Duas mulheres, muitas mulheres

O papel da mulher na História varia tanto quanto a mesma História. Fixar a mulher, como qualquer coisa, em uma entidade entendida como um tipo apenas, formatada diante de estereótipos, é torná-la não mulher, não viva, esquecê-la, encaixotá-la.

A mulher não nasce oprimida e nem se torna vítima, frágil ou cor de rosa choque, tudo é construído, mantido, transformado, desconstruído, reconstruído, no decorrer dos tempos, resistências, ações e omissões.

A mulher é a mulher e suas circunstâncias, parafraseando Ortega Y Gasset.

Uma das mais interessantes descobertas de minha vida de historiador foi a mutabilidade da mulher não só no decorrer do tempo, mas do espaço.

A mulher e seu papel são variáveis tanto na história quando na divisão de classe, e a liberdade veste muitas roupas e comportamentos nesse ínterim, inclusive vestindo fardas.

Se escravas iam além do papel de cativas trazendo tradições de comércio e tornando-se senhoras delas e de outros a partir de sua arte comercial, o que diríamos de mulheres que saiam do papel de Esposa-mãe e tornavam-se revolucionárias de arma em punho? Ou que saiam do papel de vítima de abuso pra sair de um estupro cravando alfinete no pênis do agressor ou responder à violência doméstica lançando um ferro antigo de passar roupa na cabeça do marido violento?

Mulheres resistem. E não resistem apenas de forma visível, mas resistem inclusive com a apropriação do espaço de poder doméstico e avanço diante do espaço de poder público. Em múltiplas formas de luta as mulheres se organizam e ocupam papéis mais ou menos radicais na defesa de seus direitos, anseios e liberdades.

 Desde o feminismo Materno de grupos Estadunidenses do início do Século XX até as Socialistas do mesmo período passando pela queima dos sutiãs e pelas Pagu, as Mulheres rompem com o domínio sobre si de diversas formas no decorrer da História, algumas vezes mediando, outras vezes tocando fogo.

Duas personagens fazem parte desta reflexão de forma enfática. As duas fazendo parte de descobertas recentes, uma via documentos, outra via memória.

Falamos aqui da revolucionária Alzira, participante da Coluna Prestes, e de uma certa Violeta Moura Chamarelli, vulgo minha avó, que no início do Século XX, em período próximo, tocaram fogo nas ruas e sertões, sapateando na cara de uma sociedade que via a ambas como demônios sedutores, serpentes e subversivas formas de andar pelo mundo.

Enquanto Alzira saía do Rio Grande do Sul para se enamorar de Miguel Costa e acabar presa enquanto liderava patrulha de revolucionários em Uauá na Bahia, Violeta ia de trem todo dia para o centro da cidade do Rio, sendo alvo, ambas, de ações e julgamentos que as tinham por prostitutas.

Alzira sai de sua família e vai pro mundo, Violeta vai pro mundo antes que o tempo autorizasse.

Alzira usou o corpo como quis e bem entendeu, ou nos braços de quem amava ou nos braços de quem queria, ou por tesão ou por interesse, como quis e desejou e foi feliz, e jogou sinuca e tomou cachaça e não sofreu na prisão até sua anistia.

Violeta viu a opressão trocar de mãos e tentar bater nela, e ali, magra, frágil, mostrou uma força e uma raiva que impede domínios e que mostra pra fascista que com os braços soltos o adversário reage.

Alzira lutava contra Arthur Bernardes, Violeta contra uma sociedade conservadora e hipócrita, um marido fascista e uma ideia que mulher que trabalhava podia ser estuprada no trem.

Alzira queria mudar o mundo por uma ideia. Violeta resistia ao mundo e o mudou por vontade própria, nem sempre consciente.

Ambas exerceram papéis tomados à força das mãos do roteirista.

Uma virou soldado, outra enfermeira.

Enquanto Alzira lutava ao lado de homens para transformar o Brasil, Violeta transformava o Brasil no cotidiano, inclusive amando livremente sob os olhos de rapina do fascista torturador a mando de Getúlio, enquanto amava comunistas o marido os matava.

Alzira e Violeta viveram nos anos 1920 e 1930 no mesmos país que a muitas outras mulheres oprimiu e que a História tende a tornar todas boas donas de casa e virginais senhoras , avós que não viveram.

Alzira e Violeta viveram e por vezes ofenderam, urraram, gozaram, maltrataram os olhos de quem não entendia como que uma mulher podia sair do papel original e brilhar em palcos diferentes.

