Jandira, a vítima já condenada

Por Niara de Oliveira  

jandira

Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, está desaparecida desde o dia 26 de agosto. A polícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam. O desaparecimento? Também, mas antes e sobretudo investigam o crime de Jandira, abortar. E a quadrilha que possivelmente está envolvida no desaparecimento de Jandira.

Na imprensa, desde que o caso veio a público, nunca — NUNCA — o “crime” de Jandira deixou de ser mencionado junto com as informações sobre o seu desaparecimento. O tempo de gravidez, as condições, as motivações de Jandira para recorrer a medida extrema de confiar em estranhos e ainda gastar uma pequena fortuna com isso vi em apenas uma das reportagens, mas naquilo que chamamos no jornalismo de detalhes do caso, “encheção de linguiça”, o que vai no último parágrafo das notícias escritas e que quase ninguém lê, e poderia ser dispensável, não é crucial para a informação. Apenas para registrar, não tenho dúvidas, que a mãe e o ex-marido de Jandira sabiam que ela cometeria um “crime”, e que podem ser enquadrados como cúmplices.

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Mas que joça de jornalismo é esse onde a motivação do “crime” é dispensável? Oras, porque a hipocrisia reina e porque o dispensável no caso de Jandira é o que a transforma em vítima de um sistema que criminaliza a mulher por não ter direito ao seu corpo. E os direitos humanos, o direito inalienável à vida, de Jandira vai pelo ralo na tal cobertura jornalística, junto com a obrigação ética do jornalismo de defender os direitos humanos.

A mãe de Jandira informou que a filha pagou R$ 4,5 mil para fazer o procedimento. Segundo umas das muitas matérias, Maria Ângela Magdalena dos Santos afirmou que a filha trabalhava numa concessionária no Recreio dos Bandeirantes e havia juntado todas as economias para conseguir realizar o aborto porque tinha medo de perder o emprego se mantivesse a gravidez. “Eu não achei caro porque dizem que essas pessoas cobram mil reais por mês (de gestação) e ela já estava na 14 semana (quarto mês). Eu não queria que ela fizesse, mas a gente não manda nos nossos filhos. Estou desesperada porque eu não tenho notícia boa nem ruim. Ela estava com medo de perder o emprego e o pai dessa criança foi uma coisa passageira, eles não estavam juntos“, disse a mãe.

Jandira, grávida de uma relação eventual, desesperada, já tinha ultrapassado o tempo limite para a realização de um aborto. Mas, como o assunto é tabu não há sites com informações seguras a respeito, não há matérias no “Fantástico”, no “Bem Estar” ou nos “Repórter” de cada emissora indicando as melhores condições, critérios e cuidados a serem tomados ao abortar.

O que ninguém diz é que ao engravidar por acidente a mulher está condenada, ou a ter o filho que não quer — com todos os riscos que envolvem a gravidez e o parto — ou a virar criminosa caso decida abortar clandestinamente — com todos os riscos que envolve um aborto –. A probabilidade de Jandira ser encontrada viva se torna mais remota a cada dia que passa (últimas informações aqui). O que não é remoto é o seu julgamento. Ela já é culpada. E seus dois filhos agora estão órfãos.

Se Jandira tivesse uma condição social melhor, teria feito seu procedimento normalmente, teria voltado para a sua casa, filhos e emprego sem se tornar notícia. Aborto é uma realidade no Brasil. As mulheres ricas pagam e estão seguras; as trabalhadoras juntam as economias da vida para abortar e correm riscos para tentar a segurança de que dispõe as mulheres ricas; e as pobres (e negras) recorrem a métodos insalubres e correm maior risco de morte. O que leva as mulheres a abortarem é a tentativa desesperada de serem donas de seus corpos e poderem decidir seu futuro.

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As mulheres abortam. A sociedade aborta. O que mata muitas das mulheres que abortam é a hipocrisia de colocar apenas em suas contas e costas os abortos feitos. Até quando vamos fingir que não é conosco?

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Leia também Se minha mãe tivesse me abortado, de Laryssa Carvalho no Blogueiras Feministas.

