Jandira, a vítima já condenada

Por Niara de Oliveira  

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Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, está desaparecida desde o dia 26 de agosto. A polícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam. O desaparecimento? Também, mas antes e sobretudo investigam o crime de Jandira, abortar. E a quadrilha que possivelmente está envolvida no desaparecimento de Jandira.

Na imprensa, desde que o caso veio a público, nunca — NUNCA — o “crime” de Jandira deixou de ser mencionado junto com as informações sobre o seu desaparecimento. O tempo de gravidez, as condições, as motivações de Jandira para recorrer a medida extrema de confiar em estranhos e ainda gastar uma pequena fortuna com isso vi em apenas uma das reportagens, mas naquilo que chamamos no jornalismo de detalhes do caso, “encheção de linguiça”, o que vai no último parágrafo das notícias escritas e que quase ninguém lê, e poderia ser dispensável, não é crucial para a informação. Apenas para registrar, não tenho dúvidas, que a mãe e o ex-marido de Jandira sabiam que ela cometeria um “crime”, e que podem ser enquadrados como cúmplices.

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Mas que joça de jornalismo é esse onde a motivação do “crime” é dispensável? Oras, porque a hipocrisia reina e porque o dispensável no caso de Jandira é o que a transforma em vítima de um sistema que criminaliza a mulher por não ter direito ao seu corpo. E os direitos humanos, o direito inalienável à vida, de Jandira vai pelo ralo na tal cobertura jornalística, junto com a obrigação ética do jornalismo de defender os direitos humanos.

A mãe de Jandira informou que a filha pagou R$ 4,5 mil para fazer o procedimento. Segundo umas das muitas matérias, Maria Ângela Magdalena dos Santos afirmou que a filha trabalhava numa concessionária no Recreio dos Bandeirantes e havia juntado todas as economias para conseguir realizar o aborto porque tinha medo de perder o emprego se mantivesse a gravidez. “Eu não achei caro porque dizem que essas pessoas cobram mil reais por mês (de gestação) e ela já estava na 14 semana (quarto mês). Eu não queria que ela fizesse, mas a gente não manda nos nossos filhos. Estou desesperada porque eu não tenho notícia boa nem ruim. Ela estava com medo de perder o emprego e o pai dessa criança foi uma coisa passageira, eles não estavam juntos“, disse a mãe.

Jandira, grávida de uma relação eventual, desesperada, já tinha ultrapassado o tempo limite para a realização de um aborto. Mas, como o assunto é tabu não há sites com informações seguras a respeito, não há matérias no “Fantástico”, no “Bem Estar” ou nos “Repórter” de cada emissora indicando as melhores condições, critérios e cuidados a serem tomados ao abortar.

O que ninguém diz é que ao engravidar por acidente a mulher está condenada, ou a ter o filho que não quer — com todos os riscos que envolvem a gravidez e o parto — ou a virar criminosa caso decida abortar clandestinamente — com todos os riscos que envolve um aborto –. A probabilidade de Jandira ser encontrada viva se torna mais remota a cada dia que passa (últimas informações aqui). O que não é remoto é o seu julgamento. Ela já é culpada. E seus dois filhos agora estão órfãos.

Se Jandira tivesse uma condição social melhor, teria feito seu procedimento normalmente, teria voltado para a sua casa, filhos e emprego sem se tornar notícia. Aborto é uma realidade no Brasil. As mulheres ricas pagam e estão seguras; as trabalhadoras juntam as economias da vida para abortar e correm riscos para tentar a segurança de que dispõe as mulheres ricas; e as pobres (e negras) recorrem a métodos insalubres e correm maior risco de morte. O que leva as mulheres a abortarem é a tentativa desesperada de serem donas de seus corpos e poderem decidir seu futuro.

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As mulheres abortam. A sociedade aborta. O que mata muitas das mulheres que abortam é a hipocrisia de colocar apenas em suas contas e costas os abortos feitos. Até quando vamos fingir que não é conosco?

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Leia também Se minha mãe tivesse me abortado, de Laryssa Carvalho no Blogueiras Feministas.

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Campanha 28 Dias Pela Vida das Mulheres

28 diasDia 28 de setembro é Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Diversas ações serão realizadas. Entre elas está o site: 28 Dias Pela Vida das Mulheres.

Participe desse movimento escrevendo textos, publicando imagens ou mensagens com as #hashtags: #28set #LegalizarOAborto.

O Estado contra Beth

Por Niara de Oliveira

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

 

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

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