O debate de gênero nas escolas é necessário

Por Matheus Rodrigues*, Biscate Convidado

Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, estudava num colégio católico tradicional aqui de Niterói, me chamaram de gay na sala de aula. A professora, que ouviu, foi mais rápida que eu para esboçar uma reação e disparou em alto e bom tom: e se ele for? o que que tem?

Num primeiro momento não só estranhei, como não gostei da resposta dela. Afinal, como a maioria dos adolescentes gays, eu próprio reprimia a minha sexualidade. Era algo ruim, algo de que eu deveria me envergonhar. Foi assim que aprendi. Hoje essa professora, Mônica Mançur, é uma das pessoas a quem mais sou grato, por ter me ajudado a perceber que eu não tenho que ter vergonha nenhuma de quem eu sou, que quem tem que ter vergonha são aqueles que destilam ódio.

No dia 8 de junho aconteceu a primeira audiência pública na Câmara de Niterói sobre o Plano Municipal de Educação (PME). Se eu disser que foi um show de horrores, vou estar usando um eufemismo muito fraco. Ódio atrás de ódio por parte dos defensores da exclusão, do PME, das metas referentes ao debate de gênero, identidade de gênero e orientação sexual nas escolas.

E por que uso a palavra “ódio”? Porque o PME não vai ensinar as crianças a serem gays. Não vai estimulá-las a mudar de sexo. Não vai ensinar uma criança a chupar o pau de outra, como certo vereador afirmou uma vez. Não vai destruir as famílias. Não vai induzir as crianças à promiscuidade nem acabar com sua inocência. Ao insistirem nessas mentiras, os defensores do combate à tal da “ideologia de gênero” (que sequer existe, o termo nunca foi usado em nenhum documento oficial) deixam bem claro que não é racional a sua objeção à discussão de gênero, diversidade sexual e identidade de gênero nas escolas. Deixam claro que é ódio. Puro e simples. Ódio ao diferente, ao que ousam fugir do padrão do que eles interpretam da leitura de livros de milhares de anos.

O que o PME propõe, e qualquer um que pegar o projeto pra ler vai constatar, é que as escolas comecem a ensinar que não é certo xingar ou bater em uma pessoa só porque ela é diferente. Que todos são iguais em dignidade e direitos. Que as mulheres não são menos capazes que os homens, e muito menos objetos deles. Que não se deve excluir ou ofender alguém só porque essa pessoa é uma mulher que gosta de mulheres ou um homem que gosta de um homem, ou uma mulher que gosta de homens e mulheres, ou um homem que gosta de homens e mulheres, ou ainda uma pessoa que simplesmente não se identifica com o seu sexo biológico. Que o mais importante é o respeito à diversidade, às diferenças. O PME quer que mais professores e professoras façam o que a Mônica fez comigo anos atrás. Nada mais que isso. Tá lá escrito, é só ler.

Mas se mesmo assim vocês continuam a ser contra a discussão de gênero, de diversidade sexual e de identidade de gênero nas escolas, se mesmo assim vocês acham que isso tudo não passa de “doutrinação”, eu gostaria de fazer um pedido: sendo parente, “amigo” ou o que for, me excluam. Não só do Facebook, mas de qualquer relação social ou pessoal que porventura tenhamos.

Vocês também atiraram as pedras que mataram Alexandre João Batista Santiago aos 32 anos em Santa Catarina. Também participaram do estupro coletivo da garota de 16 anos na Praça Seca. Vocês têm nas mãos o sangue do Alexandre Ivo, torturado até a morte aos 14 anos em São Gonçalo por ser gay. Vocês têm nas mãos o sangue do Alex André, espancado até a morte aos 8 anos pelo próprio pai no Rio para aprender a “andar como homem”. Da Amanda Araújo, travesti de 17 anos morta a facadas no Maranhão. Da Elivane Santos de Almeida, morta aos 32 anos pelo marido na frente da filha no Mato Grosso. Do Luís Antônio Martinez Corrêa, morto com nada menos que 107 facadas em 1987. E, se continuar assim, vão ter também o meu. Eu quero é distância de vocês, da sua intolerância, do seu ódio. O que me traz alento é a certeza de que vocês não passarão.