Só descobri e entendi Alzira quando entendi e descobri Violeta.

Violeta que me comparava a seu algoz pela personalidade e autoritarismo, Violeta que m e defendia em minhas rebeldias, que me ensinava a ler, a ser duro. Violeta e eu nunca fomos amorosos um com o outro, e nem podíamos.

Alzira que me ensinou a vê-la, Violeta.

A ambas um muito obrigado.

PS: Quem quiser saber mais sobre a Alzira é só clicar aqui e ler o maravilhoso artigo de Maria Meire de Carvalho chamado “A invenção das Vivandeiras: Mulheres na marcha da Coluna Prestes”.

Biscate e luta não se requenta em microondas

Joy Division foi uma banda que durou exatos quatro anos, ao menos pelo que se sabe. Surgiu na Inglaterra, em Manchester, em 1976, ainda em pleno explodir do movimento Punk no país, e tem seu fim em 1980, após o suicídio de seu vocalista Ian Curtis.

Entre outras coisas é tida como uma banda “depressiva”, com canções em tom obscuro e triste. Apesar disso ser um dos aspectos das canções, esta análise incomoda porque limita as características amplas da obra, que vai além do estado de espírito dos autores das canções e dos executores da interpretação. Como as características elencadas até na própria Wikipédia, em artigo a respeito do conjunto: A experimentação que ia de influencias de The Doors a Kraftweark, o andamento marcial da bateria (que veríamos até depois reproduzidos em algumas canções de outras bandas da época como o U2) e a meu ver um pouco de experimentação com a música “industrial”.

Joy division

As linhas de baixo, a bateria marcial, o uso da eletrônica, o tipo de vocal, referências criticas diretas à política pré-Tatcher, tudo isso é a meu ver um arcabouço de possibilidades de análise critica do trabalho da banda Joy Division, que no entanto é rotulada, catalogada, posta na prateleira das bandas “Depressivas” dos anos 1980.

E ai um tipo de manifestação artística fica ali, exposta ao consumo determinado, determinante, limitado, datado que a diminui a um espasmo de um sentimento de uma época. A partir disso a transformação dela em outros ouvidos em outras experiencias, outros mundos, morre, ela se torna um retrato desfocado do passado.

Se isso ocorre com um conjunto musical e uma manifestação artística, quando nos afastamos de situações menos “tensionadas” na vida social vemos que isso é muito mais amplo e presente. No caso das lutas dos movimentos sociais isso é, como se diz no Rio, mato.

Protesto de feministas estadunidenses a frente do concurso de Miss Universo em 1968

Frequentemente vemos referências às lutas feministas como algo que nasceu, cresceu e conquistou os tais “direitos iguais” nos anos 1970 e que hoje o que rola pelas Ramblas do planeta é uma excrescência, um surto de feminazis arcaístas. E isso não é novo, a própria localização temporal da luta feminista em um dado corte histórico situado nos anos 1960 é também uma redução do papel destas lutas a um elemento, a um momento único, a um tipo de fenômeno curto, localizado e que não tem continuidade nem passado.

Voltamos à transformação de algo em um tipo de artigo de museu, no sentido pejorativo do termo, de algo que o inibe, que o estagna, que o torna monolítico e por isso imóvel, sem cor, incapaz da sedução e de transformação.

Não se diz pelas ramblas que no início do século XX nos EUA , feministas, planejadores urbanos, movimentos anti-corrupção. religiosos, sindicalistas, socialistas meteram bronca na busca de redução da profunda desigualdade naquele país, no combate à falta de direitos políticos e à profunda miséria a que parte da população era exposta.

Não se diz que 20% das mulheres estadunidenses constituíam a mão-de-obra industrial até 1920, que não tinham direitos políticos e já convivam com a dupla jornada de trabalho. Não se expõe que as mudanças advindas da migração do meio rural pro urbano promoviam já atritos contra moral sexual vigente e levam à mulheres a experimentarem práticas sexuais mais livres, especialmente pelas jovens mulheres, que “batiam de frente” com valores tradicionais e tensionavam os limites comportamentais e políticos de então ( e que me parecem presentes ainda hoje).

Emma Goldman

Emma Goldman

Ao som do Blues, que cantava as vicissitudes da exploração econômica, da discriminação racial, das amarras de raça, classe e gênero, mulheres se embalavam na poesia e iam pro pau. O caso de funcionárias dos correios de Nova York que assumiam um comportamento de bastante liberalidade sexual, biscate mesmo, orgulhosas de sua situação de “independência e liberdade” é sintomático.

