Bisca Millet

Há alguns anos atrás, quando li “A vida sexual de Catherine M” (“La vie sexuelle de Catherine M.”, no original), autobiografia erótica da crítica de arte francesa Catherine Millet, confesso que fiquei chocado e excitado. Não precisa nem dizer que a publicação do livro foi um escândalo no meio artístico e intelectual francês, pois, imagine, a renomada figura de um dos círculos mais odiados do mundo das artes (a crítica) estava ali, em seu oitavo livro, abrindo o ventre para quem quisesse ver. Best seller imediato, lógico!

Eu fico só imaginando a cara de todos aqueles artistas novinhos, alvos da caneta ferina de Catherine Millet que, talvez tarde demais, descobriram que todos aqueles “va te faire foutre” e “va te faire encouler” dispensados à nossa biscatona foram, na verdade, muito bem recebidos… elogiosos, inclusive. O “mon cul” coletivo deve ter sido impagável! O ahazo daquelas poucas páginas, pelo que li das resenhas à época, serviram para mostrar que o ambiente moderninho da arte francesa do início do novo milênio não era capaz de digerir uma respeitável profissional de meia idade expondo aventuras sexuais que iam da suruba a escatologias ao ar livre em ambientes parnasianos.

É bem possível que essa diva não tenha sido a primeira, mas certamente há um quê de pioneirismo na sua narração. Começando pela completa fusão entre autor e eu-lírico, em uma narrativa em primeira pessoa e sem voltas. Aquele distanciamento que, por vezes, aparece em livros de memórias, aquele sentimento de “não fui eu, foi o meu eu-lírico” não aparece nesse livro. O “La vie” (para os íntimos) é uma prosa sincera, direta, divertida e do tipo do “graças a deus que existe pecado do lado de cima do equador só pra gente fazer mais um”.

Pra mim, o que faz o “La vie” tão incrível e arrrojado é o fato de que, como em toda boa obra literária, o estilo de Catherine nos insere na história e nos induz a compartilhar do ambiente de liberdade e liberalidade sexual que ela experimentou. A ânsia de conhecimento do corpo, da sexualidade e do prazer se transpõe da autora para o livro para o leitor como uma paixão em cadeia e fulminante, que vem da constatação de um pequeno detalhe da relação: que o se percebe em si e no outro é aquilo o que transforma uma relação sexual em algo a mais.

Catherine Millet não parou por aí, recentemente publicou um novo livro de memórias “A outra vida de Catherine M.” (“L’autre vie de Catherine M.”, no original), no qual aborda as contradições da liberação sexual a dois, em particular o ciúme (veja entrevista no vídeo abaixo). Eu ainda não li, mas já tá na pilha de livros que se amontoa na minha cabeceira. Afinal, não é todo dia em que alguém está disposto a pegar esse conjuntinho de preceitozinhos sociais (conservadores e libertários, sim, ambos com seus pré-conceitozinhos) e praticar a modalidade olímpica de arremesso de merda no ventilador, escancarando pra quem quiser a receita do desejeXse liberteXgoze… Dá-lhe, Bisca Millet!

Ou mama, ou volta pra caverna…

Me irrita! Profundamente… Odeio preconceito musical! E não é uma coisa de memes de redes sociais. Me irrita mais porque já tive e agradeço a Jisuis por ter me salvado, mas me perturba o fato de que esse tipo de coisa prejudica a biscatagi. Como? Simplesmente pelo fato de que a música talvez seja o maior motor de difusão cultural de massa e é ela que ajuda, e muito, na liberação sexual, sem a qual nós biscates não teríamos nem o que fazer…

Vou me restringir aos últimos 50 anos e não vou sair do Pop. A primeira regra pra não cair no preconceito musical é lembrar que a nossa querida Transviada, Violetta, e a baluarte do passarinho rebelde, Carmen, infelizmente têm pouca influência nesse processo recente e, em suas épocas (me refiro às estreias), foram vistas como jogos retóricos ou óperas bufas. Eu prefiro falar de algo mais próximo. Eu quero Freddie, eu quero MDNA, eu quero Gaga, eu quero VLSK. Sim, porque é a BCTA deles que tem o poder!