MatheusRodrMatheus Rodrigues é gay, ateu e comunista: só não foi para o inferno ainda porque não acredita no tinhoso. Avesso a todo tipo de grades e muros, acredita que com força e com vontade a felicidade há de se espalhar com toda intensidade.

Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

12004884_10208028294084540_8210766937509415065_n

 

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Sobre o Lugar da Rola na Utopia

Esse post é para dizer duas coisas: 1. Não tá de boa alguém mandar outro alguém procurar uma rola e 2. Não é preciso jogar fora o bebê com a água da bacia, os dedos com os anéis, ou seja, repudiar tudo porque alguém errou (errou feio, errou rude).

Quanto à rola, deixo de partida: eu gosto. É bom, divertido, dá prazer, etc. Mas, até onde se sabe, não tem efeitos de reparação de caráter, não redime comportamentos inaceitáveis, não é cura para homofobia nem para nenhum outro tipo de preconceito. Não é legítimo, desejável ou aceitável mandar alguém procurar uma rola, aliás não é legítimo, desejável ou aceitável, em qualquer situação, insinuarmos que a pessoa de quem divergimos age de maneira A ou B por falta de sexo. Essa é uma argumentação machista que tem sido usada reiteradamente contra as feministas, inclusive (mal-amada, mal-comida, e daí ladeira abaixo).

Como disse o Pedro: “nenhum problema de que se tenha notícia (quanto mais homofobia e machismo!) é causado por “falta de rola”. O tal argumento, antes, é que é efeito dos referidos males. Rolas abundam na humanidade, e ouso apontar que quanto mais rola, mais problema. A ofensa via de regra é proferida pelo projeto de machinho – daria pra se traduzir em: você (o feminino, a falta, a fraqueza) é o problema e eu (o falo, o patriarca, o poder) sou a solução. Desnecessário dizer que a frase “vai procurar uma rola, homofóbico” traz consigo no mínimo um ato falho. Uma contradição que prejudica o argumento. Óbvio, não sou neutro: entre Boechat e Malafaia, fecharia com o primeiro. Grandes merdas: fecharia até com o Diabo, mil vezes, antes daquele picareta execrável. Mas eu não preciso fechar com ninguém. Sobretudo não preciso fingir que tudo que se diga ou faça contra quem mais se abomina seja aceitável.”

A gente vive em uma sociedade que naturaliza discursivamente preconceitos. É um tal de “chupa, filho da puta, baitola, mal-comida, vá tomar no cu, histérica, vai dar meio dia de cu, biscate, vadia”, e outras coisas assim. Não tem nada de mau em alguém fazer sexo oral. Nem em ser filho de uma prostituta. Nem em trabalhar como prostituta, aliás. Não tem nenhum problema em fazer sexo anal, pode ser uma delícia, seja homem ou mulher. Não tem nada de errado em apresentar uma neurose. Mas tem muita coisa errada em uma sociedade que usa esses termos como ofensa. Tem muita coisa errada em tentar minimizar alguém insinuando, por exemplo, que ele deveria manter práticas homossexuais, como se a pessoa que tivesse esse comportamento fosse menos digno de escuta e respeito. A banalização displicente desse tipo de fala traz, em seu subtexto, a convicção de que algumas pessoas são menos dignas de cuidado e proteção que outras. E a gente, que milita por um mundo menos excludente, tamos ali, dia a dia, dizendo que não pode, não é legal, não, não, não, não. Não pode no estádio de futebol, não pode na mesa de bar, não pode na entrevista de emprego e não, não pode na rede de televisão mesmo contra um político execrável. E isso não significa que estou defendendo sermos complacentes com os políticos execráveis. É possível ser incisivo, direto, firme sem ser homofóbico e sexista. Passar a mão na cabeça, relevar, dizer que é tempestade em copo d´água, isso tudo só mostra como ainda somos adeptos da lógica os fins justificam os meios e/ou aos amigos, os favores; aos inimigos, a força da lei. A Renata Lins alertou aqui: xingamentos moldam ideias, sentimentos, vamos desnaturalizar o pensamento e a reação. Vamos?

