das coisas que nem o meu cachorro aguenta mais

Por  Fabiana Motroni*, Biscate Convidada

choque de realidade is so last year: a moda agora é choque de ficção — vejamos:

a moça, entediada com um desterro que atende pelo nome de uma cidade serrana bicentenária, resolve gastar seu sábado a noite levando seu cachorro para passear — pelo menos tá bem mais fresco, dá até para usar um modelito de outono em pleno verão e, na falta de coisa melhor, se distrair é com isso mesmo.

atravessa a famosa praça de eucaliptos da cidade e chega na calçada ao longo do rio e, no ziguezague do seu cachorro bumerangue, que não decide se faz xixi na árvore, ou no poste, ou no meio-fio, ou na grade da ponte — veja bem que a cidade mais tediosa do universo jamais será entediante para um cachorro, um dia serei sábia assim — e ela acaba caminhando ao lado de um moço que está de papo no celular.

normal, ela segue seu ritmo, mas acaba que o moço também segue o dele e coincide que eles estão indo na mesma direção e na mesma velocidade. e a moça então ouve o moço ao celular:

— é, mas isso porque eu sou homem direito, quero ver o que ele vai fazer quando aquela pirigueti da filha dele comecar a dar pra todo mundo, quero ver se ele vai continuar achando que eu não sou ninguém. mas aí também, como ela já deu pra todo mundo mesmo, quem não vai querer ela sou eu.

e ele continua a conversa nesse mesmo nível de antice, e a moça fala para dentro de si mesma ‘ignora, hoje você está a paisana, ignora, faz de conta que você não está ouvindo nada, ignora…’, mas eis que o cachorro ziquezagueia entre as pernas do moço do celular e pronto: mais um choque de realidade no mesmo fim de semana.

— desculpa, moço, ele é assim, o gps dele veio com defeito de fábrica e ele anda em ziguezague, foi mal.
— magina, cachorro é assim mesmo (responde ele automaticamente enquanto, também automaticamente, dá uma avaliada geral na produção de outono veranil da moça)
— mas me desculpa mesmo assim.
— mas foi bom, pelo menos eu parei de falar no celular e pude reparar em você *xaveco de oportunidade detected*
— ha-ha…(sorriso protocolar e educado da moça)
— meu nome é flavio, e o seu?
— meu nome é pirigueti.
— como?
— pirigueti.
— como assim? (e olha para o cachorro como quem procura um outro olhar que compartilhasse a sua impressão de que ele só pode ter ouvido errado. encontrou um olhar de paisagem canino, muito parecido com o dos humanos, só que aquele era de verdade: ele tava com olhar fixo no matinho mesmo, o qual cheirava naquela fissura canina de quem pretende investigar o cheiro até o nivel do dna das folhas.)
— é isso mesmo. meu nome é pirigueti. primeiro nome. o sobrenome é ‘que dá pra todo mundo`. ou seja, meu nome todo é Pirigueti Que Dá pra Todo Mundo, prazer em conhecê-lo.
— (silêncio constrangedor, até que o moço arrisca) você tá me zoando né? mas gostei de você. voce é sincera, e direta, gosto disso.
— não gosta não. eu sou sincera e direta como toda boa pirigueti que dá pra todo mundo é, e que eu acabei de ouvir você falando mal de uma pessoa que era pirigueti e também ouvi você dizendo que, depois que ela desse pra todo mundo, quem não ia querer saber dela era você. então decida em que momento você tá sendo falso: se é agora, pra me cantar, ou se era no telefone.

o cara para de andar e olha pra moça, espantado. a moça para de andar, em solidariedade. o cachorro, coitado, não tem opção, né, tá na coleira. e o moço pergunta:

— quem é você? de onde você veio?
— meu nome é Pirigueti Que Dá Pra Todo Mundo Mas Não Pra Qualquer Um, e eu venho do planeta Onde Quer Que Tenha Machismo Eu Não Me Calarei.

o cara continua olhando com cara de WTF e, quando a moça achou que ia ouvir um monte de merda, ele diz:
– e o salsichinha, como é o nome dele?

FIM.

ImagemPostFabiMotroni

FabianaMotroniBSC

 

*Fabiana Motroni é fazedora de escrituras, inventora de proesias, voyeur de epifanias e apaixonada por conhecer: a vida, as coisas, e gente como você. Boa de papo e facinha de encontrar, ela mora na internet e não resiste a um café fresco: é só chamar =)  www.about.me/fabianamotroni

 

Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

*******

Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

Não Perde Por Esperar

Por Ana Paula Medeiros, Biscate Convidada*

Uma hipersensibilidade. Um resto de TPM. Um tesão descontrolado. Precisa justificativa pra acesso de tesão? Não.

A mente inquieta, o corpo ardendo, se remexendo suspeito na cadeira do escritório, o fim do expediente ainda longe. Como o amante: longe. Outra cidade, alheio ao cio que me consome.

Um email do chefe. Respondido. A boca entreaberta, a respiração um pouco mais arfante do que devia, os olhos fitam o vazio. Longe. Outra cidade. Será que dá pra notar? Dois telefonemas para resolver assuntos institucionais. Uma reunião em meia hora. Os bicos dos seios duros por baixo do vestido de verão, a boca seca, as coxas úmidas, o pensamento longe. O amante, longe.

