Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

Por Niara de Oliveira

A super lua de ontem me fez saudosa de muitas coisas. De mim, inclusive, da Niara que enxergava o mundo e até escrevia com um pouco mais de encantamento e poesia. Lembrei de um post onde contava um pouco das minhas memórias, da lua e de uma música, feita pra lua e sobre ela.

Ando seca. Talvez seja Xangô me atormentando e dizendo que não se pode descansar ou vacilar com tanta injustiça em volta. Só que é aquilo… Tanta injustiça embrutece a gente. E é só das injustiças e indignadades desse mundo que estou sabendo escrever. De modos que… Segue mais uma.

Acordei num mau humor do cão ontem. Porra, domingo, um dos raros em que não teve festa em nenhuma das ruas aqui perto de casa em OuCí e nem ensaio da banda horrorosa que ensaia na casa do lado… Mas tinha foguetório — sempre tem — e Lalá latindo, ogro gripado e roncando e se atirando na cama, #dinofilhote acordando toda hora. Não consegui dormir duas horas ininterruptas. Quando finalmente “acordei” e fui fazer meu café para sentar em frente ao pc e trabalhar — vida de jornalista freelancer é isso mesmo –, Gilson comenta sobre essa notícia que acabara de ler nas internetes… Fui despertada por ela.

Em julho do ano passado vi uma matéria com esse casal, Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine. Eles tinham feito uma “tattoo de compromisso”. Ele tatuou seu sobrenome na parte frontal do pescoço e ela tatuou um carimbo estilo “made in” dentro de um retângulo tracejado nas costas, próximo ao ombro direito, dizendo “PROPERTY OF WAR MACHINE” (Propriedade de War Machine — seu codinome de lutador).

montagem com as "tattoos de compromisso" feitas por Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine

montagem com as “tattoos de compromisso” feitas por Christy Mack e War Machine

Pausa. Respira. Respira de novo… Respira mais fundo. Bóra descascar esse abacaxi…

Suas profissões não vêm ao caso. Conhecemos inúmeros casos de homens agressores extremamente violentos exercendo profissões consideradas até dóceis. E a vítima, bem… É só a vítima! Me nego a fazer qualquer observação a esse respeito porque considero que a mulher é livre para fazer o que bem entender, inclusive uma tatuagem dizendo que é propriedade de outrem ou casar e assumir o sobrenome do marido. E sabemos também que a violência contra a mulher é democrática, horizontal, perpassa todas as classes, raças, países, origem, idade, credo e conduta.

O que tem de errado nessa história — além da violência, que infelizmente já foi “normalizada” — é a forma como a notícia foi apresentada. Em primeiro lugar editores do portal Terra, violência contra a mulher não é “confusão”. Confusão é jogar dinheiro pra cima no meio do Saara ou do Mercadão de Madureira ou na 25 de Março ou ainda no Bric da Redenção. Quando um homem espanca uma mulher, independente da natureza de sua relação (pode não haver nenhuma, inclusive) é apenas e tão somente violência contra a mulher. Não há meias palavras, não há relativização a ser feita, não há pílula a ser dourada.

Em segundo lugar editores do portal Terra, não fica claro no título o motivo pelo qual Christy Mack não está podendo falar. Não poder falar é eu fazendo o #dinojantar com as mãos ocupadas entre a cebola, a pimenta e a colher de pau sem poder pegar o telefone para falar com alguém. E o pior de tudo, editores do portal Terra: Por que a profissão de Christy abre a frase do título da notícia? Por que o julgamento moral e o machismo dx editxr (deve ser um homem quem exerce o cargo, como indicam as pesquisas a respeito de cargos de chefia no jornalismo brasileiro, mas como o machismo é estrutural e estruturante, e passível de ser reproduzido por todos, inclusive mulheres, melhor deixar o gênero do cargo indefinido) responsável por essa seção do portal são mais importantes que a notícia? Atriz pornô merece apanhar? Atriz pornô que namora lutador de MMA violento a faz menos vítima? Atriz pornô que tatua ser propriedade de namorado violento a torna merecedora de violência? Se a atriz vítima de violência fosse de comédia a sua profissão estaria no início do título?