Na política “propriamente dita”, de ação sindical e partidária, não se pode esquecer que o formato que vemos cotidianamente em filmes e em abordagens “tradicionais” procura de alguma forma restringir a atividade política feminina às “Sufragistas”, que apesar de terem sido um movimento social fundamental na vida estadunidense da época estavam longe de serem a única forma de participação feminina na vida política cotidiana, não foi a única atuação das mulheres.

Elizabeth Gurley Flynn

E só pra dar um gostinho podemos abrir mão de citar a grande Emma Goldman e partir pra descrição do que as mulheres com e sem nome fizeram nas fantásticas mobilizações sindicais do IWW ( Industrial Workers of The World), que se propunha uma alternativa combativa ao sindicalismo conservador da Federação do Trabalho Americano (AFL em Inglês) e das ações do Partido Socialista da América, cuja atuação pela emancipação política das mulheres foi uma de suas principais bandeiras, mesmo não abraçando todos os aspectos dessa luta. Podemos citar que na greve de 1912 em Lawrence, Massachussets, vinte mil operários, grande parte mulheres, eram embalados por ativistas como Elizabeth Gurley Flynn, que frequentemente discursava para os trabalhadores em enormes comícios.

Kate Richards O’Hara

No Partido Socialista da América o papel das mulheres não era assessório e embora não fossem mais de 15% dos filiados possuíam forte presença na direção e se destacavam como líderes regionais e ativistas importantes como Kate Richards O’Hara, líder socialista de Oklahoma, e a escritora cega, surda e muda Helen Keller, que também era importante ativista no movimento pelos direitos dos deficientes.

São tantas as histórias que desmitificam o ativismo, a militância social e política de homens e mulheres fixados a uma só época, e cara e jeito, como se o mundo fosse um eterno congelador de movimentos, o que inclusive estimula um a busca da idade do ouro perdida (Mas isso é outra história), que teríamos de ter mais espaço para destilar o tanto de informação disponível. E falamos só dos EUA com as informações obtidas no livro organizado por Leandro Karnal, História dos Estados Unidos, há muito mais em cada país e cidade.

Helen Keller

O importante é perceber que não há um papel fixo, limitado, colhido e temporalmente morto, congelado e impossível de se manter ativo em nenhum aspecto da vida cotidiana. Matar a ideia das lutas pela conquista e manutenção de direitos como um elemento contínuo, com um lastro histórico que vai muito além de cortes temporais definidos é um ato político deliberado de tornar estas lutas ou mortas ou como quem atinge o objetivo final de sua existência.

Assim como a música de Joy Division, o movimento politico da mulher, o movimento feminista, não são só a queima de sutiãs da década de 1960 e nem morreram por terem atingido seu objetivo e mais, tem história, tem “linhagem”, tem movimentos pela liberdade, movimentos livres e ações claras libertárias par além de uma só época de “liberdade”.

Nossas vovós não ficavam só fazendo tricô, caras-pálidas!

A luta é antiga, a biscatagem também e não podem, nem querem, ser congeladas. Biscate e luta não se requenta em microondas.

O que é uma coisa bela?

A beleza, como todas as categorias explicativas do real ou de suas frações, não é um conceito “natural”, “pronto”, determinado por fatores alheios ao mundo humano. Assim como as tradições, a beleza é um elemento inventado e que é alterado através dos tempos com variações de acordo com contextos, classe, etnias,etc.

O dito popular “quem ama o feio, bonito lhe parece”, sabiamente já indica que a variação do belo é dependente do observador, que é quem a partir de seu juízo determina o que é belo, ou não, para ele. Este observador no entanto não é isolado e nem imune às influencias do grupo social do qual faz parte e mais ainda, da sociedade como um todo e suas relações de tensão entre classe, gênero, fenótipo, regionalidade,etc.

Em resumo podemos entender a beleza como mais um dos inúmeros eixos de categorização da realidade, grosso modo de rotulação do real, que é construído socialmente de acordo com as interações entre indivíduo e grupo, grupo e sociedade, sociedades e classes, sociedades e contexto histórico e entre sociedades e culturas.

O “Belo”, portanto, não é apenas um, nem é universal, tampouco natural. O “Belo” em 1600 definitivamente não era o “Belo” em 1800, como não o foi em 1940 e nem é em 2012. Cada época tem sua beleza e essa beleza é determinada socialmente e não está nada imune às tensões políticas intestinas a cada época e sociedade.