A tensão é insuportável e há um prazer sádico em deixá-la crescer, indomável, queimando as entranhas, ocupando as frestas do dia. O riso malvado e dolorido, por dentro, fala da fúria que exige satisfação. Mas não há carícia possível para aplacá-la. Só tapa, marca, dente, unha. Grito, fogo, gozo, alívio.  O amante, longe.

Ótimo pretexto para ir à academia (sim, ir à academia demanda pretextos, é uma obrigação). Mas nesse dia vai ser bom despejar o ímpeto todo nos aparelhos, queimar o tesão junto com as calorias na aeróbica.

Exercícios de braço, halteres, a imagem no espelho. Os ombros, o colo, as veias se mexendo no pescoço ao levantar o peso. E se eu estivesse nua? É assim que ele me vê, em músculos e movimento? Pisca, sacode a cabeça, espanta o pensamento vadio, sorri. Próximo aparelho, cadeira adutora. Regula o peso nas placas. Senta. Pernas bem abertas. Respira, faz força contra as almofadas e hastes, para fechar, bem devagar. Concentra no fortalecimento dos músculos internos das coxas. Inspira. Abre de novo. Abre mais. Cada vez que eu abro, ele mete os dedos em mim, rindo com os olhos. Me provocando, o sacana. Eu mordo o canto da boca. Sinto a cabeça girar, solto o ar devagar, num gemido quase inaudível, e fecho os joelhos com força, prendendo o corpo dele entre as pernas. Abro outra vez e é um convite. Sou eu que rio agora. Vem, mete mais. Três séries de quinze repetições.

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Chega. Melhor correr, cansar, prostrar o corpo em outra fadiga. A música alta no fone de ouvido marcando o ritmo acelerado das passadas na esteira, quase com raiva. Sem pensar, sem pensar, sem pensar, longe. Muito longe. Fora de alcance. Eu queria tanto. Hoje. Agora. Já. Não pensa, corre. Os dentes cerrados, no limite do esforço. Calor. O top encharcado, a camiseta colada por cima. O suor escorre entre os seios, pelas costas, um fio escorregando até o meio da bunda. O rosto vermelho, afogueado, o cabelo grudado na testa, na nuca. Aumenta a velocidade.

Exausta, as pernas bambas, os olhos esgazeados miram cenas de trepadas épicas, noites viradas, corpos melados, misturados, quentes, feitos do avesso. Bocas, línguas, pernas, mãos. Em séries. Muitas repetições. O coração bombeia o sangue com a força e o ritmo com que ele enfia em mim, eu aperto o apoio da esteira com força, fecho os olhos por um momento, epa, assim eu perco o equilíbrio. Respira, acorda, diminui a velocidade, os batimentos, aos poucos. Que merda. A ideia toda do exercício era gastar o fogo no rabo, sublimar o desejo. Não parece ter funcionado.

Início da noite. Está abafado e troveja. Podia cair uma chuva daquelas, grossa e quente, e eu caminharia feliz, a pele chicoteada pelos pingos, antecipando o prazer do chuveiro que me espera em casa, com algum alívio finalmente, solitário, sob a ducha. O amante, longe. Ele não perde por esperar.

AnaPaulaPBiscate

*Ana Paula Medeiros é mais amante do que esportista, mais flamenguista do que arquiteta, mais feminista do que parece, mais inquieta do que seria sensato. Se deixa doer quando dói a saudade, se deixa chorar quando as lágrimas pedem para sair, ri de si e do mundo e do estado das coisas no mais das vezes. Perguntada tarde da noite, quem sabe depois de muitas cervejas, ela ousaria dizer que talvez seja feliz.

De quantas histórias é feita a nossa história?

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?

Tudo isso me veio à cabeça de uma vez só, depois que li nos últimos dias uma quantidade absurda de textos os mais diversos sobre violência contra as mulheres. Essa massa toda de informação que fica flutuando na tela do meu computador e ganha peso quando conheço os nomes, os rostos. Mas tem sempre aqueles nomes e aqueles rostos que ficam martelando pra sempre:  Araceli, Claudia Lessin Rodrigues, Angela Diniz, Monica Granuzzo. Tudo isso aconteceu há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

A gente pode dizer que os ingredientes para o sucesso macabro dessas tragédias são o contexto do crime, os requintes de crueldade, os atores envolvidos: gente branca, de elite, lugares de grã- fino, o mais puro bas-fond da classe média (com exceção da Araceli – ela, filha de pedreiro; os assassinos, filhos da elite de Vitória).  Mulheres morrem todos os dias, do Oiapoque ao Chuí, em enredos muito parecidos. Mas a gente sempre se afeta pelo que parece mais próximo, aí não basta ser mulher. Raça e classe pesam nessa hora, minhas amigas, pesam como chumbo. A lágrima só vale quando é chorada por todxs. Mas, nesse nosso mundão século XXI , nossas dores ainda são seletivas. Um dos desafios do feminismo contemporâneo não é o da solidariedade entre mulheres, é maior que isso: é tornar simétricas as experiências singulares de gênero. A dor da Araceli  (cujo corpo foi transfigurado pelos assassinos ) é a dor da travesti que morre esmagada à noite na Via Dutra.

