A voz solta no papel

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
C.D.A.

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de cantar. Cantar é parte da vida, é trilha dos momentos, é forma de contar a história. Em outro canto, já contei como decorava discos de Chico Buarque e ensinava à família, para fazer parte do nosso repertório de viagens: cantar é também político.
A voz foi algo que fui aprendendo que era um “a mais”: algo de que os outros gostavam, algo que dava pra modular e usar a favor – para seduzir, claro, como não, mas também para (me) acalmar. Como comecei a dar aula muito cedo e era extremamente tímida: usava a técnica de prestar atenção na minha própria voz, que me tranquilizava. Voz-companheira e amiga, a minha.

Mas sempre tive problemas de rouquidão. Ao primeiro excesso de praia, ao menor sereno, à mais branda noitada em boteco… pronto, ficava rouca por dias. Quando não afônica de vez.

A voz: minha fortaleza, minha fragilidade.
Outra dor de garganta também sempre me acompanhou: a dor das palavras não-ditas. Que sempre foram muitas. Como se, ao prender na garganta, eu inconscientemente me machucasse.

Aí que me dei conta de uma coisa curiosa: desde que comecei a escrever regularmente, no Chopinho (que aliás foi presente por uma querida fonoaudióloga, gracias Cacá!), nas redes sociais, aqui mesmo neste Biscate, e agora mais recentemente no Primeira Fonte da Esther e da Fal, minha rouquidão quase sumiu. Como se, ao escrever as palavras que me entalavam, eu tirasse o peso da garganta e a liberasse. Libertar as palavras, libertar a garganta.

Escrever, para aliviar a dor.

Cantar, para deixar a alma mais leve.

E, justamente esta semana, a Luciana-Borboleta me lembrou um livro que foi tão eu, durante tanto tempo: “Les Mots Pour Le Dire”, da Marie Cardinal (o nome em português é: “Palavras Por Dizer”. Minha tradução seria: “Palavras para dizê-lo”. Ou, vá lá, “Palavras para dizer”).

O livro conta a história de uma análise. A análise da autora. Os anos em que ela foi ao consultório de um psicanalista, deitou-se no divã, e desfiou sua história. E como isso fez diferença em sua vida. Mas também em seu corpo. De novo, como se, ao lançar as palavras ao mundo naquele consultório, ela aliviasse seu corpo da própria dor de existir.
Palavras. Como mágica. Como encantamento. Palavras que curam, apenas por serem ditas.

 

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Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

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Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

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Jane Eyre e o Sr.Rochester

Por duas: sobre mulheres e nós

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Dia dessas ela me ligou. E como sempre faz quando nos falamos ao telefone, me disse que me ama muito e que eu sou ela amanhã, multiplicada por duas ou três. Ser como ela, em dobro ainda por cima, significa mais que tudo “sacanagem”.

Ela tem esse dom delicioso de colocar duplo sentido nas coisas. E demonstrar desejo. Que eu imito, como não?! Ela abaixa até o chão na boquinha da garrafa. Já eu, nunca. Mas, ela. Ah, ela consegue. Ela canta em qualquer idioma, porque é boa de prosódia, mesmo que tenha que inventar palavras pra caber na métrica. E quem se importa com a letra quando se sabe o ritmo?! E compõe proibidões, que, olha. Ela compõe proibidões, até em cima de proibidões já feitos.

E cantou no rádio, quase foi famosa, quando preferiu casar. Foi até mesmo pressionada. Que saída tinha ela na época?

E vejo que se posso ser ela multiplicada por duas é porque posso ir mais além, quando ela não pôde. Porque não tive que escolher entre cantar e casar. Nem canto. Mas, se me fosse possível, não haveria escolha. Haveria soma. E, se houvesse, casar não seria a alternativa correta default.

E me conta de dores da vida em comum. E sei que somente sou eu ela em dobro porque calhei de nascer uns anos depois. Quando permanecer não é sempre uma obrigação. Aguentar não é imperioso. Que sair não é desamparo. Não sempre. Não o tempo todo.

E come pimenta malagueta pura enquanto passa roupa e toma cerveja. E dança, riscando o salão. Vai de bolero, vai de forró, a hora que for.

Ah, quem me dera ser nisso como ela. Ainda mais em dobro!

Mas, se ela diz, vou seguindo uma parte dos seus passos. Pensando que essa alegria e gulodice não são ingênuas. Têm amarguras também. E sublimação. E vontades e também frustração. E o que nos parece apenas uma história curiosa das reminiscências da tia divertida, tem tantos sonhos interrompidos pelo meio.

E desejos de voltar atrás, num tempo que a alegria era por si. Ao mesmo tempo, de seguir em frente, quando cantar, casar e dançar até o chão são coisas que mulher pode fazer, afinal.

