De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado

A ideia deste texto surgiu num diálogo no feicebuco com as biscates Renatas, Luciana, Niara e com a Amanda, num post da Renata mineira sobre a pesquisa do chega de fiu-fiu, reclamando da falta de empatia de muita gente com a questão, numa linha que adotava o deboche. Fui provocado a escrever alguma cousa, depois que escrevi algo nos comentários…

Não foi fácil chegar. Porque sou o que é convencionado de “cis” tudo: branco, classe média sempre,  heterossexual. Porque mexer nesses vespeiros é olhar para dentro da gente. Nas vezes em que fizemos gracejos inconvenientes e insistimos. E já não tínhamos mais desculpas da idade. Na embriaguez que encoraja, mas na verdade, covarde. Em pensar em nossos comportamentos, nossos olhares, nas clássicas “conferidas”. E sim, concluir, que as vezes posso ter ofendido. E mais, causado medo. E mais, sido um imbecil completo.

Escrevi um pouco. Não é necessariamente um texto opinativo, daqueles que pegam argumentos e são defendidos com algum rigor, técnico – advogado costuma fazer isso… São impressões. E alguma prosa.

É isso. Espero que dialogue.

chega de fiu fiu

De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Diria, assim, de longe, de cá donde estou, que os dois combinavam. De fio a pavio. E mesmo cá, não era uma combinação estética, somente. Era o jeito que ela olhava para ele, como quem completa. E o jeito dele, mão no rosto dela, como que extensão. Era bonito. Parecia que conversavam, riam, se divertiam.

Mas um algo de estranho ali. De repente. Talvez algo que ele disse, talvez algo que ela notou. Bafo, bebida, cigarro, religião, clube, pt, psdb, deus, fome. Sempre é assim, complexo assim, nesses jogos de um com um, de flerte, beijo, sabonete, sexo, manteiga, amor, dor, razão, vinho tinto. Uma hora ou outra a tal chama apaga ou desata ou engana ou enterra.

O fato é que o que era bonito passou assim a ser… feio. Porque ele mudou feição, mudou corpo, se impôs, peito que estufa, voz que sobe, mão que não era mais extensão. Porque ela definha, muda, amiúda, deixa de sorrir. De longe aquilo começou que começou a incomodar.

Sorte que ali ela saiu e foi embora. Mas ele foi atrás. Não sei porque não acompanhei mais e comecei outras furtivas. Só mais tarde soube. Que os dois se estapearam no estacionamento e se não é o segurança da farmácia a coisa tinha degringolado. Não sei o que aconteceu, porque não vi.

Mas o fato é que dia seguinte haviam duas versões. Que ela, a sacana, provocou tudo e disso isso aquilo e aquilo outro, que aquela vestido preto já dizia tudo. De fato, de cá onde estou, o vestido era lindo e ela combinava com ele. Era curto, diziam. Era convite, apalpavam. A outra versão dizia que ela se cansou, tinha que ir embora, trabalhar dia seguinte e era tarde. E não tava a fim. Também não sei, porque não vi. Estou longe. Mas, afinal, escolhi a segunda versão. O vestido lindo não era senha. Nunca foi. E de longe aquilo tudo começou a me incomodar.

“Afinal, o que vocês pensam que são?”. “Mas é complicado, né, ela provoca e depois pula fora!”. “Ela não quis, uai. É tão difícil assim?”. “Você diz isso para ficar bem com elas, ter discursinho. Queria ver se acontesse com você. Ficar de pau duro assim e nada.”. “Ah… vai tomar no cú.”. “Veado.”

Há algo de errado. De cá de onde eu estou…

Outro dia li sobre uma tal pesquisa que concluía com uma bandeira: a do chega de “fiu-fiu”. A polêmica que gerou é que este tipo de reação, a de que a proibição da brincadeira, significaria o fim dos flertes, o fim do romance, o fim da cousa toda. Li mulheres dizendo que não querem o mundo assim, que tudo ficaria chato, que elas conseguem se defender e que é fácil identificar uma agressão de uma simples cantada. Não sei, não vi. Algo me incomoda nessas assertivas. Porque há algo de estranho, de senhas. Tantas e tantas vezes, galinha que sou, me dei num gracejo, numa brincadeira, numa visão de comédia romântica.  Certamente eu conheço os limites, as regras, o que pode e não pode. Até o dia que não, nada se encaixa:  A rua escura, o não, o corpo, os jogos. As estatísticas, dos outros….

 “Afinal, o que vocês pensam que são?”. O feirante e o “mulher bonita não paga, mas também não leva.” A obra, o “ô lá em casa.”. A rua e o assovio. Do lado de cá, certamente, tudo parece combinar. Mas o vestidinho, tão bonito, que combina tanto, que tão curto.  Quem nunca ouviu esta, para tentar explicar senhas?

De cá onde estou, basta não ficar tão longe, já dá para ouvir a conversa, o tipo, sentir a mão no rosto, a bofetada, a cusparada, o riso, o deboche, a força física, a imposição, os julgamentos, o dia que foi ruim, o cio, a lástima, a perda, o ódio, o fetiche, o corpo, a mercadoria, o consumo, o vício, a doença, o flerte, o combinado, o acordo, o desacordo, o linho e o desalinho. Só não dá para identificar todas as senhas. Estas só estando ali, no lugar do outro.