A beleza, assim, é uma questão histórica que se altera a cada contexto histórico. A estética pode ser entendida como um elemento presente em todas as sociedades, no sentido do julgamento do que é ou não belo, mas o resultado da construção do belo para cada sociedade não pode ser entendido como uno, ou seja, cada momento, cultura e lugar possuem sua beleza, a estética só pode ser entendida como um valor universal se entendida como a construção do belo de acordo com as especificidades do contexto. Como valor universal é redutora, como valor universal no sentido da estética construir só um parâmetro de beleza é redutor e também é uma questão de classe.

Como tudo na vida em sociedade não há um só determinante na construção do que é belo, mas não se pode ignorar a influência das divisões de classe na busca de um conceito hegemônico de beleza que instaure um formato que reflita a noção da classe dominante do que é belo. É a partir deste processo que o conceito de belo nas sociedades ocidentais seja, o da pessoa branca, com o corpo “sarado”, cabelos lisos, de preferências com traços nórdicos. O inverso disso é considerado feio, não-belo.

É neste sentido que o pobre, o negro, o índio, são feios no contexto social como um todo. É a partir deste entendimento que podemos apreender a dominância de um tipo de bombardeio cognitivo de um tipo de beleza que exclui a maior parte da população.

Não é uma teoria do “Quarto escuro”, não existe um planejamento que define uma estratégia de conquista de hegemonia sobre o que é belo, é um entendimento da percepção do belo como um valor sólido e universal a partir da ponta da pirâmide social e que é bombardeado aos demais ao ponto do outro se desconhecer como passível de ser belo. A beleza enxergada por uma classe é passada como beleza universal porque é assim que se entende por beleza entre a elite que detém os mecanismos de reprodução de ideologia. Além disso, é uma busca de beleza asséptica, “racional”, construída pelo esforço, que é quase uma defesa de tese do “Espírito do Capitalismo”, segundo Weber, aplicado à beleza.

Esse entendimento da beleza atinge a todos, mas especificamente às mulheres e ai fica até mais claro a divisão de classes do belo. Para a mulher ser bela para a sociedade, conforme o padrão estabelecido de beleza, ela tem de seguir conjunto de determinações, regras e práticas que possuem preços simbólicos e materiais nada brincalhões. Estes preços vão desde uma jornada extra de trabalho nas academias, que além de não ser remunerado ainda tem um curso financeiro alto, até transformações físicas por vezes radicais, fora a aquisição de produtos e mais produtos “de beleza”.

Este corte já reduz o acesso ao belo para milhões de pessoas, em especial mulheres, que não tem como doar mais um pedaço de seu tempo dividido entre casa, trabalho e por vezes estudo, deslocamento em cidades com péssimo transporte público e que toma grande parte do dia, com academia e exercícios que permitam a construção do corpo determinado pelas cartilhas publicitárias e nem meios financeiros de adquirir todos os produtos de primeira linha que são “obrigatórios”, conforme a Ana Maria Braga, na penteadeira de toda mulher.

A própria figurada beleza já corta outros tantos milhões, com seus cabelos lisos, pele alva, ou queimada de praia, boa alimentação, corridinhas matinais,etc.

E é neste sentido que a beleza torna-se política, pois ela é uma forma de aprisionamento seja da mulher em um papel que entre outras coisas é de acessório estético, seja dos não brancos como sub-classificados também como valor estético. A própria vinculação entre saúde e beleza, saúde e atividades físicas regulares, conceitos recentes e formados a partir do fim do século XIX e início do XX, obedece a uma lógica política a uma estrutura que exige além do trabalho e tempo um comportamento de manutenção do corpo físico com o fim de alongar a “vida útil” da mão de obra é uma arma política.

A beleza também é um campo de batalha anti-hegemônico, o belo também é um campo de disputa. Assim como parte dos movimentos negros utilizam a luta contra o padrão de beleza claramente definido como um padrão “branco” como um corte político que envolve a luta pela auto-estima e entendimento de sua beleza como existente, num berro que acaba por caminhar para o enfrentamento a estes padrões de beleza que reduzem a sociedade à imagem de sua classe dominante, precisamos avançar para a discussão do belo para além dos grilhões das propagandas de cerveja.