Como Araceli, Angela, Claudia e Monica nos assombram, como suas mortes geraram horror, pânico moral. Elas deixaram suas marcas. Como eu, outras mulheres de minha geração, adolescentes de classe média nos anos 80, passaram por essas histórias, se emocionaram, se apavoraram com elas. Outras, jovens dos anos 1950, têm a sua Aída Curi pra lembrar.  Estava lá nos jornais e na TV pra todo mundo ver. Estava lá gritando a plenos pulmões: viver é perigoso pra gente do seu sexo. A gente cresce ouvindo isso, a gente cresce e aprende a ser mulher apesar disso. Aprende-se até a não ligar muito, a criar aquela indiferença protetora onde a vida segue seu passo e aquela morte é só mais uma morte. Aprende-se também a revidar as agressões, se tiver forças pra isso. Eu tive essa lição desde muito cedo na vida. Se mexerem com você, dê o troco – é o feminismo “fight back”. Mas depois você se pergunta: Porque diabos mesmo que eu to me defendendo? Que merda toda é essa? E a gente já nem lembra mais, a gente só sabe lá no fundo que viver (ainda) é muito perigoso.

 AndreaBiscate*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

Quando sexo e o amor se misturam

“Quando a gente faz anal me sinto um com você”

Nosso amor aconteceu da forma mais inusitada: eu odeio chat de bate papo, mas fui incentivada a visitar um, eu queria sexo rápido e ouvi que lá conseguiria! Em meio a tantos homens que mentiam (para que mentir para uma pessoa que você conhecerá e verá apenas uma vez?) idade, se tinham ou não um@ companheir@, lá estava ele! Sim, ele foi totalmente sincero, tanto eu quanto ele queríamos uma coisa de uma vez e só, ele não tinha namorada, era novo e não mentiu sua idade… Além disso, mostrou seu perfil de facebook, negão bonito! Me chamou atenção que tinha um amigo em comum.

Oi, quer teclar

Oi, quer teclar?

Ela: “você mora onde?”
Ele: “são pedro e você?”
Ela: “tb, mas nunca te vi por ali…”

Marcamos de encontrar, depois de muito conversar pelo facebook, ele era direto, nunca disse meias palavras sobre o que nós queríamos! Chegou o dia, ele chegou todo arrumado do centro, com o baixo nas costas. Eu esperei ele deixar o baixo em casa. A conversa ansiosa até o primeiro beijo. Depois do primeiro beijo, eu queria correr para algum lugar onde poderíamos transar! O que nos uniu de primeira foi o tesão, com ele tudo era perfeito! O sexo foi o melhor que já fiz… E, da mesma forma que desde o início o tesão é o mais importante, é nele que sentimos a união e o amor! Não falo de coisas românticas ou de ser “especial” porque eu o amo… Em outros relacionamentos meus, me ligava às pessoas pelo carinho, com ele sou muito mais livre e segura em relação ao sexo, tem coisas que eu só consegui fazer com ele e coisas que ele nunca fez antes de me conhecer, a gente confia muito.
Aí, uma frase que ele fala sobre uma particularidade bem nossa (de uma frequência de quase não fazer anal a fazer quase todas às vezes que transamos) me faz entender o quanto o sexo nos uniu, que meus pensamentos onde eu separava sexo de amor eram tão errados! Nós somos unidos pelo sexo, nosso amor cresceu por causa do tesão.

De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado

A ideia deste texto surgiu num diálogo no feicebuco com as biscates Renatas, Luciana, Niara e com a Amanda, num post da Renata mineira sobre a pesquisa do chega de fiu-fiu, reclamando da falta de empatia de muita gente com a questão, numa linha que adotava o deboche. Fui provocado a escrever alguma cousa, depois que escrevi algo nos comentários…

Não foi fácil chegar. Porque sou o que é convencionado de “cis” tudo: branco, classe média sempre,  heterossexual. Porque mexer nesses vespeiros é olhar para dentro da gente. Nas vezes em que fizemos gracejos inconvenientes e insistimos. E já não tínhamos mais desculpas da idade. Na embriaguez que encoraja, mas na verdade, covarde. Em pensar em nossos comportamentos, nossos olhares, nas clássicas “conferidas”. E sim, concluir, que as vezes posso ter ofendido. E mais, causado medo. E mais, sido um imbecil completo.

Escrevi um pouco. Não é necessariamente um texto opinativo, daqueles que pegam argumentos e são defendidos com algum rigor, técnico – advogado costuma fazer isso… São impressões. E alguma prosa.

É isso. Espero que dialogue.

chega de fiu fiu

De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Diria, assim, de longe, de cá donde estou, que os dois combinavam. De fio a pavio. E mesmo cá, não era uma combinação estética, somente. Era o jeito que ela olhava para ele, como quem completa. E o jeito dele, mão no rosto dela, como que extensão. Era bonito. Parecia que conversavam, riam, se divertiam.