10514692_688712994499967_3556146592688112508_n

Mas então, Luciana, vamos levantar a bandeira de homofóbico e jogar pedra no moço que mandou o outro moço procurar uma rola? Olha, eu vejo bem muito filme esquemático, tipo faroeste. É lá eu exercito o joguinho bem X mal. Na vida cá fora, um pouco mais de complexidade cai bem, acho eu. Para além do pensamento e das reações binárias tem um monte de outros caminhos. Como, por exemplo, o que prefiro: achar super legal o resto da conversa e dizer, “mas, opa, isso da rola não”. Sexo é bom consentido e por prazer, não forçado como resposta pra problemas de comportamento e ideologia. Nós e o moço da tv vivemos nessa sociedade. Fomos formados por ela. Isso implica em termos arraigados vários preconceitos. Isso significa que mesmo estando do lado das causas mais justas, mesmo militando contra a discriminação, mesmo querendo construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária, a gente vai se valer, vez ou outra, de termos, comportamentos, análises que reproduzem justamente o que queremos desconstruir. Eu super entendo que a gente escorregue. Eu escorrego que só (tenho joelhos ralados pra provar). Mas a gente só sai do lugar reconhecendo os desacertos e fazendo melhor da próxima vez.

A sociedade que a gente quer construir vai sendo construída e determinada pelos meios e ferramentas que a gente usa para alcançá-la. No meu horizonte tem gozo e riso e aceitação. No meu horizonte tem rola sim. Tem gente procurando e achando rola, sim. Tem gente procurando e achando buceta, sim. Tem gente se esbaldando em rolas e bucetas, sim, sim, sim. Não como ofensa. Não como xingamento. Não para horror e espanto alheio. Como festa. E não, eu não acredito que é possível chegar aí sendo complacente com a reprodução de preconceitos, mesmo vindo de quem “tá do nosso lado”. Também não acredito que a gente chegue com a catalogação estática de pessoas (etiquetas com “homofóbico”, “racista”, “classista”, “libfem”) nem alijando aliados. A gente chega é afinando o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro. E, claro, com as rolas procuradas, aproveitadas, gozadas, por livre escolha e alegre consentimento.

15592_832980016739930_1577347550655525359_n

Sociedade de Exceção: Violência e Minorias

A idéia de excepcionalidade. A Exceção. Não no Estado, que é uma categoria jurídico-política específica, mas na sociedade. Ser uma excepcionalidade na sociedade, ser tratado como diferente, querer ser diferente, lutar pelo direito à diferença. Questões que se colocam e que perturbam justo quando ser essa diferença resulta em violência, marginalização, morte!

The Barn - Paula Rego, 1994. A normalidade e a Agressão

The Barn – Paula Rego, 1994.
A normalidade e a Agressão

Não é à toa que assistimos atônitos na última semana, o caso do jovem Kaíque (leia aqui), negro, homossexual, pobre, encontrado morto, com sinais de morte brutal e completa desfiguração. Ser diferente, em nossa sociedade resulta em ser exceção. Não apenas no sentido de ser excepcional, mas e principalmente no sentido de ser excluído e, por fim, eliminado.

A idéia de uma sociedade de exceção é justo essa que impede, mesmo que para isso seja necessário o extermínio, o diferente. Arraigada em preconceitos patriarcais, conservadores defensores de uma “normalidade” ou, no caso, uma heteronormalidade e heteronormatividade, essa sociedade nos apresenta quase que uma pulsão de morte, ou seja, para se integrar a ela, temos que excluir toda a individualidade e subjetividade do nosso ser, nos excluindo como pessoa. Participar de uma sociedade de exceção é minar a própria existência em prol de algo que sequer sabemos se valerá a pena!