E quando estou longe, mas também quando estou perto, talvez seja a hora de escolher não só uma das versões, mas adotar um lado, um lugar: não é senha. Simplesmente não é.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Um conceito essencial na luta pela igualdade travada por grupos minoritários é o de que a vitória de nenhum deles será completa enquanto outros continuarem a sofrer opressão, venha ela de onde vier. As lutas não são excludentes. É uma espécie de “mexeu com um, mexeu com todos”. Audre Lorde, poeta, negra e lésbica, disse que não existe hierarquia de opressão e que “sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo”. Um sub-gênero cinematográfico perfeito para ilustrar a interseccionalidade das lutas é o blaxploitation. Surgido nos EUA na década de 70, consistia em filmes onde os negros eram os protagonistas, não apenas narrativamente, mas invertiam as atitudes historicamente reservadas a esses personagens no cinema. Assim, o negro não mais se contentava em ser salvo pelo branco, mas assumia as rédeas de seu destino e ainda por cima tirava um sarro da autoridade botando o pé na mesa e rindo na cara do opressor. No more nice guy. And girl.

Um interessante desdobramento desse movimento foi a aparição de filmes policiais estrelados por mulheres negras. E aquela que talvez possa ser considerada o símbolo dessa onda é Pam Grier. Intérprete de Coffy, Foxy Brown e Sheba Shayne (não são os nomes de personagens mais legais de todos os tempos?), Grier ajudou a definir esse momento na luta pela igualdade racial e de gênero. Anos mais tarde, quando o blaxploitation era uma página virada na história do cinema, Pam foi trazida de volta ao centro dos holofotes por Quentin Tarantino em Jackie Brown, uma homenagem à estética daquele período.
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Um de seus melhores filmes na década de 70 é Foxy Brown, escrito e dirigido por Jack Hill. No papel-título, Pam interpreta uma mulher que, tendo seu namorado, um policial no programa de proteção à testemunha, assassinado por gângsteres, resolve partir para a vingança passando por cima até mesmo de seu irmão. Sem nenhuma vergonha de usar o corpo escultural para atingir seus objetivos, ela assume um trabalho de prostituta para se infiltrar na gangue. É incrível a naturalidade com que o roteiro lida com temas como prostituição e homossexualismo, especialmente se levarmos em conta que só há poucos anos esses assuntos têm tido um tratamento menos moralista no cinema mainstream. Foxy transita por bares de lésbicas e fica claro que aquele é um mundo que ela já conhecia. Em nenhum momento o trabalho das prostitutas é julgado, apenas a exploração dele pelos vilões. E aqui cabe outra observação: a líder da gangue e principal antagonista de Foxy é também uma mulher. Ou seja, os dois principais papéis de um filme policial são femininos. Você lembra quantos filmes assim foram lançados nos últimos 30 anos?

jackie-brownMas aquele que talvez seja seu melhor papel vem de um filho desgarrado do movimento. Jackie Brown, com todo o refinamento narrativo que Tarantino impõe a seus filmes, se coloca acima das obras que homenageia, pelo menos sob o ponto de vista puramente cinematográfico. Contando a história da aeromoça que tem que dar um baile em policiais e traficantes que querem enquadrá-la, cada um a seu modo, o roteiro coloca sua protagonista no mesmo patamar que os personagens masculinos, embora o caráter sexual dos originais setentistas não esteja tão presente. É verdade que Tarantino tem sua parcela de erros, incluindo aí o retrato um tanto caricato dos outros poucos personagens negros, mas sua protagonista é tão bem definida e a narrativa flui tão facilmente que esse defeito acaba se apequenando.

97f719f9fa1614196efc550d37d65606Grier também teve sua cota de bombas, como o horroroso, e por isso mesmo divertido, Black Mama, White Mama, de Eddie Romero. Mas ainda que seja um exercício amador de cinema, essa produção trazia a visão emancipadora do blaxploitation, com nossa heroína no papel de uma prostituta acorrentada a uma guerrilheira branca lutando para fugir das autoridades.

Depois de seu retorno em grande estilo no final dos anos 90, Pam Grier voltou a ser coadjuvante em produções menores, como na fase que se seguiu a sua explosão nos anos 70. Mas aquela época será sempre lembrada como um marco no cinema de afirmação das minorias. E Pam viverá para sempre nos sonhos eróticos e libertários de biscates e afins mundo afora.

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Orgasmo, Uma Receita. Ou não.

Por Teresa Filósofa**, Biscate Convidada

Todo mundo quer orgasmos. Todo mundo fala sobre orgasmos. Todo mundo ao menos pensa neles – ainda que não admita*.

Zilhares de livros, matérias, programas de tevê prometem ensinar o caminho das pedras. Quer saber? A questão é que nada do que eu li, pesquisei ou conversei me preparou para eles. Quer saber mais? Até atrapalhou. Quando eu era adolescente, tinha uma vida sexual legal pra caramba, composta por um namorado carinhoso, um certo conhecimento do corpo, autoestima, uma educação bastante liberal, até uma mãe que falava do assunto eu tive. E o que faltava então para eu chegar no orgasmo? Segundo o manual, nada. E eu não tinha problemas fisiológicos me impedindo (porque já tinha tido orgasmos na pré-adolescência, antes da vida sexual propriamente dita começar). Faltava o quê então? Por que não rolava?

