Lei da Oferta e da Procura, Modelo Biscate

lei da oferta e da procuraMuitas vezes escuto (ou leio, a forma de escuta virtual) as bicateamigas dizendo: mas os homens não querem nada sério com mulher que bebe/fuma/ fala-alto/não-ri, gargalha/viaja-sozinha/trepa-no-primeiro-encontro/etc; mas os homens não respeitam as biscates, os homens isso, os homens aquilo. Bom, aí eu penso:

1. é bom a gente rever rapidinho o conceito de “relacionamento sério”,

2. “os homens” é gente demais; as generalizações nos cegam, ou seja, vendo a floresta, perdemos a árvore, e

3. o homem que acha que não sirvo pra ele é que não serve pra mim.

Conversando um pouquinho sobre isso:

Ponto 01:

eu acho que a expectativa de como deve ser um relacionamento é uma espécie de Medusa – faz a galera virar pedra. Porque parece que a gente passa a usar o jargão sem refletir. O que é um relacionamento sério? Corri ao dicionário:

sé.rio: adj (lat seriu) 1 De disposição, aparência ou maneiras graves. 2 Que não se mostra alegre. 3 Que não é leviano ou frívolo. 4 Que é honesto, digno de confiança em todas as suas coisas e negócios. 5 Honesto, de confiança. 6 Que se aplica firmemente a um assunto ou o trata com toda a circunspeção, sensatez e boa-fé. 7 Positivo, real, sincero. 8 Que denota seriedade, circunspeção, gravidade. 9 Que convém às pessoas sérias. 10 Que afeta seriedade. 11 Diz-se de conseqüências que podem ser consideráveis; importante. 12 Que dá motivos para apreensões; crítico, grave

Bom, os itens 01, 02, 06, 08, 09, 10 e 12 parecem referir-se a um relacionamento do qual o bom humor e o riso estão banidos. Quem quer um relacionamento de aparência grave, circunspecto e grave? Quem quer um vínculo que não permite alegria? Quem quer um chamego que dá motivos para apreensões? Não me parece que seja da ausência desse tipo de situação que as biscatesamigas estão sentindo falta…

Já os itens 04, 05 e 07 merecem um olhar mais demorado. Afinal, transparência, honestidade me parecem coisas bem vindas. Entretanto, coloca-se o problema, não são estes itens completamente expurgados ou banidos relações consideradas “não-sérias” nos depoimentos. É bem honesto o cara ou a biscate falarem: estou querendo uma noite de sexo gostoso sem obrigações sequer de troca de telefone no dia seguinte ou: bora lá, uma coisa de cada vez, estou saindo de um relacionamento e não quero me precipitar. Sincero, honesto, de confiança… check! Então, o problema também não é esse. Ficam os itens 03 e 12, que, parecem-me, referem-se a tempo. E acho que esse é o X da questão. Estamos bem acostumados a avaliar vínculo pelo relógio: mais tempo, mais importância, mais seriedade. Julgamos que alguém não nos “leva a sério” porque não quer passar zils anos conosco, plantando árvores, escrevendo livros e fazendo filhos – ou seja: reproduzindo o padrão heteronormativoclassemédia. Cavando o buraco mais um pouquinho (porque o buraco é sempre mais em baixo): as amigasbiscates estão reclamando, justamente, de não serem vistas como padronizáveis, domesticáveis, enquadráveis. NÃO estou aqui legislando em prol dos relacionamentos voláteis ou afirmando que todo relacionamento estável, monogâmico, hetero é enquadrado e enquadrante. Estou apenas devaneando sobre o quanto as expectativas externas pautam as nossas demandas e o quanto procurarmos um modelo ideal de relacionamento nos afasta das gostosas opções de vínculos concretos.

Ponto 02:

O segundo devaneio refere-se ao plural que parece recorrente nas lamentações: “os homens”. Eu sei que não podemos abrir mão dos coletivos para a política, a argumentação científica e até pra aprender gramática. Mas para relacionamentos interpessoais e comportamento, tentar focar em cada sujeito sempre me parece a melhor opção. Os homens é gente demais. É uma categoria abstrata que não abarca aquele cara legal com quem namoramos com 17 anos que respirava fundo, mas aceitava na boa quando dizíamos que tínhamos 3 namorados. “Os homens” é um plural desconfortável, como uma roupa que costuramos malfeita: aperta em baixo do suvaco e fica folgado dos lados. A floresta, digo, a sociedade é machista, crescemos, homens e mulheres, aprendendo uma série de chavões, inclusive este: homem é tudo igual. Estes chavões tem clara função de manter o status quo, de fechar nossos olhos pra cada árvores, digo, pessoa, que pode e será diferente do modelo, que terá peculiaridades, possiblidades, variações. Todas as vezes que a biscateamiga diz “os homens” faz o mesmo que as pessoas que dizem santas X putas, abrem uma caixa e colocam todo mundo dentro, sem respeito nem consideração pela diversidade.

Ponto 03:

E uma terceira consideração: Igualmente equivocado, eu acho, é tratar de forma condescendente: tadinhos, os homens… afinal, se é pra afirmar a diversidade não se deve esquecer que, neste conjunto, estão, claro, os misóginos, os conservadores, os reprimidos, os, os, os…tantos sub-grupos que só me lembram isso – classificar é uma perda de tempo. Estão todos estes que, sabemos, possuem uma lista mental cuja fôrma não me cabe (não cabe uma biscate). Eu não sirvo pra ele. E daí? Porque isso deveria me preocupar? Ele não serve pra mim, isso sim, importa. A lista que eu tenho (quem nunca?) não inclui: machismo, homofobia, racismo, deixar a unha do dedo mindinho crescer pra limpar o ouvido, andar cinco dias na semana de calça xadrez e por aí vai. Eu não preciso me moldar ao gosto de todos os homens porque, oi?, os homens não tem um gosto único, comum, partilhado. Eles não “preferem as louras”, porque eles é um grupo que não existe. Eu não preciso agradar a todos, mas àquele ou àqueles que escolhi (a bem da verdade, não precisaria agradar nenhum, mas me agrada agradar a quem me agrada). Porque uma biscate deveria se preocupar e lamentar (individualmente, gente, enquanto participante da sociedade, claro, tem que se incomodar e lutar e fazer barulho e tudo o mais) que certos homens que não gostam de mulher-que-bebe-e-trepa-e-ri-alto não gostam dela? Elas gostariam de estar com uma pessoa que tivesse esse tipo de critério? Eu não. Não lamento – individualmente – nenhum dos homens cujo modelo não me cabe. Porque eles não tem lugar em mim (em nenhuma das minhas incríveis e apaixonantes brechas). É assim: escolhendo ser feliz, escandalosamente feliz, fica mais fácil saber e dizer, que nem o Roberto (e a Marisa): você não serve pra mim.

Então, amiga biscate, antes de lamentar os que não estão preparados pra gozar o que uma biscate tem a oferecer, vamos nos dedicar a ver as árvores da floresta, afinal um pé de pau de cada vez (ou dois, se for pra armar a rede) já faz sombra o bastante, é só encostar do lado certo….

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