O Herói Homossexual

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Existe uma ideia equivocada quanto às pessoas pertencentes a alguns grupos minoritários no que se adentra à resiliência (principalmente) em sua forma mais complexa.

Não há estudos que comprovem nenhuma característica ligada ao DNA de pessoas homossexuais que define, por exemplo, alguns traços do que, mais tardar, formarão sua personalidade – modelada pelos meios sociais, claro – como paciência, compreensão, resiliência, frieza, racionalidade, didática e empatia. As leis da física quântica se aplicam aqui em sua forma mais simples e, neste caso, desonesta: pra toda ação, existe uma reação. E, desde cedo, somos colocados a teste.

Uma vez que me assumo como homossexual publicamente, pago pelo preço por tal. Pago o preço de um valor incontável e subjetivo [a cada um]. A sensação de que devo é constante: tenho que pagar pelas consequências (negativas) da escolha pela vivência da minha homossexualidade. Devo e sempre deverei explicações de quem sou, do por quê sou (e do por quê não sou). Pago, também, nas humilhações diárias, nos silenciamentos, nas violências, nos direitos negados, nos acessos restritos, na humanidade irreconhecida.

Quando se faz parte de grupos discriminados (e nesse caso, falando somente dos gays), a justificativa do ser e de ser não se corrobora à lógica cartesiana de pensamento claro e de distinção – uma evidência ingênua da epistemologia tradicional. Nesta análise, eu não posso somente ser. Eu vou ser por que (insira aqui qualquer merda). Razão. Qual razão?

Desde que minha homossexualidade se tornou pública a algumas pessoas próximas da família, o discurso vem sempre em um tom que atravessa, entre linhas, a ideia de causa-consequência: “mas você precisa entender o lado dele também”; “você precisa dar tempo a ele”; “você tem que ser paciente, uma hora tudo vai se ajeitar”; “você vai aguentar isso tudo, você é forte”. E isso não se resume as instituições familiares. E quem entende o meu lado?

Eu sou culpado por ser como sou e devo, agora, assumir as responsabilidades por ser quem sou. Neste nível, mais uma vez, as atenções se voltam ao agressor e, como se não bastasse a empatia do mundo para aquele que “lida” com a homossexualidade de um ente (ou qualquer outro tipo de relação), cabe a nós, também, exercitar nossa empatia para com o próximo que nos agride. Não sabemos, quase que diariamente, o que é sofrer violências? Empatia está no nosso sangue, em algum par de cromossomos. Risos irônicos.

A esperança depositada em nós quanto à resiliência também é angustiante. Diariamente, eu preciso ser forte sem que haja sequelas desse enfrentamento e nem uso de outros dispositivos que me mantenham de pé. Faz parte do processo de desconstrução do outro e, com a dignidade já manchada, é dever nosso se manter intacto. Mas e quanto a mim, mesmo? Se eu fraquejar, perco a razão.

A didática no que diz respeito à educação e desconstrução ao que toca nossas vidas também é esperada com ansiedade: temos que explicar, quantas vezes for necessário, a quem quer que seja, que – veja bem – eu também sou gente. Também amo, odeio, fico triste, feliz, tenho dias bons e ruins, como e durmo (e que nada disso se manifesta em função da minha sexualidade), ainda que para os mais tradicionais eu seja um cu a ser preenchido pela maior quantidade de pinto que ali couber.

A minha humanidade, neste ponto já pouco lembrada, é colocada de lado de vez quando, este sujeito estratégico, equipado com características em níveis destoantes do resto mundo, tem que tomar o lugar de quem sou de verdade. Realidade constante.

Acontece que eu já não aguento mais.

Dos sorrisos amarelos que enfeitam o meu rosto e divide seu público entre aqueles que nada têm a ver com meu sofrimento psíquico e psicológico – dado as circunstâncias atuais -, e aqueles que, mesmo ao meu lado, não fazem ideia da dimensão do que a minha realidade significa tão e somente pra mim, me entristeço ao saber que internalizei, depois de anos vividos na prática, a responsabilidade individual pela minha sanidade. “Para de drama, Abdala!”, é o que dizem.

