E a responsabilidade, de quem é?

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Evitar filhos não é uma tarefa fácil. Apesar de parecer, a coisa é mais complicada do que imaginamos. E, embora o sexo seja uma ação praticada por dois indivíduos, o ônus de uma gravidez indesejada cai, invariavelmente, sobre a mulher.

É golpe da barriga de um lado, vagabunda do outro. Lembro de um amigo que tive na adolescência que sempre vinha com o “acho que minha namorada está gravida”, morrendo de medo. Eu perguntava, quase todo mês: “Mas você quer filhos agora?”. E ele sempre “não”. Mas PORRA! Se você não quer ter filho, porque VOCÊ não SE previne? Isso é assim tão difícil? Morro sem entender pessoas que bebem veneno esperando que o outro morra.

Há alguns dias saiu a notícia: Anticoncepcional masculino deve chegar ao mercado em 2017. Este novo método, sem contraindicações e que não modifica a produção de hormônios masculinos, consiste na aplicação de um gel nos vasos deferentes, que ficam nos testículos. O gel bloqueia a passagem dos espermatozoides, da mesma forma como aconteceria se o homem fizesse uma vasectomia. Com o benefício de ser reversível.

Fiz o seguinte comentário no FB quando compartilhei a noticia:

Estou ansiosíssima para ver como ficarão as novidades do senso comum:
– “Quem mandou meter isso no meio das pernas das outras”?
– “Não quer engravidar ninguém, então se previna!”
– “Comeu porque quis”

Onze  mulheres e sete homens comentaram o post. Apenas um deles festejava o feito. Dois disseram que nunca ouviram sobre “isso de culpar a mulher”. Uma das meninas comentou que para as mulheres a indústria  investe em métodos danosos – com hormônios – e que para os homens a publicidade de um método mecânico, não hormonal já explicitava a diferenciação no cuidado do mercado. Ao passo que um homem respondeu: Mas o DIU não é mecânico?

Pois é. O DIU é mecânico sim, mas há alguns probleminhas com ele, como hemorragia, sangramento entre períodos menstruais, irritação do pênis do parceiro, aumento do risco de doença inflamatória pélvica (podendo levar a infertilidade); expulsão acidental (pode resultar em gravidez inesperada); adesão do DIU à parede uterina; perfuração do útero pelo DIU, com possível dano para outros órgãos como também hemorragia interna.

Isso pode deixar às claras que, além de simplesmente desconhecer os métodos contraceptivos que deveriam ser responsabilidade de ambos, pode haver ainda a resistência de uma “nova” responsabilidade.

Desde os anos 60, a responsabilidade da contracepção na relação sempre recaiu sobre a mulher, principalmente quando o assunto é pílula. Além de ficar com a obrigação de seguir data e horários certos, elas ainda arcam com os problemas de origem hormonal, característicos do medicamento. Danos como trombose, embolia pulmonar e outras reações adversas graves relacionadas à pílula são comuns e raramente as mulheres são avisadas dos riscos que correm no ato da prescrição.

Aberta em setembro de 2014, a pagina no facebook “Vítimas de anticoncepcionais – unidas a favor da vida” reúne mais de 40 mil pessoas e se dedica a viralizar histórias de mulheres que tiveram problemas com a pílula para alertas outras. O movimento pede que se torne obrigatória a notificação dos casos de complicações por parte dos médicos à Anvisa. Em um cenário de falta de dados públicos sobre o risco do medicamento, a pressão e a divulgação de casos pelo movimento é muito necessária. O banco de dados reunido pelo grupo é uma das poucas fontes de informação a que as usuárias do medicamento podem recorrer.

De acordo com a Anvisa entre 2011 a 2014, houve 83 notificações com medicamentos compostos por drospirenona/etinilestradiol, que é o anticoncepcional de maior risco para eventos tromboembólicos. Não há nestes dados informação de outros fatores de saúde específicos que podem ter contribuído para a reação notificada. A agência não possui meios para obrigar os médicos a notificarem eventos adversos.

