Labirintos

downloadHoje eu me encolhi entre lençóis depois de pensar muito abraçada a uma solitária taça de vinho. Era tarde, como sempre, e todos dormiam nessa casa que não é mais minha. A chuva de mais um verão fez correr um Rio Lete entre as minhas pernas, apagando com doçura e uma sabedoria mais antiga que o tempo os resquícios das suas mãos no meu corpo.

Persistente, a matéria era a própria chuva. Também o telhado protetor e a trama que me aquecia. O livro que me sussurrou soltando odores dos antigos mitos, o DVD de quase agora. Minha certezas escoando em letras nesse papel.

Com elas te digo. Encontre seu próprio fio, homem, ainda tenho muitos labirintos a construir. E porque hoje eu paguei ao barqueiro com minhas últimas três moedas também confesso: foi com todo o peso da minha carne que eu te amei.

Quis essa casa de muro-baixo por sem medo e casal sorridente dentro. Ser a mulher que ontem mesmo preparou o café da manhã com cuscuz vitamilho e margarina delícia, beijou os filhos, alimentou o cachorro e as promessas para um logo mais à noite.

Quis o simples. Mas eu não sou.

Adeus, Aquela.

mulher-segurando-malas-4190

A intimidade de uma lua no ascendente

“Intimidade é bem-vinda, não só de namorados”, disse ela, e foi como um eco dos meus próprios pensamentos. Eu já andava mesmo pensando em escrever algo sobre isso; em outro lugar, disse: “ou é com intimidade ou não será”. Não falava especificamente de relações amorosas – falava da vida. Das relações em geral. De um certo jeito de ser. Traduzia, de certa forma, minha lua ascendente: minha forma de chegar, minha “porta de entrada”, meu caminho nas relações é pelo viés da conquista de intimidade. É nisso que eu acho graça, é disso que gosto de brincar. Desde sempre. É esse meu desafio.

Intimidade implica uma certa sem-cerimônia, para além das convenções, e talvez por isso eu tenha ficado amiga de tantos professsores ao longo da vida – a distância protocolar da sala de aula nunca serviu pra mim. Talvez por isso é que eu diga – meio como provocação, mas sem deixar de ser verdade – que não gosto de casais. Gosto de pessoas que formam casais, eventualmente. De um, de outro, dos dois. Mas de um casal não dá pra ser íntimo, não é mesmo? De um casal-entidade, digo. Sabe, daqueles casais-simbiose, daqueles casais fusionais. Sempre juntos, com jeito e opinião coletiva. Dá pra ser íntimo de um, de outro: não do conjunto formado. Intimidade implica olho no olho. Difícil se são mais do que dois pares de olhos.

Intimidade: poder ficar em silêncio sem ficar estranho (e como dizê-lo sem lembrar dessa lindeza aqui?). Intimidade: rir sem precisar explicar, olhar sem precisar explicar – apenas levantando de leve as sobrancelhas. Intimidade: não precisar explicar.

É isso que me encanta, que me atrai, que me dá tesão: o cintilar do deus das pequenas coisas por trás dos gestos cotidianos. Paixão? Arrebatamento? Fogo consumindo? Por certo, como não. Mas o que completa, o que engancha, o que me pega mesmo é o presente que eu sei que foi pra mim, por alguém que tão bem me conhece. É o sentar no chão e compartilhar lembranças e dores, o deitar no colo porque o colo tá ali e fica fácil; é fumar um cigarro juntos, quietamente, cada um imerso em seus próprios submundos, olhando a fumaça traçar desenhos improváveis. É o “vi isso e lembrei de você”, “achei que você ia gostar” de ver, de saber, de provar, de ouvir.

Intimidade: delícia. Suave e envolvente. Cálida e aconchegante. Sopa morninha. Travesseiro. Esteio. Beira de rio. Caminho.
Intimidade: quem me conhece sabe. Ou saberá, quem sabe.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...