A questão é que tanto faz. Não importa sua profissão ou qual a sua especialização como atriz, sua conduta e nem mesmo sua permissividade com relação à violência. Não cabe à chefia da editoria do portal Terra julgar isso. Jornalismo relata fatos, conta como eles aconteceram, o “julgamento” fica a critério de cada leitor/a. E sabemos que nem precisava desse escárnio com Christy para que ela fosse julgada como merecedora do espancamento do qual foi vítima. Se ao ler a notícia, mesmo que nos detalhes finais, estive escrito que ela é atriz pornô todos a julgariam. Então, pra quê? Sabemos pra quê, mas estou questionando diretamente a editoria do portal Terra. Porque nesse caso não é o repórter peão que não pode ser responsabilizado pela manipulação da informação do veículo onde trabalha, nesse caso é a chefia, é quem detém a confiança do proprietário do veículo que deveria ser de informação, e não de julgamento.

Como ficaria um título isento para essa matéria? “Atriz é espancada e mal consegue falar. Namorado está desaparecido”

Se Christy não tivesse se tatuado como propriedade do namorado, ela estaria a salvo da violência? Não. Nenhuma mulher está. War Machine se sentiria menos proprietário de Christy sem a tatuagem? Não. Homens tendem a se sentirem proprietários da mulher, independente de terem ou não uma relação com ela. Há uma enxurrada de casos de assassinatos de mulheres onde o feminicida é o ex. Nesses casos todos é comum a imprensa vimitizar de novo a mulher ao julgá-la, como fez (e ainda faz) no caso da Eliza Samudio, só para citar um exemplo.

Não importa o que façamos, o que somos ou o que pensamos. Quem está na berlinda é sempre a mulher. E me admira muito que numa matéria com esse título não tenham dado uma rápida guglada e citado a tattoo como mais um atenuante para o agressor…

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas com moralismo barato usado para justificar machismo, misoginia e, por consequência, violência contra a mulher.

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atualização 11/08 às 13h30: Até consigo entender que num portal todas as notícias relacionadas a “famosos” estejam num mesmo local, mas é inadmissível que um caso de violência contra a mulher esteja na seção “Diversão”.

atualização 12/08 às 14h15: Christy Mack divulgou em suas redes sociais na segunda à noite um comunicado agradecendo o apoio e carinho que vem recebendo e relatando o que houve. Esse comunicado foi traduzido e divulgado pela seção “Combate” do Sport TV da Globo.com, num tom bem mais aproximado da realidade dos fatos. Mesmo assim, num trecho diz [o que talvez para alguns justifique as agressões de War Machine]: “Ela relatou que foi espancada pelo atleta, com quem teria rompido relações há três meses, após >>>ser flagrada<<< junto a um amigo em sua casa em Las Vegas.

FLAGRADA??? O termo flagrante aqui dá a ideia de que ela estaria fazendo alguma coisa errada. A própria Christy justifica em seu comunicado que ela e o amigo estavam vestidos quando da chegada de War Machine em sua casa.

Diz a Renata Corrêa, e eu subscrevo: “As mulheres são flagradas de biquini no site de fofocas, flagradas conversando com amigos pelo namorado ciumento mas o único flagra mesmo é do machismo na sociedade. A menina ainda tem que dizer que estavam vestidos. E se estivessem pelados? Podiam apanhar?

Por fim, um trecho do relato de Christy com parte do “saldo” de seu espancamento e as fotos dela no hospital ontem (11/8): “Minhas lesões incluem 18 ossos quebrados ao redor dos meus olhos, meu nariz foi quebrado em dois lugares, perdi dentes e vários outros (dentes) estão quebrados. Estou incapaz de mastigar e de ver pelo meu olho esquerdo. Minha fala está confusa por causa do inchaço e da falta de dentes. Tenho uma costela fraturada e o fígado severamente rompido por causa de um chute na minha lateral. Minha perna está tão lesionada que não consigo andar sozinha.

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

O que achamos da matéria do Delas (IG)

No dia 19 de janeiro fomos entrevistas e citadas para uma matéria no Delas, do portal IG. Segundo contato do jornalista Ricardo Donisete por email “a matéria sobre um movimento na internet, especialmente nas redes sociais, que dissemina montagens de fotos que dividem as mulheres em “biscates” e “pra casar”. Nós estamos discutindo essa onda na pauta, questionando porque esse tipo de preconceito persiste. E porque uma mulher sexualmente liberada ainda assusta parte da população.”