É essa sociedade de exceção, também, que é capaz de classificar uma morte brutal como a do joven Kaique, que teve TODOS os dentes perdidos, traumatismo craniano e cerebral e fraturas expostas nas pernas como SUICÍDIO. E que não se alegue incompetência! A principal característica desse tipo de sociedade é a ocultação dos crimes de ódio, para que não se exponha a violência que sustenta sua normalidade.

longe_de_mim_ser_preconceituoso-laerte

by Laerte
“A Exceção: Anormais e Normalidade”

Essa sociedade, de uma forma perversa e deliberada, atua no combate ao diferente atuando, para além do seu extermínio, na sua ocultação. Essa decisão, para além de uma ação criminosa, é uma decisão política, certa e convalidada pelos membros dessa sociedade, que preferem, em seu estado de alienação ruminante, concordar com o dado produzido institucionalmente pela polícia de estado (ver sentido amplo de polícia como instâncias de controle da vida) a questionar quaisquer informações produzidas sobre o assunto.

E não sejamos ingênuos, uma sociedade de exceção não é formada por indivíduos pobres e analfabetos. A violência desta sociedade se encontra no fato de que seus membros têm a completa capacidade de entender a situação, porém, por alguma conveniência nefasta, escolhem acolher esse extermínio nem sempre velado em roca de seus privilégios. O Kaique, a juventude pobre e negra, homossexual ou não, os transexuais, as mulheres “não patriarcais”, os mentalmente incapacitados, os “diferentes” são todos vítimas dessa violência e essa violência é fruto dessa aparente normalidade instaurada e não combatida. Por enquanto.

Não é Pelo Direito ao Amor

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Tem uma parte da militância LGBT*, mais precisamente G, onde me encaixo [na verdade, eu nem me considero um ‘militante de verdade’], que tem um apego que considero excessivo ao discurso sobre o amor. O discurso é quase sempre baseado no poder amar ao próximo. No poder constituir família. Poder viver o sonho do amor romântico burguês e heteronormativo. E não me importa muito que alguém queira vivenciar isso como um desejo individual. Incomoda-me quando isso vira um discurso militante, onde os direitos são reivindicados – pelo menos no nível do discurso – apenas aos que se enquadram nesses casos.

Não é pelo direito ao amor que eu faço minha luta. Não é pelo direito de amar quem eu quiser. Não é pelo direito de manifestar meu amor em público. Não é pelo direito de amar e ser amado por outro homem. É pelo direito de vivenciar minha sexualidade da maneira mais ampla possível, sem ser marginalizado, discriminado, violentado e desumanizado. É por eu poder trocar afetos sem necessariamente ser com alguém que eu ame. Pode ser com alguém que eu tenha conhecido hoje. Ontem. Semana passada. E não amar.

É pelo direito de quem não quer amar. Quem não quer manter um relacionamento estável, monogâmico, heteronormativo, etc. Quem não quer manter um relacionamento. É também pelo direito ao amor pra quem quer amar, mas não é só por isso. Minha luta não tá baseada no amor, nesse sentido. Minha luta tá baseada no direito de vivenciar. E não é um direito que eu suplico. É um direito que eu exijo.

438086083_640

É importante que, principalmente nós gays, revejamos nossas posições de certos privilégios em relação aos outros grupos da sigla LGBT*. Que desconstruamos nossos  machismos, homofobia, misoginia, transfobia. É inegável que entre  gays há muita misoginia, que quase sempre se manifesta em forma de “humor”. O machismo, em grande parte, se manifesta na ridicularização “das passivas”, que também é  reflexo da misoginia. Sem falar no elitismo e classismo que são fortemente reproduzidos entre gays – o clássico caso da “bicha pão-com-ovo”. O preconceito geracional se mistura com homofobia e machismo na divisão dos homossexuais mais velhos em “tios” ou “daddy” e “bicha velha” ou “tias”. Sendo classificados como tios ou daddy os homossexuais com mais idade que se enquadram num perfil mais higienista, reprodutor de padrões de corporalidades e beleza. No segundo caso, resta aos homossexuais a partir de certa idade, que estão mais à margem desses padrões, e são, em geral, efeminados.

Outro ponto que precisa servir de reflexão e desconstrução por parte dos homossexuais masculinos, é o binário ativo/passivo como categorias fixas. Quando essas categorias são fixadas e se tornam um discurso normativo, a reprodução dessa binaridade também é a reprodução de ordem heteronormativa e misógina. A visão de ativo como desempenhante do papel de homem, provedor, líder e de fodão, enquanto o passivo é retratado como submisso, projetado como a mulher da relação, é marginalizado e muitas vezes ridicularizado é extremamente machista, misógino e – de novo – heteronormativo.