Tive a intuição de que faltava uma certa maturidade psíquica para chegar lá. Que o tempo de rodagem faria seu trabalho. E que era só continuar o que eu estava fazendo e gozar a fresca da brisa que uma hora tudo entraria no seu eixo, devagar, curtindo o caminho. Tomei coragem para comentar com uma ou outra amiga aqui, com uma médica. Rechaçaram minha intuição e reforçaram o discurso de que já devia ter ido. Acharam bobagem minha tranquilidade, falta de pressa. Por que deixar para amanhã o que você pode gozar hoje? Cheguei a me sentir ridícula: que tabu é ter a faca e o queijo na mão e não ter pressa de comer. A verdade é que não devia nada: poucas coisas tem que ser nos caminhos do corpo. Cada corpo tem seu tempo e sua história.

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E segui fazendo o que eu tinha que fazer. Tive um parceiro que se recusava sequer a falar no assunto. Não preciso nem dizer que não ajuda em nada. Outras relações vieram, muita biscatagem rolou, e precisou de um bom tempo de eu comigo para descobrir como funciona a maquininha mental de puxa o gatilho dos orgasmos. Taí uma verdade nas teorias todas: masturbação realmente tem um papel fundamental para trazer o orgasmo de uma sorte do acaso para um efeito do corpo que se possa estimular, com algum controle. E o bloco do eu-sozinho também toca uma música diferente para cada uma. Eu só passei a curtir a brincadeira quando ignorei os manuais (de novo). Autoconhecimento pede uma dose de determinação e força grandes, principalmente quando o desejo sai do script, da curva, cai no delicioso terreno do inconfessável.

3 Pão com ovo, por Caroline SporrerOutras coisas que ninguém te diz: eles têm sim intensidades diferentes. Tem dia que é pão com ovo, tem dia que é entrada, principal e sobremesa, com mesa virada e taças de cristal trincadas. O que se passa com essa penca de sexólogos que não consegue afirmar com certeza que existe sim uma gama de intensidades diferentes? E de infinitas reações do corpo. Não estou falando da divisão de clitoriano e vaginal: cada um tem sua própria escala Richter. E tem dia que, mesmo num estado orgástico, de quase-quase, não vem mesmo. E tudo bem.

Numa conversa bem mais sincera com uma amiga que também já tinha se enchido dos especialistas infalíveis, caiu o assunto do orgasmo vaginal. Compartilhamos o desabafo meio triste, meio aliviado, de que não era para nós. Que bom não estar só num mundo (ou numa rodinha feminina) em que esse orgasmo, parece, vende de baciada. Até que um dia chegou para uma. Depois quase veio para a outra.

E aí chegamos a como eu cheguei. E a um outro tabu. Eu fingi. Fingi um bocado até gozar de verdade. Transformei muito quase em finalmente. E não me arrependo nem um pouco, assumi o ônus e o bônus. Quem dá entrevista para a Nova e congêneres dizendo que não se deve fingir orgasmo certamente nunca lidou com o ego ferido de um homem (não que todo homem vai reagir assim, mas como saber antes?). Às vezes o rapaz se machuca tanto, encara como falha, e não como coisa da vida, que tem jeitos melhores de lidar com a coisa. Cada vez que quase foi, levou o par a aprender o que funcionava, o que era bom, o que arrepiava. E foi ficando cada vez melhor. E muito rápido o quase virou de verdade. E quedê manual ditando regra agora? Queimei todos, do fundo do meu coração.

É triste não gozar, mas é mais triste ainda ter culpa por não ter gozado. Queria ter ouvido essas coisas quando era mais nova. Queria que nos espaços de falar das coisas do corpo, do sexo e do amor, houvesse mais paciência com os muitos tempos e histórias diferentes. E que a nossa liberdade e direito ao gozo, em todos os sentidos, não fosse nunca uma prisão. Queria saber mais cedo que com o tempo tudo ia ficar mais fácil – na cama e fora.

* quando a gente diz todo mundo é frase de efeito, né. Sabemos que existem os assexuais e que sua orientação é tão válida quanto as demais.

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Teresa Filósofa já ouviu muita bestagi por aí afora. De vez em quando fica matutando que há tanta coisa importante sobre a qual não se trata, porque tem muito tabu até em se falar de se falar disso… Aí ela vem e solta o verbo.

Essa Tal Biscate

Por Rafael Morello*, Biscate Convidado

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Já presenciei alguns espantos diante do nome do presente blog: “Biscate!”. As palavras carregam uma história, tem uma gênese, pavimentam um lugar específico no mapa social em que os indivíduos se localizam. E, à primeira vista, biscate é uma mulher bem tradicional.

O que seria da mulher virtuosa, pura, dona-de-casa, filha, mãe de avental sujo de ovo e todas as imagens mais contemporâneas dessa clássica se não fosse o extremo oposto a partir do qual a “mulher pra casar” tem definidas suas linhas fronteiriças? A biscate, a desfrutável – como eu gosto dessa palavra! – a “fácil” ganha sentido como contraponto moralizante para a “santa de casa”. Ambas são encarnações femininas que servem aos apetites do gênero-rei: o homem.