Óbvio que nos prontificamos imediatamente a responder as perguntas. No dia do contato o BiscateSC não tinha completado um mês de vida ainda e como assim já somos fonte de pesquisa sobre o assunto? Curtimos demais a ideia, embora tenhamos comentando (Niara e Luciana) que sabíamos que responderíamos dez perguntas para ter apenas uma (ou poucas) frases recortadas e, talvez, fora de contexto. Mas topamos o risco pela publicidade, por estarmos linkadas no Delas e para estarmos acessíveis para pessoas que não sendo assim talvez jamais tivessem acesso ao BSC.

No final publicaremos as perguntas recebidas e nossas respostas. Mas antes vamos analisar porque achamos que a matéria publicada não correspondeu ao que foi proposto e apresenta equívocos que comprometem conteúdo e intuito.

Existem vários estudos sobre leitura de jornais e matérias jornalísticas. Vários desses estudos nunca foram publicados, ou serviriam de alerta até mesmo aos leitores de como são manipulados por veículos não muito bem intencionados, para dizer o mínimo, mas eles são citados nos cursos de Comunicação Social país afora. Um desses estudos diz que o brasileiro médio entende uma frase que contenha entre dez e quatorze palavras. Mais do que isso, o sentido da frase e do que se queria dizer lhe foge. O mesmo estudo aponta que franceses entendem frases com até dezessete palavras (e, pelamor, não se está pregando a superioridade européia, tá?).

No Brasil, a ampla maioria dos leitores de jornais leem apenas a manchete (título) e olham as fotos com legenda. Alguns chegam a ler o subtítulo e o lide da matéria (e TODO editor de jornal, revista ou site do país tem conhecimento disso). Então vamos analisar o título, subtítulo, imagens e legendas da matéria em questão.

O comportamento sexual de uma piriguete (título) — Panfletos eletrônicos em redes sociais enaltecem a mulher “para casar” em detrimento das que são “só para transar” (subtítulo). Se a pessoa ler apenas essas duas frases vai entender o quê? Certamente não será que a matéria possa ter um conteúdo libertário ou feminista. Que, aliás, não tem. Um dos problemas recorrentes na mídia é a generalização dos comportamentos das mulheres, como se formassem grandes grupos homogêneos e o título da matéria se insere nessa “tradição”. O subtítulo não colabora na elucidação da questão, reforçando a idéia de blocos.

Primeira imagem acompanhada da seguinte legenda: >> Piriguete no dicionário: “moça ou mulher que, não tendo namorado, demonstra interesse por qualquer um” << Sabe-se que a escolha de definições e conceitos não é arbitrária ou neutra. Outras definições do termo piriguete poderiam ter conotações menos restritas como, por exemplo, em outro dicionário a definição de periguete é “(origem duvidosa, talvez de perigo) s. f. [Brasil, Informal]  Mulher considerada desavergonhada ou demasiado liberal. = PIRIGUETE”.

Na segunda imagem, reproduzida do Facebook, vem acompanhada desse texto >> Panfleto circula no Facebook comparando “piriguetes” e “mulheres de verdade” << Mulheres são múltiplas e não é essa ideia fixa de relacionar o valor de uma mulher a sua sexualidade (ou o uso que fazemos dela) que vai nos reduzir a apenas dois tipos. Além do que, as biscates acima dos 30 têm bem mais curvas e histórias para contar que as mocinhas saradas retratadas nessas fotos.

A terceira imagem é uma espécie de tabelinha comparando as piriguetes e as mulheres para casar e vem acompanhada dessa legenda. >> A mulher de verdade seria bonita e confiável, e a piriguete, gostosa e traiçoeira <<

A segunda e a terceira imagem reforçam o estereótipo que a matéria, aparentemente, buscaria deslindar já que o texto que as circunda não discute a premissa básica (não que pretendamos pautar a pauta do jornalista, mas uma definição como “mulher de verdade” implica no necessário contraponto “todas as outras são o quê, de mentira?”) nem questiona as precárias caracterizações de cada grupo.