ThumbnailFS

É função e dever de todos nós gays, especialmente gays brancos, de continuarmos em luta e não nos acomodarmos com a conquista de alguns direitos que beneficiam principalmente nós mesmos, e em especial os de poder aquisitivo maior, enquanto os outros grupos continuam na marginalidade, invisibilidade e discriminados. É importante continuarmos atentos às investidas de grupos conservadores e somarmos forças no combate à lesbofobia, bifobia, transfobia. É importante que todos nós trabalhemos para mudar a sociedade e não para que a sociedade nos mude e nos molde a ela: classista, machista, misógina, elitista, capacitista etc.

Para que o combate às reações conservadoras sejam ainda mais eficazes, é preciso que haja uma radicalização por parte das pessoas que lutam contra essa ordem heterossexista, que é responsável por centenas de mortes por ano e aprisiona milhares de outras vidas em seus aspectos sociais e psicológicos. É preciso que os gays em geral percebam que continuar reproduzindo uma série de comportamentos e discursos que visam  manter o status quo pode tornar a luta mais longa e difícil.

everson

*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

Beijo gay porém hétero

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Acho que todo mundo soube do selinho do jogador Sheik no amigo, né? Pois. Esse ato que a princípio seria uma forma de combater o machismo e homofobia no futebol – e na sociedade, porque os torcedores também são a sociedade – acabou explicitando como essa luta ainda é difícil dentro do esporte. Muito se falou sobre homossexualidade no futebol, inclusive, ao que parece, o jogador vai ganhar o Oscar Gay 2014. Ok, tudo isso é legítimo e importante, mas eu quero levantar outra questão.

Beijo gay, porém hétero

Ao que se sabe, Sheik e o amigo são héteros. Preocupa-me um pouco que o selinho no amigo tenha levantado de maneira tão forte a questão da homossexualidade no futebol, enquanto o debate deveria ser outro: as relações de amizade e trocas de afetos entre homens, de qualquer sexualidade. Não, gente, eu não acho ruim pensar que alguém seja gay, isso soaria até absurdo. Eu acho ruim pensar que a sexualidade de alguém possa ser questionada e desrespeitada baseando-se na forma como a pessoa expressa seus afetos com amigos (por exemplo: uma lésbica abraçando um amigo homem, considerar que ela seja hétero pela forma como abraça o amigo homem é desrespeitar a sexualidade dela baseado em como ela expressa o afeto).

Parece-me um reflexo do machismo, e consequentemente da homofobia, que a questão da homossexualidade tenha sido tão fortemente levantada, porque a reação ao selinho foi imediatamente considerar que por ser um homem beijando outro homem não há outra resposta que não questionar sua sexualidade. E aí a gente volta naquele papo antigo do homem machão – e machista – que mantém certa distância (inclusive física) dos amigos homens.

Todo aquele ideal de masculinidade de homem viril, forte, bruto, do homem que não pode demonstrar sentimentos (leia-se fraquezas, nesse caso), do homem que “não se abre”, não desabafa, porque tudo isso é “coisa de mulher” e esse mesmo homem acha um horror que ele possa ter qualquer traço dito feminino, o que também é reflexo de uma cultura misógina, afinal. É esse ideal de masculinidade que poda, em partes, as relações de amizade entre homens.

Eu vou me repetir em coisas que já disse antes, mas é preciso: a amizade entre dois homens, para não ser questionada como outra coisa, tem que ser aquela do soquinho no ombro, do aperto de mão, do bar assistindo futebol. Nossa cultura não permite que a amizade entre homens seja uma relação de troca de afetos, de segredos, de desabafos etc.

O selinho fez levantar a questão da homofobia, que é um debate importante e de maneira legítima, claro. Até porque as trocas de afetos entre amigos também perpassam pela questão da homofobia. Mas, considerando que Sheik e o amigo são héteros, tratar o episódio como um beijo gay me parece mais um dos reflexos do machismo, onde homem ‘de verdade’ não sai por aí beijando outro homem se não for gay. Isso sem mencionar o binarismo da situação toda: a palavra “bissexualidade”, por exemplo, sequer foi mencionada em qualquer lugar.