Porque a beleza é rica? Porque a beleza é branca? Porque a beleza é magra? Porque a mulher pobre automaticamente “se enfeia” e acaba se destruindo, se negra ou afro-descendente, mulata, e tiver o cabelo diferente do liso “obrigatório” em sessões de tortura semanais ou mensais para “esticar” os cabelos , e que acabam por destruí-los?

Porque a mulher pobre, que sofre mais o impacto de trocentas jornadas de trabalho, falta de um atendimento médico de qualidade, alimentação, é “enfeiada’? É tratada como refugo, como não-bela por um padrão que ela nunca alcançará diante das condições em que vive?

O padrão de beleza é também uma arma de destruição da auto-estima das pessoas pobres, o padrão de beleza é a negação da diversidade humana, da diversidade social e uma imposição de uma lógica de “se ver” onde o espelho só mostra o que não é o humano perfeito.

É preciso entendermos que a luta por qualquer tipo de mudança radical na sociedade e que inclua as pessoas em sua diversidade passa automaticamente pela luta contra a hegemonia cultural que atribui como sagrada a propriedade, a divisão de classes e uma beleza que exclui.

É aí que o belo exclui qualquer rompimento com o padrão estabelecido,que pune o não branco de olhos azuis às continuas exclusões que vão desde a recusa de negros como “anjinhos” de procissão até à negação de empregos por ausência de “Boa aparência”, leia-se identificação de um não-branco e não magro.

É preciso que nos perguntemos o que é uma coisa bela, e que essa resposta nos olhe nos olhos e nos identifique como somos, como amamos, como enxergamos o belo e não como nos dizem para enxergar e que o resultado da pergunta seja uma to político de negação à força da opressão, que também se ergue e destrói coisas belas.

Meu maior amor

Brasileirão da Biscatagem
Fluminense, Gilson Moura Henrique Junior

Nem sei quando as vi pela primeira vez. Aquelas cores, aquele jeito, aquela forma de trânsito nas minhas mãos, corpo, pele, coração.

Era como uma marca na alma, um pedido, algo que aquele moleque de oito anos não entendia porque amava e derretia nos pés daquelas cores e passos, passes, gritos, gol.

Não foi simples essa paixão, nunca. A sedução ao redor não era parca e nem leve. Avôs amados, Pais encantados e heróicos, tios com badulaques, mas lá estava ela, a bandeira, a cor, as três cores, o grito, o urro, o gol.

O grito operário Luso, a marra Flamenga ou a Gloriosa marca da memória de artes antigas em preto e branco, pesavam sobre a mente para influenciar a escolha, mas não conseguiram tirar meus olhos, a alma, o corpo, o mundo daquele amor.

Havia nascido tricolor, amava o Fluminense, amava suas cores e nem ao menos sabia até vê-las bandeira, grito, chute, gol.

E o tempo passava naquela sedução tateante e encarnada, de inicio tímido o amor era como quem pega na mão e treme, como quem não se sabe ainda amando, como quem teme o mergulho. De criança que via e amava ver o campo, aqueles homens que vestiam-se do meu amor, aqueles corpos, saltos, chutes, aquele frenesi físico que perambulava sob meus olhos. Tudo me era amor de uma forma leve, longínqua, mas quente e viva.

 Cresceu o amor, cresceram as fomes, a paixão, a necessidade de tocar as cores, o escudo, o nome, o saber-se delas. A pele pedia, o corpo ansiava, a alma gritava por vê-las, por vê-los, ao grito, ao passe, ao chute, ao gol.

 O tempo não nos foi leve, não nos poupou do abalo, da queda, do ódio, do medo, da tristeza de ver o que faziam delas, das cores pelas quais tinha o amor dos que nunca abandonam ou trocam. O tempo chegou quando ávidos e tolos barões estupraram-nas, destruíram-nas, queriam tirar-lhes o nome, o Football, transformá-las em passado. E caíram, foram lançadas ao inferno.

 Como Orfeu fui, fomos, buscá-las e sem olhar para trás subimos, subimos e as amando, as tomando nos braços, as tomando como quem retoma aquele amor, agora maduro, sabido, comido, sensualizado e consuma um casamento, um livre casamento que devora, que reparte, que compartilha e tem o coletivo amor em um leito de grama e grito e urro e gol.

 Hoje somos isso, amantes, amados, queridos loucos e deitados sobre a tez de três cores que traduzem uma tradição, uma bandeira, uma tatuagem na alma

 Neste amor buscamos outros, outras, e seguimos.

 Meu primeiro amor.

 Meu maior amor.