E a cereja do bolo está na última imagem… O Delas recortou a foto de um cartaz da Marchas das Vadias de São Paulo com uma das frases mais usadas nas SlutWalk que é “não sou puta não sou santa sou livre” e deixou um sutil (#not) “não sou puta” na imagem com a seguinte legenda acompanhando >> Imagem de protesto em São Paulo << sem explicar que protesto era. Essa frase/imagem sem sua dialética é esvaziada da força de protesto e parece ter um valor intrínseco, como se “ser puta” fosse, em si, uma coisa ruim. Não se trata disso no SlutWalk – nem no nosso blog – que, aliás, é referido ao lado da imagem.  (O cartaz já tinha aparecido recortado na cobertura do Delas na Marcha das Vadias de São Paulo. Veja o mesmo cartaz nas fotos dos portais G1 e na foto 28 da cobertura do Vírgula/UOL, que pode ser visto num print screen aqui, e tem ainda o registro em destaque da fotógrafa Elisa Rodrigues)

Já analisamos título, subtítulo e imagens com legendas. Agora pensemos que algumas pessoas leem também o lide (o primeiro parágrafo da matéria) e vamos analisá-lo:

Diz o lide*: >> Tem pipocado na internet nos últimos meses, especialmente nas redes sociais como Facebook e Twitter, uma série de postagens aparentemente fora de seu tempo. Por meio de panfletos e montagens, as mulheres são divididas em dois grupos: as “de verdade” são dóceis, boas para casar e nem sempre estão disponíveis para o sexo – talvez eles cobrem o oposto depois do casamento. Na outra ponta estão as “piriguetes” ou “biscates”, que não freiam o próprio desejo sexual e transam com facilidade. Não há meio-termo. << Se essa é a prévia da matéria, onde a dicotomia entre piriguetes mais do que explicada é reforçada, para quê ler o resto? Já sabemos do que se trata e como ela vai terminar.

Ainda não entendeu? Releia a matéria agora, olhando apenas título, subtítulo e imagens mais legendas e lide e responda: Qual a função da matéria? Certamente não é uma reflexão sobre essa dicotomia tão antiga entre piriguetes e mulheres para casar, mas o reforço desse preconceito.

Infelizmente não podemos analisar o mundo a partir do nosso umbigo (por mais bonito que ele seja – e o nosso é uma lindeza). Nem todo mundo lê e adquire a mesma quantidade de informação diária. É claro que estamos entre privilegiados (ter acesso à internet e leitura), entre pessoas que leem livros e que tem o hábito de ler textos — jornalísticos ou não — até o final, possibilita que busquemos saber onde o autor quis chegar, o que quis dizer, até mesmo nos permite nos posicionarmos diante dele, indicar leitura, crítica ou não. Mas a ampla maioria dos leitores de jornais e revistas no Brasil, versão impressa ou eletrônica, não lê os textos completos. E só da metade para o final é que a matéria traz uma análise da historiadora Mary Del Priori sobre como “a abordagem do sexo de forma banalizada tende a desencadear julgamentos e reações de diversos tipos, inclusive as preconceituosas”. Ou seja, a ampla maioria das pessoas que leu a matéria teve acesso ao que de pior ela poderia oferecer: reforço no preconceito. A prova que as pessoas não chegaram ao final do texto pode estar nos raros acessos no BSC vindos a partir do IG (estamos citadas e linkadas só no finalzinho).

Mesmo tendo citado no meio trecho das nossas respostas e das respostas das Blogueiras Feministas (que assim como nós, foram entrevistadas e se dedicaram a responder elaboradamente) e de uma historiadora para dar maior profundidade na abordagem, no final das contas termina recortando uma frase da Luciana (na verdade a resposta foi conjunta, Niara e Luciana, mas eles insistem em personalizar), e outra de um dos textos do blog, retirada do seu contexto e, de novo, reforçando o preconceito com as piriguetes >> Em um dos textos, uma frase simples encerra qualquer debate: “Nem toda mulher quer dar só pra um”. << Ou seja, piriguete quer dar para todo mundo, no entendimento final da matéria, embora não tenha sido que tenhamos dito.

Sabemos que a culpa não é do jornalista  e nem achamos que a pauta já tenha sido pensada com má fé, é a própria lógica em que pauta e jornalistas estão inseridos que força oferecer todo mundo numa prateleira e a simplificar a vida como um supermercado. Infelizmente a grande imprensa colabora nesse sistema. O ser humano — as mulheres e as biscates incluídas aí — é bem mais complexo que isso. Ainda bem!

