Caçando sonhos

Por Niara de Oliveira

[clica na música  e vai ouvindo…]

“O que foi feito amigo de tudo que a gente sonhou? / O que foi feito da vida? / O que foi feito do amor? / … / E o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir / Falo assim sem tristeza, falo por acreditar / Que é cobrando o que fomos que nós iremos crescer / Outros outubros virão / Outras manhãs plenas de sol e de luz”

Quase sempre uso esses versos pra perguntar para e por amigos agora distantes onde estão os sonhos que sonhamos juntos. Raramente faço essa pergunta a mim mesma. [sim, esse post é sobre o meu umbigo]

Diante de uma foto não tão antiga, mas de um tempo que me parece agora tão distante, e da dúvida diante do significado do meu próprio sorriso me perguntei: onde estão os sonhos daqueles dias? Que sorriso era aquele? Seria sincero, sarcasmo ou palhaçada?

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

um domingo de setembro de 2011, na cozinha da Adriana Torres, sorrindo pra Renata Lima

E caçando meus próprios sonhos, sonhei com coisas extremamente simples: um olhar (oi, Renata) mais generoso comigo mesma — tinha pensado o pior de mim e daquele momento, mas lembrei onde estava e para quem eu sorria… só podia ser sincero –; outras manhãs, plenas de sol e de luz em Satolep…

Podia ser mais. Talvez devesse ser mais, sonhar mais e maior, mas por agora é só isso mesmo. Vou deixar para caçar os outros sonhos depois.

amanhecer no Laranjal

amanhecer no Laranjal

Sobre aceitação e generosidade – ou uma biscate gorda

Esta texto está sendo escrito e reescrito na minha cabeça, e na minha vida, há tempos.

E num sábado de sol a Renata Lins e a Luciana Nepomuceno colocaram na pauta esse texto-entrevista-bate-papo sobre corpo e seus padrões que, poxa, falaram tanto comigo.

E eu pensei que podia finalmente escrever sobre a minha experiência com o corpo e os padrões, e o que EU tenho tentado aprender com isso.
Você já olhou para trás e viu como você era linda na adolescência mas se achava feia/gorda/esquisita? Acho que muitas pessoas já fizeram isso.

Como disse a Renata Lins:

minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras.

Eu acredito que é um processo, um esforço, uma conquista mesmo.

A gente é bombardeado todo dia com fotos da Gisele e de outras. Na minha época, eram a Cindy Crawford, a Ana Paula Arosio e a Luana Piovani. Eram elas os “padrões”. O narizinho da Ana Paula fazia eu odiar cada dia meu nariz. E a Cindy, bem, ela ao menos eu admirava porque ela mesma era crítica quanto ao que era a persona “Cindy Crawford”, que ela chama(va) de “A Coisa”. Ela dizia que nem ela acordava sendo “A Coisa”. Como Rita e Gilda.Hoje EU acho que é mais fácil, para mim, porque tenho outros modelos, e nenhum deles é uma modelo ou atriz famosa.

Mas tem ainda regramentos sobre como temos que ser “sexy sem ser vulgar” e outras mais. Ou seja, não dá pra dizer que o mundo mudou.
Então, EU tenho tentado aprender que quem muda somos nós, em um processo que não é fácil.

Aos 15 anos, eu pesava 58 quilos, tinha 1,65m e me achava enorme. Meus parâmetros? Duas amigas, uma com 1,50m e outra com 1,55 m, biotipos totalmente diversos do meu, e uma paranóia com os corpos. (Uma delas era aquele tipo de amiga que gosta de fazer as outras se sentirem mal, e infelizmente, gente ruim ou “com problemas” existe e se reproduz, desculpa sororidade.)

Voltando ao tema, eu era gostosa pra caralho (olhando as poucas fotos que tenho da época, já que odiava fotos, quem nunca?) e me achava feia, gorda, bochechuda. Isso não impediu namorados, rolos, etc, mas sempre esteve no meu inconsciente.