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Campanha 28 Dias Pela Vida das Mulheres

28 diasDia 28 de setembro é Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Diversas ações serão realizadas. Entre elas está o site: 28 Dias Pela Vida das Mulheres.

Participe desse movimento escrevendo textos, publicando imagens ou mensagens com as #hashtags: #28set #LegalizarOAborto.

O moralismo que existe em nós

Por Niara de Oliveira

“…e onde sou só desejo, queres não”
(clica para ouvir enquanto lês)

Ninguém nasce pronto. A gente vai descobrindo o mundo, se descobrindo, aprendendo e ensinando, trocando experiências. E cada pessoa que passa pela vida da gente e cada dia vivido muda a gente um pouquinho. Não existem certezas. Costumo dizer que sabemos que deixamos de ser adolescentes e entramos na idade adulta quando percebemos e admitimos que temos mais dúvidas que certezas na vida.

Lembra de um texto da Lu-Borboleta dizendo que nunca a veríamos apontando o dedo para alguém chamando de machista, que as pessoas têm comportamentos machistas e que todos nós podemos escorregar? Então… Isso é a síntese do entendimento de que por vivermos numa sociedade estruturalmente machista todos estamos sujeitos a escorregar e reproduzir comportamentos machistas. Arrisco dizer que é bem provável que façamos — inclusive nós, feministas — isso na maior parte do tempo. Na menor parte do tempo a gente se vigia e cuida para não escorregar. Mas não é fácil…

Daí que o moralismo, assim como os outros ismos, é uma sombra que nos persegue. Como é difícil não criticar x outrx, não apontar o dedo para x outrx. Principalmente quando x outrx é outra, é mulher. Como é fácil apontarmos o dedo para as mulheres, e — na contramão — como é fácil termos dedos apontados para nós. Já disse outro dia e repito: Liberdade (e gosto de escrevê-la assim, com letra maiúscula) é um exercício, mútuo, coletivo. Mais do que isso, é uma luta. Constante, diária, infinda.

O meu feminismo não é o mesmo de vinte anos atrás, nem é o mesmo de dois anos atrás. O meu feminismo hoje é mais feliz, alegre e livre desde que encontrei o povo desse clube. Muitas coisas já me incomodavam antes, é fato, como algumas feministas lutarem contra a tutela da sociedade e dos homens sobre as mulheres mas em determinado momento elas mesma tutelarem outras mulheres e o movimento. Não quero ser tutelada e nem tutelar ninguém. Não me interessa substituir a pessoa do opressor, mas combater e extinguir a opressão, de todxs.

É preciso entender que ninguém é igual ou tem o mesmo ritmo de aprendizado e da troca que nos modifica, e temos olhares diferentes sobre o mundo e sobre x outrx. Daí, que não dá para exigir que só porque nos tornamos feministas e achamos que somos melhores assim que as demais mulheres passem pelo mesmo processo, igualzinho, e atuem da mesma forma, com a mesma força, intensidade e grau de consciência. E de todas as dificuldades, respeitar x outrx e o seu direito inclusive à alienação e ao processo de conscientização em formato, ritmo, conteúdo e consistência diferente parece ser o maior.

tattoo piriguete

piriguete, como deveria ser qualquer mulher, é livre para fazer o que quiser, até amor

Se uma mulher quer se assumir piriguete e até mesmo tatuar isso na pele, no que isso atrapalha minha vida ou minha luta feminista? No que a liberdade sexual de uma mulher ofende o feminismo? Esse respeito ao qual a maioria da sociedade acha que as mulheres devem se dar — sem precisar exercitá-lo — eu não quero. E pra mim não importa quem me diga que devo me dar ao respeito, se feministas ou machistas, me oprime. Minha única discordância com a ideia da tattoo acima — e isso é pessoal, a Pietra pode continuar pensando da mesma forma — é que piriguete pode ser piriguete e fazer amor e mulher casada e moça de família podem fazer sexo gostoso, basta quererem e assim decidirem. Mas é excelente ver uma mulher rotulada de forma depreciativa por seu comportamento e atitude esfregar o preconceito nas fuças dos moralistas, como quem vira o espelho na cara da sociedade e reflete nela o seu julgamento hipócrita. Isso significa libertação. Significa que para a Pietra o julgamento da sociedade já não importa mais, lhe é inútil. E a mim, como feminista e biscate, só cabe aplaudir.

