A flor que repousa em mim

Sim, você pode me chamar de flor. Desconfio que sempre possa me chamar desse jeito. Meu nome pra você é nome de flor, de planta, de pedra, de madeira opaca, de céu, mar e maresia, de qualquer coisa que tenha o cheiro de nossas lembranças, nosso patrimônio de vida, delicadezas perdidas e achadas. Aqui, na ilha quente e urgente ou em cidades geladas, sempre serei a sua florzinha. E na minha memória, rosa, cravo, lírio, margaridas, açucenas e jasmins… Porque meu nome é também isso o que te ensinei, quando achei estar roubando sua paz. E vi que você aprendeu a liberdade do amor-pássaro, a voar fora da asa, a ver para além dessas convenções caretas que jamais darão conta da beleza que vivemos. Entre uma cama e outra, entre um comentário difícil de ouvir, entre atenções divididas, você foi sutilmente aprendendo a se equilibrar, mambembe e matreira, por mim e outras histórias. Teu desejo oscilava entre aquela, que poderia te dar o mundo, a firmeza, a segurança, a estabilidade. Mas quem disse que você quer isso? Acho que você quer mesmo é ir pra rua e beber a tempestade. Não sou calmaria. Não ofereço compromisso. Não quero planos. Nem A ou B. Nunca quis te colonizar. Mas a minha cama é quente, meu corpo se ajusta muito bem ao seu e quando acordas, já tenho o café pronto e sorriso aberto no rosto. E ainda reclamas meu bem? Das pedras e distâncias, fizemos um bom caminho. Como quem olha pra trás e sorri da alegria do encontro. Por isso, admito que te devo uma constelação toda, bálsamo e folhagem. Flor minha, o que te dei, nesses momentos que repousaste em mim, foi a vida. Um beijo, Narcisa. Com carinho, raízes e estrelas, eu, inegavelmente, sempre tua.

mulher_flor

Você, meu koi no yokan

Um típico clichê da cidade de São Paulo. Japonesinho do interior, ex-uspiano, área de exatas, baladeiro, pequeno burguês, eleitor do PSBD (urgh!), sotaque marcado e seco. Nada sabe sobre feminismo. Até tem um pouco de medo dele. Pensa que toda feminista transa cheia de cuidados e regras.

Desconfio que estás errado. Fica comigo que te provo o contrário. Creio que meus cuidados e regras vão te aprazer. Mas sabe o que é pior de tudo, minha cara antítese? No centro pulsante da urbe paulistana e bem direto dessa inominável selva de pedra onde moras, é com o meu selvagem coração que você tem cruelmente mexido.

Mais do que uma canção safadinha de Renato Godá. Ah, muito mais…

Cena do filme Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima

Cena do filme Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima

E isso nada mais é que a prova cabal que existe SIM amor em SP, escondido em algum cantinho perto da Augusta, amor esperando convites pra sentar e tomar um chope com duas doses de cachaça. Amor ébrio, amor passageiro, amor líquido. Volátil.

Amor dito com carinho, chamando nomes no diminutivo,
Amor sonolento de pijama comendo carolinas.
Amor planejando viagens curtas, andando pra lá e pra cá de metrô.
Amor dormindo tarde e acordando cedo, com olheiras.
Amor elástico, compreensivo e não-exclusivo.
Amor de prazeres visuais e recíprocos.
Amor que ensaia um porre homérico a dois.
Amor que pede palavrões e cãibras.
Amor que faz cotações de vôos e exige um encontro urgente.

Amor de todo jeito, meio sim, meio não. Quente como nossas conversas e como o café que farei pra ti. Vem pros meus trópicos, japonês-burguês, pra gente refilmar o Império dos Sentidos aqui na minha ilha, a dois graus do Equador. Vamos fazer um pecado rasgado, suado e a todo vapor! Corre, meu koi no yokan…

* (em japonês, premonição de amor)

O direito ao (meu) ridículo

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

(…) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Poema em Linha Reta, Fernando Pessoa como Álvaro de Campos

É, não sou a mocinha bem comportada que alguns almejariam. Eu bebo além da conta, dou vexaminhos, fico com quem quiser,pago de musa para incautos, batuco pandeiros e tamborins, a saia levanta mais do que gostaria quando eu danço e a mim, só me resta rir de tudo isso quando me vêm a cabeça lapsos de memória do dia anterior. Ora, vamos, beber não é crime. Confesso que estou na vida e, bebendo ou não, que não é necessariamente o caso, eu assumo meu desejo. Digo o que penso, falo o que vem à cabeça, não tenho opiniões fáceis, e, pra piorar, gosto de música nigeriana. FelaKuti, pra ser mais exata.