A sensibilidade feminina, o temperamento, o “ser” da mulher coerente com o privado, a interioridade, o doméstico. Bourdieu cita a descoberta por uma antropóloga de escritos da Idade Média onde se justifica a posição social da mulher devido à natureza física de seus órgãos reprodutores que assim, como seu papel social, seriam “internos”. Parece que estamos falando aqui de nossas tataravós, mas pesquisas recentes mostram que a propagada divisão das tarefas domésticas entre o casal hoje em dia é praticamente um mito. Além do trabalho fora, nossas amélias contemporâneas continuam com o maior peso no cuidado do lar e na criação dos filhos.

A outra existência possível em relação à esta primeira encarnação é a da “outra”, a sem-marido, personificação erótica dos desejos masculinos, pronta a tudo dar, em tudo ceder – respeitabilidade, família, laços sociais – em prol da adoração do falo provedor de seu macho. É a mulher das antigas garconiéres, a atual ex-,modelo, atriz e dançarina em busca de alguém que lhe banque, quiçá um jogador de futebol, sempre à espreita de um almejado “golpe da barriga”.

A santa de casa e a biscate são pólos contrários de um mesmo balanço no qual, no centro, em aparente estabilidade se ergue o macho-alfa. Sendo, é claro, que o pólo da biscate é tradicionalmente o da infâmia. Por isso o espanto diante de um grupo de mulheres – inteligentes, profissionais independentes, esposas e mães, mães meu deus! – que fundam um clube de biscates.

                                                   #LuzNasMulheres

#LuzNasMulheres

Fazem essas biscates uma operação arriscadíssima: a de assumirem uma palavra e distorcer, dobrar seu significado. Libertam a figura maldita da biscate-produto da dominação masculina, vivendo-a não a partir do lugar instaurado pelo olhar machista, mas assumindo de forma nova tal imagem. Utilizam-na para encarar, altivas e donas-de-si, o olhar que instaurou a “biscate” como símbolo de degradação, assumindo-a como status de liberdade, de maioridade. Assim em pequenas revoluções cotidianas, tornam velhas lógicas míopes, embaralham juízos tidos como inequívocos, vivem seus corpos e desejos para além de uma marcação do querer totalizador de um outro que lhes aponte a direção, seguem, enfim, nas dores e delícias de fazerem, quase sempre, o que desejam, seu próprio caminho, numa versão 2.0 da “tradicional” biscate, doa a quem doer. Entendeu porque tem um bando de homens sentindo-se ameaçados em relação à mulherada hoje em dia? Abaixo os bundões! E viva a biscatagem!!

333508_298637766852747_1761134101_o*Rafael Morello é em sensibilidades. Reinventou sua vida, escuta Nina Simone e gosta de gente. Escreve cartas e acredita no riso como revolução. Se é pra morar no Rio, que se more na Lapa. Sabe a mar, não só o que sussurra alegrias, mas o que prendem em quadros, fotos, imagens e que lateja silenciosa arrebentação. Quando se quer mais Rafa, há sempre tanta coisa, tanta coisa a ser vivida. E lida.

Instante

Por Luísa  Molina*, Biscate Convidada

 

(para ler ouvindo “you don’t know me“)

 You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all…

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Teria tocado ao longe, ou no inalcançável apartamento vizinho, ou entre aquelas paredes que se dilatavam conforme a sua respiração. Não importava. Tocava ali, nela, seios descobertos diante da janela, e a fumaça…

A língua da noite era afiada, mas macia, e soprava sobre as árvores e entre os vidros: “fulgor”. Tudo ali me entorpecia, tudo era exato e absoluto; __________________; e me soprava calor ao pé do ouvido, o pescoço se virava doce, devagar, as pontas dos cabelos sobre a pele, o arrepio…

Diante da janela ela era tudo aquilo, e era só.

The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

O cigarro ardia entre os dedos, e os braços rendidos ao parapeito, na exaustão farta e feliz. Tudo era exato e absoluto.

 “Uma mulher livre…”, eu balbuciava, entre um e outro trago daquela avidez do corpo.

“…Uma mulher livre
É saciada”, e ria.
“Uma mulher livre…” em mim ecoava.

E a língua da noite na minha língua, meu silvo audaz às janelas desconhecidas, e o riso, o riso louco, o riso do corpo nu na madrugada, a saciedade latente no corpo, tudo exato e absoluto.

A mulher se alcança se lança de despe se deita se levanta e segue. Se permite se preenche se dissolve se resolve se refaz. A mulher espreita, escolhe, encontra, entrega, recebe, respira, transpira, segue, refaz. A mulher-corpo, a mulher-âmbito, a mulher-encontro. Tudo é exato e absoluto. Funde-se e confunde-se. Estilhaça-se em mil no fogo e fulgor. É ela, e é o outro, é um no íntimo, no último instante, instância e persistência do corpo, puro suor.

Mas o riso, o riso é só seu.

 

LuisaMolina*Luísa Molina é escorpiana, meândrica, hiperbólica. Tem gosto especial pelos avessos e pouco apetite para meios-termos. Vive a “dor e na delícia de ser o que se é”, escreve em incontáveis cadernos e no fundoinfinito.posterous.com. Viciada em intensidade, descobre, dia a dia, faces de uma alma biscate.