Ou a libertação das mulheres, inclusive sexual, não é mais o objetivo principal do feminismo?

“O quereres e o estares sempre a fim 
do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer
que há e do que não há em mim”

Se toquem: sobre Gerônimos e Pocahontas…

Outro dia enquanto tomava banho (sim, sempre há uma luz de reflexão no fim do banho) me lembrei de uma situação inusitada de uma conversa que escutei em uma mesa de lanchonete (não, não tenho costume de ouvir conversa alheia, mas estava sozinho, atoa e o assunto era interessante, como ocorre a todos que escutam as conversas alheias). Estava eu lá, mais ou menos no meio da regra sagrada da ordem do que lavar no banho (é… eu sigo a metodologia do “cabeça, ombro, joelho e pé”…) e, do nada, me estalou o quanto aquele papo adolescente explica em muito a nossa sociedadezinha conservadorazinha. Nome fictício do protagonista: Gerônimo. Por três motivos: não conheço nenhum Gerônimo; Gerônimo era o Chefe Apache que virou símbolo de valentia e macheza; e vai ajudar na piada…

Era uma roda normal de alunos de uma escola católica tradicional. A conversa, deus sabe porquê, descambou para aquele assunto que só ocorre entre meninos e meninas adolescentes quando há um ogro no grupo ou quando não há interesse sexual entre nenhuma das pessoas presentes: como tomar banho. Terreno escorregadio… todos os medos do sabão cair no chão… mas levaram a conversa.

A conversa me chamou, mesmo, atenção quando um dos meninos, que chamo de Descartes, disse que era adepto da técnica do “cabeça, ombro, joelho e pé” (todos pira). Foi interessante vê-lo expor cientificamente minha metodologia de lavar o corpo (que eu nunca tinha elaborado), que as meninas acharam infactível (imagina lavar o cabelo todos os dia e começar a limpeza de cima para baixo para que a água que escorre por você seja sempre limpa????)… Continuando o papo, alguns não tinham técnica nenhuma, mas todo mundo cheirava bem (pelo menos pareciam cheirar bem). Entraram no assunto alergia, muito produtivo, eram a perfumes, esponjas, determinados produtos, etc… Descobriram que tinha gente que só usava sabonete líquido, que já usava sabonete íntimo e que tinha a rykaa que tomava banho de banheira com sais da L’Occitane… Então, Gerônimo me solta a pérola: “eu não sei como vocês conseguem passar o sabonete na bunda! Só de pensar… já tenho medo de virar viado”…

Entre gritos de pavor, nojo, graça e de “como você se lava?”, Gerônimo passou por ogro que não lava a bunda e mudou-se de assunto… Na mesa, ninguém pareceu se tocar (talvez se Jerônimo tivesse se tocado nos poupasse da história), mas era tarde… diabo trabalha… na minha cabeça só pipocava: “que inferno de recalque é esse”?!?!?!?!

Como alguém pode se privar da higiene íntima por medo de virar Pocahontas? Na boa, o cara que diz que lavar (LAVAR!!! Ninguém falou em enfiar nada, fazer ligação direta, fio terra ou o escambau) a bunda pode lhe causar uma sensação de prazer a tal ponto de causar #MEDO de “virar” homossexual? Tipo, mesmo que ele estivesse “brincando” (e não estava), tem muito que conversar com o tio Freud… Primeiro, porque não deveria haver problema em ser homossexual (ou bisexual, ou gostar de fio terra, sei lá…); segundo, que pavor é esse que nos é quase que imposto e que nos impede de fazer coisas tão simples como tomar banho e nos tocar?; e terceiro, mas não menos importante, se ele não lava, aí é que ninguém vai querer mesmo!!!

