Quem tem medo de gênero e sexualidade? Convite

Assistimos atualmente ao desenvolvimento de um pensamento que defende que gênero é uma ideologia negadora da diferença sexual (diferença sempre pensada no singular). Os efeitos desse pensamento são sentidos em diversas instâncias da vida social, como por exemplo currículos escolares questionados pela adoção dos termos “gênero” e “orientação sexual”, críticas às iniciativas que viabilizam o uso do “nome social” em repartições públicas e identidades profissionais, proliferação de discursos sexistas e homofóbicos em espaços públicos e, por último, vinculação da agenda dos direitos reprodutivos à noção de que a família nuclear (casal+filhos) é a base elementar da vida social.

Consideramos que esse é um terreno fértil para pensarmos sobre os novos rumos das lutas por democracia, direitos humanos e cidadania no Brasil.

A proposta desse evento é reunir pesquisadores, docentes da Universidade e ativistas do campo feminista para analisar o recrudescimento de posições contrárias ao debate sobre gênero e sexualidades e apontar para os desdobramentos que esse recrudescimento implica.

As palestrantes são Maria das Dores Campos Machado, socióloga, professora associada da UFRJ, que pesquisa a atuação parlamentar de congressistas ligados a distintos setores religiosos; ela também é coordenadora do evento. Ana Paula Silva é antropóloga, professora adjunta da UFF. Sua atual pesquisa é sobre gênero e sexualidade na Escola; e Beatriz Galli, consultora do IPAS Brasil e membro da Comissão de Bioética da OAB-RJ, que trabalha com temas como mortalidade materna e acesso ao aborto.

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Informações:

Dia: 16/06/2016

Hora: 18:30

Auditório da Escola de Serviço Social – UFRJ

Campus Praia Vermelha

Av. Pasteur, 250 – URCA – RJ

Coordenadoras:

Patrícia Farias

Maria das Dores Campos Machado

Andrea Moraes Alves

Vamos Falar Sobre Gênero

Por Andrea Moraes, Biscate Convidada

“Professora, meu marido rasgou meu trabalho”; “Professora, se meu tio me agride eu posso dar queixa dele na Maria da Penha?”; “Ih, professora Andrea, essa coisa de aborto legal é lenda, bem tenho eu duas sobrinhas morando lá em casa, gêmeas, minha irmã foi estuprada e a gente nunca conseguiu tirar. Agora estão aí… Eu amo as minhas sobrinhas, mas a história fica, né?” “Quando eu era criança, vi um cara abusar da minha irmã mais velha, eu nunca mais esqueci.” “Andrea, mas e se eu não quiser ser homossexual? O que eu faço? Se alguém na minha Igreja souber?”

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No curso de graduação onde eu trabalho como professora, a disciplina que trata das relações de gênero no Brasil é obrigatória. Há alguns anos eu sou uma das docentes responsáveis pelo curso. Desde o meu doutorado, concluído em 2003, eu pesquiso o tema, por isso acabei ministrando a disciplina e gosto muito de fazer isso. Algo que desde sempre me chama a atenção são as conversas que acontecem ao final das aulas. A turma é dispensada e sempre chega uma aluna – são as moças em sua maioria quem me procuram e o curso tem muitas mulheres, embora um ou outro menino também se aproxime, usualmente com questões sobre homossexualidade – chegam como quem não quer nada, um sorriso no rosto: “Posso falar com você?” “Tem um minutinho?” E aí os papos começam e as revelações, às vezes o choro, a vergonha, o suspiro, o nó no peito. Já terminei muita aula com abraços e afagos, tentando confortar e orientar na medida do possível. Não sou advogada, nem terapeuta, mas também não creio que elas me procurem com essa expectativa. Sou alguém que fica ali na frente delas por algumas horas na semana, dizendo basicamente que gênero é uma construção cultural e que as desigualdades baseadas no sexo devem ser compreendidas e confrontadas, recito a cartilha toda das políticas públicas de gênero e sua evolução no Brasil, falamos do feminismo como movimento político e ao final do dia, eu me deparo com isso que é a matéria prima da vida mesmo: os conflitos, a dor, o interdito, a fala embargada e o abraço. Em nenhuma outra disciplina eu fui colocada nessa situação. Mas, sei que não sou a única, já troquei experiências com outros colegas de profissão que lidam com coisas parecidas em seu cotidiano de trabalho.

