Para não envelhecer… Morra!

Já se disse por aqui que uma receita, pra ser bem biscate, deve ser fácil e, de preferência, quente. Assim, para não envelhecer, só há uma receita da qual não se duvida: morra! Já! Mas se não lhe apetece e tem-se uma impressãozinha de que ainda há algo que vale a pena, nem que seja o permanecer, mais do que saber que não há receitas pra não envelhecer, é ter, assim, cá pra si, que se houvesse não seriam desejáveis.

Vive-se um culto ao jovem. Ao novo. Sempre rio quando vejo em restaurantes ou postos de gasolina a faixa: “nova direção”, como se o “nova” tivesse, em si, um valor intrínseco semelhante a “melhor”. O que é válido para os negócios, parece bom para definir as pessoas: se uma pessoa tem muita idade e é legal, gente fina, alegre, bem-humorada, diz-se que “tem a alma jovem” como se a alegria e o bom humor fossem bens específicos da juventude. O corpo deve ser jovem. A mente deve ser jovem. Ainda mais acentuadamente dizem isso à mulher. A mim parece que dizem: recusem a vida, paralisem-se, cristalizem-se em experiências parciais. Não que eu credite um valor negativo à juventude. Acho que é deliciosa. Estar jovem é de um frescor que nem sei dizer. Mas eu escolhi estar jovem e não ser jovem. Já estive criança, assim como adolescente e jovem, estou adulta e espero estar velha. Em todos os momentos, biscate de corpo e mente. Chico Buarque diz: “há mais samba no encontro que na espera”. É assim que a vida me parece mais intensamente divertida: envelhecendo. Eu não esqueço que viver é morrer um dia de cada vez. Gosto do envelhecer que é a vida em mim se fazendo morte ao adiá-la.

Sempre digo que quero ficar velha com jeito de velha. Do meu jeito de velha, que é o único jeito possível pra mim. Cada um só pode viver a sua própria vida e envelhecer do seu próprio jeito. O meu é bem biscate. Fui uma criança biscate, cheia de porquês e esticando a baladeira o quanto dava pra saber até onde se podia ir. Uma brincadeira querida: correr com o velocípede até bater no degrau e virar com brinquedo e tudo. Saber a vida no limite, nem que seja um pequeno risco de ficar com uma falha/cicatriz na sobrancelha: eu tenho. Brincar de pega-pega, esconde-esconde e de todas as brincadeiras em que se testa a si, aos outros, ao mundo. Da adolescência biscate, lembro bem: amores, sonhos, inseguranças, rebeldias, tomar banho nua no quintal no aniversário de quinze anos, só porque era lua cheia. Aprender a beijar de forma científica (tentativa e erro) com todos os amigos antes de namorar. A minha biscatagi me levava a indagar o outro pra saber tanto mais de mim. De que outra forma se reconhece e valoriza a diferença? Na juventude, aquela beleza: querer. Querer ser, querer negar, dizer, sentir, tudo com a intensidade de quem tem a mais absoluta convicção que não há vida depois dos 20 e poucos anos. Tem que ser tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Do querer ao tentar, tornar-se adulta. Assumir: meus erros, medos, saudades, desejos, incertezas…a tudo isso dizer: eu. Ver o corpo tomando a forma, enfim, da vida que se leva. “todo mundo tem o corpo que merece aos 40”. Vou caminhando pro meu. Sem pressa e sem temor. Sentindo os riscos de sorrir virando rugas e a gravidade fazer seu efeito. Ser adulta e biscate é uma delícia: rir de mim mesma. Levar-se à sério demais não me faria bem, tenho a tranquila certeza de quem foi aprendendo que fazer escolhas é reconhecer todas as vidas que não se viveu e ter, por elas, ternura, e não anseio. Pretendo ser uma velha biscate. Ou uma biscate velha. Quero as preocupações e os prazeres de quem envelheceu, de quem viveu, quero mais um pouquinho do que se ganha quando se pensa e sente sobre o que passou. Quero experiência virando história. Espero o jeito – meio cansado, meio saciado – de quem viveu o que tinha pra ser vivido com entrega e verdade. Quero que a mulher que sorri nas fotos de hoje não se reconheça no curioso caminho de rugas de alguns anos adiante e quero ter um rosto enrugado que olhará estas fotos com curiosidade e ternura… como eu pude ser, um dia, assim? Quero envelhecer e sentir dor nas costas e cansar facinho ao andar. Quero fazer sexo e fazer piada com a “camisola do amor”, que não está engomada. Quero procurar alguém pra falar como o nosso tempo era melhor, mais belo e doce, porque enfeitado com saudade e memórias. É que as músicas, os filmes, as piadas, as histórias, como eu, envelhecerão. As que gosto, claro. Quero cozinhar e acolher, chatear com estórias mil vezes contadas. Quero ficar velha amando.

A minha receita-biscate pra envelhecer é permitir-me, aceitar-me e, assim, permitir e aceitar o outro. Não é modelo pra mais ninguém, cada biscate sabe a dor e delícia de ser o que é. Mas é o meu caminhar e eu não esqueço que a estrada se faz é a cada passo. Cada biscate sabe as pontes, os abismos e os vales que percorre. As minhas estradas são uma biscatagi que envelhece. E bem.

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