Mas um algo de estranho ali. De repente. Talvez algo que ele disse, talvez algo que ela notou. Bafo, bebida, cigarro, religião, clube, pt, psdb, deus, fome. Sempre é assim, complexo assim, nesses jogos de um com um, de flerte, beijo, sabonete, sexo, manteiga, amor, dor, razão, vinho tinto. Uma hora ou outra a tal chama apaga ou desata ou engana ou enterra.

O fato é que o que era bonito passou assim a ser… feio. Porque ele mudou feição, mudou corpo, se impôs, peito que estufa, voz que sobe, mão que não era mais extensão. Porque ela definha, muda, amiúda, deixa de sorrir. De longe aquilo começou que começou a incomodar.

Sorte que ali ela saiu e foi embora. Mas ele foi atrás. Não sei porque não acompanhei mais e comecei outras furtivas. Só mais tarde soube. Que os dois se estapearam no estacionamento e se não é o segurança da farmácia a coisa tinha degringolado. Não sei o que aconteceu, porque não vi.

Mas o fato é que dia seguinte haviam duas versões. Que ela, a sacana, provocou tudo e disso isso aquilo e aquilo outro, que aquela vestido preto já dizia tudo. De fato, de cá onde estou, o vestido era lindo e ela combinava com ele. Era curto, diziam. Era convite, apalpavam. A outra versão dizia que ela se cansou, tinha que ir embora, trabalhar dia seguinte e era tarde. E não tava a fim. Também não sei, porque não vi. Estou longe. Mas, afinal, escolhi a segunda versão. O vestido lindo não era senha. Nunca foi. E de longe aquilo tudo começou a me incomodar.

“Afinal, o que vocês pensam que são?”. “Mas é complicado, né, ela provoca e depois pula fora!”. “Ela não quis, uai. É tão difícil assim?”. “Você diz isso para ficar bem com elas, ter discursinho. Queria ver se acontesse com você. Ficar de pau duro assim e nada.”. “Ah… vai tomar no cú.”. “Veado.”

Há algo de errado. De cá de onde eu estou…

Outro dia li sobre uma tal pesquisa que concluía com uma bandeira: a do chega de “fiu-fiu”. A polêmica que gerou é que este tipo de reação, a de que a proibição da brincadeira, significaria o fim dos flertes, o fim do romance, o fim da cousa toda. Li mulheres dizendo que não querem o mundo assim, que tudo ficaria chato, que elas conseguem se defender e que é fácil identificar uma agressão de uma simples cantada. Não sei, não vi. Algo me incomoda nessas assertivas. Porque há algo de estranho, de senhas. Tantas e tantas vezes, galinha que sou, me dei num gracejo, numa brincadeira, numa visão de comédia romântica.  Certamente eu conheço os limites, as regras, o que pode e não pode. Até o dia que não, nada se encaixa:  A rua escura, o não, o corpo, os jogos. As estatísticas, dos outros….

 “Afinal, o que vocês pensam que são?”. O feirante e o “mulher bonita não paga, mas também não leva.” A obra, o “ô lá em casa.”. A rua e o assovio. Do lado de cá, certamente, tudo parece combinar. Mas o vestidinho, tão bonito, que combina tanto, que tão curto.  Quem nunca ouviu esta, para tentar explicar senhas?

De cá onde estou, basta não ficar tão longe, já dá para ouvir a conversa, o tipo, sentir a mão no rosto, a bofetada, a cusparada, o riso, o deboche, a força física, a imposição, os julgamentos, o dia que foi ruim, o cio, a lástima, a perda, o ódio, o fetiche, o corpo, a mercadoria, o consumo, o vício, a doença, o flerte, o combinado, o acordo, o desacordo, o linho e o desalinho. Só não dá para identificar todas as senhas. Estas só estando ali, no lugar do outro.

E quando estou longe, mas também quando estou perto, talvez seja a hora de escolher não só uma das versões, mas adotar um lado, um lugar: não é senha. Simplesmente não é.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Pam Grier, Blaxploitation e um Cinema de Afirmação

Por Ânderson Luiz Galdino Rodrigues*

Um conceito essencial na luta pela igualdade travada por grupos minoritários é o de que a vitória de nenhum deles será completa enquanto outros continuarem a sofrer opressão, venha ela de onde vier. As lutas não são excludentes. É uma espécie de “mexeu com um, mexeu com todos”. Audre Lorde, poeta, negra e lésbica, disse que não existe hierarquia de opressão e que “sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo”. Um sub-gênero cinematográfico perfeito para ilustrar a interseccionalidade das lutas é o blaxploitation. Surgido nos EUA na década de 70, consistia em filmes onde os negros eram os protagonistas, não apenas narrativamente, mas invertiam as atitudes historicamente reservadas a esses personagens no cinema. Assim, o negro não mais se contentava em ser salvo pelo branco, mas assumia as rédeas de seu destino e ainda por cima tirava um sarro da autoridade botando o pé na mesa e rindo na cara do opressor. No more nice guy. And girl.