Ministrar um curso como o de relações de gênero é um desafio. Por um lado, a gente tem uma ementa a cumprir, a disciplina justifica-se dentro de um currículo, há leituras a serem feitas, conceitos a serem discutidos, tudo muito dentro do protocolo do que é ensinar para a graduação e despertar minimamente a curiosidade investigativa dos estudantes. Por outro, o tema mesmo do curso pulsa imediatamente na vida das pessoas, e pulsa cada vez mais com maior velocidade. Feminismo, gênero são assuntos que estão na ordem do dia. É algo que está ali tão perto, tão ao alcance da mão e tão escondido ao mesmo tempo.

Nesses anos todos de trabalho, eu já me embananei nessa função, quem nunca? Lembro que no início, os relatos me assustavam e eu ficava achando que eu devia estar fazendo alguma coisa errada, não estava dando o “tom certo” à disciplina. Ficava com medo do curso se transformar em consultório ou muro das lamentações e eu um arremedo de ajuda. Depois fui me entendendo melhor nesse lugar e mais, vendo que eu também tinha as minhas histórias pessoais. Através da confiança que as alunas depositaram em mim, eu aprendi a confiar em mim mesma e a me enxergar como não muito distante das histórias que eu ouvia. Foi só aí que eu deixei de me apavorar com esse lugar de professora que escuta e a conferir uma maior simetria a minha relação com essas alunas. Aprendi a ver que talvez fosse ali mesmo, no final da aula, que as histórias faziam seu sentido e longe de confundirem o conteúdo da matéria com a emoção, tornavam esse conteúdo vivo.  Esse exercício me fez perceber que os caminhos para o conhecimento são múltiplos e não concorrentes. A gente estuda, lê os autores, pensa com eles e a gente sente, vive, chafurda nos sentimentos e toma distância deles pra continuar tudo novamente, mais uma vez.

Numa das últimas aulas desse ano, uma aluna perguntou por que o direito ao aborto era um tema tão persistente na agenda das discussões do feminismo. Claro que a resposta pra isso pode estar em 100 laudas, espaço 1,5 com notas de pé de página e 50 referências bibliográficas recentes. Mas, a única coisa que eu pude responder na hora foi o seguinte: é persistente porque nos afeta, e a gente persiste naquilo que nos afeta.

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Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Meninas, brincos e Delegadas

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Essa semana é a Semana da Visibilidade Trans*. E eu vou falar sobre a minha experiência, de mulher cis (que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer). Eu podia acrescentar meus outros privilégios, privilégios que talvez você leitor(a) também tenha, ou não. Mas hoje vou me deter nesse ponto.

Eu, me identificando como “menina”, tinha os cabelos curtos, estilo “joãozinho”, e aos cinco anos de idade me foi negado o direito de usar o banheiro de meninas, que tinha uma peixinha de brincos e lacinho rosa, e me indicaram o banheiro de meninos, com o peixinho de bigode e gravata azul. Uma menina, mais velha (hoje, em retrospecto, imagino que ela devia ter uns nove ou dez anos) me disse que o meu banheiro não era aquele. Era inverno, o uniforme era moleton marron e eu não usava brincos.

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Ao sair da aula e encontrar com minha mãe, em prantos eu exigi que minhas orelhas fossem furadas e me fosse concedido aquele precioso símbolo da minha identidade de gênero. Não foi possível furar as orelhas no mesmo dia, e então, mesmo no frio, usei o uniforme de verão, sainha curta, para ir às aulas no dia seguinte.

Esse episódio se tornou meio que uma anedota familiar, e eu meio que o ignorei, afinal, não fazia sentido ficar remoendo. (…)

Já adulta, Delegada de Polícia, a militância em Direitos Humanos, que me acompanha desde o ensino médio, me aproximou de grupos ditos (e feitos) vulneráveis, entre eles o grupo das pessoas trans*, dentre a população LGBT.

Em uma conferência de Segurança Pública, dentre toda a fauna de policiais, gestores, sociedade civil, tive o prazer de conhecer Walkíria la Roche. Me impressionou sua delicadeza e feminilidade, fez com que eu, a menina “tomboy” dentro de mim, me sentisse quase “masculina”.