E ela enche os encontros de humor e riso. E invejas e ciúmes quando diz que eu, euzinha aqui, sou como ela em dobro. E um pouco de aflição também. E no churrasco de família ensina a irmã mais nova a “chupar um pau”.  Diz que é pra agradar o homem. Mas, ela se agrada também. Ela tem isso. O riso que contradiz o discurso. Ela gosta de ensinar. E gosta do resto todo. Porque ela gosta disso tudo. Me disse. “Eu gosto!”

E vou me lembrando que eu sou ela. Em progressão geométrica. E gosto também.

Mas, ela também anda triste. E, às vezes, o riso vacila. Também me disse ao telefone “que levaram a outra banda do colchete”. A banda que a completava. Que se encaixava. Com quem ela formava um todo de amor e cumplicidade e festa. E choro.

De longe, fico pensando se ela se recupera mais dessa. E são tantas. Têm sido tantas! Aquele momento na existência quando passamos a contabilizar perdas e esperar a próxima. De amores. De parentes. De irmãs. O encaixe do colchete, o amor da sua vida, a companheira, a irmã.

Ela repete que me ama ao telefone. Que somos iguais. E, fico ali, pensando se teremos a mesma intensidade no sentir. Assim, em dobro.

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Os idiotas e as famílias

VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100

Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

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Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

“Amores Livres”: escolhas possíveis

Woodstock, 1970

Woodstock, 1970

O GNT começou a passar, esta semana, uma série documental sobre arranjos não-convencionais de relacionamentos, chamada “Amores Livres”, com direção de João Jardim. Mais especificamente, sobre o chamado poliamor: relacionamentos amorosos em que estão envolvidas mais de duas pessoas.

É um sopro de ar fresco na mesmice dessas conversas: quase 50 anos depois de Woodstock e seus eflúvios, parece que o mundo entrou em uma espiral de convencionalismo em que tudo a que se aspira é casar com aliança no dedo.

(Parêntesis necessário: aqui não vai nenhuma crítica à reivindicação justa do movimento LGBT pelo direito ao casamento “de papel passado”: direitos iguais é ponto de partida e condição sine qua non para qualquer conversa.)

Dá certa preguiça o recrudescimento dos casamentos com pompa e circunstância, e até da quase moribunda instituição do noivado. Noivado? Juram? No tempo da minha mãe, tinha uma utilidade clara: noivos podiam sair juntos sem uma irmã ou prima “de vela”, supervisionando o casal. Era um avanço, sem dúvida nenhuma. Mas hoje? Pra que noivado, minha gente? Não consigo nem começar a imaginar. Sério.

E casamento? Gosto de festa, gosto de cerimônias e até choro em casamentos alheios. De verdade. Mas a instituição…. eu preferia que caminhasse para o seu fim. Para que a gente já tivesse avançado (ou retrocedido) para um mundo mais tribal, em que crianças fossem cuidadas pela comunidade e não só pelo núcleo familiar mínimo, em que os idosos também fizessem parte de um todo, em que as relações amorosas estivessem menos permeadas de contratos de propriedade.

É claro que, dentro desse contexto de capitalismo cada vez mais agudo, cada vez mais selvagem, não ia acontecer. Claro. Os usos e costumes não são independentes do contexto geral, e o contexto geral é de individualismo avassalador. Dois já é muito, imagina vários? Imagina a comunidade em Mauá ou em São Miguel do Gostoso?  Imagina o todo-mundo-com-todo-mundo, quando for, quando rolar, e por que não, e talvez quem sabe…? Ah, mas aí não dá. Pra quem vou deixar meu apê, meu carro, minhas aplicações? Quem serão meus herdeiros, quem carregará meu nome, quem lustrará o brasão da família? Muita bagunça isso aí. Vamos namorar, noivar, casar, tudo comme il faut que fica mais organizado. Mais fácil de administrar. Peixoto, o contador, agradece.

Nesse mundo de escolha única, que bom que tem o programa do GNT, mostrando com um olhar generoso, deixando que as pessoas contem sua história, suas alegrias, que tragam à baila seus conflitos e suas dúvidas com essa escolha não-convencional que é de se relacionar a vários.

E como isso incomoda, parece. No primeiro programa, várias vezes se fala disso: da repreensão alheia, das brigas com pais, das gentes que se acham no direito de se meter e de dar palpite onde não foram chamadas. As escolhas alheias perturbam. Mostram possibilidades que tantas vezes seria mais cômodo achar que não existem. Abrem espaço para o novo, para o diferente, para o inesperado. Deixam perguntas sem respostas, vislumbres de caminhos que, por serem menos percorridos, nem por isso deixam de estar aí, à espera. De quem queira. De quem ouse. De quem procure.

http://gnt.globo.com/series/amores-livres/videos/4273134.htm

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

#KDMulheres: questionamento e ocupação

Foto de arquivo da página do "Kd Mulheres?"