Destaco que apesar de todos os pesares, a chegada da pílula ao mercado foi um grande passo para os direitos reprodutivos das mulheres. O que se espera que é que mulheres possam regular sua atividade sexual sem correr riscos de saúde e sem a divisão de responsabilidade em caso de algo inesperado/indesejado ocorrer.

Obviamente não espero uma mudança repentina de paradigmas: nem do pensamento machista que coloca na conta da mulher o ônus por uma gravidez indesejada e nem que homens comecem a tomar pílulas ou se submetam ao procedimento anunciado semana passada, que depende de uma microcirurgia.

Mas vale pontuar que a chegada de métodos contraceptivos masculinos ao mercado é importante para que haja a real percepção – e pauta de debates – de que a responsabilidade pela gravidez é de ambos os participantes do ato sexual. Ainda é muito comum que homens digam que “não sabiam” que o ato sexual não estava seguro. Isso é absolutamente ridículo, dado que uma das consequências naturais do sexo é uma possível gravidez.  Mais ridículo é ver que este discurso pobre encontra ecos nos dias de hoje.

11185773_810688268984343_928558166_nCecília Oliveira é jornalista, especialista em Segurança Pública e Política de Drogas na América Latina, Administração Pública e 3° Setor. Coordenadora de Comunicação da Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil. Atleticana de corpo, alma e coração!

 

Aborto – História de uma (Quase) Gravidez

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

postSara

Acho que toda mulher que faz sexo tem uma(s) história(s) de camisinha estourada ou de menstruação atrasada que assusta a ponto de pensar: “o que farei da minha vida? Não era pra acontecer agora/com ele/desse jeito. A minha história mais recente foi no final de setembro, minha menstruação atrasou por uns 20 dias, desde que comecei a tomar Mirena, a menstruação tem ensaiado acabar e, de setembro pra outubro, ela acabou de vez.

Explicar pra vocês como foi meu fim de mês de setembro: minha família toda por conta de uma cirurgia que minha mãe fez, tensão e muito cuidado. Então, estava eu por conta da minha mãe no hospital, num estresse danado e preocupada se podia ou não estar grávida. Foi por isso que demorei tanto pra fazer o exame de sangue.

Durante esse tempo, passei pelo ódio, pelo medo, pela culpa. Queria entender porque uma coisa dessas poderia acontecer comigo, uma mulher tão cautelosa com contracepção. Sei muito bem que uma mulher cis, hétero e fértil só tem 0% de chances de não engravidar se não fizer sexo. E eu não sou dessas que não faz sexo!

Senti muita vontade de, como tantas outras mulheres, abortar. Seria difícil e ilegal, fiquei em pânico. Pensei muito mesmo em como minha vida mudaria pra pior se engravidasse naquele momento. Foram muitos choros e muita vontade de sumir. Tive apoio do meu namorado, dxs familiares e amigxs que sabiam. Todxs me falaram que estariam comigo seja qual fosse a minha decisão.

É difícil julgar uma pessoa que apóia quem ama numa decisão tão delicada como essa. Apoiar é amar, cuidar e se preocupar, querer segurar na mão. Eu, se estivesse grávida, teria apoio pra qualquer decisão que tomasse, abortar ou manter a gravidez.

Foi faltando pouco tempo pra saber o resultado que eu decidi manter a gravidez, por medo, unica e exclusivamente da ilegalidade do aborto. Medo de passar a gravidez na cadeia, sujar minha ficha criminal. Se o aborto fosse legal no Brasil, nem pensaria duas vezes em abortar. Afinal, quero filhx(s), num futuro mais distante, adotivx(s), e eu quero poder ser a mãe que eu sempre sonhei. Quero uma maternidade tranquila, sem passar perrengue. Quero dar a elx(s) tudo que eu tive e muito mais.

Quando o resultado saiu foi um alívio, pra mim e meu namorado, ninguém deveria ser pai ou mãe sem planejamento prévio, sem querer. Gravidez deveria ser um momento de alegria e não de choro!

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