Não demonstro fraqueza, não porque não acredito que não possa ser fraco, mas porque fraqueza se materializou por mais de uma vez durante minha jornada e ninguém se importou. Não quero demonstrar tristeza, não porque não me permito (eu diria que muito pelo contrário, inclusive), mas porque tristeza pontual se trata com ações pontuais, o que não é o meu caso. Não quero me fragilizar mais porque fragilizado eu já estou. Não atravessem a barreira da auto-suficiência e auto-proteção que construí ao longo dos anos; por lá, quero estar só.

Entre perder um pai (simbolicamente), uma casa, uma ceia de Natal e até um sobrenome em nome daquilo que deveria ser somente mais uma característica que me torna um sujeito como qualquer outro, a maior dor fica por conta daquilo que já não consigo mais transformar: a mim mesmo. E com as seqüelas de uma infância conturbada, de um mundo às avessas e uma mente inquieta, internalizei também algo pior: a responsabilidade de fazer o outro ver em mim aquilo que só eu posso enxergar. Paradoxal, portanto, contraditório, eu sei. Mas a este nível, a lógica já nem se faz mais tão necessária.

Eu estou doente. Eu já não consigo lidar, de maneira harmoniosa, com o que a vida tem colocado de obstáculos a serem superados que se corroboram a homofobia destroçada diariamente. Tenho perdido, com o tempo, a capacidade básica de convivência; tornando-me cada vez menos tolerante aos que reproduzem discursos vazios e preconceituosos contra mim ou os iguais a mim, ao passo que também afasto de mim, de certa forma inconscientemente, aqueles que demonstram algum nível maior de simpatia e afeto afinal, enquanto puro processo de construção para um fim, como qualquer outra obra, eu posso ser abruptamente interrompido.

Ergo-me dolorosamente, dia após dia, na certeza de que, para além da materialidade melancólica que minha existência consigo traz, sigo sem o direito à subjetividade, tão importante no meu processo identitário; sobretudo humano.

Termino fazendo das palavras da Daniela Andrade as minhas: “Viver, neste sentido, é preparar-se para estarmos sós, é despedir-se, a cada etapa, de quem muito admirávamos e os quais não poderão permanecer, ou de quem muito pensávamos que admirávamos e se demonstraram independentes da personagem que lhes criamos. […] Vivo no automático, até que por automático saibamos que também é preciso dizer adeus às pessoas com quem cruzamos, com quem convivemos, aos nossos erros e aos erros dos demais. Dizer adeus, inclusive, a nós mesmos, nos permitindo nascer e renascer em uma nova etapa, em uma nova vida, ou quem sabe, para o grande finale. O dia em que, finalmente, saímos de cena”.

Sintomático que isso recaia, em grande parte das vezes, sobre nós.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

Outro

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Conheço esta pessoa faz, pelo menos, 15 anos da minha vida. Parte da minha infância e adolescência foi ao lado de sua família. Frequentei a sua casa, me tornei amigo de sua mãe, vi o irmão mais novo nascer. Cheguei a visitá-lo no hospital quando ele se acidentou andando de bicicleta, na rua onde morava, anos atrás.

Ser LGBT, no senso comum, é inegavelmente ser promiscuo. Carregamos conosco o estigma da libertinagem e perdemos nossa humanidade para dar espaço a corpos abjetos preparados para servir sexualmente ao outro sem que haja a necessidade de envolvimento. Somos seres desalmados que carregam orifícios que precisam ser preenchidos; penetrados. Mais do que isso, que querem ser penetrados, principalmente por um “homem de verdade”.

Homens héteros que procuram por homens gays para sexo casual não são gays encubados. O sexo aqui perde a sua característica enquanto uma relação de mútuo prazer e passa a ser visto como forma de favor e punição.

Na cabeça da grande maioria heterossexual, o público gay carrega consigo o fetichismo e o desejo pelo proibido do homem hétero pela nossa vontade incensante de se relacionar com um “homem de verdade”. Afinal, são eles quem trazem consigo não somente os estereótipos carregados no tocante à virilidade – um dos signos reconhecidos socialmente da masculinidade, mas também são os únicos legítimos para performá-los. Como se todos os homens gays buscassem por homens viris. Como se a virilidade fosse via de regra para a masculinidade e ao tocante sobre o que é ser homem. E, uma vez que gays procuram por homens, logo, eles serão objetos de nosso desejo e só nos realizaremos completamente quando, enfim, nos relacionarmos com eles.