Um interessante desdobramento desse movimento foi a aparição de filmes policiais estrelados por mulheres negras. E aquela que talvez possa ser considerada o símbolo dessa onda é Pam Grier. Intérprete de Coffy, Foxy Brown e Sheba Shayne (não são os nomes de personagens mais legais de todos os tempos?), Grier ajudou a definir esse momento na luta pela igualdade racial e de gênero. Anos mais tarde, quando o blaxploitation era uma página virada na história do cinema, Pam foi trazida de volta ao centro dos holofotes por Quentin Tarantino em Jackie Brown, uma homenagem à estética daquele período.
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Um de seus melhores filmes na década de 70 é Foxy Brown, escrito e dirigido por Jack Hill. No papel-título, Pam interpreta uma mulher que, tendo seu namorado, um policial no programa de proteção à testemunha, assassinado por gângsteres, resolve partir para a vingança passando por cima até mesmo de seu irmão. Sem nenhuma vergonha de usar o corpo escultural para atingir seus objetivos, ela assume um trabalho de prostituta para se infiltrar na gangue. É incrível a naturalidade com que o roteiro lida com temas como prostituição e homossexualismo, especialmente se levarmos em conta que só há poucos anos esses assuntos têm tido um tratamento menos moralista no cinema mainstream. Foxy transita por bares de lésbicas e fica claro que aquele é um mundo que ela já conhecia. Em nenhum momento o trabalho das prostitutas é julgado, apenas a exploração dele pelos vilões. E aqui cabe outra observação: a líder da gangue e principal antagonista de Foxy é também uma mulher. Ou seja, os dois principais papéis de um filme policial são femininos. Você lembra quantos filmes assim foram lançados nos últimos 30 anos?

jackie-brownMas aquele que talvez seja seu melhor papel vem de um filho desgarrado do movimento. Jackie Brown, com todo o refinamento narrativo que Tarantino impõe a seus filmes, se coloca acima das obras que homenageia, pelo menos sob o ponto de vista puramente cinematográfico. Contando a história da aeromoça que tem que dar um baile em policiais e traficantes que querem enquadrá-la, cada um a seu modo, o roteiro coloca sua protagonista no mesmo patamar que os personagens masculinos, embora o caráter sexual dos originais setentistas não esteja tão presente. É verdade que Tarantino tem sua parcela de erros, incluindo aí o retrato um tanto caricato dos outros poucos personagens negros, mas sua protagonista é tão bem definida e a narrativa flui tão facilmente que esse defeito acaba se apequenando.

97f719f9fa1614196efc550d37d65606Grier também teve sua cota de bombas, como o horroroso, e por isso mesmo divertido, Black Mama, White Mama, de Eddie Romero. Mas ainda que seja um exercício amador de cinema, essa produção trazia a visão emancipadora do blaxploitation, com nossa heroína no papel de uma prostituta acorrentada a uma guerrilheira branca lutando para fugir das autoridades.

Depois de seu retorno em grande estilo no final dos anos 90, Pam Grier voltou a ser coadjuvante em produções menores, como na fase que se seguiu a sua explosão nos anos 70. Mas aquela época será sempre lembrada como um marco no cinema de afirmação das minorias. E Pam viverá para sempre nos sonhos eróticos e libertários de biscates e afins mundo afora.

Z144vmkx*Ânderson Luiz Galdino Rodrigues tem um nome grande que ficaria bem em um cartaz de filme mexicano, mas resolveu trilhar um caminho diferente e trabalhar no Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal. Entre um desastre e outro sobrevive de uma dieta de filmes, quadrinhos e música que não é recomendada para os fracos. E tem um poder mutante, o de escolher sempre o caminho mais longo, que ele ainda não descobriu como, mas um dia vai usá-lo no combate ao crime.

Orgasmo, Uma Receita. Ou não.

Por Teresa Filósofa**, Biscate Convidada

Todo mundo quer orgasmos. Todo mundo fala sobre orgasmos. Todo mundo ao menos pensa neles – ainda que não admita*.

Zilhares de livros, matérias, programas de tevê prometem ensinar o caminho das pedras. Quer saber? A questão é que nada do que eu li, pesquisei ou conversei me preparou para eles. Quer saber mais? Até atrapalhou. Quando eu era adolescente, tinha uma vida sexual legal pra caramba, composta por um namorado carinhoso, um certo conhecimento do corpo, autoestima, uma educação bastante liberal, até uma mãe que falava do assunto eu tive. E o que faltava então para eu chegar no orgasmo? Segundo o manual, nada. E eu não tinha problemas fisiológicos me impedindo (porque já tinha tido orgasmos na pré-adolescência, antes da vida sexual propriamente dita começar). Faltava o quê então? Por que não rolava?