 Tricolor.

 E não um time de três cores.

Pretas, Escravas, Sinhás?

GUEST POST por Gilson Moura Henrique Junior*

"Negra Vendendo Caju", de Jean-Baptiste Debret

Quando se pensa em mulheres antes dos “modernos” tempos dos séculos XIX, XX e XXI, especialmente pós-1950, pensamos em escravas, em silêncio e na vitoriana figura da matrona massacrada e cuidadora. As negras escravas então são na maior parte as vítimas perfeitas, as ocultas, estupradas, jogadas no fundo do armário da dor onde Xica da Silva era apenas uma exceção libidinosa  e refúgio do preconceito que só dá poder à mulher através do sexo.

Sem negar a opressão, os estupros e a submissão da mulher na cama, na lama, na chuva, na fazenda, às vezes e frequentemente na porrada, será que podemos aprender a complexidade da questão feminina e, por que não, da escravidão com exemplos do contrário? Será que a mulher, especialmente as escravas, nunca puseram a cabeça pra fora desse mar de opressão?

Claro que sim e não só pelas peles brancas de Emma Goldman e Louise Bryant (magistralmente definida neste post da grande Niara), mas também em peles e mãos negras que foram à luta e sobreviveram apesar de toda marca fervente em suas peles de mulheres, escravas e negras.

A condição de escravo há tempos não pode mais ser vista sem a percepção de sua maior complexidade do que a vitimização constante da história oficial, que apequena inclusive a própria ideia de resistência, coloca. A questão feminina também não pode ser reduzida, como tudo aliás, dentro de limites que negam variações e que ocultam construções de resistência e de imaginário de resistência.

Se dos escravos foi percebida a condição de entes e atores que protagonizam movimentos de profunda resistência com revoltas e ações de negociação e conflito que permeiam toda a história da escravidão no Brasil, o que faltava para que entre o todo “genérico” denominado Escravos não fossem percebidas nuances que indicavam protagonismo também de seu corpo feminino?

Assim como João José Reis em seus “Rebelião Escrava no Brasil” e “Negociação e Conflito” nos trazem um belíssimo quadro de resignificação do escravo como mais que uma vítima de uma cruel realidade, mas também como agente e reagente a esta, a historiadora Sheila de Castro Faria nos traz no Dossiê África da edição de março da Revista de História da Biblioteca Nacional o rico quadro das Sinhás Pretas, mulheres que de escravas tornam-se senhoras e não só de sua liberdade, mas de uma forma de pensar que inclusive passa para outras mulheres e gerações o legado de sua liberdade.

Sim, estamos falando de mulheres que se libertam através da competência “profissional” como comerciantes e libertam outras, e conquistam protagonismo social em pleno período da escravidão, em pleno vigor de uma era de opressão oficializada e em especial pela tripla condição de negra, mulher e escrava. Estamos falando de mulheres que já no século XVIII atuavam como comerciantes ao ponto de não só trazerem uma arte de comércio presente em sua região de origem na África, mas dominarem uma parte do mercado e criarem uma espécie de “dinastia” baseada inclusive na aparente solidariedade feminina, negra e, por que não, escrava.

Não estamos falando de mulheres que se libertavam e viviam vidas discretas, com poucos bens e em habitações humildes, mas sim de pessoas que se libertavam do jugo do senhor acumulando riquezas e posteriormente bens que podiam ser deixados, como foram, para suas escravas e as filhas dessas. Interessante notar inclusive que geralmente as Sinhás compravam escravas e não escravos, que preferiam escravas, pessoas do sexo feminino e em geral nascidas na África e que não era incomum que a elas deixassem bens, assim como para suas filhas. Também não era incomum que as Sinhás fossem solteiras, mais um dado incomum para as mulheres deste período.

A condição de mulher, solteira, ex-escrava, negra, que talvez alimentasse páginas e páginas de livros água-com-açúcar na recriação de Isauras e Helenas lacrimosas morre diante do fato destas mulheres serem antes de tudo antíteses da condição comum da mulher no século XVIII, e ouso dizer que também do papel socialmente construído da mulher até hoje.

E se além disso tudo o papel exercido por elas na África e na América fosse um dado de  tal dinamização da economia que merecesse destaque por historiadores?

E se além disso conseguissem o que homens livres não conseguiram?

O papel dos escravos como vitimas da opressão não cabem em uma percepção histórica que os entenda como atores ativos da realidade. Oprimidos sim, escravizados sim, vítimas não. São vivos, resistentes ou não, lutadores ou não, mas ativos.

