Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

escoteirasamericanas

As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Ogra. Desde criancinha

Ontem, vi muitos amigos publicando em suas timelines do Facebook sobre a chamada  Escola de Princesas  em Uberlândia – MG. Eu lembro que já fiquei muito incomodada com a ideia no começo deste ano, quando a notícia foi veiculada pela primeira vez. Mas como curiosidade é algo que ainda vai me matar um dia, decidi abrir a página. E uma das primeiras coisas que vi, foi isso:

“Sua filha é preciosa para você e precisa ser preparada desde já para que seu coração seja capaz de discernir entre o certo e o errado, entre a ação que produz algo bom e o gesto que traz constrangimentos. Desta forma ministramos ao coração das meninas valores e princípios éticos, morais e sociais, que a ajudarão a conduzir sua vida com sabedoria e discernimento.”

Esse “preparada desde já” ecoou por alguns momentos em minha mente. Após essa brilhante introdução, há o que eles chamam de “Características de uma Princesa”: ter boas maneiras, ser sempre bondosa e generosa, estar sempre bonita e bem vestida e saber como deixar o “castelo” organizado e impecável e esperar o “príncipe encantado”. Esses valores são estranhos para vocês? Pois bem…

emily-strange-nightmarepp31311O que antes era um incômodo, se tornou indignação. Porque acho muito leviano que: alguém se proponha a oferecer esse tipo de serviço; que tantos pais achem bonito e benéfico condicionarem suas filhas a esse ponto, acreditando que isso seja “brincadeirinha”. Não sou mãe, mas na minha modesta opinião, crianças não precisam estudar boas maneiras. Devem sim conhecer limites, não serem como bonecos. Meninas não precisam de dicas de beleza, nem se preparar para esperar um “príncipe encantado”.

Criança tem mais é que ser criança e acho fundamental que nós adultxs possamos garantir que elxs não pulem essa etapa tão importante de suas vidas. Será que todas essas meninas foram para a escola de princesas porque realmente era essa a vontade delas, ou foram motivadas por excentricidade (eufemismo para irresponsabilidade) dos pais? É tão mágico assim reproduzir valores tão conservadores? Por que a gente ainda tem essa “mania de monarquia”, sendo que em boa parte do mundo, pessoas abominam cada vez mais isso?

Foi inevitável que eu me lembrasse de quando eu era criança e preferia notavelmente as bruxas às princesas nas histórias que ouvia ( geralmente nas versões da Disney, fui criança nos anos 90) e uma professora me perguntou: “nossa, você é tão boazinha, por que prefere as bruxas más e feias?” Respondi que era porque as princesas eram todas iguais, muito rosas e muito paradas. As bruxas eram mais divertidas.

Talvez, eu tenha sido uma “ogrinha”: adorava me sujar, brincar de massinha, correr, fazer teatrinho, andar de patins, nem ligava para minha aparência. Mas fui criança. E gostaria demais que isso não se torne um privilégio, mas uma realidade possível para as meninas das futuras gerações.

*Não linkei a página aqui, mas ela pode ser facilmente encontrada no google.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...