Desvãos e Espaços Baldios

Nossas cidades são cheias de desvãos, de espaços baldios, de territórios públicos para onde são empurrados milhares de pessoas sem rosto e sem nome diante do mundo.  Quem entra naquele espaço torna-se tão invisível quanto um porteiro, um ascensorista, uma doméstica. É o mundo dos sem-teto, dos sacoleiros, das pessoas que dormem em rodoviárias ou salas de espera de hospitais, que lavam e secam a roupa nas fontes das praças. (…) Podem ter desaparecido como a Luísa Porto de Drummond,  como a Anastasia da família do czar, ou simplesmente como alguém que quis deixar para trás um nome sujo na praça, um rosto desprezado por alguém, uma vida que chegou a um beco-sem-saída e o jeito foi pular o Muro.


Esse trecho de um texto do Braulio Tavares sobre pessoas desaparecidas me trouxe à mente um filme de que gosto tanto, tanto. O filme, do Stephen Frears, chama-se “Coisas Belas e Sujas”. Um filme de várias camadas: escolha a sua. A minha, e a que tem a ver com o trecho acima, são os personagens. Personagens de desvãos, invisíveis na cosmopolita Londres e no pequeno hotel onde se passa boa parte da ação do filme.

coisasbelas

Okwe (Chiwetel Ejiofor), um nigeriano ilegal que de dia é motorista de táxi e à noite é recepcionista do hotel, era médico em seu país natal, mas teve que fugir após ser acusado de matar a mulher. Okwe aguenta a jornada dupla à base de estimulantes, e ajuda gente em situação similar à dele a se tratar de doenças inconfessáveis.

Senay (Audrey Tatou) é uma moça turca, muçulmana, que trabalha como camareira no hotel, embora tenha um visto que não lhe permite trabalhar. Ela deixa que Okwe durma em sua casa quando não está, já que não pode ficar sozinha com um homem que não seja seu parente, por motivos religiosos.

Não vou contar a história do filme aqui. O que me interessa é atardar um pouco o olhar sobre esses dois “invisíveis”: Okwe, Senay, que em Londres não têm nada. Não têm legalidade, não têm história, não têm memória. E no entanto têm. Como tanta gente. Tanta gente que vai embora da sua terra natal sem olhar para trás: largando a vida, a história, a pessoa que se é pra tentar sobreviver em outro lugar. Transparente. À margem. À beira. A cada dia.

Ao lado e no limiar da cidade que brilha e reluz, que se agita e palpita, desliza, latejante, a cidade dos invisíveis. Submundos. Túneis. Frestas. Ocos. Esquinas. Corredores de sombra. Tumores. Vulcões.

Stephen Frears, com delicadeza, entreabre esse espaço e, enquanto desenrola sua historia, restitui a Okwe, a Senay, a dignidade perdida por quem não é cidadão de lugar nenhum. Párias desse mundo que exclui tanta gente todo dia. Através de quem os apressados passam, como se não tivessem materialidade. Direito de ser. História, memória. Desiguais. Não-pertencentes. Na ponta dos pés, do coração batendo. Na beira dos lábios, do sotaque estrangeiro. Do olhar de viés. Desacolhidos. Despossuídos. Em carne viva. 

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