Tive a intuição de que faltava uma certa maturidade psíquica para chegar lá. Que o tempo de rodagem faria seu trabalho. E que era só continuar o que eu estava fazendo e gozar a fresca da brisa que uma hora tudo entraria no seu eixo, devagar, curtindo o caminho. Tomei coragem para comentar com uma ou outra amiga aqui, com uma médica. Rechaçaram minha intuição e reforçaram o discurso de que já devia ter ido. Acharam bobagem minha tranquilidade, falta de pressa. Por que deixar para amanhã o que você pode gozar hoje? Cheguei a me sentir ridícula: que tabu é ter a faca e o queijo na mão e não ter pressa de comer. A verdade é que não devia nada: poucas coisas tem que ser nos caminhos do corpo. Cada corpo tem seu tempo e sua história.

orgasmo

E segui fazendo o que eu tinha que fazer. Tive um parceiro que se recusava sequer a falar no assunto. Não preciso nem dizer que não ajuda em nada. Outras relações vieram, muita biscatagem rolou, e precisou de um bom tempo de eu comigo para descobrir como funciona a maquininha mental de puxa o gatilho dos orgasmos. Taí uma verdade nas teorias todas: masturbação realmente tem um papel fundamental para trazer o orgasmo de uma sorte do acaso para um efeito do corpo que se possa estimular, com algum controle. E o bloco do eu-sozinho também toca uma música diferente para cada uma. Eu só passei a curtir a brincadeira quando ignorei os manuais (de novo). Autoconhecimento pede uma dose de determinação e força grandes, principalmente quando o desejo sai do script, da curva, cai no delicioso terreno do inconfessável.

3 Pão com ovo, por Caroline SporrerOutras coisas que ninguém te diz: eles têm sim intensidades diferentes. Tem dia que é pão com ovo, tem dia que é entrada, principal e sobremesa, com mesa virada e taças de cristal trincadas. O que se passa com essa penca de sexólogos que não consegue afirmar com certeza que existe sim uma gama de intensidades diferentes? E de infinitas reações do corpo. Não estou falando da divisão de clitoriano e vaginal: cada um tem sua própria escala Richter. E tem dia que, mesmo num estado orgástico, de quase-quase, não vem mesmo. E tudo bem.

Numa conversa bem mais sincera com uma amiga que também já tinha se enchido dos especialistas infalíveis, caiu o assunto do orgasmo vaginal. Compartilhamos o desabafo meio triste, meio aliviado, de que não era para nós. Que bom não estar só num mundo (ou numa rodinha feminina) em que esse orgasmo, parece, vende de baciada. Até que um dia chegou para uma. Depois quase veio para a outra.

E aí chegamos a como eu cheguei. E a um outro tabu. Eu fingi. Fingi um bocado até gozar de verdade. Transformei muito quase em finalmente. E não me arrependo nem um pouco, assumi o ônus e o bônus. Quem dá entrevista para a Nova e congêneres dizendo que não se deve fingir orgasmo certamente nunca lidou com o ego ferido de um homem (não que todo homem vai reagir assim, mas como saber antes?). Às vezes o rapaz se machuca tanto, encara como falha, e não como coisa da vida, que tem jeitos melhores de lidar com a coisa. Cada vez que quase foi, levou o par a aprender o que funcionava, o que era bom, o que arrepiava. E foi ficando cada vez melhor. E muito rápido o quase virou de verdade. E quedê manual ditando regra agora? Queimei todos, do fundo do meu coração.

É triste não gozar, mas é mais triste ainda ter culpa por não ter gozado. Queria ter ouvido essas coisas quando era mais nova. Queria que nos espaços de falar das coisas do corpo, do sexo e do amor, houvesse mais paciência com os muitos tempos e histórias diferentes. E que a nossa liberdade e direito ao gozo, em todos os sentidos, não fosse nunca uma prisão. Queria saber mais cedo que com o tempo tudo ia ficar mais fácil – na cama e fora.

* quando a gente diz todo mundo é frase de efeito, né. Sabemos que existem os assexuais e que sua orientação é tão válida quanto as demais.

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Teresa Filósofa já ouviu muita bestagi por aí afora. De vez em quando fica matutando que há tanta coisa importante sobre a qual não se trata, porque tem muito tabu até em se falar de se falar disso… Aí ela vem e solta o verbo.

Essa Tal Biscate

Por Rafael Morello*, Biscate Convidado

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Já presenciei alguns espantos diante do nome do presente blog: “Biscate!”. As palavras carregam uma história, tem uma gênese, pavimentam um lugar específico no mapa social em que os indivíduos se localizam. E, à primeira vista, biscate é uma mulher bem tradicional.

O que seria da mulher virtuosa, pura, dona-de-casa, filha, mãe de avental sujo de ovo e todas as imagens mais contemporâneas dessa clássica se não fosse o extremo oposto a partir do qual a “mulher pra casar” tem definidas suas linhas fronteiriças? A biscate, a desfrutável – como eu gosto dessa palavra! – a “fácil” ganha sentido como contraponto moralizante para a “santa de casa”. Ambas são encarnações femininas que servem aos apetites do gênero-rei: o homem.

A sensibilidade feminina, o temperamento, o “ser” da mulher coerente com o privado, a interioridade, o doméstico. Bourdieu cita a descoberta por uma antropóloga de escritos da Idade Média onde se justifica a posição social da mulher devido à natureza física de seus órgãos reprodutores que assim, como seu papel social, seriam “internos”. Parece que estamos falando aqui de nossas tataravós, mas pesquisas recentes mostram que a propagada divisão das tarefas domésticas entre o casal hoje em dia é praticamente um mito. Além do trabalho fora, nossas amélias contemporâneas continuam com o maior peso no cuidado do lar e na criação dos filhos.