As demonstrações de interesse sexual pela parte dominadora soam como um favor, uma vez que, ao se rebaixarem, eles reafirmam suas posições de privilégio e se colocam nivelados acima. Quando um homem hétero se vê como objeto de desejo de um homem gay, ele reforça sua posição de superioridade e hierarquização social – que aqui se correlaciona diretamente a uma heteronormatividade dentro de seus vários aspectos. É como se estivessem prestando uma gentileza a nós quando se dispõem a se relacionar com a gente.

A punição, por sua vez, vem no que diz respeito a nossa subversão à masculinidade compulsoriamente imposta pelo gênero identificado: ser homem e “ser submisso sexualmente a outro homem” (sic) é papel da mulher. Ferir o orgulho masculino se submetendo a práticas “performadas pelo gênero feminino” (sic) merece castigo.

O sexo punitivo geralmente acontece numa mão única: desde o prazer até os limites da relação terão somente um sujeito na ordem das regras, e sabemos quem é. Não há preocupação com o bem estar do outro, com os limites do outro, com prazer do outro, tudo vai girar em torno do um pinto. “Não era isso que você queria? Não é de pau que você gosta?”, eles dizem.

Eu já perdi a conta de quantas vezes fui abordado por homens casados e que não são gays, mas héteros que procuram em seres “inferiores” a possibilidade de realização dos seus desejos e fetiches sexuais sem que haja o mínimo de respeito no envolvimento. Outro bloqueado pra lista.

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11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Armários

Por Everson Fernandes, Biscate Convidado

outro dia tava rolando um vídeo sobre saídas de armários…

no vídeo, uma mulher lésbica falava sobre os diferentes tipos de armários que precisam ter suas portas escancaradas. e, ok, é um vídeo e um discurso interessante, mas ‘sair do armário’ tem um peso diferente quando relacionado à orientação sexual. o fato é que, além de todos os outros armários, a saída do armário da sexualidade tem que ser feita, e refeita e reforçada e feita mais uma vez. e de novo. não é ‘uma saída do armário’. são várias, em ambientes diferentes, contextos diferentes, pessoas diferentes. porque sociedade heteronormativa é heteronormativo em vários ambientes e contextos. e sair do armário não é exatamente algo simples, fácil. requer muita paciência.

armários

caso 1: primeiro semestre de graduação. roda de colegas conversando no corredor. inicia-se o assunto sobre homossexualidade. alguém comenta que um casal homo iria influenciar na criação da criança, que também se tornaria homo. aí explico que ser criado por um casal hétero, conservador e cristão não fez com que eu me tornasse hétero. foi a primeira saída de armário na universidade. olhares de espanto; ‘mas você nem parece’, e lá vamos explicar um monte de coisas.

caso 2: balada. tô no fumódromo, fumando, encostado na parede, sozinho. uma moça vem bater papo comigo. conversamos pelo tempo o suficiente de um cigarro. nome, o que faz, onde mora e aquela coisa toda. ela pergunta se eu sou solteiro. respondo que não [na época não era]. pergunta se estou com namorada. nesse momento, aparece o rapaz. apresento a ela. cara de espanto. e sai.

caso 3: balada. encontro ex-colegas de aula. fico com um rapaz. os ex-colegas olham espantados. final da noite, vamos para a fila acertar a conta. tudo bem enquanto não tínhamos contato físico. nos abraçamos, os dois rapazes que estavam na frente olham atravessado. um se afasta e fala pro outro “vou esperar na rua porque não aguento ficar no mesmo ambiente que ‘esse tipo de gente'”. aguardo outra manifestação pra revidar. não aconteceu.

dava pra listar mais alguns casos, mas tá ficando extenso já. mas é isso, não existe uma ‘saída de armário’. nem mesmo do ‘armário da sexualidade’. e essas saídas se tornam desgastantes. e, às vezes, ficar no armário não tem nada a ver com não-aceitação, homofobia internalizada. pelo contrário: é questão de auto-preservação, ou cansaço. apesar de que a ‘saída do armário’ seja um ato político importante, ele precisa ser feito quando a pessoa se sente segura de que pode lidar com o que se seguirá. a saída de armário compulsória é mais uma forma de opressão e violência. tirar alguém do armário é violência.