E depois, conheci, em 2012, pelo Blogueiras Feministas, Haley Kaas e outras pessoas trans*, mulheres e homens, e comecei a conhecer (um pouco) mais e pensar (muito) mais sobre as questões de gênero e identidades.

Percebi que o que eu achava que era “natural” não é bem assim. Que muitas mulheres em processo de transição sofrem enormes pressões para serem femininas e delicadas, para se enquadraram perfeitamente no molde da “MULHER”, esse ser que não se nasce, se torna, para todas nós, cis e trans*, mas que para uma mulher trans* é ainda mais opressivo.

No texto que abriu essa semana, a Daniela Andrade falou sobre as profissões que são designadas à mulheres trans*, às travestis: a prostituição ou os salões de cabeleireiros, quase sempre vilipendiadas, estereotipadas, violadas pelo preconceito.

Na semana passada, foi divulgado o fato de uma mulher trans* haver se submetido à cirurgia de redesignação de sexo, em uma profissão que muitos consideram masculina, e que por coincidência, é a minha profissão: Delegada de Polícia Civil. Foi em Goiás, e a mulher é a dra. Laura.

Eu tenho tentado não ler comentários em portais de notícias. O anonimato permite uma virulência que enoja, assusta, entristece. Mas li alguns, na matéria malfeita e maldosa de um jornal local. E uma das “preocupações” de alguns comentaristas era com a situação juridico administrativa da delegada. Afinal, ela entrou como “homem”, e de repente, “virou” mulher. Logo, ela fraudou o sistema.

Muito me espanta, gente até inteligente e estudada, falando isso. Não há cotas, nas policias civis e federal, como há nas PMs. Logo, a situação juridico-administrativa, ao meu ver, não sofreu alterações.

Outros, preocupavam-se com a dita “reserva de mercado” das DEAMs, que são as delegacias de atendimento à mulher, delegacias que tradicionalmente são ocupadas por mulheres.

Voltando ao tema, eu torço para que Laura, minha colega na PC, em Goiás, seja feliz, no caminho que trilhou. Seja na DEAM, seja numa depol de área, aquelas “chão de fábrica”, como a minha. Onde cabe “macheza” suficiente em uma mulher, como cabe em mim, o que quer que seja isso.

Porque hoje eu luto por um mundo onde a falta ou não de brincos não seja definidora de gênero. Para que crianças possam crescer sabendo que os banheiros não devem ser motivo de opressão de gênero, e que meninas podem ter bigode, meninos podem usar lacinhos e cor-de-rosa, e que isso não define quem somos.

Luto e torço e espero por um mundo onde papéis de gênero não sejam tão fixados que impeçam que um homem possa ter empatia e capacidade de sensibilidade suficiente para trabalhar com mulheres em situação de violência, em uma DEAM, ou que, pelo oposto, imponham a todas as mulheres a obrigação de sermos sensíveis e “boazinhas”, portanto, ideais para trabalharmos “na Mulheres”.

Queria voltar ao passado e dizer para a Renata de 5 anos que tudo bem usar o banheiro de meninos, e que ela não precisa furar as orelhas se não quiser.

banheiro menina

Mas o que realmente dói é saber de tantas meninas em situação de disforia que não tem apoio, não tem amparo, não tem a quem recorrer.

Hoje eu vejo que o meu trauma é meu, e não é “bobo”,não vou diminuí-lo, pois ele me ajuda, agora, a calçar por alguns segundos, o sapato de uma criança trans*. Meus brincos me garantiram de imediato o ingresso no meu mundo, onde nunca mais me foi negada a minha condição de mulher. Eu quero que meus filhos vivam em um mundo onde não seja preciso um par de brincos ou um médico ou juiz para garantir que todos e todas possam ser felizes, da forma como escolheram.