Como já disse, sem jogos retóricos e sem erudições. Essas quatro figuras são arte, são de massa e são responsáveis por uma trajetória de liberalização sexual que está impregnada em suas músicas. E, melhor, incomoda! E, desculpe, só é arte de vanguarda porque incomoda, senão era outra coisa, talvez ainda arte, mas não contribuiria para nenhuma frente biscateira.

A escolha dos quatro também não é por acaso e nem são todas as músicas que me interessam. Pela proximidade dos eventos, eu tinha pensado em escrever algo específico sobre as Prides que estão bombando esse mês, mas ficaria chato e, mesmo, restrito, não pensar das queridas Vadias, no pessoal peladão de bicicleta. Afinal, liberação sexual é algo que atinge as hetero, as guei, as bi, as trans, os homi e as racha, indistintamente. Pode até atingir de forma diferente, mas atinge a todos.

É sim, pois o próprio Freddie diz isso naquela entrevista-maior-vergonha-alheia-do-braseu à Glória Maria que “I Want to Break Free” é uma ode a quem está cansado da rotinha, da repressão da vida cotidiana e que é necessário muitos mais que uma blusinha rosa, uma saia de couro, bigodes e um aspirador de pó para se libertar. God knows! Tem que colocar um colã de fauno depois do meio dia (né não, Nijinsky?) e nadar por cima de pessoas rolando no chão. Não que isso seja algo que você só utilize para dizer à sua Mama que você acaba de matar um homem, mas que o show só continua se você tiver motivos para manter o sorriso no rosto!

E, porque não, dar uma incrementada na entrega ao outro? Sentir-se virgem é sempre uma opção. Claro que sim! E engana-se quem pensa que isso signifique uma ideia de repressão feminina. Nossa Senhora do Like a Virgin, em suas preces, está apenas nos dizendo que, no mistério a vida erótica, cada nova experiência deve ser única. Cada nova entrega, por amor, desejo ou seja lá o que for pode ser uma ótima experiência e, já que resolvemos nos libertar, nós temos a chave, ao tocar de parceiros sexuais com a próxima roupa, vamos esquecer as más experiência, aprender com as boas e transformar as novas em únicas!

Esses dois grandes ícones vêm acompanhados de perto por um pessoal que tá dando o que falar. E é nessa polêmica, nessa confusão que Gaga e Valesca colocam suas Mamas para funcionar. Mama-Monster foi diretíssima, mudou o Pop ao resolver escrever o seu mau romance. Disse o que todos sempre quisemos dizer: “eu quero tudo o que vier de ti, contanto que seja livre”, sim, livre, “gratuito” não funciona nessa tradução! Desculpa quem não gosta, ou quem já cansou, ou sei lá, mas à beira da glória, ela veio pra mostrar que nós podemos nascer e ser como somos, não importa o tamanho da poker face da sociedade. Depois dela, filhos, todas tá procurando um Alejandro ou Alejandra, ou até um Judas para chamar de seu criminoso!

E a nossa Popozuda? O muito amor <3 <3 que a liberação sexual que te dar, que te dar, quer te dar dar-dar-dar-dar-dar-dar? Ao contrário dos outros, ela não nasce no Pop, mas é a coragem que desce o morro pra mostrar que a nossa buceta tem poder. No sentido real e no figurado. Por quê? Porque quanto mais sexualmente repressiva a sociedade, mais alto devemos que “Pega no meu grêlo e mama”, pois enquanto isso chocar os ouvintes é necessário que seja dito! Da mesma forma como não se nega um copo d’água. Sim, já fazia anos que alguém não cantava e difundia tão lindamente os sentimentos e reações somáticas de um encontro de paixão à primeira vista, encharca daqui, pisca de lá, lateja dali…

Eu não sei porque isso causa horror e todos eles, de alguma forma, causaram. Simplesmente por descreverem em sua arte o que nós sentimos e não expomos nesse ambiente de repressão sexual quotidiana. Mas também causaram grandes influências que se espalharam por aí, como os vídeos mostram! Por isso, então, mama, ou volta pra caverna! Porque somos biscates, dependemos e defendemos essa liberdade sexual e vamos continuar exaltando tudo o que nos ajude a difundi-la! Queremos isso e, assim, quem sabe, um dia possamos continuar mais essa conversa com Bizet, com Verdi, com Piaf e massificar todas as formas de biscatagi por aí!

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