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*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

Orgulho de ser gente!

Porque homi é homi, minino é minino, macaco é macaco e viado também é gente.

Hoje é Dia do Orgulho Gay e @s biscates – ess@s descarad@s que só querem corromper a sociedade e vão contra a moral e os bons costumes – se embrulham na bandeira e se jogam na discussão, luta e celebração.

Por que? Porque biscatagi rima com respeito ao outro, com diversidade, com direito ao próprio corpo, com liberdade, com manifestação de afeto e desejo.

E a data que relembra e celebra o Orgulho Gay é isso aí tudo, feito seta e memória. Então, do começo:

Orgulho gay é a ideia de que gayslésbicasbissexuais e transexuais (LGBTT) devem ter orgulho da sua orientação sexual e identidade de gênero. O movimento tem três ideias centrais: que não se deve ter vergonha da orientação sexual e identidade de gênero; que a diversidade é uma dádiva; e que a orientação sexual e a identidade de gênero são inerentes ao indivíduo e não podem ser intencionalmente alteradas.

E por que 28 de junho?

A data teve origem em Nova York, quando ocorreu a Rebelião de Stonewall. A Rebelião de Stonewall foi um conjunto de episódios de conflito violento entre gayslésbicasbissexuais, transgêneros e transexuais e a polícia de Nova Iorque. Stonewall foi um marco pelo relevante número de pessoas que se uniu para resistir aos maus tratos da polícia recorrentemente infligidos à comunidade LGBTT.

E o que nós temos a ver com isso?

Tudo. “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária, promovendo o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” Quem condena, maltrata, persegue, quer “converter ou curar” a homossexualidade são os mesmos que medem o tamanho das nossas saias e acham legítimo dizer que “quer ser respeitada, se dê ao respeito” como preâmbulo pra estupro. Uma sociedade de tolerância, aceitação e convivência passa pela luta sistemática, organizada e ativa contra a homofobia.

meme, no facebook: “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós estão olhando o céu” — Oscar Wilde

“Sou o amor que não ousa dizer o nome”

Homofobia não é apenas a sua opinião sobre a vida do outro (sobre a qual, aliás, você não tinha que dar pitaco algum). Homofobia é uma violência e tem causado sofrimento sistemático a muitas pessoas. Um exemplo icônico é o grande escritor Oscar Wilde. Oscar Wilde não foi um exímio narrador apesar de ser gay. E nem porque era gay. Ele foi um excelente autor porque ele era ele (lembrando Montaigne: porque eu o amo? “porque era ele, porque era eu”). Mas ser ele mesmo incluía ser homossexual numa época em que se condenava, perseguia e silenciavam as relações homossexuais (somos todos vitorianos, quase escuto). E por ser ele mesmo e tentar viver e amar quem ele quisesse foi preso e condenado a trabalhos forçados. Com a repercussão da situação, seus livros e peças ficaram escanteados e ao sair da prisão passou a viver na miséria.

Links legais:

Doze autores: Especial Dia do Orgulho Gay

As Entranhas da Homofobia

Oscar Wilde e os direitos homossexuais

Se toquem: sobre Gerônimos e Pocahontas…

Outro dia enquanto tomava banho (sim, sempre há uma luz de reflexão no fim do banho) me lembrei de uma situação inusitada de uma conversa que escutei em uma mesa de lanchonete (não, não tenho costume de ouvir conversa alheia, mas estava sozinho, atoa e o assunto era interessante, como ocorre a todos que escutam as conversas alheias). Estava eu lá, mais ou menos no meio da regra sagrada da ordem do que lavar no banho (é… eu sigo a metodologia do “cabeça, ombro, joelho e pé”…) e, do nada, me estalou o quanto aquele papo adolescente explica em muito a nossa sociedadezinha conservadorazinha. Nome fictício do protagonista: Gerônimo. Por três motivos: não conheço nenhum Gerônimo; Gerônimo era o Chefe Apache que virou símbolo de valentia e macheza; e vai ajudar na piada…

Era uma roda normal de alunos de uma escola católica tradicional. A conversa, deus sabe porquê, descambou para aquele assunto que só ocorre entre meninos e meninas adolescentes quando há um ogro no grupo ou quando não há interesse sexual entre nenhuma das pessoas presentes: como tomar banho. Terreno escorregadio… todos os medos do sabão cair no chão… mas levaram a conversa.