Mas vamos ao ponto. O que nessa nossa sociedade, na nossa formação (porque, sim, isso faz parte da nossa formação cultural, é algo que está infundido no nosso imaginário), faz com que as pessoas não sejam, ainda jovens, capazes de descobrir seus próprios corpos? Por que isso é visto como uma infração, um pecado, uma aberração? Que inferno de repressão medieval é essa que, nem na felicidade de um bom banho, não nos permite ser livres?

Eu, que fui adolescente e estudante de escola católica tradicional na época em que o Bento ainda era XV, confesso que tenho medo com o que ainda acontece na geração Bento XVI. Se, nessa altura do campeonato, vive-se com medos que começaram a ser enfrentados no século XIX, há muito o que se temer para o século XXI. Que modernidade é essa? Deve tá certo o Bruno Latour que diz que “Jamais fomos modernos”… e gente por aí se afirmando pós-moderna… Me mata ver que essa verborragia inócua e estéril de desenvolvimento social morre quando [não] vamos ao mais simples: nossos corpos…

Enquanto tivermos medo de nos tocar, estaremos (eu, você e o Gerônimo) constrangendo nossos corpos como sempre foi feito e nosso único “progresso” vai ser a eterna permissividade consumista da introdução (recorrente) de novas formas de fazê-lo. No final, tem que fazer mesmo como #GÊNIO da lâmpada do Aladdin da Disney que, na década de 1990, já não tinha medo de ser Pocahontas…

Se toquem!

Tatazão

Por Érika Meneses*

Começo esse post pedindo desculpas pela incompletude das informações que vou oferecer. Quando a Luciana Nepomuceno me fez o convite – que muito me honrou – para dar uma contribuição ao Biscate Social Club, apresentando alguma personagem de que eu gostasse, eu só consegui pensar NELE: o Zé Tatá. O pedido de desculpas tem a ver com o fato de que, mesmo sendo esta uma figura histórica, que permanece no imaginário de nossa cidade, inexistem registros oficiais e pesquisas sobre sua história de vida. Para escrever esse texto, me baseio em crônicas de Blanchard Girão e Zenilo Almada, memorialistas cearenses, e nas narrativas de mulheres que foram prostitutas nas décadas de 1960 e 1970, na cidade de Fortaleza. As mulheres às quais me refiro foram personagens da minha dissertação de mestrado, sobre histórias de vida de ex-prostitutas idosas. E todas se recordam do (grande) Zé Tatá.

Esse personagem, mais que digno de figurar na quinta cultural do Biscate Social Clube, foi um proprietário de cabarés que se tornou famoso na noite fortalezense, lá pelos idos de 1960. José Vicente de Carvalho, vulgo Zé Tatá, foi o primeiro homem de Fortaleza a assumir sua homossexualidade, anunciando a quem quisesse ouvir que gostava, sim, de homem. Era conhecido por exigir respeito e não tolerar desrespeitos à sua pessoa. Zé Tatá garantia, por meio da fama de valente, a liberdade de circular pelas ruas do Centro da cidade sem ser importunado pela molecagem cearense. A força física era seu salvo-conduto para ir e vir livre das zombarias contra sua homossexualidade assumida.

Em suas crônicas sobre o meretrício em Fortaleza, Zenilo Almada dá destaque à figura de Zé Tatá, e o descreve como um homem alto e corpulento – aproximadamente dois metros de altura, pesando quase 120 quilos, “sempre bem trajado, sem muita afetação, com sandálias quase femininas, mas com roupas adequadas”. O cronista relata que Tatá participava do carnaval da cidade, no conhecido bloco das Baianas, fantasiado de Carmen Miranda – sempre sob aplausos.

Almada enumera, entre as casas de prostituição que foram de propriedade de Zé Tatá, a Pensão Ubirajara, na rua Major Facundo, no quarteirão entre as ruas Senador Alencar e São Paulo; a Boate Tabariz, que ficava no número 120 da rua Pessoa Anta, e a Pensão Hollywood, na Barão do Rio Branco.