A outra existência possível em relação à esta primeira encarnação é a da “outra”, a sem-marido, personificação erótica dos desejos masculinos, pronta a tudo dar, em tudo ceder – respeitabilidade, família, laços sociais – em prol da adoração do falo provedor de seu macho. É a mulher das antigas garconiéres, a atual ex-,modelo, atriz e dançarina em busca de alguém que lhe banque, quiçá um jogador de futebol, sempre à espreita de um almejado “golpe da barriga”.

A santa de casa e a biscate são pólos contrários de um mesmo balanço no qual, no centro, em aparente estabilidade se ergue o macho-alfa. Sendo, é claro, que o pólo da biscate é tradicionalmente o da infâmia. Por isso o espanto diante de um grupo de mulheres – inteligentes, profissionais independentes, esposas e mães, mães meu deus! – que fundam um clube de biscates.

                                                   #LuzNasMulheres

#LuzNasMulheres

Fazem essas biscates uma operação arriscadíssima: a de assumirem uma palavra e distorcer, dobrar seu significado. Libertam a figura maldita da biscate-produto da dominação masculina, vivendo-a não a partir do lugar instaurado pelo olhar machista, mas assumindo de forma nova tal imagem. Utilizam-na para encarar, altivas e donas-de-si, o olhar que instaurou a “biscate” como símbolo de degradação, assumindo-a como status de liberdade, de maioridade. Assim em pequenas revoluções cotidianas, tornam velhas lógicas míopes, embaralham juízos tidos como inequívocos, vivem seus corpos e desejos para além de uma marcação do querer totalizador de um outro que lhes aponte a direção, seguem, enfim, nas dores e delícias de fazerem, quase sempre, o que desejam, seu próprio caminho, numa versão 2.0 da “tradicional” biscate, doa a quem doer. Entendeu porque tem um bando de homens sentindo-se ameaçados em relação à mulherada hoje em dia? Abaixo os bundões! E viva a biscatagem!!

333508_298637766852747_1761134101_o*Rafael Morello é em sensibilidades. Reinventou sua vida, escuta Nina Simone e gosta de gente. Escreve cartas e acredita no riso como revolução. Se é pra morar no Rio, que se more na Lapa. Sabe a mar, não só o que sussurra alegrias, mas o que prendem em quadros, fotos, imagens e que lateja silenciosa arrebentação. Quando se quer mais Rafa, há sempre tanta coisa, tanta coisa a ser vivida. E lida.

Instante

Por Luísa  Molina*, Biscate Convidada

 

(para ler ouvindo “you don’t know me“)

 You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all…

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Teria tocado ao longe, ou no inalcançável apartamento vizinho, ou entre aquelas paredes que se dilatavam conforme a sua respiração. Não importava. Tocava ali, nela, seios descobertos diante da janela, e a fumaça…

A língua da noite era afiada, mas macia, e soprava sobre as árvores e entre os vidros: “fulgor”. Tudo ali me entorpecia, tudo era exato e absoluto; __________________; e me soprava calor ao pé do ouvido, o pescoço se virava doce, devagar, as pontas dos cabelos sobre a pele, o arrepio…

Diante da janela ela era tudo aquilo, e era só.

The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall

O cigarro ardia entre os dedos, e os braços rendidos ao parapeito, na exaustão farta e feliz. Tudo era exato e absoluto.

 “Uma mulher livre…”, eu balbuciava, entre um e outro trago daquela avidez do corpo.

“…Uma mulher livre
É saciada”, e ria.
“Uma mulher livre…” em mim ecoava.

E a língua da noite na minha língua, meu silvo audaz às janelas desconhecidas, e o riso, o riso louco, o riso do corpo nu na madrugada, a saciedade latente no corpo, tudo exato e absoluto.

A mulher se alcança se lança de despe se deita se levanta e segue. Se permite se preenche se dissolve se resolve se refaz. A mulher espreita, escolhe, encontra, entrega, recebe, respira, transpira, segue, refaz. A mulher-corpo, a mulher-âmbito, a mulher-encontro. Tudo é exato e absoluto. Funde-se e confunde-se. Estilhaça-se em mil no fogo e fulgor. É ela, e é o outro, é um no íntimo, no último instante, instância e persistência do corpo, puro suor.

Mas o riso, o riso é só seu.

 

LuisaMolina*Luísa Molina é escorpiana, meândrica, hiperbólica. Tem gosto especial pelos avessos e pouco apetite para meios-termos. Vive a “dor e na delícia de ser o que se é”, escreve em incontáveis cadernos e no fundoinfinito.posterous.com. Viciada em intensidade, descobre, dia a dia, faces de uma alma biscate.

 

Biscate Gosta de Dar?

Por Karla Avanço, Biscate Convidada*

Antes de responder essa pergunta tenho de dizer que eu acredito que só se dá o que se tem. Então, primeiro, pra ser biscate é preciso se dar e se entregar a si mesma.

Se abrir e se presentear com um sorriso, mesmo que ele só aconteça lá dentro – da cabeça, do coração, da alma – mas se abrir os lábios e mostrar os dentes é ainda melhor. E, nesse passo, se fechar e se refugiar no próprio abraço.