A conversa me chamou, mesmo, atenção quando um dos meninos, que chamo de Descartes, disse que era adepto da técnica do “cabeça, ombro, joelho e pé” (todos pira). Foi interessante vê-lo expor cientificamente minha metodologia de lavar o corpo (que eu nunca tinha elaborado), que as meninas acharam infactível (imagina lavar o cabelo todos os dia e começar a limpeza de cima para baixo para que a água que escorre por você seja sempre limpa????)… Continuando o papo, alguns não tinham técnica nenhuma, mas todo mundo cheirava bem (pelo menos pareciam cheirar bem). Entraram no assunto alergia, muito produtivo, eram a perfumes, esponjas, determinados produtos, etc… Descobriram que tinha gente que só usava sabonete líquido, que já usava sabonete íntimo e que tinha a rykaa que tomava banho de banheira com sais da L’Occitane… Então, Gerônimo me solta a pérola: “eu não sei como vocês conseguem passar o sabonete na bunda! Só de pensar… já tenho medo de virar viado”…

Entre gritos de pavor, nojo, graça e de “como você se lava?”, Gerônimo passou por ogro que não lava a bunda e mudou-se de assunto… Na mesa, ninguém pareceu se tocar (talvez se Jerônimo tivesse se tocado nos poupasse da história), mas era tarde… diabo trabalha… na minha cabeça só pipocava: “que inferno de recalque é esse”?!?!?!?!

Como alguém pode se privar da higiene íntima por medo de virar Pocahontas? Na boa, o cara que diz que lavar (LAVAR!!! Ninguém falou em enfiar nada, fazer ligação direta, fio terra ou o escambau) a bunda pode lhe causar uma sensação de prazer a tal ponto de causar #MEDO de “virar” homossexual? Tipo, mesmo que ele estivesse “brincando” (e não estava), tem muito que conversar com o tio Freud… Primeiro, porque não deveria haver problema em ser homossexual (ou bisexual, ou gostar de fio terra, sei lá…); segundo, que pavor é esse que nos é quase que imposto e que nos impede de fazer coisas tão simples como tomar banho e nos tocar?; e terceiro, mas não menos importante, se ele não lava, aí é que ninguém vai querer mesmo!!!

Mas vamos ao ponto. O que nessa nossa sociedade, na nossa formação (porque, sim, isso faz parte da nossa formação cultural, é algo que está infundido no nosso imaginário), faz com que as pessoas não sejam, ainda jovens, capazes de descobrir seus próprios corpos? Por que isso é visto como uma infração, um pecado, uma aberração? Que inferno de repressão medieval é essa que, nem na felicidade de um bom banho, não nos permite ser livres?

Eu, que fui adolescente e estudante de escola católica tradicional na época em que o Bento ainda era XV, confesso que tenho medo com o que ainda acontece na geração Bento XVI. Se, nessa altura do campeonato, vive-se com medos que começaram a ser enfrentados no século XIX, há muito o que se temer para o século XXI. Que modernidade é essa? Deve tá certo o Bruno Latour que diz que “Jamais fomos modernos”… e gente por aí se afirmando pós-moderna… Me mata ver que essa verborragia inócua e estéril de desenvolvimento social morre quando [não] vamos ao mais simples: nossos corpos…

Enquanto tivermos medo de nos tocar, estaremos (eu, você e o Gerônimo) constrangendo nossos corpos como sempre foi feito e nosso único “progresso” vai ser a eterna permissividade consumista da introdução (recorrente) de novas formas de fazê-lo. No final, tem que fazer mesmo como #GÊNIO da lâmpada do Aladdin da Disney que, na década de 1990, já não tinha medo de ser Pocahontas…

Se toquem!