Aos 18 anos, ganhei muito peso, e rápido, e fui parar no Vigilantes do Peso. Tenho as fichas até hoje, em uma pasta com todas as avaliações físicas que já fiz em academias nessa trajetória, as vezes eu acho que para provar que “já fui magra” ou que cumpro o papel da gorda que não se aceita e tenta a todo custo ficar no “peso ideal”. Perdi peso, ganhei peso, entrei na faculdade.

Os anos de faculdade foram de novamente me sentir enorme, mesmo não sendo tanto – as fotos estão em casa, para me mostrar. E na formatura, de novo, ganhei muito peso, muito rápido. Bochechuda.
Formatura, e a luta pelo concurso público, pela estabilidade, pela conquista da independência, e aí, tudo ia mudar, eu ia fazer plástica no nariz, aumentar o peito, etc e tal e achar alguma pessoa legal e ter o pacote Sex and The City em Ovorizonte (isso é assunto para outro post…)

Nos primeiros dois anos de formada, continuei engordando, até que um dia decidi mudar, perder peso, ficar magra. Consegui. Nesse meio tempo, concursos para cargos que exigiam provas físicas, aprendi a malhar, correr, comer bem, parei de fumar… por alguns meses, ao menos.

Fiquei magra. Pesava 57, menos que na adolescência. Passei no concurso. E não foi a felicidade instantânea. Ai a gente continua buscando, buscando, buscando.

Em oito anos, emagreci, engordei, tomei remédio para emagrecer, voltei a fumar, engordei tudo de novo.

Vivo de dieta, como mal, me prometo que na segunda-feira eu volto a correr e comer direito. Compro alface e semente de linhaça. O alface murcha, a linhaça mofa.

E quando me revelo “de regime” já me perguntaram se eu não li “O Mito da Beleza”. Cara, eu li. E me identifiquei total: já fui das convertidas que querem emagrecer todos ao seu redor.

A questão, pra mim, ao menos, não é saber que a ditadura da beleza/magreza é algo criado para gerar lucro e controlar as pessoas, especialmente as mulheres.

O buraco é mais embaixo: é que, mesmo sabendo disso, eu vivo nesse mundo. Eu compro roupas nesse mundo, eu vou ao salão de beleza, eu ouço as pessoas falando, os jornais, as revistas, minha mãe… as pessoas bem intencionadas, como eu já fui, e aquelas que gostam de alfinetar, as maldosas que gostam de simular que se importam mas querem é cutucar pra ver como você reage.

A sorte, nesses dias, é que hoje eu tenho uma rede de proteção. Eu tenho amigas incríveis, e tenho aprendido a exercitar o olhar generoso de que a Isa Cassaloti fala e a Luciana Nepomuceno cita. Eu tenho me permitido me olhar com generosidade, olhar as pessoas e o mundo com generosidade.

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. “

EU tenho preocupações: com a saúde, com a possibilidade de engravidar, com o peso que estou hoje, se seria ruim para mim e para o hipotético embrião-feto-bebê.

Este post depoimento, que não vai ter minhas fotos de antes-depois-agora porque não estou em casa enquanto traço essas linhas, é só para compartilhar que todas e todos temos nossos dias. Que todas somos lindas, inteligentes, gostosas, fantásticas, mas mesmo assim as vezes duvidamos. Como não duvidar? Tanta gente falando de dieta e envelhecimento, bate o medo, a ansiedade, a raiva mesmo as vezes.

Quando bater o medo, a raiva, a ansiedade, é bom respirar (aproveitar e olhar foto de gatinhos e filhotes em geral também ajuda) Se olhar no espelho e ver a beleza que há em casa um de nós, e escolher ser feliz do jeito que você é. Mesmo que te digam que você não pode, não deve, não entendam como. A gente pode, sim.como nos vemos laerte

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