Foto de arquivo da página do “Kd Mulheres?”

Vi o “KD Mullheres?” nascer. Estive com Laura Folgueira e Martha Lopes, suas criadoras, na praça da Matriz de Paraty no ano passado, questionando por que tão poucas escritoras participavam das mesas principais da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Em 2014, apenas 15% dos debates na Tenda dos Autores contavam com mulheres. De todas as edições da Flip, apenas uma escritora brasileira foi homenageada até hoje: Clarice Lispector.

E, mais uma vez, estive com elas esse ano fazendo a mesma pergunta. Dessa vez, na Flip Zona (destinada a um público mais jovem), quando Laura e Martha participaram de um debate, junto com a cantora Karina Buhr, sobre a presença da mulher na literatura.

Que lógica é essa que faz com que menos mulheres sejam publicadas, resenhadas e premiadas? Por que o perfil do autor mais publicado no Brasil é homem, branco, que mora nas grandes cidades? Por que isso não nos surpreende? Por que mulheres são mais inseguras pra mostrar seus escritos e se assumirem escritoras? A representatividade importa?

Que lógica é essa que faz com que, ano após ano, menos de 20% das mesas principais de um evento como a Flip sejam ocupadas por mulheres, mesmo quando o próprio evento abre sua programação pra discutir o assunto?

Sigo com a provocação de Martha Lopes martelando na cabeça: quantos livros de homens e quantos de mulheres você tem em sua estante? E fico com a constatação de Laura Folgueira: quanto mais a hierarquia sobe, menos mulheres ocupam postos de comando. Isso em praticamente qualquer indústria. Na do mercado editorial parece não ser diferente.

Portanto, é preciso mais mulheres liderando editoras e curadorias de feiras literárias, é preciso mais mulheres selecionando “livros do ano” em jornais e revistas (ou o que venha depois disso, quando os jornais e revistas deixarem de existir). Quem sabe, assim, as coisas começam a se ajustar.

Falo mais sobre o debate, aqui, no Blogueiras Feministas.

Abaixo, prosa minha publicada no zine do “KD Mulheres?”, que abriu um concurso para autoras e ilustradoras participarem da publicação que elas produziram pra Flip 2015. Foram selecionados 16 contos e poesias e três ilustrações, incluindo essa sereia maravilhosa da capa, gorda e com mamilos! <3

Prado

E tem essa agonia. Esse desejo, essa pulsão. Palavras a eleger. E essa malquerença da escolha. O que é de certeza, o que é passageiro, o que morre. E esse medo (da morte) sem transcendência. E se ninguém gostar, se ninguém quiser, se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Bate como eco. Badalando na cabeça, naquele barulho seco e contínuo. Tum, tum, tum. Se ninguém quiser. Tum, tum, tum. Se ninguém lembrar. A vontade de não ser apenas pó. Falo nem de vaidade. Mentira. Falo, sim. Que tanto transitórias somos. Que são palavras se não plasmadas? Se guardadas, existem? E soltas por aí. Emprestadas. Se em fuga. São nossas? E se me canso antes mesmo de sabê-las. E chupá-las. Com limão e tequila. No ácido da casca. Lá, onde se pode chorar. Lambendo o que escorre pelo punho até o cotovelo. Aff. Quem alcança o cotovelo? E a palavra ali, do cotovelo pingando pro chão. E eu querendo prendê-la na axila. Apelando pra mesóclise, dar-lhe-ando perfumes embaixo do sovaco. Mas, a palavra, essa malina, corre ali pro canto da mesa. ‘Inda me precipito por ela e bato o dedinho na quina da cadeira. E paro no meu desassossego. Merda. Que sei eu sobre dor virar poesia? Se nem de clichê a encontro. A palavra me acena de longe. Debochada. E me mostra a língua. Mal educada. Faz orelha de burro e tatibiteia lá-lá-lá-lá-lá. Desgraçada. Quantas vezes não quis que fossem minhas “Mulher é desdobrável. Eu sou.” Quanto já não quis ser Adélia. Que ainda quero. Acendo vela pra ela, faço reza pra ela. Promessa. Sinal da cruz. Ajoelho nos pés dela. Sã Adélia. Te devoto minha sanha. A palavra volta. Sirirca. Falsa! Mas. Deixa-me usá-la. Numa ênclise. Adélia, minha santinha. O milagre!

Amém.

Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

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