Em uma escala de “elegância” no meretrício, as casas de prostituição de Zé Tatá são descritas, pelas próprias prostitutas que viveram o período, como um ponto intermediário entre o glamour das pensões galantes – casas de prostituição com orquestras e bailes, no Centro da cidade – e os prostíbulos menos sofisticados, localizados na antiga zona conhecida como “o Curral das Éguas” (sim, Fortaleza já teve uma zona de meretrício com esse nome infame. Passou a existir na década de quarenta, após uma ordem do prefeito que resultou na expulsão das prostitutas das ruas centrais da cidade para casas em um local mais discreto, na descida da rua General Sampaio, por trás da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe. Décadas depois, no final dos anos 60, as casas de prostitutas do Curral das Éguas foram removidas pelo governo estadual, para construção da avenida Leste-Oeste. Mas essa é outra história). Nas palavras das minhas entrevistadas, as mulheres do Zé Tatá não eram consideradas as prostitutas mais chiques da cidade, nem as mais bem remuneradas. Elas eram submetidas à vigilância constante do dono da casa, que cuidava para que os clientes fossem bem tratados e não tolerava confusões em seus estabelecimentos. A figura de Zé Tatá é erigida, nos discursos das mulheres da época, como um mito, a tal ponto que primeira referência que ouvi sobre ele foi: “nessa sua pesquisa você já falou de Zé Tatá? Porque se tu falar de prostituição em Fortaleza, e não falar em Zé Tatá, tu não falou foi nada!”.

A última casa de prostituição que Zé Tatá possuiu ficava próxima ao atual Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na avenida Alberto Nepomuceno. Pouco tempo depois da morte de Zé Tatá, a cidade de Fortaleza via desaparecer a era das pensões de meretrício, com seus salões apinhados de prostitutas excessivamente arrumadas, ostentando maquiagens marcadas e vestidos longos de veludo ou lamê em cores berrantes. A velha molecagem cearense deu um jeito de “mangar” – ou prestar sua última homenagem? – e apelidou de Tatazão o primeiro viaduto da cidade, construído nas proximidades da antiga casa de prostituição.

A história dele me impressiona demais. Já procurei registros em jornais antigos, em fontes variadas, com pouco sucesso nas buscas. O “Tatazão” resiste como um mito e como uma existência contada em poucas linhas – afinal, não é o tipo de história que interessa do ponto de vista oficial. Sabe-se que existiu, que foi biscate – ele mesmo – que foi chefe de um tanto delas –  e que prezava sua liberdade.

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*Érika Meneses é cearense arretada, bem-humorada e aquele ar de quem, distraída, vai aprendendo o mundo. Tem 28 e almeja se tornar uma verdadeira biscate – uma mulher que não quer abafar ninguém, mas faz o que quer, sem sofrer, sem se preocupar com o moralismo alheio. É jornalista, mestra em sociologia e está convencida de que não existem vidas comuns. Toda existência é extraordinária.

Biscate não tem coração

Por Priscilla Brito*, nossa Biscate Convidada

Uma biscate não acredita em contos de fadas. Não se derrama, apaixonada pelo primeiro “príncipe encantado” que aparece. Fala o que pensa, não aceita desaforo, adora gritar tão alto quanto inventam de gritar com ela. Às vezes teimosa, gosta de saciar os seus desejos, sozinha ou acompanhada.

Como tudo na vida um dia termina, pode acontecer dxs moçxs companheirxs das biscates resolverem terminar o relacionamento, seja ele qual for. Para o restante do mundo, deve ser o fim de um sonho (afinal, muita gente acha que estar junto é pensar em casamento) e é a chance de fazer chover expectativas sobre como as biscates devem reagir: se gostava mesmo tem que chorar por dias, ficar com aquela cara abatida de mocinha de novela, despertando a piedade de todo mundo.

Só que uma biscate não é assim. Ela não gosta dessa cara murcha de mocinha sofredora. Ela acha que é perda de tempo ficar no chão esperando abraços de quem está tão ocupado resolvendo a sua própria vida. Biscate machuca o pé, mas levanta para logo sair por aí sambando, procurando outras maneiras de ser feliz.