Militância

Por Thais Justen*, Biscate Convidada

O que alguns militantes esquecem é seu lugar de privilégio na militância e no mundo, pelo simples fato de serem homens. Você sabe, militante, o que é ter medo de ir numa reunião porque o lugar é escuro? e porque, se for estuprada, vão dizer que a culpa é sua? sabe o que é estar numa reunião num lugar muito quente e com pouca água e não poder usar roupas curtas ou tirar a camisa, porque os companheiros de luta dizem que, neste caso, isso estaria desrespeitando eles? sabe o que é estar numa reunião e um homem dizer aos outros que não falará com você porque certamente você não entende tanto quanto eles(homens) sobre algum assunto qualquer independente da sua formação ou vivência, só por ser de outro gênero? sabe o que é após ter ocupado um imóvel ter um companheiro que se recusa a levar o prato pro local que foi escolhido pra ser a cozinha o que dirá então lavá-lo, e ainda por cima te chama pra fazer isso, porque afinal, você é mulher?

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Camila Vallejo, desrespeitada em sua militância sempre que mencionam sua beleza apenas.

Eu poderia dar mais exemplos que você certamente não vive na pele, como, por exemplo, a possibilidade de ser excluída de um meio de militância porquê já transou com vários de lá. Ou o horror de ser estuprada numa ocupação e os companheiros de luta ainda dizerem que a culpa é sua porque já dormiu com vários. Ou o abandono de ser estuprada por seu companheiro que é militante e os companheiros de luta falarem que ele é um bom homem, por isso não farão nada. Ou ainda o medo de ir aos espaços de militância porque já apanhou de algum companheiro de luta que, em algum momento, foi seu namorado, e os outros companheiros de luta não considerarem isso um assunto importante.

Um lugar de privilégio, o seu, que ignora quem não pode ir às reuniões porque tem filhos e os espaços de militância não são adequados a presença de crianças e afinal, como a responsabilidade pela criação dos filhos é da mãe – diz a sociedade – ela não vai pra reunião pra cuidar de seu filho mas o companheiro vai. Um lugar de privilégio indiferente ao fato de que existe quem tem que se preocupar mais com preservativos, porque se engravidar e não puder abortar (e mesmo podendo, arcar com o julgamento e condenação social) é sobre ela que o peso da criação vai cair. E tem a questão, que você não pensa, do problema de que se não consegue gozar, não há ajuda pra isso, enquanto pros homens existem vários medicamentos pra impotência, e contraditoriamente, se goza com facilidade também é problema, porque aí os companheiros de luta que se deitarem com você podem achar que “não é boa pra casar” porque gosta muito de sexo.

pagu militância e biscatagem

Pagu: militância e biscatagem (aperte aqui que tem post)

Mas não, certamente você não sabe o que são essas preocupações, e aí, sendo homem, é muito fácil falar que o movimento que quer acabar com a sua hegemonia – ou seja, seu poder de bater, estuprar, não cuidar dos filhos, não pegar tarefas de cozinha, e ainda ser considerado bom militante – enfim, falar que esse movimento está errado, e deve se preocupar com a classe trabalhadora apenas, sem gênero, porque, afinal isso te interessa. Que mundo bom seria pros homens se vivêssemos no socialismo, não houvesse mais patrões, mas as mulheres continuassem a ter dupla jornada, o sexo continuasse a ser focado no homem e o prazer da mulher permanecesse não sendo importante, num mundo onde “ser muito homem” continuasse a ser um elogio e ser “mulherzinha”, um xingamento. E que mundo merda seria esse pras mulheres…

Como disse Bakunin, não poderei ser um homem verdadeiramente livre até que esteja cercado de homens verdadeiramente livres também, pois a existência de um único escravo basta para diminuir minha liberdade. Assim, só poderei ser uma mulher livre no dia que ninguém puder ser estuprada por ser mulher. Pois enquanto puderem estuprar uma burguesa por ser mulher, as proletárias também poderão ser estupradas pelo mesmo motivo (coisa que não ocorre com os homens, frise-se, pois nenhum homem é estuprado apenas por ser homem e/ou por usar pouca roupa). Assim também, nenhum homem, mulher, intersex etc, poderá ser livre enquanto alguma categoria não for, só seremos realmente livres quando nem mulheres, nem negrxs, nem indigenas, nem homossexuais forem vitimas de opressão!

46583_1629211130545_8190939_n*Thais Justen é anarcofeminista, vegetariana, mochileira, militante das ocupações urbanas do centro do rio, da luta contra as remoções e da marcha das vadias. Tentando descobrir o mundo e experimentar a vida intensamente.

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