciam largadas na lajota do quintal.

Ligamos pro veterinário do Fidel, explicamos a situação, a braveza. Não tinha ninguém pra nos ajudar. Teríamos que leva-la por nossa conta.

Joguei uma canga sobre ela, contando que, sem me ver, relaxasse um pouco. Deu certo. A suspendi com as mãos em pá e a depositei numa caixa. Reagiu. Percebeu. Sobre a caixa joguei outra canga rosa com estampa de abacaxi e fomos de uber pro veterinário.

***

Gata morreu. Não aceitou nem receber o soro. Ao encostar a agulha em sua coluna, deu um salto nem sei como, convulsionou e caiu. Tenho pra mim que, naquele momento, o que a matou foi o susto.

De repente, a canga tropicalista não pareceu solene.

***

Demoramos uns três dias pra voltar a ver os gatinhos.

Jardineiro veio.

Não conseguimos nos aproximar dos gatinhos.

Quando ninguém está olhando, eles comem da comida do Fidel.

Fidel não está nem aí.

Não batizamos os gatinhos.

Não podemos domesticar os gatinhos.

Não capturamos os gatinhos.

Não vamos doar os gatinhos.

Precisamos castrar os gatinhos.

Alimentamos os gatinhos.

Diariamente.

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