Ao ser assim, uma biscate logo vira alvo de comentários (novidade!). Começam a dizer que ela não amava de verdade. Não é uma moça decente, não pode casar nem ter filhos, porque não é de confiança. E isso porque era a biscate que recebeu o pé na bunda.

É pior ainda quando é a biscate que resolve terminar um relacionamento. Aí é como se dissessem “todo mundo já esperava, ela não é a mulher certa para você” ou que “deve ser porque ela quer viver na gandaia, ficar com todo mundo”. Afinal, ela não é vista como confiável, nunca.

E é uma pena que tanta gente pense assim, inclusive x(s) ditx(s) cujx(s) com x(s) qual/quais a biscate se relacionava.

O que as pessoas não percebem é que a biscate sofre sim. Porque quando ela ama, ama de verdade, intensamente, e ninguém esquece um amor assim de uma hora para a outra. Se o término é recente e você tiver intimidade suficiente para perguntar, provavelmente a biscate vai te contar que ainda sofre em alguma parte, que não esqueceu. O que acontece é que a biscate não resumiu a vida dela àquele(s) relacionamento(s). Ela tem outrxs amigxs, família, gosta de sair, de festejar, de sorrir. Ela sabe que nada dura para sempre, e que nessas voltas que a vida dá, amores acabam para dar lugar a outros.

Uma biscate tem sim um coração, e ele é enorme, capaz amar de verdade, de sofrer, mas também de guardar as lembranças de todos esses sentimentos com carinho e respeito. Só não peçam que ela corresponda às expectativas ou chore para sempre arrependida pelo que passou. Porque passou, e ela sente intensamente que o mundo está aí, repleto de alegrias prontas para serem vividas e de outras pessoas dispostas a compartilhá-las.

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* Priscilla Brito é uma mulher inteligente, sensível, articulada e militante. Se perguntada, diz que tem problemas de concentração e pensa milhões de coisas ao mesmo tempo. Mas, sabe-se a boca pequena, que além de pensar, faz milhões de coisas ao mesmo tempo. E bem. Entre as coisas todas que pensa, pensa quase sempre em planos de como mudar o mundo a partir das inspirações feministas cotidianas. Para ela, ser biscate é uma coisa,assim, revolucionária. Convidada no nosso clube, escreve mesmo com regularidade é no Audácia das Chicas.

Ressignificar a buceta

Segundo o Dicionário Aurélio,

Significado de Boceta

s.f. Pequena caixa redonda ou oval. / Caixa de rapé. / Casta de tangerina. / Variedade de manga. / Bras. Determinado aparelho de pesca. / Pop. Vulva. // Boceta de Pandora, origem de todos os males.

Esse finalzinho aí foi bem assustador, mas condiz com o que muitas religiões pensam das mulheres, do sexo, e, obviamente, do genital feminino.

Outro dia, estávamos conversando, várias biscates, oficiais ou não, sobre o uso das palavras. Caralho! Tivemos a óbvia e etílica descoberta de que a palavra usada para designar o membro viril é muitas vezes usada num contexto não pejorativo ou obsceno, como “Bom pra caralho (ou pra cacete)”, enquanto não conseguimos encontrar um uso coloquial que fosse, no sentido positivo, para a pobre – palavra – boceta – ou buceta?

De acordo com a Wikipédia, bOceta é a tal caixinha, para guardar rapé, ou também, a palavra vulgar usada para designar a vulva, enquanto bUceta é a palavra usada, no português brasileiro popular e chulo, para designar a vagina ou a vulva. Também coloca alguns sinônimos regionais interessantes: bacurinha, buça, buçanha, capô-de-fusca, mijona (oi?) xereca, pastel (de novo: oi?) carne mijada (sério??) perereca, periquita, rachada (que original!), tabaco, tchura, tubia, xana, xavasca, xexeca, xibiu (oi Jorge Amado! Oi Gal! Oi Dorival! Oi Gabriela! ) xota e xoxota. Ufa.