Mas ficar calada numa mesa, muda em um relacionamento, como tantos casais que dolorosamente vejo por aí, não é a minha praia mesmo. Um par em silêncio? Não, obrigada. Prefiro a minha tagarelice atávica e celibatária. Não encerrada em mim mesma, porque o charme da solidão não funciona comigo. Por isso, passo a perna numa involuntária clausura e me cerco de amigos, amigas, convivas e amantes oportunos (ou não), que povoam a vida de cor, delícias e boas histórias. E isso não é niilismo. É, talvez, a dura consciência da máxima existencial: nascemos sozinhos e assim morreremos. Porque, afinal de contas, quando dói, só eu sinto. No máximo, você pode compreender a minha dor. Mas não poderá estar dentro dela. Não tem como terceirizar o sofrimento das agruras da existência. Tem???

ridículo

É, talvez por isso Freud seja tão válido, mas tão desgraçadamente caro. Sou a favor de análise pelo SUS. Ainda mais nessa cultura que ensina de modo tão claro e pedagógico a repressão às mulheres. Sei que pago um preço por andar à margem. Olham-me enviesado e pressupõem que sou a maior porra louca de todos os tempos. Ou será que sou eu faço de mim mesma esse julgamento? Dane-se o olhar do outro! Não serve pra nada, só pra ressuscitar velhas paranoiase culpas inúteis. Já ouvi conselhos pra ser menos altiva e mais “mulherzinha”. Por que eu devo me mascarar numa capa tão falsa pra conseguir um suposto afeto, de um suposto babaca (se o cara quiser uma “mulherzinha”, sim, ele é um imbecil)?

Beiber, rejeito o teu conselho.

Só digo uma coisa: não é fácil exercitar o direito de ser feminista, vadia e biscate. Explicar porque gostamos de ser livres é bem cansativo, né? Xô pra lá, patrulha da moral e dos bons costumes! Eu já adoro os meus maus-hábitos e não vou abandoná-los, só porque querem ver a biscate aqui redimida. A vida é minha nem que seja pra torná-la imprestável! E já vou avisando: mesmo levando porrada, eu vergo, mas não quebro!!!

jeane melo *Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

 

Paixonites esquizofrênicas

Ou, o amor nos tempos da bipolaridade.

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

paixonite

Eu desperto e o seu cheiro ainda está em mim. Não me incomodam os seus pêlos que em carícias sorrateiras vêm parar na minha boca.  Esses me engasgam, eu cuspo e rio depois. O que me incomoda é a sua ausência. É passar o dia todo com você em mim. Quem sabe não furo uma veia, abro ainda mais um poro, invento algum outro orifício pra ver se você me ausenta sem dor. Ou racho a minha cabeça pra ver se escoam essas lembranças inúteis. Não sei pra quê as guardo. Da mesma forma como ainda não sei porquê eu nunca te disse eu te amo. Talvez puro receio disto não ser recíproco. E certamente não será. Mas estou com vontade de dizer. E aí, você aguenta? Esquenta, meu bem, pois o cobertor, é curto, bem curtinho, então vem logo. Sabe por que? Amanhã eu mudo de idéia. E te odiarei, teu time, teus pêlos, teu jeito desastrado.  Só posso ser feita de matéria abjeta e suja, porque até hoje não ouvi de você, espontaneamente, nem um mísero e vago “eu te adoro”. Eu, justamente eu, que me arranhei, me sangrei, aprendi a cozinhar na panela de pressão, a entender o que era um impedimento, a ver o jogador Fred para além da sua beleza e prestar atenção para um voleio (!). Você, verme miserável, que sai plácido e cinicamente da minha cama quase todas as manhãs não merece mais do que meu mortal desprezo. Nunca mais vou tencionar dizer eu te amo. Te odeio e tenho fome de ti. A louca de sentimentos imprevisíveis, que à distância se reconhece bipolar, só quer um abrigo no espaço de teus braços. Um carinho, somente. A palavra dita na hora certa. A coisa feita na hora certa. E não pense que estou falando das vezes que você me convidou pra comer sushi e eu aceitava com os olhos brilhando. Não, não me vendo por comida. Ok, só algumas vezes. Mas naquele dia foi sacanagem, vinho argentino e salmão com molho de maracujá, porque você precisava ser tão baixo??? Era só ter trazido mais uns cinco sashimis que eu te declararia amor eterno. E você, em contrapartida, o que você sabe do meu mundo? Sabe o que eu pesquiso? Sabe que eu choro ao ler Neruda? Que fico paralisada e arrasada depois de ver um filme de Bergman? Que meu sonho é viajar pro Chile e pra Cuba? Que meu desejo mais íntimo é ser só mais uma na multidão, confundida com toda essa gente? Mas você só sabe falar mal dos meus vestidos compridos. Esses mesmos vestidos que são elogiados no meio acadêmico e de trabalho, esses vestidos que você condena porque não são curtos, coladinhos e chamativos, como você queria. É querido, você namora com um bicho-grilo (que não vai mudar o seu visual). E eu, com um caretão tardio que quer tão somente uma menina transadinha e na moda, maquiada e escovada, toda trabalhada no previsível gênero inteligível (só Butler pra me salvar!). Juro que vou ficar apenas pra ver quem ganha essa queda de braço, eu, a sua outsider preferida.