 

Biscate Gosta de Dar?

Por Karla Avanço, Biscate Convidada*

Antes de responder essa pergunta tenho de dizer que eu acredito que só se dá o que se tem. Então, primeiro, pra ser biscate é preciso se dar e se entregar a si mesma.

Se abrir e se presentear com um sorriso, mesmo que ele só aconteça lá dentro – da cabeça, do coração, da alma – mas se abrir os lábios e mostrar os dentes é ainda melhor. E, nesse passo, se fechar e se refugiar no próprio abraço.

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Pra mim, ficar sozinha me deu a oportunidade de me ver, me ouvir, me encontrar… e me amar. Adoro chegar em casa e logo tirar os sapatos e o sutiã (soutien?), mas quase sempre depois desses dois itens começo a tirar o resto porque adoro ficar livre, leve e solta, porque o corpo é uma delícia e dese ser curtido sem amarras, sem botões, cintos e elásticos.
degas_woman_kneelingEu detestava comer sozinha. Agora adoro. Faço uma comidinha gostosa e saboreio esse carinho que fiz pra mim. Às vezes com vinho, às vezes até à luz de velas.

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Essa paz, esse aconchego, essa liberdade só encontro comigo. E é justamente por encontrar isso em mim que eu posso me dar, que eu posso decidir o quanto me entrego, onde, quando e para quem quiser. É assim que eu gosto.

Eu não meço a minha liberdade fazendo contabilidade do que dou e do que recebi das pessoas que passam pela minha vida, eu vivo a minha liberdade na felicidade que eu sinto por estar comigo.

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.
Quer seguir no twitter? @karlavanco.

 

Meu Nome é Sexo, Muito Prazer!

Por Everson Fernandes*, biscate convidado

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Uma vez, numa discussão, ouvi um argumento de que na hora do sexo era o corpo quem mandava. Como se o corpo sentisse a necessidade de prazer por si só. Que tudo acontecia porque era o corpo pedindo. Isso inclui subjugar mulheres, segundo o argumentador. Ele também rejeitou meu argumento de que a moral exercia algum tipo de interferência nas práticas sexuais.  Dessa forma, rejeitou que o machismo também está presente na hora do sexo. E tratávamos estritamente do sexo heterossexual, mas isso também afeta as relações sexuais entre dois homens, mais especificamente homens gays.

É um tanto comum ouvir mulheres heterossexuais reclamarem de relações sexuais que não tenham sido prazerosas, que muitos homens limitam-se apenas ao prazer próprio. Não é à toa que muitas mulheres com vida sexual ativa não alcancem o orgasmo, e isso pode ser motivado por vários fatores. Entre eles, a falta de cumplicidade no sexo e a retribuição do gozo. É preciso considerar que esse tipo de comportamento também é fruto de uma sociedade machista, que trata a mulher como objeto de prazer.

Ao homem é pré-definido o papel de representação da virilidade, masculinidade e, de certa forma, negação do que seria tratado como qualidade essencialmente feminina: demonstrar afeto. E, nessa relação de mulher objeto  e homem viril, o prazer no sexo não é necessariamente uma preocupação que ele considere. A educação voltada às crianças expressa um jogo de poder, onde o homem é dominante, penetrador; e a mulher, dominada e submissa, é penetrada.

E é meio óbvio – para alguns, pra outros nem tanto – afirmar isso, mas gays também são homens. E também foram submetidos a uma educação que os colocam numa posição de dominação. Uns assimilam mais, outros menos. E, numa relação homossexual entre dois homens, ocorre uma espécie de  projeção da educação que submete as mulheres ao papel de objeto, e essa projeção é transferida ao homem que é penetrado.

E na junção de uma moral machista e reprodução de comportamentos heteronormativos num relacionamento homo, que verificamos o penetrante como alguém não interessado em compartilhar prazer, mas apenas sentir. Essa reprodução pode se dar de maneiras mais explícitas ou mais sutis e quase imperceptíveis. Dessa forma, no casal homo, há o homem que se coloca em posição de provedor, como líder da relação,  e o que se coloca de maneira mais passiva.

Eu não sei dizer se isso ocorre em maior ou menor frequência, mas posso afirmar que ocorre. Quando digo que o machismo também está presente numa relação sexual entre dois homens e que ele traz problemas que dificultam uma relação mais saudável, refiro-me ao fato de que muitos homens gays que exercem um papel de penetrante se recusam a praticar alguns atos antes e durante a transa. Há uma falsa ideia de que todos os gays são bem resolvidos sexualmente – e de fato muitos são -  que não corresponde com a realidade.

Não é incomum que o penetrante (e eu evito falar em “ativo” e “passivo”, apesar de não gostar também dos termos que escolhi) se recuse ou não manifeste vontade de praticar sexo oral ou impeça que o parceiro faça carícias na região anal. E há quem diga que é questão de preferência sexual, mas essa preferência também está baseada em preceitos morais, não é algo isolado ou inato. A interação durante o sexo também funciona de uma forma que o penetrante considere que o ato de penetrar por si só é prazeroso para ambos. E muitas vezes não é.