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Pra mim, ficar sozinha me deu a oportunidade de me ver, me ouvir, me encontrar… e me amar. Adoro chegar em casa e logo tirar os sapatos e o sutiã (soutien?), mas quase sempre depois desses dois itens começo a tirar o resto porque adoro ficar livre, leve e solta, porque o corpo é uma delícia e dese ser curtido sem amarras, sem botões, cintos e elásticos.
degas_woman_kneelingEu detestava comer sozinha. Agora adoro. Faço uma comidinha gostosa e saboreio esse carinho que fiz pra mim. Às vezes com vinho, às vezes até à luz de velas.

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Essa paz, esse aconchego, essa liberdade só encontro comigo. E é justamente por encontrar isso em mim que eu posso me dar, que eu posso decidir o quanto me entrego, onde, quando e para quem quiser. É assim que eu gosto.

Eu não meço a minha liberdade fazendo contabilidade do que dou e do que recebi das pessoas que passam pela minha vida, eu vivo a minha liberdade na felicidade que eu sinto por estar comigo.

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.
Quer seguir no twitter? @karlavanco.

 

Meu Nome é Sexo, Muito Prazer!

Por Everson Fernandes*, biscate convidado

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Uma vez, numa discussão, ouvi um argumento de que na hora do sexo era o corpo quem mandava. Como se o corpo sentisse a necessidade de prazer por si só. Que tudo acontecia porque era o corpo pedindo. Isso inclui subjugar mulheres, segundo o argumentador. Ele também rejeitou meu argumento de que a moral exercia algum tipo de interferência nas práticas sexuais.  Dessa forma, rejeitou que o machismo também está presente na hora do sexo. E tratávamos estritamente do sexo heterossexual, mas isso também afeta as relações sexuais entre dois homens, mais especificamente homens gays.

É um tanto comum ouvir mulheres heterossexuais reclamarem de relações sexuais que não tenham sido prazerosas, que muitos homens limitam-se apenas ao prazer próprio. Não é à toa que muitas mulheres com vida sexual ativa não alcancem o orgasmo, e isso pode ser motivado por vários fatores. Entre eles, a falta de cumplicidade no sexo e a retribuição do gozo. É preciso considerar que esse tipo de comportamento também é fruto de uma sociedade machista, que trata a mulher como objeto de prazer.

Ao homem é pré-definido o papel de representação da virilidade, masculinidade e, de certa forma, negação do que seria tratado como qualidade essencialmente feminina: demonstrar afeto. E, nessa relação de mulher objeto  e homem viril, o prazer no sexo não é necessariamente uma preocupação que ele considere. A educação voltada às crianças expressa um jogo de poder, onde o homem é dominante, penetrador; e a mulher, dominada e submissa, é penetrada.

E é meio óbvio – para alguns, pra outros nem tanto – afirmar isso, mas gays também são homens. E também foram submetidos a uma educação que os colocam numa posição de dominação. Uns assimilam mais, outros menos. E, numa relação homossexual entre dois homens, ocorre uma espécie de  projeção da educação que submete as mulheres ao papel de objeto, e essa projeção é transferida ao homem que é penetrado.

E na junção de uma moral machista e reprodução de comportamentos heteronormativos num relacionamento homo, que verificamos o penetrante como alguém não interessado em compartilhar prazer, mas apenas sentir. Essa reprodução pode se dar de maneiras mais explícitas ou mais sutis e quase imperceptíveis. Dessa forma, no casal homo, há o homem que se coloca em posição de provedor, como líder da relação,  e o que se coloca de maneira mais passiva.

Eu não sei dizer se isso ocorre em maior ou menor frequência, mas posso afirmar que ocorre. Quando digo que o machismo também está presente numa relação sexual entre dois homens e que ele traz problemas que dificultam uma relação mais saudável, refiro-me ao fato de que muitos homens gays que exercem um papel de penetrante se recusam a praticar alguns atos antes e durante a transa. Há uma falsa ideia de que todos os gays são bem resolvidos sexualmente – e de fato muitos são –  que não corresponde com a realidade.

Não é incomum que o penetrante (e eu evito falar em “ativo” e “passivo”, apesar de não gostar também dos termos que escolhi) se recuse ou não manifeste vontade de praticar sexo oral ou impeça que o parceiro faça carícias na região anal. E há quem diga que é questão de preferência sexual, mas essa preferência também está baseada em preceitos morais, não é algo isolado ou inato. A interação durante o sexo também funciona de uma forma que o penetrante considere que o ato de penetrar por si só é prazeroso para ambos. E muitas vezes não é.

É claro que isso não é regra. Que há muitos casais que não se familiarizam com nada disso, que vivem uma vida sexual saudável e prazerosa para ambos. No entanto, são comportamentos que existem. Independente de serem majoritários ou não. A questão aqui não se pretende que seja moral, que o sexo só seja praticado com afetividade. A questão é a seguinte: sexo, seja casual ou não, deveria ser prazeroso aos envolvidos. Jogando as palavras na mesa, eu diria que a putaria e o romance não precisam ser excludentes.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

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