São citados ainda, como “familiar”: bimbinha, griguilha, pipi, xibica, nhonhoca.

E como “popular”: passarinha, perseguida, racha ou rata.

Em Portugal, ora, pois, o nome da buceta seria cona, pachacha ou patareca (caso esteja por terras lusitanas, pesquise ai em que contexto, fora do sexual, elas são usadas, sim – as palavras, não as bucetas, por favor sim).

E tem também um termo que a Wikipédia colocou, que eu juro que não entendi. Sob o título de “social”, colocaram como sinônimo de BUCETA, perseguida.

Perseguida… lembrei do mito da vagina dentada.

E tem gente que tem medo mesmo. Medo da buceta perseguidora. Da buceta que faz o homem chorar, que faz o homem matar… Enlouquecer.

E enquanto PORRA e CARALHO e CACETE são vulgares, mas são populares (em certas regiões, o povo não tira da boca – ops!) e usadas para reforçar o quanto algo é bom ou serve como superlativo, acho que BUCETA só uso (como expressão) quando dou uma topada com o dedo mindinho do pé no pé da cama.

E aí é como xingamento, mesmo, né…

E enquanto um “puta que pariu, caralho, que porra é essa! É do caralho!” tem efeito elogioso, quando eu ouço um “puta que pariu, caralho, que buceta é essa!?!” boa coisa não se deve esperar.

Que medo é esse da buceta? Que medo é esse de falar, conhecer, tocar, deixar ter o cheiro ou os pelos que ela tem?

Não, não podemos. Tem que depilar tudo, usar desodorante “íntimo” para disfarçar o cheiro… da buceta (calma lá, ninguém tá falando da vibe Napoleão e Josefina, certo? Eu, ao menos, curto a coisa limpinha, né, mas sem neuras!), usar “protetores de calcinha”, sério, gente, a calcinha não pode ter contato com a nojeira da buceta, é isso?

Buceta não é coisa de mulher pra casar? Ah, então tá.

Buceta não é coisa de “mãe de família”? Ok.

E pra finalizar, deixo do desafio: vamos ressignificar a buceta!

Não precisamos ter vergonha das nossas “partes”, das nossas pobres “perseguidas”.

A buceta é nossa, cada uma tem a sua, com seu cheiro, sua cor, seu hair style.

Eu adorei essa montagem, as imagens usadas, de cantoras estrangeiras badaladas, ainda, fazem pensar no quanto de preconceito de classe existe contra o funk, quanto às mulheres do funk e contra mulheres falando de sexo em geral…

Eu dou pra quem quiser que porra da buceta é minha!! é apenas uma outra forma de dizer:

Não dá pra mudar o significado das palavras assim, de um dia para o outro, mas dá prá começar a pensar, né?

Então, vamos parar de ter vergonha até de falar?

Repete comigo: BU-CE-TA!

Carnaval e Biscatagi

E então chega o carnaval.  Para muita gente, sinônimo de biscatagi.

Será?

Ilustração de Cláudia Gavenas

Ah, pode ser. Ou não. Uhmmm, talvez.  É que no carnaval (e só no carnaval, viu gente?) todo mundo tem uma espécie de “passe livre” para ser livre. É uma semana inteirinha em que a sociedade “aceita” que façamos o que tivermos vontade.  Aceita mais para uns do que para outros, certamente. E uns podem ter muito mais “liberdade” que outros pelos motivos que a gente já conhece.  Parece que o país inteiro fica mais tolerante, colorido e sorridente nessa época. Mas depois que passa a festa,  guarda-se as máscaras e as pessoas precisam voltar a ser “sérias”.  Afinal, o ano só começa depois do carnaval, não é?

Hipócrita isso, sabe.

Não me entendam equivocadamente, porque não acho que todos precisam estar felizes e contentes o tempo todo; aliás, eu tenho um pouco de receio de gente que nunca demonstra na vida um momento de fraqueza . No entanto, não encontro lógica num pensamento tão paradoxal, porém recorrente no discurso de tanta gente. E quando falo do paradoxo, refiro-me principalmente ao que remete à conduta ( não gosto do termo, mas não encontrei um melhor) sexual de cada um.