É claro que isso não é regra. Que há muitos casais que não se familiarizam com nada disso, que vivem uma vida sexual saudável e prazerosa para ambos. No entanto, são comportamentos que existem. Independente de serem majoritários ou não. A questão aqui não se pretende que seja moral, que o sexo só seja praticado com afetividade. A questão é a seguinte: sexo, seja casual ou não, deveria ser prazeroso aos envolvidos. Jogando as palavras na mesa, eu diria que a putaria e o romance não precisam ser excludentes.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

Discurso Biscate

Por Iara Paiva*, Biscate Convidada

Segunda vez em pouco tempo que vejo prima minha fazendo discurso moralista lá no Facebook. E agora foi uma das novinhas. Então me sinto intimidada a fazer discurso-biscate. Gente, vamos viver mais a nossa sexualidade e nos preocuparmos menos com a sexualidade das coleguinhas? Tem gente que anda de roupa curta e decotada? Tem, e é uma coisa linda. Tem gente que “se oferece” pros homens? Tem, é a maneira dessa pessoa que essa pessoa encontra prazer. Tem gente que fica com um cara a cada dia? Tem, e não há mal nenhum nisso. Nenhum.

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Tenho especial horror ao discurso “os caras abusam e não querem compromisso e isso desvaloriza as mulheres”. Tem gente que quer compromisso? Tem. Tem gente que quer só transar pra se divertir porque sexo é bom e é divertido? Tem. Homens e mulheres. E não deveria haver uma escala de valores moralista que considera a primeira atitude nobre e a segunda desprezível. E cada vez que uma mulher se preocupa em criticar a sexualidade de outras mulheres tá reforçando um discurso machista que insiste em nos classificar como “santas” ou “putas”. O famoso dividir para conquistar.

Vamos parar com isso e viver a vida de maneira livre sem ficar apontando para as vidas alheias?

Grata,

Iara, porraloca-feliz-libertária

616012_313606915413516_2027975164_o*Iara Paiva é blogueira, feminista, diva e sabida, em ordem aleatória. Sabe contar histórias de pãezinhos e gatinhos. Forte, divertida e doce. Adoradora do sol, mora na Inglaterra, mas não a lamentemos, sabe fazer caipirinha dos limões que a vida apresenta. Quando quer, escreve o Foi Feito Pra Isso. 

 

Dilema

Este é um post não assinado. É um depoimento. Um desabafo. Foi escrito por uma biscate que preferiu ficar anônima e, pelo texto, vocês vão entender porquê.  Ela é leitora do blog e, sabemos, adoraria conhecer as impressões de vocês. 

Vou contar uma historinha para você, cara amiga biscate: vivo um relacionamento monogâmico há muitos anos, para dar uma ideia de tempo, saiba que poderia ter um filho de quinze anos. Faz tempo. Muito tempo. Há uns cinco anos que minha vida sexual encontra-se monótona. Veja bem, é gostoso, é delicioso transar com meu marido. O problema é que não tem novidade. Vivemos naquele momento de pasmaceira total, de falta de inovação. é bom, mas já sei como é.

Sinto muito desejo, adoro transar, adoro me sentir desejada. Adoro o olhar do outro no meu corpo. Sentir o fogo do olhar mesmo sem ver, sabe como? Aquele arrepio na nuca só da pessoa passar do seu lado, de, por acaso, você aspirar o ar que ela expirou. Sou uma mulher que adora surpresas, gosto do inusitado, do diferente, daquilo que ainda não conheço. Quer me deixar feliz me leve para comer uma comida com nome esquisito que nunca ouvi falar. Garanto que não haverá pessoa mais feliz na mesa em experimentar algo novo. Pois é, imagino que neste momento já tenha uma leve desconfiança do meu dilema.

Uma pessoa muito próxima de mim tem voltado seus interesses carnais sobre mim. Não tenho a menor intenção de trair (termo pesado, eu sei) meu marido, principalmente com essa pessoa que tem tanto desejo por mim. Sou resolvida o suficiente para saber que seria um momento muito bom, memorável até. Mas só um momento. Muitas coisas estão em jogo quando vivemos num relacionamento como o que eu vivo.

Vivo um amor que me traz muitas coisas boas, com uma pessoa que admiro muitíssimo. Tenho uma vida boa. Não quero abrir mão do que tenho. Gosto do conforto do que me é conhecido, apesar de adorar provar novos sabores, gosto de saber exatamente o sabor que vou sentir ao morder aquele pedaço de carne.

O que fazer com o desejo do diferente? Sufoco meu desejo? É o que tenho feito constantemente, a custa de muito sofrimento meu. Vivo na angústia de não saber o que quero. Quer dizer, preciso ser sincera ao menos aqui, quero tudo. Quero mais. Sempre.

Mais uma dose? É claro que eu to a fim, a noite nunca tem fim, por que que a gente é assim?”

O problema é que tenho medo, penso se sou covarde ao tentar preservar um relacionamento que me faz feliz. Penso nas consequências, penso no sofrimento, meu e dos outros e vivo assim, na angústia de saber que poderia (gostaria?) ser mais, sem conseguir. Por que que eu sou assim?