Quando soltar a franga quer dizer que existimos!

GUEST POST por Tiago Costa*

Em diferentes contextos, tempos e lugares sempre houve homossexuais. A perspectiva dominante (masculina) vê esses sujeitos, assim como as mulheres, de forma generalizada, como se todos/as fôssemos iguais, o que na verdade, está longe de ser assim.

Falo dessa homogeneidade porque acredito que quando nós nos denominamos BISCATES (sejamos homens ou mulheres) queremos desvelar ao mundo, de uma forma afirmativa, uma identidade feminina/afeminada que é julgada pela ótica masculina do mundo como inferior, vulgar, ridículo, vergonhoso, indigno, e muitos outros adjetivos nas suas múltiplas formas de ser.

Mas vamos estabelecer uma generalização para dá conta do que quero comunicar: O nosso corpo, lugar da diferença sexual, tem uma frente e uma costa. A frente é potencialmente masculina, por ser a parte visível, pública e de apresentação, enquanto que as costas, que é sexualmente indiferenciada, é potencialmente feminina, ou seja, algo passivo e submisso. São sobre essa atividade (masculino) e passividade (feminino) que se instauram as relações sociais de poder e dominação entre os homossexuais, aliadas ás outras características que reforcem a feminilidade.

Um homossexual com traços de feminilidade passa por muitas humilhações, deboches e desrespeito, o que se agrava ainda mais quando esse assume fenotipicamente uma identidade feminina – caso das travestis, transexuais, transgêneros. Isso porque para alguns homens (os machistas), sejam hétero ou homossexuais, a pior humilhação é transformar-se em mulher, seja física ou psiquicamente.

Tenho observado que entre os homossexuais, passivos ou ativos, adotar um modo de ser mais masculino (no jeito de falar, de se vestir, de se comportar) é mais desejável do que ter uma postura mais feminina. Não é a toa que a pergunta chavão nas redes sociais e salas de bate-papo virtual é: você é discreto? Ou seja, é o mesmo que perguntar: você dá pinta de que é gay, mulherzinha, afeminado, afetado e demais palavras de baixo calão? Se caso afirmativo, as chances de ser ignorado, ou até mesmo insultado são enormes. Aí mora o desmonte desejável para os conservadores da homossexualidade enquanto revolução.

Uma possível explicação disso: a “posse” de um homossexual passivo pode ser vista como um ato de dominação, pois, na lógica do pensamento masculino, o sujeito ativo pode se sentir superior por está “feminizando” o outro, o passivo. E se o passivo tem características de machão, a dominação simbólica está completamente satisfeita. Em tempos remotos admitia-se que nobres mantivessem relações sexuais ativas com seus escravos, mas o contrário era sinal de desonra, o que reforça esse esquema de dominação dito anteriormente.

Isso é um alerta que nós temos que ter em vista: É preciso romper com esse ciclo de dominação ao gosto da ótica masculina de ver o mundo e assumir com toda a radicalidade o nosso ser biscate, sendo livre para fazer o que bem entendermos, com quem, onde e do jeito que quisermos, sem nos preocuparmos com os padrões de comportamento, com os papéis esperados e com aquilo que se julga ser “o correto”. Acredito que revelar a passividade, a feminilidade, ser bem resolvido e, portanto, biscate, é uma forma de afirmação da existência pública e visível de gays, travestis, transexuais e transgêneros, que a sociedade machista e cristã tem tentado com toda a força negar e invisibilizar.

Portanto, acredito que sair do armário e soltar a franga é uma (mas não única) forma de dizer para todo mundo que existimos, que temos autonomia e que somos sujeitos em atividade social! Em resumo: gays, lésbicas, travestis e tudo mais, vamos dizer ao mundo que: somos tod@s biscates!

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* Tiago Costa é um cearense divertido, alto astral, parceiros de todas as lutas. Engenheiro de Pesca, de esquerda, trabalhou junto a organizações da sociedade civil e movimentos sociais, é ativista dos Direitos Humanos, ambientais e de pescadores/as e “quase” mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFC. Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

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