O carnaval, segundo o discurso supracitado, é a justificativa e a oportunidade para a galera “pegar geral”.  Mas se alguém resolver fazer isso durante o resto do ano, será tachad@ de imoral. Irá chocar a sociedade. E haja maledicência!  E paciência para aguentar… Se esse alguém for mulher então… Coitada. Então, paradoxo: é Ok usar abadá decotado e shortinho para seguir os blocos de rua; mas blusinha curta, para ir à padaria num dia de calor, em qualquer outro momento da vida dela, não.  Aí, ela não pode aparecer, ficar se “mostrando”.  Vamos pensando aí, pessoal.  Não é muito falso moralismo?  Por que as regras tem que mudar durante a folia?

E sobre o carnaval ser ou não sinônimo de biscatagi, digo que depende… Da biscate! Conheço biscates (eu inclusa) que não curtem muito essa época do ano. Outras aproveitam o feriado prolongado para descansar ou curtir as músicas da preferência delas. E outras ainda, que não perdem sequer um dia de festa: topam micareta, trio elétrico, bloco de rua, desfile de escola de samba, baile de salão… E garanto que se qualquer uma delas quiser ficar com alguém e for consensual, elas o farão porque querem.

E o que todas elas têm em comum é que se sentem livres o ano todo. Sem data marcada para começar e para acabar.

Padrões que não me interessam

Por Niara de Oliveira

Ser humano é ser ousado. Todos os avanços da humanidade surgiram de uma ousadia, do impensado, da “maluquice” de alguém que não aceitou não ser possível e fez mesmo assim. Não importando-se com rótulos, sucesso ou reconhecimento. Só queria fazer o que sentiu vontade.

Mas a sociedade baseada na exploração de uma classe sobre outra e essa apoiada na exploração de uma raça sobre as demais e de um gênero sobre outro, precisa enquadrar as pessoas e reprimir ousadias. A liberdade é perigosa. Pensar é ameaçador a esse sistema.

Normatizar a sexualidade feminina faz parte da engrenagem que alimenta esse sistema. No mito da criação humana a mulher Eva é a causadora de todos os males da humanidade (naquele momento) e isso se perpetuou no imaginário do mundo ocidental judaico-cristão. Mas todos esquecem que antes de Eva, teve Lilith, a biscate que foi descartada. Ela ousava questionar o poder do deus-todo-poderoso do universo. Lilith não foi só descartada, foi apagada da história.

O primeiro caso de desaparecimento forçado é de uma mulher. Mais do que ousar questionar o poder instituído, é perigoso ousar ser diferente. Como assim ela não tem o corpicho da Gisele Bündchen e ousa esfregar seus quilos a mais na nossa cara? Biscate! Como assim ela não é a Dilma Rousseff e ousa viver sozinha, sem homem? Biscate! Fazer barraco em público? Um namorado novo a cada semana? Transar no primeiro encontro? Tomar a iniciativa e assediar o pobre rapaz? Tudo biscate!

Não gosta dos meus quilos a mais? Problema seu. Não gosta da minha independência, ousadia e das minhas risadas? Ô, coitados. Ficarão eternamente reféns do padrão e do gosto decidido por outro. A roupa que visto, a música que ouço, o jeito que namoro, os lugares onde vou e com quem me relaciono, decido eu.

Até aqui temos exaltado esse nosso jeito biscate de ser. Porque ser biscate é ser livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser. Mas não esquecemos o peso dessa atitude, apenas o assumimos com coragem e com alegria. Sim, porque biscate samba na cara dessa sociedade hipócrita e moralista sorrindo.

Sorrindo, não. Gargalhando. Porque biscate gargalha, e alto. Siga nossas gargalhadas.

A Expulsão do Paraíso, de Michelângelo feita entre 1508 e 1512, no teto da Capela Sistina

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