Por essas observações e um sentimento de que poderia ter sido melhor, bem melhor do que foi, é que nos demos ao trabalho de escrever essa análise aqui: não achamos positiva a abordagem e lamentamos que bom material tenha sido ignorado. Putz, já que tanto nós, biscates, quanto as blogueiras feministas nos esforçamos para responder as perguntas, eles podiam ter caprichado um pouquinho mais na discussão, afinal desenhamos tão bonitinho… Né?

Seguem as perguntas feitas pelo jornalista Ricardo Donisete e as nossas respostas:

Como surgiu o blog e qual a intenção principal dele? O humor ajuda a quebrar os preconceitos?
O BiscateSC surgiu de discussões e brincadeiras nossas provocadas por uma imagem divulgada no Facebook que trazia seguinte inscrição: “Os homens mais inteligentes são aqueles que se deram conta de que mais vale ter uma mulher incrível ao lado do que uma coleção de biscates”. A discussão sobre a imagem que reproduzia, com novos nomes, a velha dicotomia entre mulher para transar e mulher para casar e o apoio a nossa iniciativa de nos assumirmos como biscates nesse contexto dual, nos levou a pensar na possibilidade de criar um blog coletivo. Quinze dias depois o BSC estava no ar.
Pensamos que o humor é uma forma de devolver o preconceito à sociedade e de lidar de uma forma mais leve com ele. A existência do Biscate Social Club é por si uma ironia com o preconceito que sofremos.

Porque a escolha do termo biscate? Aliás, o que é uma “biscate” para você?
O nome já estava escolhido dentro dessa atitude preconceituosa de classificar as mulheres entre mulher para transar e mulher para casar. Nós apenas nos apropriamos de forma positiva de um termo que é usado para nos desqualificar e tentar classificar as mulheres a partir de sua sexualidade – a partir de como as mulheres vivem sua sexualidade. De forma lúdica nós recusamos os pressupostos imputados ao termo e, através da pluralidade de contribuições, vamos afirmando a diversidade de vivências e reconstruindo o sentido – mesmo que de forma pontual.
Se o conceito de mulher incrível é o de uma mulher que pareça interessante aos olhos de um homem e que precisa de um homem para avalizar, chancelar sua “incribilidade”, biscate são todas as outras que não precisam ser classificadas a partir de um homem, por estarem ao lado de um homem ou ainda por terem sido escolhidas por um homem. Ou seja, pra nós, biscate é a mulher que escolhe, que assume as rédeas da própria vida e sexualidade e não admite essas classificações. Se alguém vai nos classificar, nos classificamos nós mesmas e nos assumimos como biscate.

Sobre essa onda que falei antes, a que divide mulheres entre “biscates” e para “casar”, você consegue imaginar por que um preconceito tão antigo ainda persiste? O curioso é que não apenas homens divulgam essas ideias, mas mulheres também.
O mundo é machista. A sociedade é estruturada a partir de valores e comportamentos machistas que procuram normatizar a sexualidade e este contexto intervém na formação de homens e mulheres. Neste sentido, a reprodução de preconceitos consolidados, mesmo os que oprimem quem os repete, é compreensível. Quanto à persistência dos preconceitos, é importante lembrar que os valores e comportamentos implicados no preconceito contribuem na manutenção de privilégios.

“Biscate é uma mulher livre para fazer o que bem entender, com quem escolher e onde bem quiser”, ressalta o blog de vocês. Essa mulher livre sexualmente ainda assusta parte da sociedade, que tem dificuldade de ver uma mulher como protagonista do prazer dela?
A liberdade que reivindicamos não é apenas sexual. Quem coloca o centro dessa afirmação na nossa sexualidade é quem difunde e perpetua esse preconceito. Nós afirmamos que biscate é uma mulher livre para fazer o que bem quiser — inclusive transar para sempre com o mesmo homem, se assim ELA ACHAR que está certo, sair de saia curta, usar roupa estampada, gargalhar alto, ficar sozinha ou dar para todo mundo se quiser –, com quem escolher — nós somos SUJEITO na escolha e não objetos, porque ser humano nenhum é objeto –, e onde bem quiser.