Da mesma forma a mulher em todos os períodos históricos sofreu com a opressão masculina de diversas formas, sofreu como posse, sofreu com diversas formas de domínio que ainda hoje atuam sobre a condição feminina, porém ainda assim não há nelas a lógica de coitadas, de vítimas inertes à opressão, de não resistentes.

A percepção de uma longa tradição de resistência que inclusive alimentam uma construção de imaginário de luta que vai além do comum e traz também uma tradição de tripla resistência contra a opressão de gênero, contra a escravidão e contra o racismo, é um dado de agregação às lutas pela emancipação de gênero da longa história de resistência.

E talvez estas mãos negras, mulheres, ex-escravas e revolucionárias mais um dado que alimenta a fome de superar a reação conservadora, mantendo uma antiga tradição.

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*Gilson Moura Henrique Junior é um ogro intolerante com altas doses de doçura, carioca, tricolor, da extrema esquerda incendiária que se define como “um malaco de classe poetizando respingos” e que veio a esse mundo para enfiar o dedo na ferida alheia. Quer conhecê-lo melhor (por sua conta e risco)? Ele escreve o blog Na Transversal do Tempo e você pode achá-lo no tuíter @redcrazydog.

Um Bicho Bem Bolado

GUEST POST por Gilson Moura Henrique Junior*

Escrever sobre Mulher não é nada fácil.

Apesar do mandamento pessoal de que nada, absolutamente nada, é simples, diante da multiplicidade  de fatores que a tudo influenciam e tornam praticamente todos os âmbitos de nossa vida sob o manto do subjetivo, o arcabouço de significantes que o objeto “mulher” tem, e não a mulher-objeto, não faz do assunto ser bolinho.

O meio de campo embola entre a estruturação de um “mulher” desumanizada, catalogada numa gaveta onde se lê “mãe, dona de casa e servil” e a divisão sistemática que o mundo masculino adora e nada de braçada ao abraçar entre “mulher pra comer ou pra casar”. Isso sem contar as diversas determinações que opõe ativismo feminista a delicadeza, força e agressividade vinculada a lesbianismo, etc.

Além disso tudo, a própria condição de macho, masculino, branco e hétero me torna automaticamente membro do grupo “de risco” da perpetuação de todos os rótulos e conceitos que generalizam a “mulher’”entre esta ser um bicho incompreensível misturado a uma eterna rebelde diante de papéis “fáceis” que esta “tem” de executar para ser uma “mulher respeitável”. As inúmeras aspas  já dão a linha do problema prático, científico, político e sensível, no âmbito pessoal, que falar sobre mulher traz consigo.

A partir dessa introdução plena de explicações que soam quase que como uma desculpa, resolvi mandar às favas os escrúpulos da consciência e declarar numa mistura de termo machista recuperado pelo bom-humor com um cinismo leve pra por a cachola pra sambar na cara da sociedade: Mulher é um bicho bem bolado.

Bem bolado para além dos desejos sexuais e estéticos do escriba, mas pelo arcabouço de significantes que essa belezinha traz pro dia a dia das cacholas plenas, diante do simples fato que mulher, este ser humano que precisa antes de mais nada driblar a la Neymar a perseguição de tantas camisas de força que a buscam despersonalizar, não é apenas um ser humano do sexo feminino, e sim a líder de um cortejo onde é perseguida pelas palavras “mãe”, “esposa”, “hétero”, “submissa”, “serva”, “irmã”, “filha” e fatalmente pelas expressões “deve obediência” e “pra casar” ou “pra comer”.

Mulher, apesar de bem bolado, é algo sempre visto sob ângulos que por vezes mal saem da bunda ou da prochaska. Ouvir uma mulher é algo que é considerado virtude pela sociedade. Quantas vezes não se ouve “esse homem é ótimo, é um bom ouvinte”? Ou seja, ouvir a mulher é considerado virtude pelo raro disso, pela voz da mulher ser considerada no âmbito social, e reproduzida no psicológico, como inaudível ou insignificante para a lógica das decisões cotidianas.

