A cruz do meu peito

Brasileirão da Biscatagem
Vasco, Letícia Fernández

Difícil precisar desde quando sou biscate e desde quando sou vascaína. Desde sempre? Lembro da fotografia de infância, eu só de calcinha…e camiseta da TOV (Torcida Organizada do Vasco).

Mas lá na década de 1980 minha torcida era só televisionada. Até eu me mudar para terras cariocas e me embrenhar pelas ruas estreitas de São Cristóvão. Você jura que se perdeu, insiste em seguir o fluxo dos carros, e de repente ele surge. Imenso. Colossal. O Gigante da Colina. Ou, pelo menos é assim que parece aos olhos de quem ainda lembra de Romário e Bismarck nas revistas Placar de duas décadas atrás.

Lá dentro, o caldeirão – com o perdão do clichê – ferve. A Força Jovem entra, a bateria toca, e torna-se impossível não cantarolar os hinos que você jurava nem saber a letra. E falem do Maracanã, o lendário estádio de todas as lendas, mas é em São Januário que um cruzmaltino se sente em casa (uma pequena provocação de 24 mil lugares: é o único dos quatro grandes times cariocas a ter, de fato, uma casa).

São Janu pode não ser suntuoso como o Maraca, palco de muitas das minhas alegrias (e algumas tristezas) dominicais. Mas lá no estádio do Club de Regatas Vasco da Gama há uma mística inviável de ser repetida em outro lugar: as arquibancadas ficam tão próximas do gramado que você escuta tudo. Xingamentos ao bandeirinha, ao juiz, aos jogadores. E entre eles. E entre nós, nervosos e de unhas roídas, e os onze moços que correm atrás de uma bola para nos fazer felizes. Ali, no Caldeirão, os milagres são possíveis. Somos imbatíveis.

O mesmo não posso dizer dos clássicos no mais emblemático dos estádios (Wembley e Bombonera, nem se atrevam a querer tomar nosso lugar). Perdi as contas das vezes em que cheguei alegre e zoando o time adversário por não poder descer na rampa da Uerj do metrô*, mas voltei cabisbaixa após uma derrota do meu time de coração. Não foi o caso daquele domingo em que Juninho, na época ainda não Fenomenal, fez o único gol contra o mais irritante dos nossos oponentes. Eles, eliminados. Nós, seguindo no campeonato que no final nem vencemos.

Na comemoração eu ainda contive um pouco da minha biscatagi. Evitei abraçar e beijar logo na boca do moço bonito de camisa do Vasco que estava ao meu lado. Não foi daquela vez – ainda. No segundo encontro, lá estava ele de novo vestido a caráter, com a Cruz de Malta estilizada no peito. Eu teria de ser louca se resistisse a um vascaíno com a indumentária perfeita.

Podem dizer que a gente é sempre “vice”. Somos, agora, vice-campeões brasileiros e acabamos de perder o Carioca. Vencemos nos pênaltis o último jogo da Libertadores e iremos enfrentar outro time brasileiro, justamente o campeão do Brasileiro ano passado, nas quartas-de-final. Talvez percamos. Talvez cheguemos bem perto da praia e fiquemos em segundo lugar de novo. Espero que não, é claro.

Mas quem se importa? Continuaremos com São Janu, com Juninho Monumental, com mais de um século de história. Digam que nosso uniforme parece uma simples camiseta branca transpassada por um cinto de segurança de automóvel. Pra você ela é só isso. Pra mim, aquela Cruz de Malta vermelha é a cruz que carrego no meu peito com orgulho.

*Para evitar confusões na chegada ao Maracanã, as torcidas adversárias sempre têm de descer uma estação de metrô antes, a São Cristóvão. Somente os vascaínos descem na Estação Maracanã.

.

Letícia Fernández é vascaína, claro, além de jornalista e blogueira. Jura que se derrete por um moço com a camisa cruzmaltina, mas dizem por aí que ela não resiste aos tricolores. Ela nega. Autora do polêmico Cem Homens, divertida, desbocada, sem papas na língua, e você pode acompanhá-la também pelo twitter @vidadeleticia.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...