Não é um contrasenso um homem dizer que a biscate, que supostamente lida bem com o sexo, não é pra casar? Uma mulher “boa de cama” não é o que todo homem quer?
A sua pergunta tem uma série de pressupostos que se deve discutir. Primeiro: lidar bem com o sexo não significa “ser boa de cama”. Significa reconhecer e lidar com nossos próprios desejos, que podem ser, inclusive, não fazer sexo, fazer sexo com outra mulher e não com um homem, etc. Nós – biscates – não somos definidas pelo desejo do outro, mas pela relação de cada uma consigo mesma e com os outros.
A seguir, quanto ao que todo homem quer, nós não podemos responder pelos homens. E nem achamos que alguém possa. Os homens, assim como as mulheres, são diversos em seus desejos, intenções, valores e atitudes. Não imaginamos que todo homem quer “uma mulher boa de cama”, cada um deles deve ter seus anseios, que podem ou não se relacionar estritamente com a sexualidade e podem ou não ter essa sexualidade direcionada a uma mulher. Cabe a nós respeitar a diversidade e especificidade dos homens como demandamos ser respeitadas em nossa diversidade e especificidade.

Por mais  que uma mulher seja segura, não é fácil lidar com os dedos apontados de pessoas que a classificam como vagabunda. Que tipo de mulher consegue lidar com isso sem se abalar?
Quem disse que não nos abalamos? Mas a questão é que o mundo não é menos pesado para as mulheres que “optam” (ou são forçadas, induzidas, manipuladas) por se enquadrarem no padrão “para casar”. Quem admite que a sua felicidade esteja na decisão de outro vai ser feliz quando? E se a mulher aceita se enquadrar nesse conceito de mulher para casar e não é “escolhida” por ninguém para casar, vai ver a vida passar sozinha esperando que uma outra pessoa decida o momento dela ser feliz ou se realizar?
Nós assumimos o ônus de nossas escolhas. E, acrescentamos, existem muitos dedos apontados, mas existe também muito reconhecimento e aceitação. Não por acaso o BSC, com um mês no ar e sem divulgação – a não ser no contexto de nossas redes sociais – tem alcançado muita repercussão positiva, comentários elogiosos e, principalmente, participação com textos de pessoas que lêem o blog e se identificam. No dia que comemoramos um mês, tivemos mais de 5.000 acessos. Isso nos alegra.

Por outro lado, o uso em excesso da  sexualidade da mulher na propaganda e na TV e o culto ao sexo fácil não fragiliza a posição dela na sociedade, virando um mero objeto sexual? Não há uma confusão entre ser sexualmente liberada e em ser vulgar? (dividimos a pergunta para responder melhor)
Achamos que é importante complexificar as questões presentes nesta pergunta. Nenhum contexto pode fazer alguém “tornar-se” alguma coisa, o que pode ocorrer é a pessoa ser vista assim. Apenas o olhar do outro não me faz ser o que ele pensa de mim. Em segundo lugar, sempre ficamos com um pé atrás quando termos que implicam em juízo de valor aparecem atrelados à idéia de sexo. Excesso, por exemplo, dá idéia de que existe um “quantum” adequado pra sexualidade. Por outro lado, entendemos que valores e comportamentos avalizados e reproduzidos pelos meios de comunicação, mantêm e são mantidos pelo conjunto de valores e comportamentos próprios da cultura de nossa sociedade que,  já dissemos, é machista.

(Não há uma confusão entre ser sexualmente liberada e em ser vulgar?)
Se você não se importa, responderemos esta pergunta independente da outra, ok? Nós não julgamos as pessoas e não as classificamos. Não rotulamos: “liberada”, “vulgar”, “independente”… Rótulos são formas de hierarquizar e nós não vemos as pessoas, as mulheres, em níveis. A confusão, se existe alguma, é de quem insiste na dicotomia.

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*Lide: Em jornalismo, lead (é uma expressão inglesa que significa “guia” ou “o que vem à frente”) ou lide é a primeira parte de uma notícia, o primeiro parágrafo que geralmente responde as cinco perguntas básicas da matéria — O quê? ou Quem?; Quando?; Onde?; Como? e; Por quê? –. Segundo Adelmo Genro Filho, em “O Segredo da Pirâmide”, o lide deve descrever a maior singularidade da notícia.
Já o lide do texto de reportagem, ou de revista, não tem a necessidade de responder imediatamente às cinco perguntas. Sua principal função é oferecer uma prévia, como a descrição de uma imagem, do assunto a ser abordado.
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