Meu feminismo e suas limitações (ou como expiar certas angústias biscates)

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

feminismoJeane, minha filha, desça do seu falso pedestal libertário-fajuto-pequeno-burguês! Aceite que algumas escolhas de vida de certas mulheres lhe causam perplexidade e te geram o maior preconceito. Esse mesmo, esse tal do preconceito que você diz querer tanto combater. Esse preconceito chinfrim de só aceitar o que é o revolucionário, só concordar com o dissonante prafrentex e querer dançar na disritmia, no intuito de chocar incautos, pra ver essa vida severina fica mais colorida.

Você acha lindo apoiar uma mulher que luta com os seios nus. Que se autoproclama vadia por gosto e ironia.  Que quer transgredir as engessadas normas de gênero. Que defende o direito de ser bissexual, de transar com travestis, de curtir a sexualidade como e se quiser. Que põe silicone no peito, na bunda e canta “minha buceta é o poder”. Que queima sutiãs e faixas de misses. Que lê com mestria e desenvoltura os textos da fanchona-filófosa-cult Judith Butler.

Ok. Tudo isso aí é cool pro seu feminismo incandescente e libertário. A comadre Jeane adora abraçar o que está na ponta de lança dos direitos humanos e das múltiplas identidades de gênero, tout court, né não?

Agora quero ver confessar a sua pouca capacidade pra lidar com as escolhas de muitas outras mulheres. Aquelas escolhas, Jeane, que você considera difíceis (talvez porque não sejam a sua opção de vida, do qual tanto se orgulho, é que narciso acha feio o que não é espelho, lembra?).

Pois confesso:

Realmente sinto dificuldade em me solidarizar com uma moça que escolhe ser dona de casa ou evangélica ou apenas cuidar de filhos e da família (putz , e quando isso vem tudo junto?). Sinto dificuldade em me irmanar com esses seres humanos que fizeram escolhas tão diferentes das minhas.  Do meu pedestal, me questiono: como uma mulher usa a sua potencial liberdade pra se fechar em círculos de opressão? Por que tantas se posicionam contra o aborto, aceitam religiões patriarcais, por que votam em partidos conservadores, por que chamam outras de putas, por que têm ódio mortal d@s exs de seus companheir@s ao ponto de incitar a rivalidade e a violência contra elas próprias?

Mas não sou melhor (e nem pior) do que ninguém não… Lembro que uma das lutas atuais do feminismo, embora o clichê seja fácil (e não é na prática),  é de respeitar as mulheres em suas escolhas. Não dá pra querer que todas sigam o mesmo caminho da militância, ainda que no campo cotidiano. Isso é um tipo gravíssimo de desvio totalitário. Não posso decidir por todas. Não tenho esse direito. Elas são elas. No entanto, devo perseguir um ideal: de gostar das mulheres, de defendê-las, de não rivalizarmos umas com as outras, como tanto essa cultura quer. E, principalmente, trabalhar para que essas escolhas,de toda e qualquer mulher, sejam efetivamente opções e não defesas justificadas pra ausência de oportunidade.

Com toda a licença pra escolher o diferente, somos mulheres-irmãs, no que a sociedade nos excluiu, nos restringiu e nos subalternizou.  Luto pra minar esse sistema masculinista e opressor e  cessar  já com esta guerra fratricida umas contra as outras. Sem maternalismos e sem mais para o momento.

Era isso. Precisava expurgar essa culpa com vocês. Ser feminista é caminhar por dilemas difíceis e desafiar preconceitos. Muitas vezes, o meu mesmo.

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Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

 

 

A Vida Não Está Para Biscate

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

(pode conter spoiler, mas quem se importa?)

Cecilia é a mais jovem das cinco irmãs Lisbon. Vivendo no subúrbio de uma cidade americana, vivendo sua vida de classe média americana, um dia Cecilia tenta o suicídio cortando os pulsos. Ela sobrevive e em uma conversa com o médico é questionada:

“O que você está fazendo aqui? Você não tem nem idade para saber como a vida fica amarga.”

Ao que ela responde:

“Obviamente o senhor nunca foi uma menina de 13 anos.”

E é colocando a câmera de frente para Cecilia, fazendo com que seus olhos quase fitem os nossos diretamente, que Sofia Coppola, diretora de As Virgens Suicidas, arremessa a todos os espectadores essa verdade, a princípio óbvia, mas que guarda consequências devastadoras para as mulheres. E durante todo o filme Coppola vai mostrar, com habilidade e sensibilidade, homens tentando decifrar os motivos da tragédia que se abate sobre as irmãs Lisbon.

Cecilia, Lux, Bonnie, Mary e Therese são as filhas de um casal católico, Ronald Lisbon (James Woods) e a senhora Lisbon (Kathleen Turner). Com idades entre 13 e 17 anos, elas vivem uma vida cheia de restrições impostas pelos pais, como proibição de namoros e festas. Até que a tentativa de suicídio de Cecilia mostra que a aparente felicidade da família é construída em cima do sacrifício das liberdades e sonhos de suas crianças.

 A começar pela ausência do nome da mãe, que nunca é mencionado, Coppola nos mostra através de símbolos sutis que a vida aqui não está pra biscate. Um plano particularmente inspirado é aquele em que a senhora Lisbon e Cecilia são vistas através das persianas da casa de uma vizinha, dando a impressão que estão sendo enquadradas por grades de uma prisão. Ainda assim, as garotas encontram seus meios de driblar os pais e exercer sua biscatice.