Beijos, te cuida…

Peraí, vc sabe o que é uma outsider?

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jeane melo*Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

Biscate apaixonada e desaforada

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

O Biscate talvez não seja o lugar mais propício pra elucubrações amorosas. Ou questionamentos fúteis. Mas peço licença pra expor minhas angústias com amores e relacionamentos. Creio que o Biscate, com sua arejada política de temas e diversidade, abrigará minhas legítimas e idiossincráticas lamúrias. Aviso: o texto, é antes de tudo, muito sincero em sua catarse.

Bom, é bem verdade que biscate se apaixona. E que flertamos com a loucura nessas ocasiões. Que queremos dar uma de Adélia Prado e lavar, e secar, e beijar os pés da pessoa amada. No caso, meu amado. Homem mais velho, quase duas gerações após a minha. Mais amor e seríamos o novo casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia. Entre contas a pagar, problemas pra resolver, pesquisa pra encaminhar, eu só queria pensar, sentir e estar com essa paixão que me tomou como um susto. E que anda mexendo com as coisas íntimas, essas as quais não permitimos que qualquer um tenha acesso. Porque bagunça com projetos de vida, com desejos guardados, com promessas escondidas, que às vezes a gente deixa de lado pra obedecer ao lado prático (e duro) da existência. A paixão amolece tudo isso. Despedaça essa seriedade tão forjada e necessária pra matar os leões do cotidiano (podia ser outra metáfora? Adoro felinos!). Já se sabe que mulher pra se fazer na vida, não pode ser mansa. E a minha língua sempre foi desaforada pro machismo. Mas sou bem calminha quando amo. Mais doce ainda. De provocar diabetes. E ele, sábio nas artes de se relacionar, tem tirado o melhor de mim. Isso que escamoteei pra um sem-número de gente, que tentava, sem muito sucesso, porque eu simplesmente não deixava, me ver entregue e sem máscara. Não tenho dúvida que ele quebrou minha resistência. Passou a perna no meu ceticismo afetivo. O resultado disso tudo é que eu amo tudo nele, sobretudo o contexto que o envolve: a filha adolescente, o seu time de futebol, o gosto duvidoso pra decoração, a barba que ele deixa crescer só porque eu peço, o café da manhã que faz pra mim, a voz calma, as mãos, o corpo… Ah, o corpo…

Ou não. Quanto tempo dura o encantamento de uma paixão? Estou apaixonada, mas estou lúcida. A balança desequilibrou e sinto um descompasso. Uma disritmia que não é aquela coisa linda do Martinho da Vila. E, independente do rumo desta carruagem, sempre optarei pela minha dignidade. Tenho gostado de dormir junto, mas, à parte do clichê, amo as noites que estou em casa, tomando meu vinho chileno, lendo um livro ou agarrada no meu notebook. Ou fazendo nadinha, só procrastinando mesmo. Adoro você, homem que tem me feito dobrar os sinos. Porém, há alguma coisa em mim, um divã interno, um cuidado instintivo, um senso de coragem que é algo que simplesmente impede de me tornar uma extensão de ti. Lavo, seco e beijo teus pés, mas não esqueço de cuidar também dos meus. Pra que eles possam estar bem pra caminhar depois dessa viagem. E caminhar pra bem longe, esse lugar de utopia que me recebe sempre de braços abertos e abriga os meus sonhos e desejos. Por isso, trate muito bem essa biscate aqui. Ela merece todo o amor do mundo. Ela tem o diálogo estreito com poderosas orixás mulheres, como Iansã e Iemanjá. É uma biscate do mar, coreira, com flor na cabeça, meio cigana, meio profana, meio sagrada, meio bruxa, meio louca. E que não hesita em abandonar barcas furadas pra girar, feliz, a saia de chita colorida em outras rodas incandescentes de tambor.

Pra completar o recado desaforado, nada melhor que um poema da biscate-mor portuguesa, Florbela Espanca, a nos ensinar que estamos nesse mundo pra amar muitas vezes:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

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* Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

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