Pra finalizar o texto, só quero relembrar que o jogador, aparentemente pressionado, pediu desculpas e disse que não quis ofender ninguém com o ato. E é bem triste pensar que a gente vive numa sociedade onde as pessoas precisam se desculpar por demonstrar afetos aos amigos (ou amantes também). E, pior, que uma parcela bem grande se sinta ofendida por um simples selinho entre amigos. É triste pensar que nossa sociedade ainda precisa caminhar muito para que entenda e coloque em prática o respeito ao outro, à diversidade e ao ser humano. Eu não acho que estamos perdidos, mas, nesse caso, o beijo virou pó. Foi-se o beijo, vingou o ódio

538825_427404223950208_2010822677_n*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

De quem é a culpa?

Na semana do julgamento dos assassinos de Elisa Samúdio, a morte de Lucas Fortuna me deixou tristemente abalada. No mesmo dia em que ele morreu, eu estava na mesma praia em que ele foi encontrado, algumas horas depois tomando uma cerveja, sem saber o que tinha acontecido. Na mesa em que eu estava, alguém falou de “ditadura gay”. Apesar de não ser do meu feitio, me levantei e fui tirar fotos da praia, porque naquele dia eu me permiti não entrar na briga. Eu me permiti não me estressar. Aquele era meu dia de descanso e nada ia me tirar isso.

Quando cheguei em casa e soube da morte de Lucas, fiquei com ódio. Ódio de mim que não comprei aquela briga naquelaa praia, e mais ódio da pessoa que vociferou aquelas asneiras. Enquanto lia incrédula a notícia, me dei conta de que a violência brutal que Lucas sofreu não foi cometida apenas pela pessoa, ou pessoas, que lhe tiraram a vida. Foi cometida por aquele homem que disse bem raivoso “que estavam querendo que todo virasse gay no mundo”.

Tentei me lembrar de todas as pessoas que eu já ouvi proferindo coisas do tipo: “se meu filho fosse gay, eu matava”, ou “viadinho”, ou “não gosto de gay”, ou “não sou homofóbico, mas não gosto de ver gays se beijando”, ou “isso foi falta de surra”, ou… Cheguei à conclusão de que cada uma dessas pessoas que recordei de certo modo contribuíram para a morte de Lucas e das outras 30 que aconteceram em Pernambuco pelo mesmo motivo.

Pode ser que quem me disse isso, não seja capaz de agredir fisicamente gays, lésbicas, travestis ou trans*, mas essas suas palavras e seus comportamentos contribuem para fortalecer o machismo e a homofobia. E essa parcela intolerante da sociedade precisa assumir sua responsabilidade nesses crimes. E aí deputados como Jair Bolsonaro ou João Campos estão mais do que incluídos.

E quando ainda estava digerindo a morte de Lucas, vejo uma notícia sobre o julgamento de Bruno e Macarrão, apontados como os assassinos de Elisa Samúdio. Na verdade, vejo a notícia de que o advogado de defesa queria usar uma foto em que Elisa aprece fazendo sexo com os réus como prova. Prova de quê? De que ela fazia ménage à trois e que por isso deveria ser morta?

Aí voltei a me lembrar das coisas que ouvi na época da morte de Elisa sobre sua conduta sexual. “Vadia”, ou “ela tinha um comportamento perigoso”, ou “ela procurou seu fim”, ou “ela era uma puta e teve o que mereceu”, ou… E mais uma vez pensei que essas pessoas contribuem para a morte de mulheres, vítimas de machismo.

Quem matou Elisa? Quem matou Lucas? Ainda que os culpados sejam responsabilizados e paguem por seus crimes, você que continua a fazer piadinha de “viado” ou de “puta”, você que xinga quem é diferente de você, você que deseja a morte de gays e vadias, você matou Elisa e Lucas. Você quer continuar matando? Pois eu torço pela aprovação da PL 122 e para que você seja preso quando fizer qualquer “brincadeirinha” dessa.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...