Os figurinos são usados de maneira muito inteligente para demonstrar o contraste entre as gerações de Lisbon. Enquanto a mãe usa cores sem vida, que se confundem com as cores da casa, passando a ideia de que não existe vida fora daquele lugar para ela, as filhas usam estampas alegres, ainda que não exageradas. E no momento em que elas vão pela primeira vez a um baile, é a roupa a maior preocupação de sua mãe, que trata de fazer vestidos que mais parecem sacos, como nota o narrador do filme.

E quando Lux (Kirsten Stewart) resolve exercer sua sexualidade, mesmo no momento em que a repressão dos pais atinge seu ápice, a direção de Coppola demonstra inteligência ao não relacionar isso com o abandono da garota por um jovem conquistador (Josh Hartnett) após uma noite de amor no campo de futebol. Pois ao perceber que foi deixada, Lux não esboça nenhuma reação, não derruba nenhuma lágrima. Mas fica inconsolável depois, quando a mãe a obriga a queimar seus discos de rock. E quando todas as irmãs são confinadas a uma espécie de prisão domiciliar, o resultado é previsivelmente uma tentativa de libertação, seja pela autodeterminação no exercício da sexualidade, seja pela via trágica do suicídio.

Vale notar como o roteiro, da própria Sofia e de Jeffrey Eugenides, autor do livro em que se baseia, retrata os homens. Eles nunca estão no controle da situação. Se colocam em situações constrangedoras, como a patética e infrutífera tentativa de suicídio de um garoto ao pular de uma janela sobre um jardim, vista com um olhar de condescendência por Cecilia. Uma fala do narrador é reveladora do domínio que as mulheres têm da ação. Em certo momento ele diz que o personagem de Hartnett, famoso por colecionar garotas na escola, se apaixonou por Lux, mas ela não se apaixonou por ele. Mesmo Ronald Lisbon assume mais uma posição de passividade em relação à esposa do que autoridade. Um interessante modo de mostrar que, afinal, é a mulher quem comanda seu destino.  O final do filme é pessimista, com uma estranha festa em que os convidados levam máscaras de respiração devido ao forte cheiro resultante de um vazamento químico e fazem piada com o suicídio das irmãs Lisbon. Mas ele esconde uma firme convicção de que ao não aceitar as amarras que a sociedade lhe impõe, a biscate será livre para fazer de seu mundo o que ela bem entender.

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*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Sabor Memória

Por Fernando Antolin*

Porque se pode sentir sabores e saudades do que nem se viveu, a receita de hoje é velhinha do tempo da minha avó paterna, Inêz, que eu não cheguei a conhecer. Grande mulher e grande cozinheira, foi o que sempre ouvi dizer.

Não sei se o pessoal biscateiro é adepto de caça ou se minha reputação vai descer mais que o nível do Mar Morto, mas enquanto cacei posso dizer que disfrutei de alguns dos mais belos dias de minha vida. Natureza vivida em pleno, amizades que se estreitaram e o desafio de superar a astúcia animal, afinal muitas vezes perdido.

Assim, tende paciência… e imaginação pra fazer as analogias que se evidenciam. Se mais não seja, viver plena natureza, com amigos e superação é um bom traçado pra ser biscate.

A fotografia foi tirada há já alguns anos, por 2004 ou 2005, no cantinho nordeste de Portugal, perto de Miranda do Douro. Na foto vejam o meu saudoso amigo José Carlos Terroso, seu cão Braco de Auvergne, Dragão e o vosso cronista, à direita (não temos um ar demasiado selvagem, creio…). Então, à receita:

Pombos Bravos como os fazia a minha Avó Inêz

Num tacho deita-se azeite e fritam-se pedacinhos de toucinho e rodelas de chouriço. Retira-se o toucinho e chouriço e no mesmo azeite refoga-se bastante cebola picadinha.

Em estando lourinha, deitam-se dentro os pombos, com alho picado, louro, noz moscada, salsa picada, colorau, sal, pimenta, manteiga, banha, um gole de vinagre, outro de vinho branco, outro de aguardente velha e um pouco de tomate em conserva.

Tapa-se e deixa-se cozer em lume forte; depois destapa-se e deixa-se apurar o molho.

Nem demora tanto e já a tem para beber com um tinto de corpo robusto a acompanhar. E se não se abate pombos? Passa-se no mercado e pega-se uma galinha que já a fiz assim e ficou boa, boa!

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*Fernando Antolin é de além-oceano. Tem uma queda por sol, caranguejo e cenas de felicidade à beira-mar. Não à toa, aqui ao lado pode ser visto na praia de S. João da Caparica, compondo uma imagem de intelectual aprumado. Chapéus e almofadas em quantidade, que seus 56 anos já dobrados suportam mal a areia dura e o sol ardente. Mar lisinho e não frio. Acha ele, e deve estar certo, que a mulher, filho e filha, não o levam demasiado a sério. O gato da casa também não. Gosta de conversar, rir. De ouvir, as gentes e o silêncio. Ama poesia e gosta de planadores. Do mar. Fintou um cancro. Gosta de viver.

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