A estética para a mulher tem peso dois, a mulher não pode ser feia, sob pena de ter piadas a seu respeito indicando que estupro pra ela é bom. Homem feio ainda tem o migué de ser chamado de charmoso, mulher feia é quase colocada a ferros. Fora a necessidade atávica da beleza como pré-requisito, o rosto, a bunda, os peitos, as coxas são mais importantes que ela. É claro que como fenômeno social recente, de ao menos 60 anos, isso pega também pro lado macho, mas o peso maior é sobre a mulher que precisa ser bela “para arranjar bom marido”. Além disso tudo a lógica de ser “prendada”, de ter o domínio das “artes do lar”, em um papel restrito a ela, mulher, como se uma condenação, como se a casa fosse residência, mundo privado, dela, apenas dela. O mundo é dos homens, a casa é da mulher.

Esses são apenas exemplos isolados de um sem número de questões, a lógica própria  da sociedade produz outras como a culpabilização da mulher pela conquista de direitos e por estes, por óbvio, também trazerem, qual uma maldição de pandora, ônus, como o da maior mortalidade de mulheres por enfarto após maior participação no mercado de trabalho.

Claro que o senso comum que diz “elas não queriam direitos iguais? tá aí!”, finge não ver que os direitos ganhos não superaram o acúmulo  do novo papel advindo dos direitos com o velho papel nunca superado do macho-paxá incompetente que não lava louça ou se responsabiliza pela participação com culhões no trato com os filhos, ou seja, as moças seguram as pontas em duas frentes e a macharada ainda diz besteira. Fora que dói nos ovos o “elas não queriam direitos iguais? Tá aí!” porque pra mim direitos iguais deveriam ser norma, a diferença, a casta, é tolice de pau pequeno.

É nesse mundo que o “bicho bem bolado” resistente que só, inteiro, digno, se lambuza em ainda nos presentear vidas, artes, lições. É neste mundo de papéis rígidos, rosas, para mulheres e direitos amplos e liberdades totais, plenas, ao ponto de ter defesa prévia em caso da ignomínia do estupro, pro macho adulto, branco, que veste azul, que as fêmeas, por vezes chamadas de feminazis, nos dão o baile de produzirem Rosas, Joyces, Simones, Elis, Cássias, Fridas.

Em uma metáfora ruim: Elas nadam com camisas de força.

Filho que sou de Logunedé com Oxum resolvi escrever após ouvir uma inspirada Maria Bethânia cantando “As Yabás”, onde várias facetas do divino feminino são cantadas através das Deusas Iorubás: Obá, a guerreira forte, masculinizada, que “não tem homem que enfrente”; Euá, a “menina bonita” e virgem que não tem medo de nada; Iansã a guerreira que comanda os ventos, uma menina bonita sem principio ou fim e Oxum, minha  mãe, a mãe, a beleza, o rio.

Ouvi também “As Minhas Meninas” de Chico Buarque onde a longa educação do “macho protetor” é dita com sensibilidade que não o torna um ditador, onde “As meninas são minhas só minhas na minha ilusão” e no entanto “ E a solidão maltratar as meninas, As minhas não”.

Tudo isso gerou esse post imenso. Porque foram “As Minhas Meninas” que junto com um velho ogro, me tornaram o que sou. Foram elas, que me pertencem sem meu domínio, a quem pertenço, qual pertenço às deusas de minha fé, que  me fizeram irmão, amigo, amante, namorado, noivo, filho. E a cada minuto desses tendo de obrigatoriamente superar as  imposições que tornavam cada menina algo menor, desumanizado, ínfimo, parco, calado.

Os ogros tem camadas, e os velhos ogros sabem disso. O maior legado dos ogros é não ver nem dizer as biscates assim, como menos, como parte, como gueto, como sem alma.

Tantas as biscates são, tanto quanto as deusas, de tantos tipos, tantas são estas “Minhas Meninas”, com tantos rostos, formas, deslizes, acertos, risos, gritos, ódios. Como torna-las apenas mães? Como torná-las “devoradoras de homens”? Como dividi-las em “pra comer” ou “pra casar”? Cabe “pra amar”?

E “homens” somos só “homens”? Não somos grandes, pequenos, gordos, bobos, ogros, falsos, mortos, vivos, fogo, água? Somos pedras encaixadas ou seres?

Somos, antes de mais nada, um bicho bem bolado.

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*Gilson Moura Henrique Junior é um ogro intolerante com altas doses de doçura, carioca, tricolor, da extrema esquerda incendiária que se define como “um malaco de classe poetizando respingos” e que veio a esse mundo para enfiar o dedo na ferida alheia. Quer conhecê-lo melhor (por sua conta e risco)? Ele escreve o blog Na Transversal do Tempo e você pode achá-lo no tuíter @redcrazydog.

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